terça-feira, 4 de agosto de 2026

não gosto do que escrevo depois que escrevo

não gosto do que escrevo depois que escrevo
enquanto está aqui mosto dentro de mim morto
o que escrevo morto parece-me até aceitável
depois que vem à luz não é como um filho não
é como uma cria rejeito a criatura não a aceito
como uma mãe que pare depois abandona o
rebento sou desse jeito nunca vou parir do jeito
que quero parir paris nem vou para guarapari
detesto siri não tenho motivos sou mais de
chorar procuro sempre motivos penso que
talvez seja porque jesus chamou-me de morto
falou que sou o que não sabia o que falava ou
o que fazia até pediu ao pai que me perdoasse
porém fiz tanta merda que o pai nem deu bolas
para mim empurrou-me para o concorrente que
veio todo feliz mas quebrou a cara também não
gosto de gente feliz quem pode ser feliz num
mundo igual a este? os micróbios as amebas os
vermes os germes todos os invertebrados
anelídeos unicelulares os vírus os bacilos que
são os verdadeiros felizes felizardos o resto
falsidade hipocrisia falta de realidade mentira
ausência da verdade não gosto do que escrevo
depois que escrevo dum morto tudo já nasce
morto que os outros mortos então enterrem-me

BH, 0100702026; Publicado: BH, 040802026

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

sem pensar escrever alguma coisa sem pensar

sem pensar escrever alguma coisa sem pensar
nem para fazer alguém pensar se for pensar
para escrever ainda ter que fazer alguém pensar
para entender para interpretar raciocinar aí
complica empaca igual burro na estrada igual
jegue teimoso jumento nervoso cavalo
manhoso nem pensar se tiver de pensar estraga
amarrota para quê? pensar? não penso existo
sim penso não existo tenho dúvidas sou
incertezas sem ideias pensar? nem pensar não
tira ninguém do lugar pelo contrário atola o tolo
que pensa na lama no lodo cai com um rodo de
capoeira um martelo no cerebelo dum macaco
um rabo duma arraia bem dado calca o
calcanhar no cacaio põe o besta num balaio da
besta o prego a nadar em rio fundo de pensar
morreu um burro dizia meu avô que sabia dizer
muitas coisas sim senhor acredito não quero
saber de pensar cansativo exaustivo invasivo
degenerativo agressivo abrasivo descartes
descarta aí o pensamento pessoa não aguento
o tormento me obrigam a pensar sem
sentimento sem sentido se todo sentido é
morrer morro logo chamo à atenção sobre mim
meu cadáver sem dilema minha vida sem
poesia minha existência sem poema não quero
não chama o carrasco aí manda descer a mão

BH, 0100702026; Publicado: BH, 030802026

RAYMOND QUENEAU: POEMA À POSTERIDADE:

"Esta noite, 
e se eu escrevesse um poema 
para a posteridade?
Droga!
Que grande ideia.
Me sinto confiante.
Lá vou eu!
E, para a posteridade, eu digo:
Merda!
Merda de novo!
Merda 3 vezes!
Sem dúvida, 
enganei a posteridade, 
que esperava seu poema.
Então, acabou." 

não auscultei meu coração era muito selvagem

não auscultei meu coração era muito selvagem
para uma auscultação se dizia sim o peito dizia
não se se mostrava sangrento molhado o seio
era árido de seco arenoso desértico não dei
ouvidos à sistole à diástole agora sou um sítio
ermo agora um tolo numa colina queimada
numa vereda cinzenta empoeirada num sertão
de cactos palmas espinhos ossadas o sangue
não é mais arterial é sangue ralo porém venoso
pouco ou quase nada rega o corpo que mais
parece um esqueleto de caveira triste que não ri
de vergonha por estar desdentada quando a
chuva voltar dentro de mim cultivarei grama de
jardim flores vivas sempre-vivas nada de morte
de azar só vida só sorte vagarei de sul a norte
de leste a oeste indene onde estiver o vento
com sua rosa dos ventos estarei em poesia em
poema em prosa sempre em oração em reza
forte em prece não mais entristecida alguém
terá que ouvir ao dar ouvidos não olvidados por
mais abissal levantei das cinzas lázaro a correr
ouvi o grito do infinito o eco da caverna a ordem
suprema levanta anda haja vida onde nunca
houve toma essa alavanca esse ponto de apoio
mova o mundo ao rumo dum horizonte novo

BH, 0100702026; Publicado: BH, 030802026