quinta-feira, 22 de outubro de 2026

abençoados sejam in memoriam os que partiram

abençoados sejam in memoriam os que partiram
da porta da vagem sem volta donde veio o meu
avô donato donde veio a minha avó maria donde
vim vi venci um dia a fazer história que nunca
será contada abençoados sejam in memoriam os
meus ancestrais antepassados antecedentes
fizeram de mim um dia uma espécie de gente
uma espécime em evolução que hoje resiste ao
tempo em resiliência com experiência paciência
ciência toda a sapiência que herdei desses reis
dessas rainhas desses príncipes dessas princesas
das veias combalidas da áfrica dos rincões das
dunas das areias do saara ds savanas das estepes
dos porões dos navios negreiros das pedras dos
cais onde desembarcaram no mundo inteiro
somos donos do mundo sem nenhum dinheiro
tomamos posse com o nosso suor sangue cheiros
temperos abençoados sejamos nós nossos
descendentes herdeiros o testamento verdadeiro

BH, 0180902026; Publicado: BH, 02201002026

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

quando pego a pena esqueço da vida

quando pego a pena esqueço da vida
penso só numa obra-prima para
curar as minhas feridas não importa
o que deixo nas linhas do caderno
são linhas paralelas do infinito são
passarelas do meu lado interno saio
do meu inferno entro no meu céu
tiro o sal do corpo encho a boca de
mel saio do inverno crio meu
próprio sol faço um rol de obras de
arte sou um artista das belas artes
que sejam plásticas óleo sobre tela
esculturas o que o destino me
prevenir carrancas do meu avô
cabeças da ilha de páscoa rabiscos
rústicos rupestres de paredes de
cavernas não importa a plataforma
a falésia a pradaria o abismo aonde
a frase for vou em romaria
procissão desfile o que a arte ditar
de qualquer maneira na bacia na
peneira na gamela na janelo onde
houver um pôr de sol um vento um
rouxinol estarei ali alien em arrebol

BH, 0180902026; Publicado: BH, 02101002026

terça-feira, 20 de outubro de 2026

FELA KUTI:


 

não senhor ainda não estou satisfeito senhor

não senhor ainda não estou satisfeito senhor
por que não estás satisfeito? doutor não sou
psiquiatra não sou psicólogo não posso
responder talvez seja porque esteja tarde
demais para me satisfazer burro velho
demora ficar satisfeito bode bogodô com
bodum não é qualquer coisa que satisfaz
não pareces até um crítico cinematográfico
ou doutras artes sou apenas um pedro
malasartes um saci-pererê um negrinho do
pastoreio um menino carvoeiro ou um
garoto palestino que joga pedras contra um
poderoso tanque de israhell mas tem a pele
queimada por fósforo branco caído do céu
napalm dos judeus então tenho as mesmas
insatisfações que essas crianças têm nas
suas lutas pela sobrevivência sou a menina
na beira das estradas que o caminhoneiro
abusa bolina por alguns trocados tenho
também as mesmas insatisfações dessas
meninas que são nossas vítimas nós cá
fazemos vistas grossas não é conosco não é
nosso problema queremos vir ver vencer
ficar satisfeitos o resto não nos interessa
porém estou fora senhor doutor ainda não
estou satisfeito com o que te faz bom proveito

BH, 0150902026; Publicado: BH, 0200902026

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

poxa vida manhã nublada de terça-feira

poxa vida manhã nublada de terça-feira
chuviscou a noite inteira mais cedo a
temperatura amenizou tudo me faz
lembrar fernando pessoa nem sei
por que me lembrei de fernando
pessoa não sei se gostava de tempo
assim silencioso meio friorento a
solidão todos nós somos meio
solitários nós teimamos astronautas
do pensamento nossa nave-mãe
nossa nave pai nossa nave invisível
enquanto todos esperam discos
voadores com com ou sem
extraterrestres nós somos os discos
voadores os extraterrestres sempre a
esperar por nós mesmos juntos aos
que esperam por nós porém não
sabem nem sabemos que nós somos
nós os teimosos obstinados
astronautas do pensamento os que
nos esperam querem tudo nós só
queremos a nós mesmos as nossas
reminiscências as nossas reflexões as
nossas reverberações as nossas
idiossincrasias o nosso âmago
intrinsecamente engendradamente no
tudo que somos nós no nós que somos
tudo todos ao mesmo tempo o sol anda
meio escondido hoje vou ali à janela ver
o que acontece com o tempo lá fora já
volto aqui de novo para o cafofo voltei o
tempo me parece carregado penso até
que vai chover vou dar um tempo

BH, 0150902026; Publicado: BH, 01901002026

RIP, BENITO DI PAULA:


 

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

como o homem pode deixar de falar fazer bobagens?

como o homem pode deixar de falar fazer bobagens?
se tudo que sai do homem é bobagem? o que não é
bobagem não entra no homem quando tem dentro do
homem o que não é bobagem o homem não põe para
fora o homem é um bobo nasceu bobo morrerá bobo
bem que gostaria de estar enganado a respeito do
homem porém não vejo outra conclusão só confusão
tudo termina em vacilação do homem vacilão que
desperta tarde demais quando desperta pois passa a
vida a dormir sempre em pesadelo quando sonha é
com dinheiro com lucros com quero mais do que já
tenho a destilar veneno mundo a fora um dia o homem
acabará com o mundo com o homem por excesso de
bobagens não encontrará outro planeta melhor que
este não encontrará outro semelhante irmão é morrer
pois desde que nasce o que mais o homem corre atrás
com as suas bobagens é da morte enquanto não a
encontra não fica sossegado não para de falar não para
de fazer as suas bobagens corriqueiras que não acabam

BH, 0150902026; Publicado: BH, 01601002026

ALLEN GINSBERG: EU QUERO SER O ESPETÁCULO:

 Eu quero ser o espetáculo

de Poesy triunfante
truques do mundo
Respiração onisciente é
própria respiração através da lágrima de guerra
alucinação de espião de gás
cujo senso comum surpreendeu
Gaga Gurus e Artistas ricos—
quem chamou o departamento de justiça
e ameaçou soprar o apito
Stop Wars, voltou petroquímico.
Capitães das indústrias para chorar e
gemendo na cama
Madeira picada, casas florestais construídas
& armas estabelecidas
distribuído dinheiro aos pobres
Poetas & imaginativos nutridos
gênio da terra
Fiquei silencioso no jazz roar escrevendo poesia
com uma caneta de tinta—
não tinha medo de Deus ou da morte depois
seu 48o ano—
deixe o cérebro dele virar água debaixo de água.
Rindo Gás, seu molar de ouro.
puxado por dentistas futuristas
O marinheiro conhecia a superfície do oceano há um ano
Carpenter aprendeu tarde bevel e
mattock
Filho, conversei com o Elder Pound
e tratou seu pai gentilmente
— Tudo vazio, tudo para show, tudo para
o bem de Poesy
para dar um exemplo superador de sanidade
como medida para as gerações tardias
Exemplifique o poder da musa para os jovens
evitar suicídio futuro
aceitando sua própria mentira e as lacunas
entre mentiras com o mesmo bem
humor
Solitária em mundos cheios de insetos &
Pássaros cantando todos solitários
—que não tinha assunto além de si mesmo
em muitos disfarces
alguns fora do seu próprio corpo, incluindo
Florestas vazias cheias de ar &
cidades—
Até escalei montanhas para criar
sua montanha, com machado de gelo e
crampons &. cordas, escuto
Glaciares. —

São Francisco, outubro de 1974

Das Confissões do Ego (Poemas de Respiração da Mente, 1973-1977. Livros de Luzes da Cidade SF)

não sei viver a sorrir meus ancestrais

não sei viver a sorrir meus ancestrais
meus antepassados meus antecedentes
não me ensinaram a sorrir não sei viver
a sorrir deveria haver um motivo histórico
que me fizesse viver a sorrir só herdei na
minha história os choros os ranger de dentes
os arrastar de correntes as ladainhas as
carpinagens das carpideiras os açoites nos
pelourinhos as pedras enegrecidas os ferros
as torturas tudo que herdei não me é motivo
de riso seria muito boçal se vivesse a sorrir
hienamente ou tal qual um demente ou um 
insano que rir por engano quando é para
chorar por enquanto enquanto a história
não mudar não quererei aprender a viver a
sorrir sorria quem pensa que tem motivos
de sobra para viver a sorrir deixeis-me
aqui com os meus malungos defuntos
tristes iguais a mim nós somos assim
não temos motivos para viver a sorrir

BH, 0150902026; Publicado: BH, 01601002026

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

TBO: U2


 

ancião ansioso septuagenário nem vale mais a pena

ancião ansioso septuagenário nem vale mais a pena
a vida pequena aliás nunca valeu nem compensa
pensar depois que os talentos os dons os dotes o
largaram de mão ao largo da vida corrente tão
ansioso ancião septuagenário sem destinatário que
agarra com garras de cão o duro osso que tem que
roer se só soube correr de tudo que pode na vida
correu do bem correu do mal correu da briga
correu da luta correu do pau agora corre da morte
o que nunca foi nobre sempre fingiu ser o que não
é sempre fingiu sentir o que nunca sentiu quando
tinha que chorar riu quando tinha que rir chorou
então não me venhas com desdém também idem
velho sem vintém onde cair é o teu lugar de plantar
raiz não é terra boa não é terra rara pau de arara é
cara parca para quem nunca deu a cara para levar
um tapa bem dado pela vida só pela polícia nos
becos nas ruelas barrelas nas vilas sujas das favelas

BH, 0140902026; Publicado: BH, 01501002026

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

não sei não me perguntes o que não sei

não sei me perguntes o que não sei
se soubesse não esperava a pergunta
já daria logo a resposta quem sabe
não pergunta nem espera resposta
quem não sabe então nem digo nada
nem o que poderia dizer quanto mais
o que não posso dizer nada quem
sabe dizer vira pastor padre político
banqueiro quem não sabe dizer vira
ao avesso descose torna a coser
calça cozinha faz um guisado
inventa um universo sem cadeia
sem cadeira sem verso foi decretado
o decreto ditado o dito maldito num
pito sempre levei pito fumei pito a
vida toda estou acostumado nada
mais me surpreende nem a verdade
sei muito bem mentir igual a todos
mentem no dia que a verdade for dita
de boca cheia para encher os ouvidos
ninguém terá um fundo de agulha para
enfiar a cara já comecei a carreira vem
ali a verdade de vento em popa atrás
de mim pernas para que te quero

BH, 0140902026; Publicado: BH, 01401002026

terça-feira, 13 de outubro de 2026

BACO EXU DOS BLUES:




 


recorri a todos subterfúgios que diziam assim

recorri a todos subterfúgios que diziam assim
algo que desperte um talento era lento demais
outros que seja rápido na captura dum dom
era devagar demais da conta desde do tempo
do onça melancólico pessimista não via nada
além das vistas só o que não era para ver
então tão precarizado desisti derrotado mais
duma vez em todas as derrotas mal falado mal
dotado de qualquer dote de satisfação pedia
milagres aos céus pedia sorte em oração para
espantar a morte o azar era visto como um
espantalho vampiro que tem medo de alho sal
grosso estaca de pau bala de prata luz do sol
sangue venoso coagulado só quer sangue fresco
pasteurizado de virgem arterial que causa
vertigem que deixa vestígio para o resto da vida
resquício de morte a sorte não evita o que vem
lá é o azar não evitado em cavalo encilhado

BH, 0150902026; Publicado: BH, 01301002026

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

talento nenhum talento me trouxe o vento

talento nenhum talento me trouxe o vento
a ventania a tempestade andava pela cidade
de dia de noite em busca dum dom andaraí
tijuca andava por aí turano borél buraco
quente em busca duma inspiração para
preencher um papel com uma poema de
leite com uma poesia de mel um soneto
ardente que decepção não se faz poeta
quem quer ser poeta poeta é erupção
ruptura coisa rara não se pega com a mão
capta-se vem doutra dimensão não sei nem
explicar vou dizer de antemão talento não
se ganha não se pede não se dá é água na
fonte é onda do mar é estrela no céu é luz
do olhar a lua no firmamento que inspirou
beethoven na serenata ao luar espero
que essa mesma inspiração numa noite de
insônia também me venha como a primavera

BH, 0110902026; Publicado: BH, 0901002026

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

meus dias nunca mais foram os mesmos

meus dias nunca mais foram os mesmos
só os maus dias dos males repetidos que
não me largam nem me alargam todo dia
sem bom-dia sem boa-tarde sem boa-
-noite são iguais aos meus pensamentos
que continuam maus pensamentos nunca
bons pensamentos dum ser inabalável
donde nada comove nada quem é
habitado por bons discernimentos nada o
tira dos seus caminhos os meus caminhos
continuam maus caminhos com maus
companheiros maus elementos os bons
estão todos podres nos podres poderes os
que estão fora dos podres poderes são
maus vivem à margem da vida os
marginais sou um marginal nada dos
podres poderes me atinge a me fazer um
visível incluído sou um visível ridículo
não aparento nenhuma aparência de
quem é aparentado com algo dos podres
poderes pelo contrário os podres poderes
tomaram tudo de mim como cafetões
tomam das putas das meretrizes saúde
liberdade democracia dignidade soberania
cidadania os podres poderes fazem dos
cidadãos suas putas de estimação

BH, 090902026; Publicado: BH, 0701002026

terça-feira, 6 de outubro de 2026

ANGRA:


 

deus hoje está de bem comigo não corro perigo

deus hoje está de bem comigo não corro perigo
deus é meu amigo pelo menos é o que penso
no momento digo que penso mas nem sei se
penso ou se alguém pensa por mim nenhum
argumento não penso em ninguém nem em
ideia nem em ideal sou vazio dessas coisas sou
vácuo desses espaços só iludo-me a iludir a
quem quer ser iludido por mim não tenho uma
flauta a arrastar atrás a todos que querem ser
levados por um redemoinho não me importa
mais nada de quem gostava morreu não gosto de
mais nada vou morrer também sinto que já até
passei da hora pois não tenho mais paciência me
parece que só demência nunca tive saúde mental
não será agora que terei algum lapso de razão isso
é tudo que herdei hereditariamente herege noutros
tempos meu destino seria a fogueira da inquisição
porém hoje deus está do meu lado até me segurou a
mão póstuma nesta escrita proscrita profana insana

BH, 090902026; Publicado: BH, 0601002026

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

se minha cabeça fosse iluminada dum ser luminoso

se minha cabeça fosse iluminada dum ser luminoso
meu poema seria empoderado poderoso minha
poesia energia daria adeus monstros tais o leviatã
capital império genocídio outro mundo seria
construído sem os próprios defeitos que o ser
humano herdou da humanidade maldade ódio
guerra falta de paz de amor de perdão porém são
essas coisas que nos trazem lucros a falsa
felicidade são essas coisas que almejamos
depressão queremos pânico pã está aí com a sua
flauta a tocar o terror a fazer com que toquemos
o horror o caos no mundo onde nada mais nos abala
tudo viralizamos curtimos enviamos compartilhamos
há sempre um celular a nos acompanhar um olho
maligno dum big brother lá se vai nossa privacidade
a nossa cidade o nosso mundo poço sem fundo se
torna um lugar imundo perigoso para se viver onde
para nos salvar vivemos deixamos outros morrer

BH, 090902026; Publicado: BH, 0501002026

sábado, 3 de outubro de 2026

TBO: LENINE:


 

nunca escrevi o que gostaria de escrever

nunca escrevi o que gostaria de escrever
nem nunca fui o que gostaria de ser pois
sempre escreveram por mim sempre
foram por mim como se não tivesse
vontade própria comeram de comer por
mim beberam de beber por mim
viveram de viver por mim só não
morreram de morrer por mim também
nunca morri por ninguém nem sei se
vale a pena morrer por alguém já deixei
muita gente morrer não salvei ninguém
não ganhei uma alma um corpo sadio
uma mente sã todas as mentes eram
dementes doentias piores do que a
minha todos os corpos eram podres
corpos de zumbis em adiantados estados
de putrefações piores do que o meu não
quero mais corpo nem para cavalo não
quero mais alma nem penada para
assombração não quero mais ser fui
declarado um morto antes de nascer então
quero só agora morrer de novo como diz a
história ainda bem que nunca escrevi uma
história nem a minha fui encontrado numa
praia com as vergonhas de fora como disse
pero vaz caminha ao luiz vaz de camões

BH, 090902026; Publicado: BH, 0301002026

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

polícia documentos qual a tua idade ancião?

polícia documentos qual a tua idade ancião?
sou um septuagenário porra um velho ainda
a fazer merda pelo salão absalão? sim mas
nunca fui polícia nunca achaquei ninguém
ou protegi rico a desprezar pobre nunca
assassinei ninguém nem dei pontapé em
porta de barracão de favela nem fiz forjado
num preto sem flagrante a única fragrância
que jogo na tua cara é a fumaça da minha
maconha se for falar aqui tudo que nunca fiz
que um polícia já fez passaríamos a noite
aqui nestas prescrutações és um corajoso a 
dizer esses desaforos nas caras dos policiais
sou até digo muito mais nunca dei tapa em
cara de ninguém ou fiz covardia ou cometi
injustiça ou espalhei medo horror terror pelas
comunidades se deus tivesse me dado a
oportunidade de ser alguma coisa na vida por
livre arbítrio jamais nunca quereria ser polícia
quando um ser humano chega a ser polícia é
porque já perdeu a última condição o último
vestígio o resquício final de ser considerado
um ser humano quem não serviu para nada
só serve para ser polícia vamos à delegacia

BH, 040902026; Publicado: BH, 0201002026

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

esfregarei na tua cara os meus escritos

esfregarei na tua cara os meus escritos
não vais limpar a bunda com os meus
papeis esfregarei na tua cara os meus
escritos a dizer assim estes escritos
merecem sim o prêmio nobel de
literatura na cara dura na cara de pau
não quero saber o que pensas estão aí
os meus versos a incomodar o paralelo
universo não incomodam o universo
real porque é do universo real que
vêm os meus versos todo conterrâneo
tem o direito de almejar um prêmio
nobel dalguma coisa mesmo in
memoriam faço por onde lanço meus
poemas nos vazios dos espaços lanço
minhas poesias nos vácuos das ruas
mesmo que deem azia tiradentes foi
despedaçado hoje nem sequer é
lembrado machado desprezado rosa
desfolhado carolina de jesus até hoje
pregada na cruz sem ser laureada a
nada vou sair do pus vou brilhar na 
luz uma estrela da vida inteira com
bandeira quem não gostou dá um
golpe de estado igual ao golpe
covarde que deram numa mulher para
manchar a nossa história quero sair da
vida para entrar para a história sem
morrer todos que saíram da vida para
entrar para a história a morrer estão
mortos enterrados esquecidos por nós

BH, 020902026; Publicado: BH, 0300902026

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

quando não existir mais letras

quando não existir mais letras
quando não existir mais palavras
também não existiremos mais
és muito pessimista sou és muito
negativista sou não és nada
nativista natural não cada um é do
jeito que cada um é escrevi muitas
letras não evolui em nada não me
tornei mais sábio escrevi muitas
palavras não me melhorei em nada
nem melhorei o mundo não adquiri
mais sabedoria até me parece que
involui que fiquei mais estúpido
obtuso então basta não lavrarei mais
não serei mais operário proletário
lavrador o mundo o mundo não liga
para essas coisas também não quero
mais ligar para isso nada me faz me
tornar mais inteligente nem a
inteligência artificial nem a realidade
virtual me fizeram ver a realidade
real enterrarei essas letras mortas
incinerarei essas palavras mórbidas
dispersarei as cinzas aos ventos mais
vagabundos arrastadores de molambos
derrubadores de mocambos esses
ventos que não são músicas para
bailarinos dançarinos levados peregrinos

BH, 020902026; Publicado: BH, 0280902026

P.U.L.S.E. PINK FLOYD:


 

sábado, 26 de setembro de 2026

não estou do lado da luz quando não se é sábio

não estou do lado da luz quando não se é sábio
não se está do lado da luz para se estar do lado
da luz há de se ser sábio para se ser sábio há
de se estar do lado da luz há que se ter
consciência de sabedoria não tenho
consciência de sabedoria morreria a gritar por
luz mais do que cícero gritou na hora de morrer
talvez até morreria meus próprios excrementos
igual voltaire comeu na hora que morreu não
serei diferente também beberei cicuta igual
sócrates bebeu na hora que morreu terei também
o meu barril igual diógenes de sinope teve o seu
também serei enterrado no chão mais enlodaçado
mais pantanoso que existe por aí sem testamento
sem epitáfio condolências encomendações todo
de vela apagado flores mortas ao meu lado riscado
de todos os mapas banido de as bulas receitas
listas abandonarei minha alma ao seu próprio
destino terá que responder por si mesma essa alma
de menino traquino a luz não iluminou onde pisou

BH, 020902026; Publicado: BH, 0260902026

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

penso assim por mim dentro de mim fora de mm

penso assim por mim dentro de mim fora de mim
se não consigo escrever mais nada nem a
obra-prima perfeita para que quero continuar a
viver? escrever é preciso viver não é preciso
nunca me cansarei de dizer porém agora o
universo me abandonou a fenomenologia do
espírito me abandonou a razão pura a política a
genealogia da moral o bem o mal me
abandonaram nada mais me habita sou um
ermitão minha sombra até minha sombra a leal
companheira me traiu me trocou por uma
penumbra um vulto cosido no muro escuro uma
panela de barro preto que a minha avó tinha em
cima do seu fogão à lenha na sua cozinha de terra
batida no chão tudo na casa da minha avó era igual
a mim empretecido pilão mão de pilão facão
tamanco de tacão pano de saia papel de pão feijão
preto carne defumada chouriço morcela linguiça até
a luz do dia que entrava pela janela era embaçada

BH, 020902026; Publicado: BH, 0250902026

terça-feira, 22 de setembro de 2026

meu coração não diz mais nada ao mundo

meu coração não diz mais nada ao mundo
o mundo está cheio de corações mudos
secos torrões torrados concretos armados
ladeados de lajedos alambrados de aço
estacas de ferro meu coração não chora
por mais nada seja lá o que for que o
cause dor se faz de indiferente de morador
de peito ausente seio arenoso úbere sem
manancial tetas murchas todas as vias
entupidas oxigênio rarefeito não se
ausculta mais meu coração mamas com
defeito é um aleijado de todo jeito
paraplégico tetraplégico deficiente terminal
podeis desligar as máquinas que o mantém
em estado paliativo não apliqueis mais
adrenalina ou qualquer alimentação
parenteral o deixeis em estado vegetativo o
deixai morrer à míngua duma vez por todas
não merece outra chance de amor de paz de
perdão desligai agora o comboio que move
o meu coração não diz mais nada ao mundo

BH, 020902026; Publicado: BH, 0220902026

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

ALDIR BLANC, MOA LUZ, CÉSAR PINHEIRO, SAUDADES DA GUANABARA:

Eu sei
Que o meu peito é uma lona armada
Nostalgia não paga entrada
Circo vive é de ilusão, eu sei

Chorei
Com saudades da Guanabara
Refulgindo de estrelas claras
Longe dessa devastação (e então)

Armei
Piquenique na Mesa do Imperador
E na Vista Chinesa solucei de dor
Pelos crimes que rolam contra a liberdade

Reguei
O Salgueiro pra muda pegar outro alento
E Plantei novos brotos no Engenho de Dentro
Pra alma não se atrofiar (Brasil)
Brasil, tua cara ainda é o Rio de Janeiro
Três por quatro na foto e o teu corpo inteiro
Precisa se regenerar

Eu sei
Que a cidade hoje está mudada
Santa Cruz, Zona Sul, Baixada
Vala negra no coração

Chorei
Com saudades da Guanabara
Da Lagoa de águas claras
Fui tomado de compaixão (e então)
Passei
Pelas praias da Ilha do Governador
E subi São Conrado até o Redentor
Lá no morro Encantado eu pedi piedade

Plantei
Ramos de Laranjeiras foi meu juramento
No Flamengo, Catete, na Lapa e no Centro

Pois é pra gente respirar (Brasil)
Brasil
Tira as flechas do peito do meu Padroeiro
Que São Sebastião do Rio de Janeiro
Ainda pode se salvar

cada um tem um estilo

cada um tem um estilo
sou o único que não tem
estilo nenhum quero ter
algum estilo só na hora
da morte ao morrer com
dignidade morro como se
morre de verdade nada de
medo nada de covardia
nada de pessimismo que
tive a vida inteira morrer
livre como se morre um
libertado livre dos
pensamentos atormentados
da metafísica da filosofia
num canto coberto de
picumãs iguais eram o
telhado as paredes do
barracão da minha avó
então num canto úmido
coberto de teias de aranhas
mofo bolor limo longe da
luz do sol do calor sufocado
no quarto escuro trancado
quando derem por mim a
parecer que durmo porém
já estou é doutro a olhar de
soslaio ou enviesado os
que ficam aqui a observar
meu cadáver fascinados

BH, 020902026; Publicado: BH, 0220902026

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

aproveito que o espírito me acordou escrevo alguma coisa

aproveito que o espírito me acordou escrevo alguma coisa
antes de morrer já vivi demais despercebido desperdiçado
sem ser notado por nenhum ser vivo que compõe os seres
vivos da natureza natural ou desnaturado coalhado creme
desnatado igual leite estragado ou sangue coagulado soro
ou salmoura derramado então alguém vai dizer que até no
último dia de vida escrevi sem querer sem saber que era o
movido pelo espírito que não tinha noção de nenhuma boa
ação porém só dormi todos os dias que dizeis que vivi não 
notei anotei não sabia que anotava não falei não sabia que
arrotava apontai um que deu atenção ao que falei dei soco
coração doa ainda bem que não há ninguém para chorar por
mim no meu testamento não terá esse legado de herança só
quem ama é que pode dizer que deixará alguém a chorar por
si amar essa coisa nunca soube fazer nem na hora da morte

BH, 020902026; Publicado: BH, 0170902026

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

disse deus que se houver um único ser humano no mundo

disse deus que se houver um único ser humano no mundo
não mandará destruir o mundo novamente se até agora
não destruiu o mundo é porque realmente há um único
ser humano por aí que salvou a todos nós que estamos a
padecer aqui neste mundo apesar das bestas apocalípticas
que estão nos poderes ávidos para colocar um fim nas
nossas vidas muitas vezes ainda colaboramos com essas
bestas apocalípticas essas pragas antigas do egito
conscientemente ou inconscientemente ou
inconstitucionalissimamente o certo é que muitas vezes
marcamos gols contra em nós mesmos quando nos
entregamos de mãos beijadas aos genocidas aos
negacionistas aos apátridas aos lesa-pátria aos entreguistas
aos capitalistas aos colonialistas imperialistas aos fascistas
racistas nazistas boicotadores sabotadores da democracia
da paz do amor do perdão que perseguem trabalhadores
trabalhistas o trabalhismo lançam trevas na soberania na
cidadania na dignidade colocam o cabresto em nós nos
levam em manada ao cadafalso na boca do calabouço do
precipício para evitar isso vamos fazer de conta que cada
um de nós é o ser humano que deus disse que se houver um
único ser humano no mundo não mandará destruir o mundo

BH, 0310802026; Publicado: BH, 0160902026

o que deus mandar diretamente para mim da plenitude

o que deus mandar diretamente para mim da plenitude
à finitude o que vier será o que será até ao meu fim do
trevo da sorte à flor de alecrim cravo de lapela vela de
capela pele de capelão chá de chapéu de couro de
boiadeiro que perdeu o berrante não frequenta mais
rodeio respeita animais a natureza tudo mais abomina
touradas despreza vaquejadas farra do boi toda a
exploração que se faz à animália sofrer para a nossa
satisfação ninguém merece diversão medieval onde o
animal é torturado como num regime feudal abro mão
dessa ilusão desse dinheiro sujo de sangue mesmo que
o sangue não seja o meu as crias as criaturas são obras-
-primas são da natureza esperam o nosso respeito o
tratamento adequado humano com humanismo de
humanidade intrínseca na civilização a nós engendrada

BH, 0310802026; Publicado: BH, 0160902026

The Very Best Of The Black Crowes - The Black Crowes Best Songs - The Black Crowes Full ALbum


 

terça-feira, 15 de setembro de 2026

dizeis lá dos aglomerados das constelações algumas coisas

dizeis lá dos aglomerados das constelações algumas coisas
se sabeis estou a ouvir falai escrevei quem sabeis escrever
escutai quem sabeis escutar às vozes universais meu findo
coração é o mar morto que o sal transformou que o sol já
secou sombrio sem brilho meu coração silenciou nunca
mais serei homem qualquer coisa será mais do que sou
não serei nem o nada que serei o que serei? não sei nem
ninguém saberá alguém dirá alguma coisa não prestarei
atenção já estarei noutra dimensão tarde demais apaga a
luz já estamos no escuro é que está cego não percebes que
já estás no escuro a escuridão é o teu torrão teu pedaço de
pão queimado o que te resta de chão chorar? covarde a
vida toda cobarde agora choras na presença de estranhos
pressentes a morte escondes tuas vergonhas quebres teus
espelhos que ganhastes por recompensa com essas contas
de vidros BH, 0280802026; Publicado: BH, 0150902026

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

TBO, DURAN DURAN:



 

nem em tudo excedi-me na vida

nem em tudo excedi-me na vida
bebi demais comi demais vivi de
menos agora na hora da morte
escondo-me num cômodo dentro
duma gaveta mais profunda duma
cômoda velha agora na hora da
morte fujo para o quarto sujo
escrevo com medo de viver meus
últimos instantes como se tivesse
últimos instantes que já não os
tenho mais se ainda soubesse
rezar rezava se ainda soubesse orar
orava se ainda soubesse fazer uma
prece igual minha avó fazia
aproveitava a ocasião que desce
também fazia uma prece para a
minha redenção talvez assim
diminuiria em mim o medo do
meu fim não tive plenitude com
certeza não terei finitude de digno
do justo pois fui o varão ímpio não
terei um brilho no olimpo se chegar
por lá ó sujo saias já daqui desse
lugar reservado aos justos és um
ímpio dos mais sujos cujo caminho
perecerá sairei como uma vara na
correria sem olhar para atrás a
salvação será o primeiro bar da
madrugada que encontrar lar dos
boêmios solitários refúgio dos
corações que latejam na solidão
nos lajedos sombrios escorregadios

BH, 0280802026; Publicado: BH, 0140902026

hoje não estarei para hoje nem para ontem

hoje não estarei para hoje nem para ontem
também tenho a certeza que hoje não
estarei para amanhã ou para depois de
amanhã ou para antes de ontem hoje para
o que estarei hoje não sei talvez nem
queira saber são tantas as dúvidas que me
assolam que duvido se hoje estarei para
alguma coisa já há muita gente no mundo
a se importar com as coisas principalmente
com as coisas banais normais corriqueiras
sem ideias superficiais sem ideais sem
bases rasas sem fundamentos então hoje só
amanhã ou depois de amanhã esqueçam de
mim por ora já esqueci de todo mundo por
agora não lembro nem de mim se alguém
lembrar de mim esqueça que existi pois nem
sei se existi de verdade ou se fui só uma
fotografia dentro dum baú de relíquias de
lembranças de coisas esquecidas
principalmente coisas estúpidas se há algo
que guardamos bem guardado no fundo da
alma são as nossas indefectíveis estupidezes

BH, 02600802026; Publicado: BH, 0140902026