num momento de aflição
a rua está vazia
a avenida perdida
a cidade fantasma
rente aos muros
as sombras esvanecem-se
não se ouve um assobio de ave
ou um pio dum piado
ou um cicio de serpente
ou um sibilo de víbora
ou um chacoalhar de cascavel
ninguém se apresenta no deserto
nenhuma miragem no oásis
o que resta lamenta
ou chora melancolia
ou implora em preces
não se diz a palavra chave
ou a palavra mágica
ou a senha que
num golpe de lucidez
destravou o universo
organizou o caos no organismo
perfilou nos estados da matéria
a esperança de unificar os átomos
acelerar as partículas das moléculas
numa geração de energia nunca vista
nem no sol que de milênios em milênios
preserva a vida onde a morte impera
espera aí parece que agora um ser
foi capaz de dizer a palavra reveladora
a conjectura escancarou a lucidez
as soluções engoliram os mistérios
espatifaram os enigmas
gravou-se no paredão com o fogo do núcleo
o que é o universo para quem
pode criar um universo?
as palavras invencíveis
invulneráveis continuam lá
para quem
quiser ler
ou gravar outra inscrição com fogo
na face
da montanha de diamante
nunca mais se esperou de alguém
alguma
coisa para se ouvir
pois todas as coisas estão
aí ditas
com suas mensagens infinitas
BH, 01601002022; Publicado: BH, 03001202022