segunda-feira, 10 de agosto de 2026

se tivesse a faculdade a facilidade de acordar de manhã cedinho

se tivesse a faculdade a facilidade de acordar de manhã cedinho
como um passarinho acorda no ninho um artesão um profissional
ás nalguma profissão um artífice nalgum artifício de mão de alma
como alguém de espírito como fluem as coisas na fenomenologia
na genealogia na genialidade no universo alegremente de boa
vontade como a dum bem-aventurado também discursar o meu
sermão da montanha a minha parábola do filho pródigo ou dos
talentos ou da viuvinha pobre da única moedinha ou salmodiar um
salmo 23 ou outro salmo qualquer ou igual salomão imortalizar
meus provérbios cantares mas só me encho de lamentações bem
piores do que as de jeremias só me encho de pragas maldições do
egito ou das profecias das bestas apocalípticas não fui dotado de
pegar uma letra de fogo fazer um milagre de pegar uma palavra
escrever numa pedra um mandamento fazer uma revolução uma
revelação impactantes que dissessem ao mundo não nunca mais te
digo sim só não cansei de dizer sim cansei do mundo cansei de
mim sem pomar sem jardim infrutífero um desflorido outro resta
pouco tempo de mim não fiz o que deveria ter sido feito feitiço
macumba encomenda de malungo agora só arrependimentos carrego
dentro do peito sucata de carcaça vazia arcabouço de calabouço de
vácuo arredo-me com um vade retro saio da frente vou para atrás
deixo o raio de sol romper o horizonte ouço o canto do rouxinol

BH, 0150702026; Publicado: BH, 0100802026

domingo, 9 de agosto de 2026

TONINHO HORTA:


 

tua sina foi ao contrário do normal viver deixar morrer

tua sina foi ao contrário do normal viver deixar morrer
pois tiveste de morrer para outros viventes viver porém
continuo morto não soube evitar tua morte a carrego nas
costas como se a carregasse num caixão sou o teu próprio
ataúde esquife sepultura ando ainda como uma múmia
num sarcófago em sacrilégio sinto vergonha da violação
a colisão que foi para mim o conflito aflito a confusão
físico mental que sofri penso que ainda sofro o teu calvário
o teu sacrifício em benefício dum barrabás igual a mim
teu judas sacerdote teu padre omisso poncio pilatus de
mãos sujas até hoje não lavei as mãos sujas da tua morte
do teu cadáver que não foi embalsamado nem banhado
com as minhas profanas lágrimas não te deixarei em
paz como se não tivesses existido não te deixarei
descansar nunca continuarás para mim como um
pêndulo eterno o badalo dum sino infinito como fazias
em tua cama no teu quarto escuro em redemoinhos
serás sempre o meu furacão me sacudirás para não me
deixar dormir lembras? erás o que me arrastavas atrás
de ti agora sou o que ti arrasto atrás de mim até ao meu fim

BH, 090802026; Publicado: BH, 090802026

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

MAHLER: "DAS LIED VON DER ERDE":


 

POESIA SUBURBANA:

POESIA SUBURBANA:
UMA RUA VAZIA ESTÁ SEMPRE CHEIA DE POESIA, CÉU AZUL, BH/MG.




 

não guardo meus poemas dentro da minha alma simplória

não guardo meus poemas dentro da minha alma simplória
pequena não guardo minhas poesias dentro do meu
guarda-roupa para me dar azia por mais traças picumãs
que sejam dou-lhes à luz tirada do limbo do limo do
fogo-fátuo da placenta tiro-as tirolesas ilesas indenes do
fungo do mofo doa a quem doer em mim no alheio no
semelhante não privo minhas elegias da escuridão do
mundo minhas odes às tristezas da vida não consigo
vencer o trapo presidente dos usa porém abomino os
yankees desprezo-os não dependem de mi sei muito bem
disso meu filho chorava quando ouvia evanescence queen
choro quando ouço 14 bis não quero saber porque os usa
também me fazem chorar a história é vergonhosa os
yankees deveriam se envergonhar a minha história também
deve envergonhar muita gente não me faz crescer não me
faz nascer não me faz ser muito pelo contrário me mata
todo dia de manhã de tarde de noite sempre de tristeza
nunca de alegria nunca de contentamento só de melancolia
aí sigo em frente aparentemente como se estivesse tudo
bem como se o mundo fosse um lugar livre para livres
irmãos sem guerras só com paz amor perdão acordo em
pesadelo não é sonho os usa promovem nova invasõ

BH, 0150702026; Publicado: BH, 070802026

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

minha cabeça vomitou um pensamento morto

minha cabeça vomitou um pensamento morto
quente não era pensamento de entidade nem
de gente era pensamento de cérebro doente
ficou ali no asfalto latente o feto do aborto
absorto abstrato passei olhei meu
pensamento morto condenado sem ser
condecorado acorrentado igual cérbero a
cuidar do portal do inferno argos o cão de
ulisses latiu para mim o cão vira-latas que
acompanhava caim em suas andanças pelo
mundo talvez um mendigo imundo coberto de
andrajos cadê teus trapos? não respondas
perguntas com perguntas respondo do jeito que
quiser és um atrevido abusado ousado por isso
marquei-te com ferro enferrujado teu castigo é
não morrer querias a alma do meu irmão a dei-te
agora me pagas assim não te-as-dou mais
outras almas nem a minha nem doutros
amaldiçoados iguais a mim não quero almas
pequenas que não valem a pena sei disso fiz
feitiço encomenda em encruzilhada quem tem
alma que valha a pena nem lembra de ti nem de
mim só as almas sebentas famintas famélicas
que esperam de bocas abertas que caiam manás
acepipes mel leite de rochas bênçãos dos céus as
grandes almas nem agradecem pelo ar que
respiram pela água de beber pela comida de
comer pela vida de viver decidem a própria
morte numa eutanásia na roleta russa da sorte

BH, 0140702026; Publicado: BH, 060602026