quarta-feira, 26 de agosto de 2026

TBO GUNS AND ROSES:


 

quem não sabe escolher suas escolhas não é escolhido

quem não sabe escolher suas escolhas não é escolhido
não ser escolhido é melhor ser de morte ferido letal
mortal chorar amargamente escolhi mal não fui bem
escolhido nem acolhido no meio dos escolhidos fui
recolhido a um canto donde perplexo vislumbrava os
sucessos dos sucessivos excessos absorto em meus
pensamentos nenhum virou filosofema aforismo
inimicíssimo de mim me derrotei várias vezes nas
minhas circunstâncias não ultrapassei o legado jogado
fora pela janela fui junto como se fosse um defunto
não tive vontade própria potência de poder fazer o que
todo mundo não faz pois não quero fazer o que todo
 mundo já fez quero fazer o que ninguém nunca fez
para ser aceito se possível também escolhido oba olha
lá o que está a ditar os rumos da solidão dos solitários
parece um joão ninguém alguém sabe o que tem? tem
febre causa dor calafrios dos arrepios espasmos
epilepsia? ainda não sabemos muitas equimoses o rosto
roto a face sangrenta a outra face macilenta a cara ralada
debateu-se no asfalto até adormecer se acordar doutro
lado do lago sem saber como chegou até ali com a
própria elucubração vazia que não se transformou em
nova filosofia entrou em depressão voltou à caverna
nunca mais a ninguém deu boa-tarde boa-noite bom-dia

BH, 0200702026; Publicado: BH, 0260802026

terça-feira, 25 de agosto de 2026

KRAFTWERK:


 

ESTOU CEGO DE VERDADE ESTOU CEGO DE VERDADE, GERALD THOMAS:

 “Estou cego de verdade, estou cego de verdade,

estou cego de verdade, estou cego de verdade.
Quem faria isso comigo? Os de cima? Os de baixo?
Olhe fundo nos meus olhos e diga: aqui um universo?
Que eu não ria. Que eu não ria.
A maquinaria não é propícia.
Os menores erros, eu disse, os menores erros
são percebidos.
Se essa maquinaria fosse perfeita,
não precisaria de perfeição no resto.

Luz. Aqui. Luz. Som. ALI
Se essa maquinaria fosse uma realidade,
não criaria essas palavras que a destroem.

Mas, de que vale? Nossos poetas estão mortos.
Nossa música não tem heroísmo.
Nós não temos corpos, somos fracos, somos rasos.
Nossos casos moribundos. Julgamentos um acaso.
Nossa obra, a obra do acaso total.

Clamo. Que me acordem se eu estiver dormindo.

Concordo!

Minha angústia, meu espírito.
Minha angústia, meu espírito.

Convoco! Uma nova geração de criadores.
Que se afunilem e se intoxiquem,
mas ouçam os lamentos das cidades.
Que se estrangulem, mas achem
a geometria de um parangolé brasileiro.
Que chova sobre nossa poesia!

aproveito que estou a sós roubo um tempo

aproveito que estou a sós roubo um tempo
um espaço sideral um cósmico vento sou
um péssimo ladrão roubo uma letra de
fogo solar da última dimensão uma palavra
de material fundido na primeira explosão
do caos até um pingo da lágrima do
universo que chora ao perder um filho
um brilho não volto dou um passo atrás
doutro doutor não sou nem sócrates sabia
o que era o que conhecia tinha um demônio
tenho uma pinça uma pipeta tenho um
epiteto novo para um velho epitáfio aonde
anda o que traço sem régua sem compasso?
sou só arquiteto não tenho um tento um
evento de engenharia uma olaria um moinho
uma destilaria de alquimia ou engenho de
gênio picareta enxada alavanca qualquer
ferramenta me deram uma caneta melhor
uma esferográfica uma esfera que escreve o
que mais quero? nada me basta essa roda
que gira giro o mundo me basta de qualquer
moda sou antiquado fora do quadro dentro da
pré-história tenho uma pedra lascada na cabeça
que mais quero ter? mais nada me basta ter o
que todo mundo não tem só quero ter o que
ninguém tem só quero ser o que ninguém é
um titã mutante quando pensam que estou
deitado estou de pé para o que der ou vier

BH, 0170802026; Publicado: BH, 0250802026

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

A CRUZ DA ESTRADA, CASTRO ALVES

Caminheiro que passas pela estrada,
Seguindo pelo rumo do sertão,
Quando vires a cruz abandonada,
Deixa-a em paz dormir na solidão.

Que vale o ramo do alecrim cheiroso
Que lhe atiras nos braços ao passar?
Vais espantar o bando buliçoso
Das borboletas, que lá vão pousar.

É de um escravo humilde sepultura,
Foi-lhe a vida o velar de insônia atroz.
Deixa-o dormir no leito de verdura,
Que o Senhor dentre as selvas lhe compôs.

Não precisa de ti. O gaturamo
Geme, por ele, à tarde, no sertão.
E a juriti, do taquaral no ramo,
Povoa, soluçando, a solidão.

Dentre os braços da cruz, a parasita,
Num abraço de flores, se prendeu.
Chora orvalhos a grama, que palpita;
Lhe acende o vaga-lume o facho seu.

Quando, à noite, o silêncio habita as matas,
A sepultura fala a sós com Deus.
Prende-se a voz na boca das cascatas,
E as asas de ouro aos astros lá nos céus.

Caminheiro! do escravo desgraçado
O sono agora mesmo começou!
Não lhe toques no leito de noivado,
Há pouco a liberdade o desposou.