se não consigo escrever mais nada nem a
obra-prima perfeita para que quero continuar a
viver? escrever é preciso viver não é preciso
nunca me cansarei de dizer porém agora o
universo me abandonou a fenomenologia do
espírito me abandonou a razão pura a política a
genealogia da moral o bem o mal me
abandonaram nada mais me habita sou um
ermitão minha sombra até minha sombra a leal
companheira me traiu me trocou por uma
penumbra um vulto cosido no muro escuro uma
panela de barro preto que a minha avó tinha em
cima do seu fogão à lenha na sua cozinha de terra
batida no chão tudo na casa da minha avó era igual
a mim empretecido pilão mão de pilão facão
tamanco de tacão pano de saia papel de pão feijão
preto carne defumada chouriço morcela linguiça até
a luz do dia que entrava pela janela era embaçada
BH, 020902026; Publicado: BH, 0250902026