sexta-feira, 5 de junho de 2026

gênio da escrita escreve algo genial aí

gênio da escrita escreve algo genial aí
sem realidade virtual sem inteligência
artificial só com a saúde mental corpo
estrutural são sano alma sã carrinho
de rolimã espírito de imã de geladeira
de  geleira consciência total de rocha
milenar a contar a pré-história da
história da pedra lascada pinceladas
rupestres nas paredes das cavernas
pré-platônicas das quais continuamos
prisioneiros acorrentados até nunca
mais donde veio o primeiro do veio 
da realidade está à flor da pela a
inteligência subcutânea o homem
continua virtual artificial superficial
para alguns o planeta ainda é plano a
terra é quadrada ainda a ciência é
ultrapassada a consciência é morta
nada mais importa para que pensar no
que faz a cabeça doer? o cérebro
explodir o crânio fraturar? não existe
nada dentro do homem que vale a
pena explorar nem virtudes princípios
razões quem escreveu em cuneiformes
hoje escreve sem formas fundamentos
argumentos diálogos dialética ética
nada interessa ao homem dito moderno
se puder comprar tudo está tudo bem
compra até a longevidade de matusalém

BH, 0290102026; Publicado: BH, 050602026

de quatro pedimos invasões invasivas aos yankees

de quatro pedimos invasões invasivas aos yankees
vira-latas rabos entre as pernas por intervenções
militares agressivas nocivas nefastas em tudo
prometemos entregar petróleo terras raras outros
minério enriquecidos outros minerais naturais o
país dá adeus até nunca mais temos taras de
loucos para sermos enrabados até os talos somos
uma geração sem pedigree dizem alguns é uma
primavera de entreguistas apátridas dizem outros
são lesa-pátria escrotos ninguém ouve o alerta
fazemos ouvidos moucos olvidos mercadores
senhores senhoras qual nação se deixa levar assim
passiva cativa pacata pelas mãos? cadê o povo
trabalhador brasileiro que não para? cadê o
proletariado brasileiro emancipado que não é
pelego? ninguém nunca mais viu por aí uma
juventude rebelde pois está toda nas igrejas
dominada pelos pastores espera desde jovem os
reinos dos céus deixa fluir entre os dedos das mãos
a vida o futuro a razão da própria nação a geração
que lutava os homens as mulheres envelheceram a
juventude envelheceu junto aceitou o destino agora
é só a zeração em tudo zerou os estudos zerou a
educação zerou o amor zerou o sexo a paz zerou a
cultura a leitura a escrita zerou a vida a civilização
a revolução a evolução a zeração zero zerou tudo aí
vêm os velhinhos espertos poderosos fazem guerras
mandam todos a zeração zero para debaixo da terra

BH, 0310302026; Publicado: BH, 050602026

quinta-feira, 4 de junho de 2026

sou uma cópia um esboço um croqui

sou uma cópia um esboço um croqui
tudo tem seu original não sei aonde
anda o meu estou mal não estou bem
meu original deve estar por aí onde
não sei é uma merda nunca sei de
nada a meu respeito todo mundo já
sabe tudo de mim que sou uma cópia
de má impressão uma maquete
enferrujada uma ponte quebrada um
muro caído uma cidade em ruina
um queijo roído em ruídos assustei
até a minha sombra minha imagem
do espelho máquina emperrada
estragada maria fumaça abandonada
navio fantasma num cais sem cal na
escuridão acharam uma vez um
protótipo deram um nome uns
números mas logo vi que não era o
que sou sou mais falso mais fingido
a verdade não é comigo fizeram em
mim uma alma de carbono usaram um
crayon piche carvão grafite petróleo
bruto cru saí de fininho para a
penumbra pé ante pé nem mesmo me
encontrei ouvi um alguém com um
saci-pererê aos gritos de achei olhei
falei quem dera o saci-pererê tem
história igual ao negrinho do
pastoreio não ficou branco de susto
igual fico quando corro perigo ou
que a verdade a meu respeito vem à
tona tremo flor na haste botão no
caule é agora o meu fim passou um
mata-borrão em cima de mim

BH, 0310302026; Publicado: BH, 040602026

PRINCE:


 

quarta-feira, 3 de junho de 2026

LLEWELLYN MEDINA, A história do homem que amava condecorações:

Era um potestade
arquivou-se em todos os escaninhos
da burocracia
foi subalterno
sub-chefe
depois chefe
foi também diretor-geral
quase chegou a ministro.

Mas o que mais gostava
era de receber condecorações
tinha várias
podia-se dizer
tantas quantas as letras do alfabeto
até "k", "w" e "y"
que a reforma ortográfica desconsiderou
embora continuassem em pleno uso
inclusive para ordenar a coleção
do homem que amava condecorações

Gostava de paradas e solenidades
oportunidade em que se exibia
e sempre se frustrava
quando surgia alguém
com mais condecorações ou medalhas
não se resignava então
nunca se resignou
dizia não entender
como a fortuna pudesse ser tão inglória
consentindo em que outras lapelas
pudessem ser mais luminosas que a sua.

2

O homem que amava condecorações
não perdia congressos
preferia os internacionais
oportunidade ideal
para explicar doutoralmente
o significado de cada uma de suas condecorações
chegava a expressar-se em javanês
surpreendia-se a si mesmo
com o fato de os trópicos terem produzido
luminar de seu jaez

Quase sempre se achava o rei da cocada preta
às vezes sentia-se injustiçado
e incompreendido
reverberando porque muitos teimavam
em ignorar suas qualidades
mais - suas condecorações
 - era inveja - justificava para seus botões.

Periodicamente
fazia publicar na coluna social
nota ou outra sobre suas virtudes
sempre precedida da enumeração
de todos seus ícones
e assim provocava convites
de poeta municipal
vez por outra poeta estadual
e até, pasmem, do poeta federal

Tal era o peso de suas condecorações
que também andava de lado
mas enfrentava galhardamente
o ônus de sua virtude maior.

3

E assim
o homem que amava condecorações
ia levando a vida
até que um dia surgiu outro homem
que amava mais ainda condecorações
amargurou-se
porque nunca imaginava
que fosse possível
alguém amar condecorações
mais do que ele amava.

terça-feira, 2 de junho de 2026

não sei fazer outra coisa nem o que penso que sei fazer

não sei fazer outra coisa nem o que penso que sei fazer
é imenso meu entupimento sem pensamento dos pés à
cabeça engarrafada até tento descolar a decorar jargões
algumas frases de efeitos letras doutros idiomas raras
palavras difíceis possíveis impossíveis porém passo só
despercebido à multidão que foge para um lado estou
noutro neutro máquina com defeito cérebro eletrônico
travado noiado desesperado quem não sabe fazer
alguma coisa um dia na vida chegará mesmo que dure
uma eternidade continuo a cuspir para cima o que
sempre me cai na cara continuamente um dia é um dado
é um dedo é um dedo é um dado é um dia o cuspe cai
numa face viro a outra face lavo o rosto o semblante no
cuspe como num banho de saliva com sal grosso arruda
de guiné espanto os fantasmas aí grito ao infinito um dia
vim vi venci até a mim mesmo coloquei a nocaute sou
meu vencedor onde me impus as maiores derrotas da
humanidade agora começo outra história só que não
vou contá-la do jeito que deveria contar pois pode
ficar igual a todas as histórias que conto de mim não
pode tem que ser por obrigação uma história diferente
não quero ouvir ninguém nunca contar uma história
igual a essa não deve ser verdade deve ser mentira falsa
não importa nem a hora derradeira mas é a minha história

BH, 070402026; Publicado: BH, 020602026

sexta-feira, 29 de maio de 2026

agora a iludir-me parece que sei dalguma coisa

agora a iludir-me parece que sei dalguma coisa
quem te mandou falar isso menino maligno
malino sem destino perdeste o tino? o que foi
que perdeste no palheiro no paiol? o raio de
sol que entrava pelo buraco da telha quebrada
do barraco em cima do barranco onde morava
a minha avó hoje ninguém mais tem avó avô
nem pai nem mãe nem irmão nem irmã hoje
ninguém tem nada só solidão quem te mandou
dizer isso menino com cara de assassino
mataste passarinho no ninho é por isso que
estás em redemoinho fuinha que quando vem
não traz a remissão continuas sem perdão
condenado sempre a lembrar dos teus malfeitos
aleijões defeitos muito pelo contrário fechavas
o coração para tudo para todos quem era cristão
pareces que até adivinhavas a atual situação onde
cristão hoje é sinônimo de tudo que não presta
até deus sumiu jesus fugiu nas trevas corrias o
risco de ser crucificado outra vez como
comunista mas viram a fria que entraram ao
querer amar ao mundo amar ao homem dessa tal
maneira como não são amados o mundo o homem
não conhecem a reciprocidade então foram
deixados de lado a apodrecer nas próprias vaidades

BH, 0310302026; Publicado: BH, 0290502026