segunda-feira, 19 de outubro de 2026

poxa vida manhã nublada de terça-feira

poxa vida manhã nublada de terça-feira
chuviscou a noite inteira mais cedo a
temperatura amenizou tudo me faz
lembrar fernando pessoa nem sei
por que me lembrei de fernando
pessoa não sei se gostava de tempo
assim silencioso meio friorento a
solidão todos nós somos meio
solitários nós teimamos astronautas
do pensamento nossa nave-mãe
nossa nave pai nossa nave invisível
enquanto todos esperam discos
voadores com com ou sem
extraterrestres nós somos os discos
voadores os extraterrestres sempre a
esperar por nós mesmos juntos aos
que esperam por nós porém não
sabem nem sabemos que nós somos
nós os teimosos obstinados
astronautas do pensamento os que
nos esperam querem tudo nós só
queremos a nós mesmos as nossas
reminiscências as nossas reflexões as
nossas reverberações as nossas
idiossincrasias o nosso âmago
intrinsecamente engendradamente no
tudo que somos nós no nós que somos
tudo todos ao mesmo tempo o sol anda
meio escondido hoje vou ali à janela ver
o que acontece com o tempo lá fora já
volto aqui de novo para o cafofo voltei o
tempo me parece carregado penso até
que vai chover vou dar um tempo

BH, 0150902026; Publicado: BH, 01901002026

RIP, BENITO DI PAULA:


 

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

como o homem pode deixar de falar fazer bobagens?

como o homem pode deixar de falar fazer bobagens?
se tudo que sai do homem é bobagem? o que não é
bobagem não entra no homem quando tem dentro do
homem o que não é bobagem o homem não põe para
fora o homem é um bobo nasceu bobo morrerá bobo
bem que gostaria de estar enganado a respeito do
homem porém não vejo outra conclusão só confusão
tudo termina em vacilação do homem vacilão que
desperta tarde demais quando desperta pois passa a
vida a dormir sempre em pesadelo quando sonha é
com dinheiro com lucros com quero mais do que já
tenho a destilar veneno mundo a fora um dia o homem
acabará com o mundo com o homem por excesso de
bobagens não encontrará outro planeta melhor que
este não encontrará outro semelhante irmão é morrer
pois desde que nasce o que mais o homem corre atrás
com as suas bobagens é da morte enquanto não a
encontra não fica sossegado não para de falar não para
de fazer as suas bobagens corriqueiras que não acabam

BH, 0150902026; Publicado: BH, 01601002026

ALLEN GINSBERG: EU QUERO SER O ESPETÁCULO:

 Eu quero ser o espetáculo

de Poesy triunfante
truques do mundo
Respiração onisciente é
própria respiração através da lágrima de guerra
alucinação de espião de gás
cujo senso comum surpreendeu
Gaga Gurus e Artistas ricos—
quem chamou o departamento de justiça
e ameaçou soprar o apito
Stop Wars, voltou petroquímico.
Capitães das indústrias para chorar e
gemendo na cama
Madeira picada, casas florestais construídas
& armas estabelecidas
distribuído dinheiro aos pobres
Poetas & imaginativos nutridos
gênio da terra
Fiquei silencioso no jazz roar escrevendo poesia
com uma caneta de tinta—
não tinha medo de Deus ou da morte depois
seu 48o ano—
deixe o cérebro dele virar água debaixo de água.
Rindo Gás, seu molar de ouro.
puxado por dentistas futuristas
O marinheiro conhecia a superfície do oceano há um ano
Carpenter aprendeu tarde bevel e
mattock
Filho, conversei com o Elder Pound
e tratou seu pai gentilmente
— Tudo vazio, tudo para show, tudo para
o bem de Poesy
para dar um exemplo superador de sanidade
como medida para as gerações tardias
Exemplifique o poder da musa para os jovens
evitar suicídio futuro
aceitando sua própria mentira e as lacunas
entre mentiras com o mesmo bem
humor
Solitária em mundos cheios de insetos &
Pássaros cantando todos solitários
—que não tinha assunto além de si mesmo
em muitos disfarces
alguns fora do seu próprio corpo, incluindo
Florestas vazias cheias de ar &
cidades—
Até escalei montanhas para criar
sua montanha, com machado de gelo e
crampons &. cordas, escuto
Glaciares. —

São Francisco, outubro de 1974

Das Confissões do Ego (Poemas de Respiração da Mente, 1973-1977. Livros de Luzes da Cidade SF)

não sei viver a sorrir meus ancestrais

não sei viver a sorrir meus ancestrais
meus antepassados meus antecedentes
não me ensinaram a sorrir não sei viver
a sorrir deveria haver um motivo histórico
que me fizesse viver a sorrir só herdei na
minha história os choros os ranger de dentes
os arrastar de correntes as ladainhas as
carpinagens das carpideiras os açoites nos
pelourinhos as pedras enegrecidas os ferros
as torturas tudo que herdei não me é motivo
de riso seria muito boçal se vivesse a sorrir
hienamente ou tal qual um demente ou um 
insano que rir por engano quando é para
chorar por enquanto enquanto a história
não mudar não quererei aprender a viver a
sorrir sorria quem pensa que tem motivos
de sobra para viver a sorrir deixeis-me
aqui com os meus malungos defuntos
tristes iguais a mim nós somos assim
não temos motivos para viver a sorrir

BH, 0150902026; Publicado: BH, 01601002026

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

TBO: U2


 

ancião ansioso septuagenário nem vale mais a pena

ancião ansioso septuagenário nem vale mais a pena
a vida pequena aliás nunca valeu nem compensa
pensar depois que os talentos os dons os dotes o
largaram de mão ao largo da vida corrente tão
ansioso ancião septuagenário sem destinatário que
agarra com garras de cão o duro osso que tem que
roer se só soube correr de tudo que pode na vida
correu do bem correu do mal correu da briga
correu da luta correu do pau agora corre da morte
o que nunca foi nobre sempre fingiu ser o que não
é sempre fingiu sentir o que nunca sentiu quando
tinha que chorar riu quando tinha que rir chorou
então não me venhas com desdém também idem
velho sem vintém onde cair é o teu lugar de plantar
raiz não é terra boa não é terra rara pau de arara é
cara parca para quem nunca deu a cara para levar
um tapa bem dado pela vida só pela polícia nos
becos nas ruelas barrelas nas vilas sujas das favelas

BH, 0140902026; Publicado: BH, 01501002026