segunda-feira, 3 de agosto de 2026

sem pensar escrever alguma coisa sem pensar

sem pensar escrever alguma coisa sem pensar
nem para fazer alguém pensar se for pensar
para escrever ainda ter que fazer alguém pensar
para entender para interpretar raciocinar aí
complica empaca igual burro na estrada igual
jegue teimoso jumento nervoso cavalo
manhoso nem pensar se tiver de pensar estraga
amarrota para quê? pensar? não penso existo
sim penso não existo tenho dúvidas sou
incertezas sem ideias pensar? nem pensar não
tira ninguém do lugar pelo contrário atola o tolo
que pensa na lama no lodo cai com um rodo de
capoeira um martelo no cerebelo dum macaco
um rabo duma arraia bem dado calca o
calcanhar no cacaio põe o besta num balaio da
besta o prego a nadar em rio fundo de pensar
morreu um burro dizia meu avô que sabia dizer
muitas coisas sim senhor acredito não quero
saber de pensar cansativo exaustivo invasivo
degenerativo agressivo abrasivo descartes
descarta aí o pensamento pessoa não aguento
o tormento me obrigam a pensar sem
sentimento sem sentido se todo sentido é
morrer morro logo chamo à atenção sobre mim
meu cadáver sem dilema minha vida sem
poesia minha existência sem poema não quero
não chama o carrasco aí manda descer a mão

BH, 0100702026; Publicado: BH, 030802026

RAYMOND QUENEAU: POEMA À POSTERIDADE:

"Esta noite, e se eu escrevesse um poema para a posteridade?
Droga!
Que grande ideia.
Me sinto confiante.
Lá vou eu!
E, para a posteridade, eu digo:
Merda!
Merda de novo!
Merda 3 vezes!
Sem dúvida, enganei a posteridade, que esperava seu poema.
Então, acabou." 

não auscultei meu coração era muito selvagem

não auscultei meu coração era muito selvagem
para uma auscultação se dizia sim o peito dizia
não se se mostrava sangrento molhado o seio
era árido de seco arenoso desértico não dei
ouvidos à sistole à diástole agora sou um sítio
ermo agora um tolo numa colina queimada
numa vereda cinzenta empoeirada num sertão
de cactos palmas espinhos ossadas o sangue
não é mais arterial é sangue ralo porém venoso
pouco ou quase nada rega o corpo que mais
parece um esqueleto de caveira triste que não ri
de vergonha por estar desdentada quando a
chuva voltar dentro de mim cultivarei grama de
jardim flores vivas sempre-vivas nada de morte
de azar só vida só sorte vagarei de sul a norte
de leste a oeste indene onde estiver o vento
com sua rosa dos ventos estarei em poesia em
poema em prosa sempre em oração em reza
forte em prece não mais entristecida alguém
terá que ouvir ao dar ouvidos não olvidados por
mais abissal levantei das cinzas lázaro a correr
ouvi o grito do infinito o eco da caverna a ordem
suprema levanta anda haja vida onde nunca
houve toma essa alavanca esse ponto de apoio
mova o mundo ao rumo a dum horizonte novo

BH, 0100702026; Publicado: BH, 030802026

sexta-feira, 31 de julho de 2026

DAVD BOWIE


 

O MAIOR GIRASSOL DO MUNDO, PAMPULHA LAKE:



 

CAETANO VELOSO:


 

emperrei na encruzilhada empaquei na estrada

emperrei na encruzilhada empaquei na estrada
não disse nada silenciei como se fosse surdo
nem me assustei como se fosse cego
perguntaram-me és mudo? também não
respondi pudera tudo já era tudo jaz como um
cadáver nada mais faz o mundo se corrigir em
qualquer lugar que seja não se é mais um bom
para se viver pois para se viver bem hoje nem é
preciso aprender a viver é preciso aprender a se
fingir de morto um bom fingidor vai longe
ultrapassa o horizonte navega no infinito nem
parece um pecador com dez mandamentos para
defender como ser o melhor dos homens porém
a escuridão escureceu o caminho a luz se apagou
o amor não brilhou a paz mudou de cor o sol não
nasceu se nasceu ofuscou nem à esperança
consegui dar a mão para atravessar a rua o medo
aumentou nem pensei nos questionamentos pois
não tinha argumentos vazio de pensamentos não
posso mais voltar se encontrasse a lucidez o
discernimento que felicidade bonança de
tranquilidade nunca mais a tristeza ia fazer de
mim um choro sem fim só um florido jardim
onde poderia construir um altar para a urna com
as cinzas que agora seria reduzido com o tempo

BH, 080702026; Publicado: BH, 0310702026