segunda-feira, 31 de agosto de 2026

DO FUNDO DA GROTA, BAITACA:


 Fui criado na campanha

Em rancho de barro e capimPor isso é que eu canto assimPra relembrar meu passadoEu me criei arremendadoDormindo pelos galpãoPerto de um fogo de chãoCom os cabelo enfumaçadoQuando rompe a estrela d'alvaAquento a chaleira já quase no clariá o diaMeu pingo de arreio relincha na estrevariaEnquanto uma saracuraVai cantando empoleirada
Escuto o grito do sorroE lá do piquete relincha o potro tordilhoNa boca da noite me aparece um zorrilhoVem mijar perto de casaPra inticá com a cachorrada
Numa cama de pelegoMe acordo de madrugadaEscuto uma mão peladaAcoando no banhadalEu me criei xucro e bagualHonrando o sistema antigoComendo feijão mexidoCom pouca graxa e sem salQuando rompe a estrela d'alvaAquento a chaleira já quase no clariá o diaMeu pingo de arreio relincha na estrevariaEnquanto uma saracuraVai cantando empoleiradaEscuto o grito do sorroE lá no piquete relincha o potro tordilhoNa boca da noite me aparece um zorrilhoVem mijá perto de casaPra inticá com a guapecada
Reformando um alambradoNa beira de um corredorNo cabo de um socadorCom as mão rodeada de caloNo meu mango eu dou estaloE sigo a minha campereadaE uma perdiz ressabiadaVoa e me espanta o cavaloQuando rompe a estrela D'alvaAquento a chaleira já quase no clariá o diaMeu pingo de arreio relincha na estrevariaEnquanto uma saracuraVai cantando empoleirada
Escuto o grito do sorroE lá no piquete relincha o potro tordilhoNa boca da noite me aparece um zorrilhoVem mijar perto de casaPra inticá com a cachorrada
Lá no santo do capãoO subiar de um nambúNuma trincheira o jacúGrita o sabiá nas pitangaE bem na costa da sangaBerra a vaca e o bezerroNo barulho dos cincerroEu encontro os bois de cangaQuando rompe a estrela d'alvaAquento a chaleira já quase no clariá o diaMeu pingo de arreio relincha na estrevariaEnquanto uma saracuraVai cantando empoleiradaEscuto o grito do sorroE lá no piquete relincha o potro tordilhoNa boca da noite me aparece um zorrilhoVem mijar perto de casaPra inticá com a guapecada

a história é implacável com os que vivem fora da história

a história é implacável dom os que vivem fora da história
ou estão do lado errado da história há homens que fazem
história desde da pré-história da época da pedra lascada o
homem nasceu para fazer história depois que saem da
vida eufórico vim vi venci fiz história não é uma história
real porém é a minha história única particular singular
cheia de altos de baixos mais baixos do que altos muito
nervo sol sal grosso osso carne de pescoço pouco músculo
pouca carne fresca muita gordura desnecessária vou aparar
as arestas as pontas não quero mais sobras restos vou
acertar num grande final com chave de ouro abrir o baú do
tesouro num estouro de dinamite aflorar o veio do ouro na
bateia o diamante incrustado na rocha a pedra preciosa a 
pérola graciosa na ostra oxalá esta seja a minha história
quem souber que conte outra melhor ou de mulher todas já
me deram na bunda pontapé mesmo sem dar papo a zé mané

BH, 0200802026; Publicado: BH, 0310802026

a nação trabalhadora brasileira

a nação trabalhadora brasileira
o povo trabalhador brasileiro a
emancipação do proletariado
da proletariada brasileiros não
queremos a evolução da espécie
se quiséssemos seres da extrema-direita
não teriam ressurgidos dos
pântanos dos mortos dos lodos
do ostracismo apodrecido dos
mofos da religião medieval dos
bolores da política nacional dos
fedores da heresia da burguesia
dos monstros feudais das elites
dos currais dos chiqueiros dos
estercos dos cogumelos envenenados
abraçaríamos a nossa civilidade
demonstraríamos que a nossa
civilização é referência no mundo
civilizado nossa democracia é
consolidada inabalável nossa
dignidade não está à venda nem
tem preço é impagável porém
não nos unimos contra os nossos
inimicíssimos num só grito rouco
trabalhadoras trabalhadores do
brasil unamo-nos à liberdade ao
futuro à pá de cal na cara retardada
da extrema-direita atrasada

BH, 0280802026; Punlicado: BH, 0280802026

OBRA-PRIMA, FORÇA ESTRANHA, CAETANO VELOSO

Eu vi um menino correndo
Eu vi o tempo
Brincando ao redor do caminho daquele menino
Eu pus os meus pés no riacho
E acho que nunca os tirei
O Sol ainda brilha na estrada, e eu nunca passei

Eu vi a mulher preparando
Outra pessoa
O tempo parou pra eu olhar para aquela barriga
A vida é amiga da arte
É a parte que o Sol me ensinou
O Sol que atravessa essa estrada que nunca passou

Por isso uma força me leva a cantar
Por isso essa força estranha
Por isso é que eu canto, não posso parar
Por isso essa voz tamanha

Eu vi muitos cabelos brancos
Na fronte do artista
O tempo não para e, no entanto, ele nunca envelhece
Aquele que conhece o jogo
Do fogo das coisas que são
É o Sol, é o tempo, é a estrada, é o pé e é o chão

Eu vi muitos homens brigando
Ouvi seus gritos
Estive no fundo de cada vontade encoberta
E a coisa mais certa de todas as coisas
Não vale um caminho sob o Sol
E o Sol sobre a estrada, é o Sol sobre a estrada, é o Sol

Por isso uma força me leva a cantar
Por isso essa força estranha
Por isso é que eu canto, não posso parar
Por isso essa voz tamanha

Por isso uma força me leva a cantar
Por isso essa força estranha no ar
Por isso é que eu canto, não posso parar
Por isso essa voz tamanha

Por isso uma força me leva a cantar
Por isso essa força estranha no ar
Por isso é que eu canto, não posso parar
Por isso essa voz tamanha

quem não sabe escolher suas escolhas não é escolhido

quem não sabe escolher suas escolhas não é escolhido
não ser escolhido é melhor ser de morte ferido letal
mortal chorar amargamente escolhi mal não fui bem
escolhido nem acolhido no meio dos escolhidos fui
recolhido a um canto donde perplexo vislumbrava os
sucessos dos sucessivos excessos absorto em meus
pensamentos nenhum virou filosofema aforismo
inimicíssimo de mim me derrotei várias vezes nas
minhas circunstâncias não ultrapassei o legado jogado
fora pela janela fui junto como se fosse um defunto
não tive vontade própria potência de poder fazer o que
todo mundo não faz pois não quero fazer o que todo
 mundo já fez quero fazer o que ninguém nunca fez
para ser aceito se possível também escolhido oba olha
lá o que está a ditar os rumos da solidão dos solitários
parece um joão ninguém alguém sabe o que tem? tem
febre causa dor calafrios dos arrepios espasmos
epilepsia? ainda não sabemos muitas equimoses o rosto
roto a face sangrenta a outra face macilenta a cara ralada
debateu-se no asfalto até adormecer se acordar doutro
lado do lago sem saber como chegou até ali com a
própria elucubração vazia que não se transformou em
nova filosofia entrou em depressão voltou à caverna
nunca mais a ninguém deu boa-tarde boa-noite bom-dia

BH, 0200702026; Publicado: BH, 0260802026

ESTOU CEGO DE VERDADE ESTOU CEGO DE VERDADE, GERALD THOMAS:

 “Estou cego de verdade, estou cego de verdade,

estou cego de verdade, estou cego de verdade.
Quem faria isso comigo? Os de cima? Os de baixo?
Olhe fundo nos meus olhos e diga: aqui um universo?
Que eu não ria. Que eu não ria.
A maquinaria não é propícia.
Os menores erros, eu disse, os menores erros
são percebidos.
Se essa maquinaria fosse perfeita,
não precisaria de perfeição no resto.

Luz. Aqui. Luz. Som. ALI
Se essa maquinaria fosse uma realidade,
não criaria essas palavras que a destroem.

Mas, de que vale? Nossos poetas estão mortos.
Nossa música não tem heroísmo.
Nós não temos corpos, somos fracos, somos rasos.
Nossos casos moribundos. Julgamentos um acaso.
Nossa obra, a obra do acaso total.

Clamo. Que me acordem se eu estiver dormindo.

Concordo!

Minha angústia, meu espírito.
Minha angústia, meu espírito.

Convoco! Uma nova geração de criadores.
Que se afunilem e se intoxiquem,
mas ouçam os lamentos das cidades.
Que se estrangulem, mas achem
a geometria de um parangolé brasileiro.
Que chova sobre nossa poesia!

aproveito que estou a sós roubo um tempo

aproveito que estou a sós roubo um tempo
um espaço sideral um cósmico vento sou
um péssimo ladrão roubo uma letra de
fogo solar da última dimensão uma palavra
de material fundido na primeira explosão
do caos até um pingo da lágrima do
universo que chora ao perder um filho
um brilho não volto dou um passo atrás
doutro doutor não sou nem sócrates sabia
o que era o que conhecia tinha um demônio
tenho uma pinça uma pipeta tenho um
epiteto novo para um velho epitáfio aonde
anda o que traço sem régua sem compasso?
sou só arquiteto não tenho um tento um
evento de engenharia uma olaria um moinho
uma destilaria de alquimia ou engenho de
gênio picareta enxada alavanca qualquer
ferramenta me deram uma caneta melhor
uma esferográfica uma esfera que escreve o
que mais quero? nada me basta essa roda
que gira giro o mundo me basta de qualquer
moda sou antiquado fora do quadro dentro da
pré-história tenho uma pedra lascada na cabeça
que mais quero ter? mais nada me basta ter o
que todo mundo não tem só quero ter o que
ninguém tem só quero ser o que ninguém é
um titã mutante quando pensam que estou
deitado estou de pé para o que der ou vier

BH, 0170802026; Publicado: BH, 0250802026

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

A CRUZ DA ESTRADA, CASTRO ALVES

Caminheiro que passas pela estrada,
Seguindo pelo rumo do sertão,
Quando vires a cruz abandonada,
Deixa-a em paz dormir na solidão.

Que vale o ramo do alecrim cheiroso
Que lhe atiras nos braços ao passar?
Vais espantar o bando buliçoso
Das borboletas, que lá vão pousar.

É de um escravo humilde sepultura,
Foi-lhe a vida o velar de insônia atroz.
Deixa-o dormir no leito de verdura,
Que o Senhor dentre as selvas lhe compôs.

Não precisa de ti. O gaturamo
Geme, por ele, à tarde, no sertão.
E a juriti, do taquaral no ramo,
Povoa, soluçando, a solidão.

Dentre os braços da cruz, a parasita,
Num abraço de flores, se prendeu.
Chora orvalhos a grama, que palpita;
Lhe acende o vaga-lume o facho seu.

Quando, à noite, o silêncio habita as matas,
A sepultura fala a sós com Deus.
Prende-se a voz na boca das cascatas,
E as asas de ouro aos astros lá nos céus.

Caminheiro! do escravo desgraçado
O sono agora mesmo começou!
Não lhe toques no leito de noivado,
Há pouco a liberdade o desposou.


se fosse sangue bom chegava à conclusão

se fosse sangue bom chegava à conclusão
de que sou um sangue bom mano irmão
mas não não chego à conclusão só
confusão aflição colisão afinal não sei o
que sou no fim de mim ai de mim
malgrado meu não passarei dum sancho
pança um panzá ou até um chimpanzé
que não sabe o que quer quem sabe? só
conflito índio sem apito ninguém ouve o
grito de krenak ailton pai da terra mãe pai
filho gaia gala ciência até perdemos a
paciência krenak só não fica rouco pois a
voz dele é eco da floresta da mata do rio de
tudo da natureza ailton aí ai estou por aqui
com quem não está contigo quero ouvir
teus gritos me acordar não quero mais a
continuar a dormir com a natureza a arder
quero arder também pela natureza que às
vezes que nem a mereço se tão sangue mau
que sou estúpido que sou grita aqui no meu
ouvido bem alto quero escutar rompa meus
tímpanos que não servem para escutar a voz
das coisas que falam por tua voz porém
preciso escutar o que as coisas têm a dizer delas
dependem a minha única esperança de salvação

BH, 0170802026; Publicado: BH, 0240802026

sábado, 22 de agosto de 2026

quem ainda não imortalizei levanta a mão se apresenta

quem ainda não imortalizei levanta a mão se apresenta
quero te imortalizar dar uma eternidade de presente
uma posteridade agora quem não quiser que se cale para
sempre não tenho muita coisa para dar além disso pois
só dou o que me faz com que fique com mais nunca dou o
que me faz sentir ficar com menos toma logo um
infinito na cara aí uma constelação de lambuja
uma galáxia de gorjeta um aglomerado de estrelas de
recompensa fica com o troco esse quasar sabe aquele
cometa que vai lá? é teu acabei de te dar só o que te aumenta
te dou aí então esse universo sagração se quiser mais
me diga antes de tomar posse dessa expansão
esse cinturão de kuiper para amarrar tuas calças esses
suspensórios de alças do espaço esses acessórios
dimensionais tudo mais te darei aí poderei me sentir
um dado de diamante facetado quando o universo foi
projetado virei um sol que atraiu todos os girassóis
quem tem olhos não pode olhar para mim a olhos nus
sou um astro homo pinealens ecce homo só sou enxergado
pela glândula pineal a terceira visão desenvolvida
em poucos extraterrestres  que transitam nesta vida

BH, 0170802026; Publicado: BH, 0220802026

tudo dorme no fundo da gaveta do tempo infinito

tudo dorme no fundo da gaveta do tempo infinito
a gaveta não tem fundo não tem grito é uma
garganta cortada o tempo passa como o vento
nem olha para a trás quando acordamos não
sonhamos pensávamos que os sonhos não
envelheciam mas estamos envelhecidos
esquecidos nos fundos das gavetas das cômodas
velhas dos quartos escuros onde moram os gatos
pretos nos esgotos a inferno aberto que o céu já
se fechou para todos nós para todo mundo as
almas que subiram de elevador caíram sem
paraquedas nos asfaltos quentes das autoestradas
a mais de 300 km por hora pesadelos atrás de
pesadelos não despertamos do sofrimento ainda
dormimos desesperados quem nos livrará dos
arados? das correntes? dos dentes afiados das
feras? dos tridentes? dos ferrões? dos grilhões? a
pré-história ainda nos mostra que não estamos do
lado certo da história fazemos tudo de errado para
não entrarmos na história quando entramos é como
se tivéssemos saído tragicamente para não
resolvermos nada para melhorarmos o mundo
nem a nós mesmos só nos pioramos só não fazemos
questões de evoluirmos  de não querermos a evolução
da espécie ou da espécime algumas quando abrirmos
os olhos os céus já não estarão abertos para nós
infinitamente não veremos mais este azul anil que
poderia alvejar nossas almas pequenas tão encardidas

BH, 0160802026; Publicado: BH, 0210802026

já comi em gamela feijão com arroz com farinha

já comi em gamela feijão com arroz com farinha
tudo amassado com a mão dela que fazia um
capitão para cada menino para cada menina
sentados no chão do terreiro ou do quintal em
frente à porta da cozinha rodeados de galos de
galinhas ciscos gravetos cavacos farrapos de
panos velhos vassouras restos de cuspes pretos
de fumos de rolo mascados escarros bacias
pilões penicos enferrujados talhas atulhadas
jarros rachados vasos quebrados cacos de vidros
minha avó não tinha nada novo limpo asseado
nenhum dente na boca só o sorriso largo a
memória que falava de cor várias histórias as
lembranças das lambanças dos meus tempos de
criança as recordações das canções sem
acompanhamentos de violões mas preces rezas
orações curavam sezões quebrantos espinhelas
caídas caxumbas erisipelas desentupia goelas
narizes encatarrados tratava as putas da zona da
francisco sá só bebia cachaça até se deitar na
calçada com um travesseiro debaixo da cabeça
colocado pelo trabalhador do bar o que deixava
mãe muito invocada quando ia lá buscar comigo
com meu irmão a mãe sem noção minha avó às
vezes perdia a razão que já não tinha me tirava da
sala de aula dia de prova para ensinar meu coração

BH, 0170702026; Publicado: BH, 0200802026

só sei o que sei porque não sei de nada pois se soubesse

só sei o que sei porque não sei de nada pois se soubesse
dalguma coisa ou se me perguntassem dalgo não saberia
de nada como nunca soube nenhuma resposta nenhuma
solução nenhuma resolução nenhuma revolução nem
nenhuma evolução tem gente que sabe tudo de tudo de
todos sabe demais até morre de tanto saber penso que só
estou vivo ainda (se realmente estiver vivo pois ainda
tenho minhas dúvidas) justamente por ser ao contrário
dessa gente nunca procurei saber de nada também saber
ou não saber morre-se do mesmo jeito ou melhor ou pior
não sei de nada sei que nada sei todo mundo já falou tudo
a respeito de tudo de todo mundo procuro alguma coisa
para falar também nem preciso todos falam tudo por mim
até o que não devo falar por não querer falar por me calar
falam por mim como se fosse com a minha voz teimo não
falo nada és surdo? és mudo? pois não falas? não sou
surdo não sou mudo não sei é o que falar por isso me calo
com um calo na língua uma íngua nas cordas vocais uma
pedra no pensamento nem sou galo para cantar deixo quem
sabe falar falar deixo que sabe cantar cantar como não sei
dessas coisas nenhumas viro estátua de sal de barro de pau
oco não estátua imortal pensador de rodin aí também é
querer muito de mim querer que seja uma estátua viva
adorada por um monte de  mortos? um ser de manjedoura
um ser de estábulo não sei porque não sei nem quero saber

BH, 0170702026; Publicado: BH, 0190802026

queres viver? não nunca quero a realidade a verdade

queres viver? não nunca quero a realidade a verdade
quero de que vale a vida sem a realidade? sem a
verdade? então nunca terá nada que não tenha que
importa-me ter sem ser? todo mundo tem tudo o
tempo todo quem tem a realidade? quem tem a
verdade? para todo mundo ter tudo o tempo todo
tem que viver fora da realidade tem que viver fora
da verdade mentir todo dia respirar falsidade
enganar ao próximo ao enganar a si mesmo viver é
assim quem é mais vivo mais finório mais esperto
vive melhor só se for aos olhos dos cegos doutros
deficientes visuais dos indiferentes que matam a
realidade escondem a verdade fingem que vivem
enquanto já estão nos braços da morte
embalsamados perfumados envoltos em lençóis
untados com espermacetes silicone têm mais
atenções enquanto enriquecem os mais ricos geram
riquezas alheias ao custo do próprio sangue do suor
da pele do sal do corpo da energia vital passam a vida
em estado letal sem ninguém perguntar se querem
viver pois têm medo de viver perder o que não têm
têm medo de morrer pois sabem que são vazios dentro
dum caixão vazio quando vão mortos na procissão dos
mortos que acompanham o próprio enterro dos mortos

BH, 0150702026; Publicado: BH, 0180802026

domingo, 16 de agosto de 2026

quem quer saber de quem se ninguém quer saber de ninguém

quem quer saber de quem se ninguém quer saber de ninguém
nem quem é alguém quer saber de quem é alguém todos
queremos manter distâncias de todos de tudo o mundo é
assim deveria ser um bom lugar para se compartilhar para se
viver preservar evoluir porém juntam-se todos que são
alguém fazem do mundo um lugar de ninguém lá se vai o
planeta virar terra plana montanhas vêm abaixo dunas
milenares evaporam-se dum dia para outro do nada florestas
sagradas matas virgens defloradas desfolhadas jardins
pulverizados o mar é arrasado o oceano é incendiado o céu
devastado o pobre coitado do ninguém vai cedo para o além
veio morto do aquém é veio morto de mina aqui segue morto
sem vintém também pudera colaborou com a destruição do
pouco que agora não tem para somar ao muito de quem tem
muito no final ficou com tudo quem não tem pensava que tinha
alguma coisa ficou sem nada bateu palmas deu glórias deu
aleluias alvíssaras recebeu na cara um adeus não teve nem onde
enfiar a cara enfiou no lixo pensou que ia enfiar no luxo agora
uma enorme quantidade de verme o devora num banquete de
butim de festim a alma sebosa mendiga não me diga fazer o quê?

BH, 0210702026; Publicao: BH, 0160802026

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

que procuras aí nesse monte de lixo restos de consumo

que procuras aí nesse monte de lixo restos de consumo
despojos orgânicos? procuro a realidade procuro a
verdade não as encontrarás aí no meio dessas
imundícies então onde as encontrarei? nos castelos?
nas mansões? nos palácios? na sociedade? no estado?
justamente nos antros geradores de falsidades de
mentiras de ilusões? logo no meio onde ninguém dá
uma realidade/ logo no meio onde ninguém dá uma
verdade? não acredito que as encontrarei na realidade
virtual na inteligência artificial? por isso as procuro no
lixo não no luxo não no mercado xepeiro xaropeiro se
sabes as respostas das minhas aflições dos meus
conflitos das minhas reflexões dê-me uma verdade
dê-me uma realidade uma única sequer sairei desta
montanha de entulhos sairei deste monte de resíduos
gerados por indivíduos enganados pelo sistema que não
botaram abaixo agora pagam de patos de massa de
manobra de gado controlado de boiada dominada que
perdeu a disparada então continuarei aqui diógenes ou
um prisioneiro da caverna de platão sem a luz de cícero
a razão de kant sem a mão que embala meu coração que
está vazio à realidade está vazio à verdade o mundo está
cheio de mentiras como se nada o abalasse rumo ao caos

BH, 0150702026; Publicado: BH, 0140802026

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

nunca encontrarei a realidade não nunca

nunca encontrarei a realidade não nunca
encontrarei a verdade fato consumado
fardo de enfadado total cansaço de
forma de enforma o conteúdo do qual
estou possesso num processo onde
nunca encontrarei uma pedra para
repousar a cabeça um galho de árvore
de carvalho de oliveira para pousar
num ramo de esperança ou posar diante
duma escada de anjos que leve aos céus
que eleve ao firmamento nunca
encontrarei a saída do vulcão volcano
entrei pelo cano estarei sempre no meio
dos cães das hienas carniceiras entulhos
despojos não sairei do lodo da falsidade
nem da lama da mentira do pântano da
enganação parece repetição mas não é
pois há os que se sentem satisfeitos com
os próprios defeitos com os aleijões
internos vivem um inferno mesmo com o 
dinheiro com as drogas seus ternos de
linho de linha que pensam trazer um
pouco de felicidade mas e a realidade e a
coragem? não quero uma esmola apesar
de ser mendigo sem terra sem teto sem
trabalho dê-me um atalho quero chegar à
luz não ser cego pelo brilho dê-me uma
realidade pelo amor de deus dê-me uma
verdade em nome de jesus cristo quero
sair desse lixo expelir o micróbio que
come meu cérebro o verme que pica meu
intestino a droga que seca meu organismo
meu coração é uma horta se não for regado
vai para o rego comum uma vala fétida um
horrível bodum de aprisco insalubre venal

BH, 0150702026; Publicado: BH, 0130802026

muita gente diz que não pede perdão

muita gente diz que não  pede perdão
quando espalha a irrealidade muita
gente diz que não pede perdão quando
não fala a verdade corre só atrás do
dinheiro corre só atrás da droga vaga
pelo mundo inteiro mas não traz um
cheiro de continente de terra de
planeta de paisagem traz só a
falsidade traz só a mentira não é isso
que quero pois quero é pedir perdão
por não conhecer a realidade quero é
pedir perdão por não conhecer a
verdade então peço perdão a quem
puder me perdoar peço desculpas
daqui a algum tempo não existirei
mais se não pedir agora não terei para
pedir depois então perdão meu irmão
perdão minha irmã perdão meus pais
meu país se pensar que devo pedir
perdão peço está pedido se vem ou não
não sei porém pedi vamos ver se alivio
o coração desopilo o fígado desincho
as pernas curo a mente o mundo é
muito constrangimento para quem é
gente não podemos fingir que não
somos gente ser gente pode vir a ser a
pior coisa que podemos ser gente pois
ser gente não é para qualquer um é
perigoso é complicado é duvidoso ser
gente não abraçar a realidade não
acordar para a verdade sem sonhar só
continuar no pesadelo no desespero
não querer ser liberto colocar a cabeça
no cesto da guilhotina o pescoço no
cepo mandar descer a lâmina da menina

BH, 0150702026; Publicado: BH, 0120802026

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

se tivesse a faculdade a facilidade de acordar de manhã cedinho

se tivesse a faculdade a facilidade de acordar de manhã cedinho
como um passarinho acorda no ninho um artesão um profissional
ás nalguma profissão um artífice nalgum artifício de mão de alma
como alguém de espírito como fluem as coisas na fenomenologia
na genealogia na genialidade no universo alegremente de boa
vontade como a dum bem-aventurado também discursar o meu
sermão da montanha a minha parábola do filho pródigo ou dos
talentos ou da viuvinha pobre da única moedinha ou salmodiar um
salmo 23 ou outro salmo qualquer ou igual salomão imortalizar
meus provérbios cantares mas só me encho de lamentações bem
piores do que as de jeremias só me encho de pragas maldições do
egito ou das profecias das bestas apocalípticas não fui dotado de
pegar uma letra de fogo fazer um milagre de pegar uma palavra
escrever numa pedra um mandamento fazer uma revolução uma
revelação impactantes que dissessem ao mundo não nunca mais te
digo sim só não cansei de dizer sim cansei do mundo cansei de
mim sem pomar sem jardim infrutífero um desflorido outro resta
pouco tempo de mim não fiz o que deveria ter sido feito feitiço
macumba encomenda de malungo agora só arrependimentos carrego
dentro do peito sucata de carcaça vazia arcabouço de calabouço de
vácuo arredo-me com um vade retro saio da frente vou para atrás
deixo o raio de sol romper o horizonte ouço o canto do rouxinol

BH, 0150702026; Publicado: BH, 0100802026

tua sina foi ao contrário do normal viver deixar morrer

tua sina foi ao contrário do normal viver deixar morrer
pois tiveste de morrer para outros viventes viver porém
continuo morto não soube evitar tua morte a carrego nas
costas como se a carregasse num caixão sou o teu próprio
ataúde esquife sepultura ando ainda como uma múmia
num sarcófago em sacrilégio sinto vergonha da violação
a colisão que foi para mim o conflito aflito a confusão
físico mental que sofri penso que ainda sofro o teu calvário
o teu sacrifício em benefício dum barrabás igual a mim
teu judas sacerdote teu padre omisso poncio pilatus de
mãos sujas até hoje não lavei as mãos sujas da tua morte
do teu cadáver que não foi embalsamado nem banhado
com as minhas profanas lágrimas não te deixarei em
paz como se não tivesses existido não te deixarei
descansar nunca continuarás para mim como um
pêndulo eterno o badalo dum sino infinito como fazias
em tua cama no teu quarto escuro em redemoinhos
serás sempre o meu furacão me sacudirás para não me
deixar dormir lembras? erás o que me arrastavas atrás
de ti agora sou o que ti arrasto atrás de mim até ao meu fim

BH, 090802026; Publicado: BH, 090802026

POESIA SUBURBANA:

POESIA SUBURBANA:
UMA RUA VAZIA ESTÁ SEMPRE CHEIA DE POESIA, CÉU AZUL, BH/MG.




 

não guardo meus poemas dentro da minha alma simplória

não guardo meus poemas dentro da minha alma simplória
pequena não guardo minhas poesias dentro do meu
guarda-roupa para me dar azia por mais traças picumãs
que sejam dou-lhes à luz tirada do limbo do limo do
fogo-fátuo da placenta tiro-as tirolesas ilesas indenes do
fungo do mofo doa a quem doer em mim no alheio no
semelhante não privo minhas elegias da escuridão do
mundo minhas odes às tristezas da vida não consigo
vencer o trapo presidente dos usa porém abomino os
yankees desprezo-os não dependem de mi sei muito bem
disso meu filho chorava quando ouvia evanescence queen
choro quando ouço 14 bis não quero saber porque os usa
também me fazem chorar a história é vergonhosa os
yankees deveriam se envergonhar a minha história também
deve envergonhar muita gente não me faz crescer não me
faz nascer não me faz ser muito pelo contrário me mata
todo dia de manhã de tarde de noite sempre de tristeza
nunca de alegria nunca de contentamento só de melancolia
aí sigo em frente aparentemente como se estivesse tudo
bem como se o mundo fosse um lugar livre para livres
irmãos sem guerras só com paz amor perdão acordo em
pesadelo não é sonho os usa promovem nova invasõ

BH, 0150702026; Publicado: BH, 070802026

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

minha cabeça vomitou um pensamento morto

minha cabeça vomitou um pensamento morto
quente não era pensamento de entidade nem
de gente era pensamento de cérebro doente
ficou ali no asfalto latente o feto do aborto
absorto abstrato passei olhei meu
pensamento morto condenado sem ser
condecorado acorrentado igual cérbero a
cuidar do portal do inferno argos o cão de
ulisses latiu para mim o cão vira-latas que
acompanhava caim em suas andanças pelo
mundo talvez um mendigo imundo coberto de
andrajos cadê teus trapos? não respondas
perguntas com perguntas respondo do jeito que
quiser és um atrevido abusado ousado por isso
marquei-te com ferro enferrujado teu castigo é
não morrer querias a alma do meu irmão a dei-te
agora me pagas assim não te-as-dou mais
outras almas nem a minha nem doutros
amaldiçoados iguais a mim não quero almas
pequenas que não valem a pena sei disso fiz
feitiço encomenda em encruzilhada quem tem
alma que valha a pena nem lembra de ti nem de
mim só as almas sebentas famintas famélicas
que esperam de bocas abertas que caiam manás
acepipes mel leite de rochas bênçãos dos céus as
grandes almas nem agradecem pelo ar que
respiram pela água de beber pela comida de
comer pela vida de viver decidem a própria
morte numa eutanásia na roleta russa da sorte

BH, 0140702026; Publicado: BH, 060602026

terça-feira, 4 de agosto de 2026

OLHA O GOLPE:

O tenente-brigadeiro Carlos Baptista Junior, ex-comandante da Aeronáutica no governo Jair Bolsonaro, decidiu contar, em livro, o que viveu por dentro de um dos períodos mais delicados da história recente do País. Comandante da Força Aérea Brasileira entre abril de 2021 e janeiro de 2023, ele enfrentou uma etapa de forte tensão e uma atmosfera hostil protagonizada por Bolsonaro e a cúpula das Forças Armadas - um período em que a manutenção da ordem democrática dependeu, em parte, de decisões tomadas nos quartéis. O testemunho do oficial foi crucial nos autos da ação penal 2668, no Supremo Tribunal Federal, que impôs ao ex-presidente a pena de 27 anos e três meses de reclusão. O julgamento foi concluído em setembro do ano passado. Baptista Junior indicou com detalhes três momentos em que a tentativa de g0lpe acabou frustrada. Ele confirmou encontros no Palácio da Alvorada e no Ministério da Defesa em que se discutiram medidas de exceção e os termos de uma minuta golp1sta - da qual se recusou a receber cópia. Contou que o general Freire Gomes, então comandante do Exército, alertou Bolsonaro de que ele seria pr3so se insistisse no g0lpe para impedir a posse de Lula. ✍🏻 Estadão Conteúdo . 📸 Roque de Sá/Agência Senado. O documento acima, trazido pelo colega Pêcego diz o qto estivemos próximos de um golpe de estado, depois de termos passado por uma ditadura (1964/1985), ainda em nossa geração.Pra nossa sorte, o sr. comandante da  Aeronáutica, o tenente-brigadeiro Carlos Batista Júnior, não aderiu. O que nos assusta, hoje, é que possa ocorrer nova tentativa, e que não tenhamos outros comandantes, que venham a se opor.Essa é a principal razão, que nos move: a democracia, o estado democrático de direito e o direito de liberdade não nos  sejam subtraídos, com essas próximas eleição.

enfiais logo o prêmio nobel da paz no rabo do donald trapo

enfiais logo o prêmio nobel da paz do donald trapo
no rabo do donald trapo para ver se o donald trapo
deixa o mundo em paz donald trapo quer o prêmio
nobel da paz para conseguir isso vai infernizar o
mundo se não enfiardes o prêmio nobel da paz no
rabo do donald trapo o mundo não terá paz então
comitê norueguês do nobel fundação nobel enfiais
logo duma vez por todas esse prêmio nobel da paz
no fiofó do yankee que preside os usa donald trapo
aí para de cagar no mundo esse imundo louco que
para acabar com o mundo é capaz de tudo até me
parece que não há quem barrá-lo continuará a fazer
barrelas de touro enfurecido borradas de vaca
enlouquecida em arenas ensanguentadas do seu
toureiro experiente benjamin netanyahu para
ferroá-lo para pôr fim às touradas às borradas às
barrelas precisamos de paz para o fim das nossas
vidas crianças precisam ser felizes aqui no mundo
na terra do planeta natural sem o sangue derramado
basta de sangue coagulado só esses vampiros com 
seus aliados são sedentos insaciáveis pelo sangue de
inocentes são sádicos psicopatas sociopatas
camisas-de-força nessas brutas antas que acabem
com o que resta de vida no mundo desabitado de amor

BH, 0100702026; Publicado: BH, 040802026

não gosto do que escrevo depois que escrevo

não gosto do que escrevo depois que escrevo
enquanto está aqui mosto dentro de mim morto
o que escrevo morto parece-me até aceitável
depois que vem à luz não é como um filho não
é como uma cria rejeito a criatura não a aceito
como uma mãe que pare depois abandona o
rebento sou desse jeito nunca vou parir do jeito
que quero parir paris nem vou para guarapari
detesto siri não tenho motivos sou mais de
chorar procuro sempre motivos penso que
talvez seja porque jesus chamou-me de morto
falou que sou o que não sabia o que falava ou
o que fazia até pediu ao pai que me perdoasse
porém fiz tanta merda que o pai nem deu bolas
para mim empurrou-me para o concorrente que
veio todo feliz mas quebrou a cara também não
gosto de gente feliz quem pode ser feliz num
mundo igual a este? os micróbios as amebas os
vermes os germes todos os invertebrados
anelídeos unicelulares os vírus os bacilos que
são os verdadeiros felizes felizardos o resto
falsidade hipocrisia falta de realidade mentira
ausência da verdade não gosto do que escrevo
depois que escrevo dum morto tudo já nasce
morto que os outros mortos então enterrem-me

BH, 0100702026; Publicado: BH, 040802026

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

sem pensar escrever alguma coisa sem pensar

sem pensar escrever alguma coisa sem pensar
nem para fazer alguém pensar se for pensar
para escrever ainda ter que fazer alguém pensar
para entender para interpretar raciocinar aí
complica empaca igual burro na estrada igual
jegue teimoso jumento nervoso cavalo
manhoso nem pensar se tiver de pensar estraga
amarrota para quê? pensar? não penso existo
sim penso não existo tenho dúvidas sou
incertezas sem ideias pensar? nem pensar não
tira ninguém do lugar pelo contrário atola o tolo
que pensa na lama no lodo cai com um rodo de
capoeira um martelo no cerebelo dum macaco
um rabo duma arraia bem dado calca o
calcanhar no cacaio põe o besta num balaio da
besta o prego a nadar em rio fundo de pensar
morreu um burro dizia meu avô que sabia dizer
muitas coisas sim senhor acredito não quero
saber de pensar cansativo exaustivo invasivo
degenerativo agressivo abrasivo descartes
descarta aí o pensamento pessoa não aguento
o tormento me obrigam a pensar sem
sentimento sem sentido se todo sentido é
morrer morro logo chamo à atenção sobre mim
meu cadáver sem dilema minha vida sem
poesia minha existência sem poema não quero
não chama o carrasco aí manda descer a mão

BH, 0100702026; Publicado: BH, 030802026

RAYMOND QUENEAU: POEMA À POSTERIDADE:

"Esta noite, 
e se eu escrevesse um poema 
para a posteridade?
Droga!
Que grande ideia.
Me sinto confiante.
Lá vou eu!
E, para a posteridade, eu digo:
Merda!
Merda de novo!
Merda 3 vezes!
Sem dúvida, 
enganei a posteridade, 
que esperava seu poema.
Então, acabou."