sábado, 26 de setembro de 2026

não estou do lado da luz quando não se é sábio

não estou do lado da luz quando não se é sábio
não se está do lado da luz para se estar do lado
da luz há de se ser sábio para se ser sábio há
de se estar do lado da luz há que se ter
consciência de sabedoria não tenho
consciência de sabedoria morreria a gritar por
luz mais do que cícero gritou na hora de morrer
talvez até morreria meus próprios excrementos
igual voltaire comeu na hora que morreu não
serei diferente também beberei cicuta igual
sócrates bebeu na hora que morreu terei também
o meu barril igual diógenes de sinope teve o seu
também serei enterrado no chão mais enlodaçado
mais pantanoso que existe por aí sem testamento
sem epitáfio condolências encomendações todo
de vela apagado flores mortas ao meu lado riscado
de todos os mapas banido de as bulas receitas
listas abandonarei minha alma ao seu próprio
destino terá que responder por si mesma essa alma
de menino traquino a luz não iluminou onde pisou

BH, 020902026; Publicado: BH, 0260902026

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

penso assim por mim dentro de mim fora de mm

penso assim por mim dentro de mim fora de mim
se não consigo escrever mais nada nem a
obra-prima perfeita para que quero continuar a
viver? escrever é preciso viver não é preciso
nunca me cansarei de dizer porém agora o
universo me abandonou a fenomenologia do
espírito me abandonou a razão pura a política a
genealogia da moral o bem o mal me
abandonaram nada mais me habita sou um
ermitão minha sombra até minha sombra a leal
companheira me traiu me trocou por uma
penumbra um vulto cosido no muro escuro uma
panela de barro preto que a minha avó tinha em
cima do seu fogão à lenha na sua cozinha de terra
batida no chão tudo na casa da minha avó era igual
a mim empretecido pilão mão de pilão facão
tamanco de tacão pano de saia papel de pão feijão
preto carne defumada chouriço morcela linguiça até
a luz do dia que entrava pela janela era embaçada

BH, 020902026; Publicado: BH, 0250902026

terça-feira, 22 de setembro de 2026

meu coração não diz mais nada ao mundo

meu coração não diz mais nada ao mundo
o mundo está cheio de corações mudos
secos torrões torrados concretos armados
ladeados de lajedos alambrados de aço
estacas de ferro meu coração não chora
por mais nada seja lá o que for que o
cause dor se faz de indiferente de morador
de peito ausente seio arenoso úbere sem
manancial tetas murchas todas as vias
entupidas oxigênio rarefeito não se
ausculta mais meu coração mamas com
defeito é um aleijado de todo jeito
paraplégico tetraplégico deficiente terminal
podeis desligar as máquinas que o mantém
em estado paliativo não apliqueis mais
adrenalina ou qualquer alimentação
parenteral o deixeis em estado vegetativo o
deixai morrer à míngua duma vez por todas
não merece outra chance de amor de paz de
perdão desligai agora o comboio que move
o meu coração não diz mais nada ao mundo

BH, 020902026; Publicado: BH, 0220902026

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

ALDIR BLANC, MOA LUZ, CÉSAR PINHEIRO, SAUDADES DA GUANABARA:

Eu sei
Que o meu peito é uma lona armada
Nostalgia não paga entrada
Circo vive é de ilusão, eu sei

Chorei
Com saudades da Guanabara
Refulgindo de estrelas claras
Longe dessa devastação (e então)

Armei
Piquenique na Mesa do Imperador
E na Vista Chinesa solucei de dor
Pelos crimes que rolam contra a liberdade

Reguei
O Salgueiro pra muda pegar outro alento
E Plantei novos brotos no Engenho de Dentro
Pra alma não se atrofiar (Brasil)
Brasil, tua cara ainda é o Rio de Janeiro
Três por quatro na foto e o teu corpo inteiro
Precisa se regenerar

Eu sei
Que a cidade hoje está mudada
Santa Cruz, Zona Sul, Baixada
Vala negra no coração

Chorei
Com saudades da Guanabara
Da Lagoa de águas claras
Fui tomado de compaixão (e então)
Passei
Pelas praias da Ilha do Governador
E subi São Conrado até o Redentor
Lá no morro Encantado eu pedi piedade

Plantei
Ramos de Laranjeiras foi meu juramento
No Flamengo, Catete, na Lapa e no Centro

Pois é pra gente respirar (Brasil)
Brasil
Tira as flechas do peito do meu Padroeiro
Que São Sebastião do Rio de Janeiro
Ainda pode se salvar

cada um tem um estilo

cada um tem um estilo
sou o único que não tem
estilo nenhum quero ter
algum estilo só na hora
da morte ao morrer com
dignidade morro como se
morre de verdade nada de
medo nada de covardia
nada de pessimismo que
tive a vida inteira morrer
livre como se morre um
libertado livre dos
pensamentos atormentados
da metafísica da filosofia
num canto coberto de
picumãs iguais eram o
telhado as paredes do
barracão da minha avó
então num canto úmido
coberto de teias de aranhas
mofo bolor limo longe da
luz do sol do calor sufocado
no quarto escuro trancado
quando derem por mim a
parecer que durmo porém
já estou é doutro a olhar de
soslaio ou enviesado os
que ficam aqui a observar
meu cadáver fascinados

BH, 020902026; Publicado: BH, 0220902026