quarta-feira, 29 de abril de 2026

fazer poemas é a minha profissão no momento

fazer poemas é a minha preocupação no momento
já que estou preste a partir para a terra dos pés
juntos com fome a comer capins pelas raízes
vestido do meu paletó predileto o de madeira de lei
pinho de riga cedro do líbano mogno jatobá
jacarandá ypê para entrar numa vida melhor então
meu irmão preciso fazer alguma coisa
urgentemente uma poesia de gente que trabalha
de povo trabalhador de nação operária de país
trabalhista que dê atitudes ao mundo de
humanidade de civilização de evolução de
revolução de ação não posso mais é ficar sem
fazer nada um membro destacado dos párias um
associado da turma dos parasitas se continuar a
fazer parte do grupo de mentes pré-históricas de
mentes dos primeiros protótipos designados
gentes como fui designado a fazer poemas por
profissão um trabalhador numa fábrica de poesias
um operário numa obra de antologias poéticas um
proletário sem remuneração sem numerário o
soneto é o meu sustento a ode é a minha alegria o
vento minha alegoria a brisa minha blandícia o
amor o meu adorno igual jesus foi alegria para o
homem que foi bach então sigo a sina sigo a
menina a saga sagaz desde os primórdios
universais então sigo o sol que habita o meu
coração desço da colina não sou mais o bobo o tolo
o engano desço da montanha um moisés repleto de luz

BH, 0260202026; Publicado: BH, 0290402026

terça-feira, 28 de abril de 2026

SCORPIONS:


 





todo mundo é melhor do que todo mundo

todo mundo é melhor do que todo mundo
tem um feito maior mais heroico do que 
o outro tem uma história de vida mais
avida mais bonita um fato mais relevante
mais novo um fardo mais leve se pensa
até mais importante do que o semelhante
segue adiante na ignorância não aprende
a viver passa vergonha na hora de morrer
chora na presença da morte na verdade
nunca está preparado para nada nem em
águas tranquilas afogado mais do que em
águas turbulentas antes de atingir a praia
pousa na areia perde o sangue da veia a
palavra da voz o som da letra o tom do
eco arruma uma treta dum vestido novo
que logo à frente é um vestido velho um
boato com rabo de lagarto uma mentira
enraizada uma falsidade arrumada uma
verdade virtual que fala que é felicidade
quem diria que vive mil noites mil dias
não dá à luz a um único poema não pare
uma única poesia passa o tempo deserto
cheio de netos vazio de sonetos coleciona
moedas dinheiros cifrões no coração ajunta
tesouros que não cabem nas mãos pratas
ouros joias pedras gemas transforma em
dilemas o que empobrece por dentro
fenece o peito perde a razão no seio não
larga o osso ao cachorro vira-latas os
restos ao cão caim quer comer a folha da
planta desta lagarta morre as cinzas são
guardadas numa lata de lixo de luxo a
família chora alguns minutos de luto

BH, 0230202026; Publicado: BH, 0280402026

sexta-feira, 24 de abril de 2026

quando quiser falar alguma coisa falo quando quiser

quando quiser falar alguma coisa falo quando quiser
nunca na inércia sem pensamento o pensamento
perturba a ausência de pensamento com essa
inquietação destrói a inércia quando não quiser não
falo nada pois não preciso falar quem fala demais
dá bom-dia a cavalo já dizia pai muito antes de
dizer nada nem necessito repetir o que os
ancestrais disseram nem os antepassados ou os
antecedentes nem aos descendentes que nunca
ouvem ouviam ou ouvirão invisível nem dormir
por que fui para outrem não para mim talvez até o
pior fui do que são só que sei fingir finjo não ser
nem ter sido o que são quem precisa dalguma
palavra ou palavrinha ou palavrão? fico mais com o
palavrão ainda mais se for cabeludo de baixo calão
causa mais má impressão mais impacto depravado
que hipócrita idiota do bem pacato bom cidadão
certinho rato de família igreja extrema-direita
reacionário ordinário racista egoísta fascista
entreguista apaixonado imperialista pelo
imperialismo predador colonizador explorador ai
que dor capitalista destruidor do meio ambiente
poluidor exterminador de povos originários
tradicionais acabei por repetir tin tin por tin tin
tudo que já saiu de mim nunca deixei de ser
assim este ser humano tão ruim sem din din

BH, 0230202026; Publicado: BH, 0240402026

quarta-feira, 22 de abril de 2026

toda escrita é como uma galinha a pôr um ovo

toda escrita é como uma galinha a pôr um ovo
abre a cloaca o ovo sai abre a cabeça a escrita
sai quanto mais a cabeça rachada como se
fosse uma fenda a massa exposta mais as
ideias fluem os pensamentos voam se a
cabeça for fechada fundida blindada só saem
drogas dogmas tabus preconceitos racismo
fascismo só sai o que sai da cloaca
literalmente menos argumentos ou
discernimentos só sai o que vai para o esgoto
sarjeta retrete latrina mais perigosa é a
cabeça lacrada encaixotada velada
acorrentada não há aragem que areja não há
vento que refresca não há água que refrigera
não há hidratante para a hidratação não há
britadeira martelete marreta que fende para
deixar a luz entrar nas trevas da escuridão
abismal coitado do ser que tem a cabeça
reacionária retrógrada refratária coitado do
que tem a cabeça de bigorna bate-estacas
onde furadeira nenhuma funciona broca
nenhuma fura diamante nenhum corta o ser
morre antes de nascer ou nasce morto até
finge que é vivo porém está mais para uma
flor cadáver que de longe exala o mal cheiro
da decomposição cadavérica

BH, 0290102026; Publicado: BH, 0220402026

segunda-feira, 20 de abril de 2026

LLEWELLYN MEDINA, MUNDO SEM DEUS:

Mundo sem Deus


Diante da incerteza do passado

caleidoscópio furta cor

biografias corrompidas 

histórias sobreguardadas nos cantos 

que de indescritíveis nem te conto 


diante dos dias fugidios

que antecipam os males 

fortunas com igual ímpeto fluem 

impávida ampulheta 


a inútil luta de Jacó a coxa deslocada

legada aos filhos vida afora

diante das realidades 

Maratona Salamina e Plateia 

os horrores de Auschwitz 

o idílico campo de golfe

a ser construído sobre cadáveres de  indefesos palestinos

(e sua heroica história)

e sob a poderosa bênção de Jeová 


o que devo fazer 

pergunto angustiado

eu que nada fiz até aqui

não tenho lança 

nem punhal

nem adaga tenho

foi-se a esperança 


vergonha de (con)viver

mundo sem Deus.