quarta-feira, 8 de abril de 2026

enquanto houver um cidadão uma cidadã moradores de rua

enquanto houver um cidadão uma cidadã moradores de rua
o país não deu certo a sociedade faliu o sistema veio abaixo
as religiões os bancos as instituições burguesas das elites
corporativistas só defendem os próprios interesses a justiça
comete injustiças os legislativos não legislam em benefício
do povo o executivo faz o trabalho sujo de excluir de
eliminar o povo incômodo para satisfazer aos sádicos aos
áulicos bajuladores do poder surtos de aporofobias racistas
fascistas nazistas milicianos traficantes quadrilheiros
contrabandistas todos os tipos de componentes do crime
organizado juntos aos sonegadores empresários 
inescrupulosos trabalhadores pelegos vira-latas
entreguistas lesa-pátria apátridas escrotos políticos
fisiológicos eleitores omissos apolíticos analfabetos
políticos com isso o brasil não pode dar certo é muita
desigualdade é muita falta de consciência é muita
inconsciência num povo só é muita falta de resiliência as
polícias exterminadoras os militares apátridas que batem
continência à bandeira yankee do imperialismo nada pode
dar certo nesta nação que faz cultos capitalistas em igrejas
financistas demoniza o socialismo o comunismo tudo que
diz respeito ao trabalhismo aproveita as fragilidades as
deficiências dos desprivilegiados fazem práticas de
escravismo exercem a escravidão a exploração a opressão
disseminam as desigualdades viadutos marquises pontes
becos morros viram moradias precárias com ausências dos
estados dos municípios da federação enquanto houver
neste país um único cidadão uma única cidadã moradores
de rua não seremos uma civilização uma pátria uma nação

BH, 080402026; Publicado: BH, 080402026

terça-feira, 7 de abril de 2026

gostaria de escrever uma obra onde pudesse dizer escrevi uma obra

gostaria de escrever uma obra onde pudesse dizer escrevi uma obra
agora posso morrer em paz ou que quando alguém visse a tal obra
dissesse quem escreveu essa obra escreveu realmente uma obra
agora pode de fato morrer em paz vestido de fato novo não precisa
de mais nada da vida porém olho as paredes nuas manchadas
umedecidas envelhecidas sinto que nunca conseguirei esse intento
não tenho desejo suficiente de marcar um tento um tanto impedido
por total impedimento falta-me também vontade de potência se fosse
uma casa igual todo mundo faz estava feita estafeta se fosse para
erguer um muro igual todo mundo ergue estava erguido metido se
fosse para construir uma ponte igual todo mundo constrói estava
construída tolstói mas não é fácil assim é uma obra tal opus dei um
santo graal um cálix bento um santo sudário um trabalho de levar o
demônio de volta ao inferno nem hércules tentou em seus doze
trabalhos nem os trabalhadores do mar nas suas provações no fundo
do mar é uma obra que sísifo rejeitaria preferiria continuar a carregar
pedras morro acima ulisses fugiria desesperado dom quixote nem se
atreveria enfrentar com seu indomável rocinante com seu fiel valoroso
escudeiro sancho pança no bravo burrico rucio porém sou tentado pelas
tentações dos demônios socráticos então com essas assombrações
procrastinarei essa morte em vão essa noite enquanto não honrar o sangue
derramado do meu coração que coagula no lençol imundo do meu quaro

BH, 0230102026; Publicado: BH, 070402026

MORAES MOREIRA:




ARNALDO ANTUNES:



 

segunda-feira, 6 de abril de 2026

pelo máximo que o escritor queira escrever

pelo máximo que o escritor queira escrever
o leitor quer ler o mínimo possível ou nada
ou fazer o que pensa ser o melhor desprezar
a leitura tolstói escreveu guerra e paz joyce
ulisses steinbeck as vinhas da ira calhamaços
porém sabiam escrever eram lidos avidamente
quem é lido assiduamente nos dias atuais? até
o relatório hite de shere era disputado devorado
na irlanda criava-se o dia duma personagem
dum livro de joyce o blomsday não se vê nada
hoje que enaltece tanto a literatura nosso país
ainda não foi laureado por um prêmio nobel
de literatura pois matamos bibliotecas fechamos
livrarias editoras desprezamos escritores
ignoramos a cultura com o passar do tempo
nem precisaremos mais de escrever nem de ler
pois a realidade virtual a inteligência artificial
os robôs farão tudo por nós até a nossa função
de viver não será mais exercida por nós outros
seres mortos farão seremos apenas escravos
servos lacaios vassalos manipulados
controlados não precisaremos pensar nem
existir aboliremos penso logo existo ou o 
navegar é preciso viver não é preciso apenas
vegetar na vida paliativa parenteral sem
mastigação sem usar a voz a língua será
atrofiada os membros não terão funções
seremos uns aleijados por dentro por fora a
perambular mundo fora ao sabor do vento ao
relento iguais répteis ao sol iguais lobos ao luar

BH, 0120202026; Publicado: BH, 060402026

domingo, 5 de abril de 2026

IRA!


 

a tua morte foi um bem não vais mais viver

a tua morte foi um bem não vais mais viver
a atrapalhar a vida de ninguém ou a
constranger alguém diante dos
semelhantes agora todos estamos
livres de ti não serás mais uma carga
pesada às costas doutros nem do
governo nem do estado nem da
sociedade morreste como um
condenado à morte na primeira
consulta foi lido o veredicto sem
apelação tem que abrir a barriguinha
aqui ali mesmo ficaste não voltaste à
casa nunca mais te vi a não ser nas
minhas divagações nas minhas
reminiscências intermitências nas
aparições nas assombrações visagens
que imagino ver pelos antigos cantos
onde ficavas encostavas marcavas
marcas da tua cabeça das tuas costas
das tuas mãos até nos meus ombros
sinto quando encostas como encostavas
antigamente agora todos estamos
aliviados sou o único que persisto nas
lamentações nos remorsos nos
arrependimentos pois se continuasses a
viver atrapalharias o sistema colocarias
abaixo as estruturas abalarias as igrejas
não dava mais para continuares a viver
todos decidimos que tinhas que morrer
morreste mártir herói sei como ainda
dói em mim a cruz que trago às costas
a arrastá-la pesada pela estrada fora
pelos trinta seis sóis cravados no
calvário onde faço questão de está
pregado por cravos ensanguentados

BH, 0290102026; Publicado: BH, 050402026