domingo, 13 de maio de 2018

Estou nesta câmara-ardente na sala; BH, 0301002000; Publicado: BH, 0301002013.

Estou nesta câmara-ardente na sala 
Em que se expõe um defunto entre velas; e estou aqui a
Espera do meu primeiro camarada; o primeiro verme
Companheiro de quarto das minhas carnes; meu colega
Que já deve até ter começado a me roer as entranhas;
Não sei por onde começarei a ser devorado, por cada um
Dos indivíduos que exercem a profissão de devorador de 
Defuntos; e me sinto um amásio, sem tratamento adequado,
Como o que é levado entre os militares e não tenho amigos
E nem sou um naco de carne agradável; por isso 
A camaradagem entre mim e os vermes, a convivência não
Poderá ser amigável, como entre as pessoas de mesma
Ocupação: a mim querem devorar; o procedimento
Deles para comigo não será obsequioso, próprio de camaradas;
Fui esta câmara-de-ar, este tubo de borracha que esteve
Junto à camba da roda, dentro do pneu e que recebia o
Ar para enchê-lo; agora são só os vermes que recebem
O ar, o oxigênio, virei gás carbono, virei butano,
Virei ar putrefato com o qual rsepiram; e sei que 
Em vida não fui camaradeiro, como faz o verme com
Facilidade com a carne; não fui comunicativo e
Só tentei ser um poeta, uma certa qualidade de
Prgo, um vaso de louça, antigo, um dos nomes comuns
A várias espécies de pequenos crustáceos, não passei
De um camarão, se por ventura quereis saber; amei
Mulher que arrumava os quartos nos hotéis, amei dama
Que prestava serviços à rainha, ou princesa; não passei[
De camareira, não evolui na camarilha e fiz parte 
Do grupo de pessoas que só vivem m torno de alguém
Poderoso, tais os vermes vivem agora em torno de mim e
Não sabem sobreviver sozinhos; só soube influir em 
Decisões erradas e tentei tirar vantagens de todas as relações
Pessoais: igual a uma sanguessuga, uma ameba;
Mas não vivi de camarote, não vivi de onde os artistas mudam
De roupa e fazem a maquilagem; vivi na pequena câmara
Nos fundos dos sórdidos teatros, nos camarins e nem 
Cheguei a ser artista; um poeta não pode ser artista
Nunca, tem quarto em navio fantasma e em cada um
Dos compartimentos escuros que ficam um ao lado do
Outro, em meia-lua, nas salas de espetáculos medievais;
Onde vivi a camba feudal, o índio vil que perde o caractere
Próprio e acaba por beneficiar aos outros com a própria natureza;
Vende as madeiras, os animais, a flora, os minerais; a mucama,
A escrava jovem escolhida para fazer serviços domésticos, ou
Acompanhar pessoas em viagens, no tempo da escravidão
Negra no Brasil e hoje é entregue para a prostituição, às 
Vezes ainda criança, trocada por qualquer tostão, como
Se troca uma peça curva das rodas dos carros; lá se foi
A canalha capaz de tudo para lucrar, é a globalização
E o neoliberalismo a chegar à aldeia; lá está a
Súcia na taba, a negociar, a vender, a ceder, desde
Os primórdios da colonização; lá está a corja reunida,
Como os madeireiros, os estrangeiros, os grileiros, todos
Ávidos por tesouros e descobertas naturais; os laboratórios
Multinacionais atrás das raízes medicinais e salvadoras,
Levadas em grande quantidade, com a conivência dos que
Vivem pendurados em carros de luxo, como se fossem molhos
De chaves; é triste a quantidade de objetos enfiados goela
Adentro pela cambada que impunemente compra a maioria
Do que restou dos nossos índios; é cambalacho que vem
Desde Cabral, uma troca onde só saímos a perder, uma permuta
Onde nunca levamos vantagem; com o ardi e o logro do europeu,
Olhais o conluio que deu, que até nas Olimpíadas o nosso
Atleta parecia um cambaia, com pernas tortas e do ouro
Levado pelos colonizadores, não trouxeram nenhum; todo o
Conjunto ficou cambaleante, igual ao regime neoliberal,
Que cambaleia no mundo todo; e o cambalear da globalização, o
Caminhar oscilante de um governo ineficiente e impopular;
Sem firmeza e que faz o povo oscilar ainda antes de viver
Com o cambaleio de um salário mínimo e as cambalhotas
Da corrupção; a reviravolta com o dinheiro público, a volta
Que se dá com o corpo sobre si mesmo para ocultar a
Queda nas garras da justiça, do ministério público e dos
Juízes honesto; e o chefe terá que responder um dia
Historicamente, por este cadáver chamado Brasil, estendido
Nesta mesa desta câmara-ardente.  

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