quarta-feira, 24 de junho de 2026

todos sentimos orgulhosos quando fazemos as coisas

todos sentimos orgulhosos quando fazemos as coisas
por mais simplórias piegas insignificantes que sejam
fazemos coisas ou por ambição ou por provação ou
por meta seja lá porque for fazemos as coisas mesmo
quando não as fazemos por amor ou as fazemos para
acabar com a paz com a felicidade de alguém pois
algo que incomoda é a felicidade alheia a paz do
semelhante que não diz respeito a nós nos incomoda
demasiadamente quero quebrar um recorde quero
cometer um ato terrorista quero envenenar alguém
quero fazer algo de ruim tudo que não presta só não
quero fazer o bem só não quero ser bom quero ser
egocêntrico ególatra o senhor do universo o dono do
planeta não me importa quantas vidas vou ceifar não
importa-me o que vou destruir para chamar a atenção
sobre mim não consigo passar um dia sem assar uma
pessoa em defumação sentir o cheiro da carne
defumada da picanha maturada em fogo brando
depois vou rir no jardim no meio das flores de barriga
para cima deitado nas relvas me esconder atrás da
porta a pensar no mau que sou a refletir no mal que
fiz para a maldade criar raiz ninguém nunca deixará
de se impressionar de se refletir a respeito da maldade
cultuada aqui na ternura no sorriso no olhar infantil

BH, 0170302026; Publicado: BH, 0240602026

quinta-feira, 18 de junho de 2026

não tenho nada a dizer à humanidade do mundo

não tenho nada a dizer à humanidade do mundo
não sou pregador não sou poeta não sou profeta
nunca tive um ditado como ditavam os professores
nos tempos de escola nunca tive um livro capítulo
um versículo como os pastores nos tempos de igreja
nunca tive um verso uma estrofe um samba de
partido alto como nos tempos da boemia ou uma
seresta ou uma serenata cantadas diante duma
janela nos tempos das namoradas por ora tenho
outras coisas menos saudosas menos nostálgicas
são mais preocupações mais preconceitos são
sentimentos mais graves mais agudos doloridos
que causam depressões como o racismo a violência
contra as mulheres nossas mães as desigualdades
as injustiças então como não sei o que dizer fico
mudo nem adiantaria abrir a boca para falar alguma
coisa ninguém daria ouvidos o ser humano nunca
deu ouvidos nunca foi sensato a raça humana sempre
desprezou o humanismo as palavras libertadoras as
letras rebeldes revolucionárias as expressões
idiomáticas salvadoras esperançosas as frases geniais
as sentenças fenomenais não impediram o absurdo
sempre aparece um george bush um donald trapo um
bolsonaro nada humanos de vez em quando um ser
raro das profundezas celestes um lula de consciência
total um polvo libertador de povo porém não a todo
momento só de vez em quando ao tentar trazer um
pouco do conforto do amor da paz de mil em mil anos

BH, 0120302026; Publicado: BH, 0180602026

no escuro do quarto escuro homem escuro obscuro

no escuro do quarto escuro homem escuro obscuro
obtuso não percebi nem a luz do toco de vela nem
o frufru da cortina da janela sujo o lençol sujo a
cama suja o quarto sujo o mundo está sujo não
desejo um mundo limpo se cada alma é mais suja
do que um ânus para que o mundo não seja mais
imundo do que é é preciso higienizar as almas do
mundo sem almas limpas o mundo nunca será
limpo percebi agora que a energia voltou a luz da
sala reacendeu porém procurei permanecer sozinho
no escuro da minha escuridão não me levantei para
acender a luz do quarto no breu não sinto a sujeira
nem me sinto um eu lírico prefiro prefiro
permanecer físico sem ânimo para viver o mundo é
dos mortos deixo o mundo com seus mortos não
quero entrar na história já tenho os mortos do meu
mundo comigo carrego-os sozinho num ataúde do
tamanho do infinito pesam toda uma força de
gravidade pesam todos uma teoria da relatividade
uma conjectura escondida antes do big bang a vida
começou num tiro até hoje o universo está sujo de
pólvora porém o brilho das minhas ancestralidades
africanas dos meus antepassados africanos permanece

BH, 090402026; Publicado: BH, 0180602026

CLEMENTINA DE JESUS: