quinta-feira, 5 de novembro de 2026

não falo mais nada pois não sei mais falar

não falo mais nada pois não sei mais falar
quando sabia falar ne calava agora que
não sei mais falar mudo não falo mais
nada nem de útil nem de inútil além do
mais tudo que alguém pensa que tem
para falar já foi falado de todos os jeitos
de todos os lados não falo mais nada nem
a mim mesmo nem de mim mesmo nem
a ninguém nem de ninguém se fosse
alguém não falaria o que valeria a pena
falar toda fala é fala pequena entra num
ouvido sai noutro daqui a pouco aquela
fala já morreu caducou envelheceu o
melhor da vida é calar nem ter nada para
ouvir nem ter nada para falar a vida é
muito ávida rápida breve passageira
corriqueira mal mal dar-se tempo de
beber comer feijão sem sal se bobear
piscou a morte levou no dia seguinte
ouvidos moucos ouvidos olvidos ou
vidas de mercadores o nome nem
sobrenome fulano beltrano sicrano que
se pensava um falador pensador jaz
mudo surdo cego esquecido com o
esqueleto desovado igual graveto
levado pelos ventos assombrados das
cidades fantasmas gameleiras encovadas

BH, 01401002026; Publicado: BH, 0501102026

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

ando a procurar a razão de viver que perdi ao nascer

ando a procurar a razão de viver que perdi  ao nascer
ao bater com a moleira no púbis no cóccix ou no
sacro ao passar pelo portal da vida a razão de viver
minguou em mim nem sabia que tinha de ir atrás
duma razão de viver encontrei a verdade nunca me
passou pela cabeça um único último lampejo de
razão ou doutra qualquer noção ligada à razão
sempre fui desligado descuidado desmemoriado
longe distante dessas querelas racionais lógicas
raciocinais tantas gentes tantãs já falaram em razão
kant frio freud sem brio outras mais debiloides
mongoloides muitas bem mais do que sou soul
peço sos do céu nada desce do chão nada cresce
minha pegada fenece meu corpo perece minha alma
evanesce meu espírito não envaidece meu ser
padece tudo em mim falece como um morto sem
fim o que é vivo tem fim o que é morto não tem fim
minha razão é ruim não cria em mim uma excelsa
luz umas flores duns jardins das florestas umas
relvas das selvas umas folhas das mais nobres
árvores umas criações de criaturas de crianças
quero pôr fim a essas minhas andanças fitas nós
cachos tranças que me cortaram quando também
perderam a razão de viver a fazer lambanças
matam minha esperança no meu berço de bonança

BH, 0401102026; Publicado: BH, 0401102026

terça-feira, 3 de novembro de 2026

AL DI MEOLA:


 

cada coisa que não acontece comigo

cada coisa que não acontece comigo
mas vive dentro da minha cabeça de
bigorna como marretadas às vezes
até entro em parafuso ou num
looping que me causam vertigens
teimo com minha cabeça de prego
como marteladas não é possível
entro em pânico pã não faças isso
comigo é psicológico é psiquiátrico
é paranoico alguma coisa é peço
penico comadre marreco chio mais
que canário da terra foba galo que
foge de rinha apupos vaias
escrachos mais um palhaço sem
picadeiro infestado de ácaros o
barracão úmido devorado por
traças fora outras visitas que
chegam fora de hora sem nove
horas não vão embora tenho que
usar duma artimanha para espantar
espantalho os inconvenientes do
assoalho tudo que me é humano me
causa sarna desumana carma
coceira de cabo a rabo da cabeça
aos pés não vale mais a pena nada
do que é humano ser humano se
tornou sinônimo de pequeno demais
a humanidade diminuiu a raça
humana perdeu o pedigree há muito
tempo parei de sorrir de alegria

BH, 01401002026; Publicado: BH, 0301102026

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

a frase mais capciosa que o universo já ditou

a frase mais capciosa que o universo já ditou
o sapo coaxou a cigarra reverberou o sabiá
cantou o bem-te-vi viu o beija-flor beijou o
rouxinol embelezou o curió curioso curiou o
joão-de-barro arrematou a obra a maria-preta
encantou a rolinha o fogo apagou o canário-
da-terra não chiou lutou até o fim como um
anjo querubim lutou um guerreiro serafim ai
de mim arcanjo caído fiquei a ver navios não
acompanhei os fios da aranha tecedeira na
teia equilibrei na corda bamba caí no orifício
do precipício do hospício em sacrifício por
falta de ofício a mosca pairada no ar me
olhava com desdém pois bem o cara não
soube voar no aquém não sabe voar no
aqui não saberá voar no além vai-te embora
mosca desdenhosa quem ri por último ri
melhor posso não ser nada agora faço o chá
de cipós de ayahuasca te pego pelas asas 
dou-te um nó também sei vingar de quem
de mim quer escrachar diante do pedestal
universal red bull não te dará mais asas

BH, 01401002026; Publicado: BH, 0201102026

duma forma ou doutra dar-te-ei dartanhã amanhã

duma forma ou doutra dar-te-ei dartanhã amanhã
de manhã cedinho num duelo de vilões das vilas
das vilinhas o touché de espadachim com capa
espada de scaramouche ou  tiro de misericórdia
de pistola então vilão cantarei num canto o feito
contarei num conto uma história de espanto
talvez assim quem sabe ocupe um lugar na trupe
ou entre na tropa que use a vaidade o orgulho a
soberba a ambição dou com uma mão tomarei
com a outra se não consegui uso as duas mãos
num arranco de tranco com um trampo te jogo
no chão te dou de tamanco de bota de tacão abro
uma vala com picareta pá enxada enxadão jogo
cal terra rara por cima quando te acharem vão
dizer encontramos uma mina um filão um veio
dalguma coisa serás apenas um boneco de
terracota sem data de validade não terás controle
de qualidade arqueológica quando o sol brilhar
brilharás quando a lua pratear pratearás porém
não serás o sol de dia muito menos serás a lua

BH, 01401002026; Publicado: BH, 0201102026