quarta-feira, 30 de março de 2022

às vezes fico assim gentes parceiras parceiros de deus

às vezes fico assim gentes parceiras parceiros de deus
a procurar sem saber o que encontrar sabeis que é
como se o ar sumisse dos pulmões as nuvens do céu
da boca as palavras ficam mudas sem letras sem
formas sem fórmulas olho à procura dum olhar não
encontro nem mesmo um olho seco ou um olho de vidro
ou um olho grande ou um olho gordo ou um olho morto
de peixe cego ou um olho de assassino vago vazio no
vagão da locomotiva na contramão a luz no fim do túnel
é um outro trem que vem na minha direção o meu
comboio acelera cada vez mais agora fecho os olhos
para não sentir a colisão é tarde demais ou nunca mais
como cantou o corvo meus pedaços espalharam-se no
infinito nem gritei de dor pois não deu tempo de acionar
a minha voz que já estava sufocada enforcada nas
minhas cordas vocais nem urros nem sussurros nem
soluços nem suspiros só espirros de resfriados de
febres de calafrios arrepios no cadáver em cima da
lápide da campa de plataforma a sustentar pelas
pilastras veredas colinas de golan finquei o pé na
terra do pé de serra do meu espinhaço a medula
estremeceu o esqueleto o tutano correu de novo
no interior dos ossos como se os ossos fossem
pneumáticos o cadáver levitou como se leviatan o
sustentasse ou como se estivesse vivo com
frêmitos na pele de ser diáfano abriu a fímbria
da vida na atmosfera desapareceu no tempo

BH, 0190802019; Publicado: BH, 0300302022.

o que poderia escrever que ainda não foi escrito?

o que poderia escrever que ainda não foi escrito?
o que poderia falar que ainda não foi falado? o
que poderia dizer que ainda não foi dito? o que
poderia pensar que ainda não foi pensado? nada
mais resta a fazer ou a inventar ou a revolucionar
não há mais nada de novo nem abaixo dos céus
nem acima de todos os céus dos céus a
humanidade volta-se à desumanidade a razão à
desrazão o sossego ao desassossego e nem as
ossadas os ossos ancestrais as caveiras dos
consagrados esqueletos dos antepassados estão
resguardados não sabemos aonde andarão os
nossos ossos de estimação perdemos contato
com o sobrenatural assombrações as culturas
alienígenas extraterrestres nada mais trará o
homem de volta à evolução da espécie o homem
emperrou-se na involução da espécime não se
curou passou as estigmatizações de gerações
em gerações a maldade hereditária a ruindade
genética a perversidade herdada volta-se ao
subsolo do subterrâneo o pouco que se suspirou
de pureza de clareza de liberdade e volta-se
ao manto da caverna o prisioneiro para ser
acorrentado às paredes cavernosas dos
calabouços não se ouvirá mais os soluços
das flores das fontes d'águas cristalinas os
prisioneiros ficarão prostrados nas lápides
nuas envoltas nas penumbras das trevas
engendrados intrínsecos latejarão no casulo
com a esperança a amadurecer para ressurgir
a sorrir no azul

BH, 0180802019; Publicado: BH, 0300302022

estou muito triste penso que

estou muito triste penso que
num dia de luta estou muito
triste deveria estar em luta
com os demais companheiros
não estar aqui a escrever o
que não é luta deveria estar
alegre como quem luta com
consciência consciente por
suas causas peguei este
papel esta caneta nem sei
para que se nada tenho a
dizer ou a escrever gostaria
era de estar em fúria em febre
com adrenalina nas veias
testosterona no sangue libido
tesão fibras proteínas
músculos ossos nervos
ânimo disposição atitude
mas não estou aqui prostrado
cadáver em adiantado estado
de decomposição não consigo
pensar em nada sinto que o
fim está próximo que será
um fim melancólico bem que
poderia ser um fim como o
dum bandido sanguinário ou
matador de aluguel ou
estuprador inveterado falado
temido respeitado por todos
não o fim dum cidadão comum
pacato medíocre simplório que
nenhum ser humano dá a
mínima atenção pasmeis
pasmados este sexagenário
ainda algemado ao passado
a sofrer as agruras dos tempos
idos sem conhecer a liberdade
da verdade  preso nas ferragens
das colisões intergalácticas às
correntes dalgum fantasma
oculto nas fímbrias das sombras
nos elos das correntes
sobrenaturais das penumbras

BH, 0130802019: Publicado: BH,  0300302022

terça-feira, 29 de março de 2022

não escrevo nada de agradável leitura.

não escrevo nada de agradável leitura
mas quem escreve ganha prêmio nobel
de literatura se tiver um dia de ganhar
um prêmio nobel de literatura creio que
o ganharei depois de morto por literatura
psicografada já que em vida nada deixei
talvez prêmio nobel seja só para literatura
certinha escrevo por linhas tortas de
garranchos errado só deus escreve certo
por linhas sinuosas minha mãe dizia que
não que deus escrevia certo por linhas
certas não sabia como fazê-la entender
a metáfora ainda não sei a minha mãe
não deixou nada escrito se tivesse
deixado com certeza teria ganhado o
prêmio nobel de literatura penso que no
momento só um brasileiro merece ganhar
o prêmio nobel de literatura que é o
francisco buarque de holanda o prêmio
nobel da paz quem merece é o nosso
maior melhor presidente luiz inácio lula
da silva preso político encarcerado numa
solitária em curitiba para beneficiar o
miliciano jair messias bolsonaro um
invertebrado que a nefasta sociedade
brasileira escolheu para presidente da 
república federativa do brasil que acabou
por virar uma babacolandia terraplanista
negacionista chacota nos quatro cantos do
mundo de forma assombrosa vergonhosa

BH, 0140702019; Publicado: BH, 0290302022.

obrigado ao divino espírito santo de deus por ser racional

obrigado ao divino espírito santo de deus por ser racional
obrigado ao divino espírito Santo de jesus cristo por ser
de esquerda obrigado aos divinos espíritos santos dos
anjos da guarda celestial da qual farei parte um dia por
ser um ser humano da raça humana que compõe a
humanidade por carregar em mim sentimentos sentidos
percepções intuições lucidezes virtudes reminiscências
convicções e mais por ter consciência crítica
conhecimentos discernimentos sabedorias sapiências
penso que  seja o único a vangloriar de ter a sabedoria
superior de nunca não saber ganhar dinheiro apesar de
ser cheio de dons que muitos seres humanos não têm
penalizo-me por esses seres nos meus cantos das
centenas de canções de cabeça nos romances cerebrais
os imortalizo em milhares de poesias os eternizo noutros
milhares de poemas os simbolizo noutros milhares de
textos só nasci para isto não nasci para outra coisa
quando evoluir ninguém mais me conhecer quero nascer
de novo para fazer tudo outra vez quando morrer
novamente abrir-me no limbo para todos os
psicografadores médiuns espíritos espiritualistas
espíritas já tenho a certeza de que o que acabei de lavrar
nesta escritura de folha branca encardida de papel é uma
psicografia de mim mesmo orgulho-me por isto por esta
presença atitude de mim neste momento solene este ser
universal digo amém amem a todos como se convêm 

BH, 070702019; Publicado: BH, 0290302022.

segunda-feira, 28 de março de 2022

a poesia é como as nuvens pousadas

a poesia é como as nuvens pousadas
nuns fios a fazer poses quando se
torna a olhar já mudaram de lugar
agora são poemas a voar na vastidão
do céu sem nuvens no azul do
firmamento bebo cervejas com ovos
crus nesse momento é dia de
domingo estou sozinho à mesa da
cozinha os pombos crocitam ao
longe bato com alguma coisa na
calha os sinto bater asas em
revoada agora só o silêncio o vento
juliano nenhuma música qualquer
nem nas distâncias aonde andam
as músicas chega-me a triste notícia
da morte do nosso maior músico é
por isso que este domingo está assim
meio ressasabiado oiço o bater duma
porta ou de carro ou de casa ou
portão ou janela alguma coisa a fazer
ruído para lembrar que o domingo
está vivo além dumas vozes além
duns tossidos ressequidos se fazem
ouvir dum quarto qualquer tudo gira
a voar como a poesia tudo paira no
ar como um poema só não é poeta
quem não quer mesmo que seja um
poeta menor a menos só não bebe
cervejas com ovos crus quem está
doente o vento brincalhão levanta
as folhas de papel faz questão de
chamar-me a atenção cães latem
param voltam a latir vestígios de 
joão gilberto me tornam vir à mente
penso que muitos choram neste
momento chega a saudade que
será agora para sempre eterna

BH, 070702019; Publicado: BH,  0280302022.

não imaginaria que o país se transformaria

não imaginaria que o país se transformaria
numa republiqueta fascista de última categoria
a homenagear torturadores e generais ditadores
oficiais nazistas agora com a nação capitulada
numa babacolandia com os componentes a
falar aberrações ou a pedir bizarrices ou a
demonstrar bisonhices abertamente sem
ruborizar-se com cada ser mais tacanho
macabro do que o outro que faz com que os
demais sintam-se isolados ou fora de contextos
ou fora da bolha é inacreditável assalariados
ou que ganham pouco mais dum salário mínimo
a defender ou a justificar o fim dos direitos sociais
trabalhistas com argumentos de que noutros
países não há isso é de doer tais absurdidades
com loas à doação de quem não tem nada para
os que têm tudo de bom da burguesia da elite da
plutocracia não faz sentido realmente o próprio
povo pedir o fim da cidadania da soberania e da
própria autonomia a intervenção doutros países
assim toda uma geração de jovens com suas
energias genialidades fenomenologias ousadias
audácias fé se perde sem perspectivas ou
oportunidades ou é dizimada nos guetos ou
favelas aglomerados das periferias subúrbios
nas matas nas florestas as queimadas
intermináveis as expulsões dos indígenas
donos das terras os assassinatos das
lideranças das nações nativas dos povos
originários dos defensores das causas naturais
do meio ambiente está o país está doente volta
à estaca zero com todos os monstros que
saíram dos porões ou desceram dos sótão
do atraso crônico  

BH, 040702019; Publicado: BH, 0280302022. 

domingo, 27 de março de 2022

Eu, Coyote Beatz e Djonga.

'To numa casa grande cercado de amigos
Amigos? Só tô numa casa grande
Narrei seu mundo igual Galvão, me amaram pique Silvio Luiz, ó
Vou terminar igual Casagrande
Cuidei de todo mundo e esqueci de mim
A rua quis fuder comigo, ela era minha amante
Menino, olha o que fizeram com Luther King
Quem caça Simonal, caça Bob e caça Gandhi
De passar batido, primo, eu sempre passei longe
Fui passar passando pelos cana' e parei onde
Fede mijo e sangue, ainda bem que foi só uma noite
Admiro os cria' que tiraram mais de onze ano'
Desgraçado tirou o resto da minha inocência
Eu nem vi passando e acabou minha adolescência
O que é seu, é seu, inclusive suas conta'
Acerta com Jesus, que injustiça é consequência
Antes de ser eu, eu sempre quis ser nós
Agora só quero ser nós sem deixar de ser eu
Entendi a diferença entre o líder e o boss
É que um brilha se tu for luz, o outro brilha se tu for breu
Humano demais pra ser tão bom pra você
Humano demais pra não acertar e assumir
Humano demais, esse é seu ídolo
Humano demais pra não aprender com isso aqui
Sou tão só, tão eu
Sou tão só, tão eu, é
Tão eu
A vingança é aquele prato que 'cê come frio
Na vitória são vários pratos e uma mesa cheia
A derrota é um prato raso e eu comendo sozinho
'To tipo Jonas perdido no bucho da baleia
Eles te fazem Messias, mas preferem Barrabás
E diferente de Pilatos, não lavo minhas mãos
Fiz a multiplicação do peixe no bolso
É o peixe no bolso que ajuda a multiplicar o pão
Antes era pouco sapato, hoje até gente tem no meu pé
É o que justifica o cheiro do chulé
Confiei demais, só depois vi que
Nem todo bicho de goiaba, goiaba é
Desde criança querem meu CPF no lixo
Tentou me cancelar, chegou atrasado
Uns dia' pra trás, olhei no fundo do olho da morte
Sem entrar em detalhes, sorte que eu ando armado
O espinho vem pra te mostrar que nem tudo são flores
Coisas que me disseram numa esquina dessas
Se orienta, moleque, às vezes passa batido
Mas a vida não é um teatro e nem tudo é as peça'
Fácil lidar com o barulho que faz os convidado'
Foda é lidar com o silêncio que vem no fim da festa
E é o silêncio que me diz que apesar do sucesso
Eu sigo com a corda no pescoço e com a mira na testa
Humano demais pra ser tão bom pra você
Humano demais pra não acertar e assumir
Humano demais, esse é seu ídolo
Humano demais pra não aprender com isso aqui
Sou tão só, tão eu
Sou tão só, tão eu, é
Tão eu
"Ganhei o mundo quando perdi a mim mesmo
Perdi o jovem eu, perdi aquele cara cheio de tesão, bem louco e aventureiro
Quer dizer, continuo maluco, mas só maluco"
Sumi das rede', o pai nunca 'teve tão on
Deitei na rede, olhei pro céu e agradeci
Na boca do povo 'cê se acha o bala
Mas foi no olhar da' minhas criança' onde eu me reconheci
É, mais de cem mil nos trend' do Twitter
Na rua ninguém, não vou levar vocês a sério
Se o assunto é hipocrisia, nós tamo' empatado
O foda é que o desempate eu já sei o critério
O tamanho da minha ambição 'cê não mede o quanto
Eu 'tive meditando e juro que não mede pouco
Às vezes penso em deixar essas fita' mei' de canto
Bem antes que eu me acabe mei' frustrado e mei' que louco
Já fui camisa nove, hoje eu faço o meio de campo
Pros manin' que 'tá no ataque não tomar nem mei' pipoco
Quiser caô comigo, cagão, então vem quicando
Sou preto no Brasil, qualquer mal pra mim é pouco
Ganhei tanto dinheiro que vi que o problema não é o dinheiro
É justamente a busca por dinheiro
Meu Deus, me perdoe e deixe entrar no Céu
No buraco da agulha eu quero ser o camelo
"Eu acho que tem pessoas que já foram de baixo talvez de outras encarnações
E que nessa já estão num patamar superior, mas não é meu caso, entende?
Eu não, eu chafurdei na lama mesmo, entendeu?
Eu sou o que há
Não é humildade dizer isso, não, que quem conhece e sabe de mim sou eu
Eu sei o quanto eu sou sujo, mesquinho, avarento, invejoso, irado, desconfiado
E qualquer coisa a mais que 'cê possa botar covarde, entendeu? Mentiroso
Eu conheço, acontece que eu não gosto"

quem resguardará a amazônia as florestas.

quem resguardará a amazônia as florestas
o povo das florestas? quem nos livrará dos
agrotóxicos? quem protegerá as terras as
reservas as aldeias tabas ocas indígenas?
deprimido totalmente em depressão
garanto que não poderei fazer nada nem
tenho como fazer alguma coisa sou o mais
ineficiente dos que poderiam fazer alguma
coisa estamos todos em riscos com os
donos do poder o único que não tem poder
nenhum é o povo foi parte do povo que
delegou o poder aos donos do poder é o
povo que ainda os paga os sustenta com
os seus impostos é o povo o primeiro a
levar fumo na bunda em qualquer
eventualidade balas de borracha na cara
cassetetadas no lombo spray de pimenta
gás lacrimogêneo balas perdidas de
supostos tiroteios mesmo assim o povo
não aprende que é soberano que é cidadão
que tem cidadania que tem poder que pode
com o poder do povo enquadrar os falsos
donos do poder ou usar o seu poder numa
desobediência civil ou numa conscientização
geral tal um por todos todos por um ou a
sacudir o tabuleiro do sistema ou igual a um
cachorro molhado ou pele de burro que
treme sozinha ao espantar as moscas não
esse excremento onde as moscas pousam
depositam suas larvas no dia o qual o povo
quiser a elite treme a burguesia gela a
plutocracia se cala a cleptocracia vai toda
para a cadeia o sistema cai pelas mãos
calejadas do povo trabalhador brasileiro
que precisa se levantar numa emancipação

BH,  040702019; Publicado BH, 0270302022.

sexta-feira, 25 de março de 2022

de dentro das catacumbas os esqueletos chacoalham os ossos.

de dentro das catacumbas os esqueletos chacoalham os ossos
as caveiras riem com seus dentes à mostra para o tempo
cavernoso o bolor que envolve os fósseis desenhos pinturas
rabiscos de escritos rupestres que deixamos nas paredes
sucateadas das carcaças das cavernas pré-históricas os
fantasmas ficam a pensar que ninguém mais é capaz de
impregnar umas paredes rudes com coisas indecifráveis que
chamarão a atenção do futuro os ectoplasmas sabem que
nada mais impressionará nada todas as vidas todas as
mortes serão vazias não serão densas ou fortes ou compactas
como um choque intergaláctico ou uma explosão no caos a
revelar o fogo tudo que se pensa impressionar é supérfluo
descartável sem impressão faz-se algo hoje aqui o hoje não
será aquele eterno de antigamente findará amanhã mesmo
sem reverberação pelo tempo o próprio tempo perdeu a
dimensão o pensamento perdeu a infinitude não transpomos
mais as barreiras da mediocridade afogamos na medianidade
quem hoje olha no olhar de quem? quem procura um olhar
para espelhar o seu olhar? todos fugimos dos olhares de todos
saio à luz do dia a procurar uma poesia volto triste de mãos
vazias ainda bem que chamou-me à atenção aquela
borboletinha amarela no seu voo de sinuosidade de alegria
para salvar meu dia.

BH, 0130602019; Publicado BH, 0250302022.

estou sentado no chão a olhar o pai

estou sentado no chão a olhar o pai
sentado num banco à mesa da cozinha
sol bate em cima da mesa venta um
pouco oiço voz de menino a brincar
com carrinho no quintal da casa da
vizinha tento decifrar o som da voz do
menino não entendo nada no momento
estou calmo mas já perturbei bastante
à mãe ao pai o pai é uma besta que
vive a escrever pelos cantos recantos
da casa que parece mais é uma casa
mal-assombrada habitada por
assombrações estou cansado de ouvir
mãe dizer que já viu fantasmas vultos
sombras nunca vi nada acabei de
esparramar-me pelo chão da cozinha
como uma batatinha quando nasce
estou vestido com uma camiseta
branca sem mangas com estampa de
tributo a michael jackson que era do
pai dos tempos que frequentava o
movimento black soul uso uma bermuda
de pano fino vermelha estou descalço
pois não gosto de usar nem chinelos
nem sapatos a mãe saiu para ir à rua
irritadíssima comigo com razões é que
hoje não dei tréguas a ela não perturbei
o pai é incrível mas o deixei com as
mortes dele a impregnar o papel com as
suas futilidades não me interesso por
nada do contrário até leria o que o pai
escreve ali naquele monte de folhas de
papel mas não deve ser coisa boa uma
vez o vi mostrar ao irmão para ler o irmão
nem deu bolas pensei que foi muito bem feito

BH, 0130602019; Publicado: BH, 0250302022.

quinta-feira, 24 de março de 2022

o país perdeu a vergonha na cara BH, 0130602019; Publicado: BH, 0240302022.

o país perdeu a vergonha na cara
na china criminosos são executados
em campos de futebol aqui criminosos
são ovacionados em campos de futebol
a sociedade não se indigna presidente
da república faz selfie com estupradores
o país perdeu a vergonha na cara juízes
promotores em promiscuidades para
acusar sentenciar prender inocentes o
estado pensa ser normal milicianos em
ações grupos de extermínio o crime
organizado sem combate quadrilhas de
parlamentares eleitos com o fim de
dilapidar os cofres públicos o povo
passivamente abre mãos do trabalhismo
do trabalho do trabalhador abraça o
neoliberalismo corrosivo aplaude as
privatizações predatórias pede o fim das
aposentadorias com a reforma da
previdência que mais parece que
deforma o povo aceita pacatamente o
fim dos direitos sociais agora nada
derrubará esse modelo de devastação
nacional implantado no comando da
nação só quando estivermos
literalmente com as calças nas mãos é
que perceberemos de verdade que
será tarde demais não teremos como
tomar posições contra esse regime
fascista simpatizante de nazista racista
cujo presidente nefasto vive em repasto
com néscios ímpios escarnecedores

BH, 0130602019; Publicado: BH, 0240302022.

camaradas pedradas na cara do sistema, BH, 020602019; Publicado: BH, 0240302022.

camaradas pedradas na cara do sistema
lapidações nas cabeças do sistema somos
nós que temos que dar tapas nas faces
fascistas do sistema não o sistema a dar
tapas socos murros porradas nos nossos
rostos somos nós que sustentamos o
sistema não o sistema que nos sustenta
então camaradas é só chutes nos gorilas
do sistema é pôr abaixo a burguesa bater
forte na elite que quer acabar com a
periferia é brigar todo dia por nossa
democracia a soberania somos nós a
cidadania somos nós pois querem nos
impor o que devemos ser camaradas
pedradas lapidadas nada de abaixar
mostrar o rabo nada de expor a bunda
para levar pontapés o jogo é sujo é bruto
o jogo é baixo o trabalho imundo do
sistema só quer levar vantagem em cima
de quem faz o trabalho imundo mal
remunerado para o sistema agora ao
sistema somos nós quem vamos ditar as
regras do sistema é pau é pedra é prego
é martelo é marreta é o fim do caminho é
toco é soco é cotovelada é ocupação
para a revolução ou seremos engolidos
ou viraremos suco ou carne de segunda
moída ou ração de cão quando
deveríamos ser carne de pescoço nunca
seremos nação de povo rebelde
independente nunca teremos um país
infinito que o sistema quer fazer finito nós
o povo trabalhador temos que fazer bonito

chega de escritinha bonitinha certinha BH, 020602019; Publicado: BH, 0240302022.

chega de escritinha bonitinha certinha
dentro dos conformezinhos das boas
impressõezinhas basta então de
letrinhas palavrinhas docinhas agora
é só palavrões letrões de baixos
calões para quem quiser têm bíblias
aí na estante fica à vontade que vou
desconstruir vou desvirginar quebrar
cabaços cabeças cabaças nada de
poesias certinhas dentro dos
estilinhos de poeminhas pieguinhas
simploriozinhos ora bolas cansei de
pautas normais agora só pautas
bombas putas muitas putas mais
putas é o que o mundo precisa
desde que o mundo é mundo
imundo é o que sobressai mais do
que o asséptico duma vez por todas
parei de pecados de culpas de
sentimentos de remorsos de
arrependimentos já estou de
passagem no fim da jornada agora
é acelerar o processo
celeradamente que atrás vem
gente é preciso ceder para quem
também precisa viver dois corpos
não ocupam o mesmo lugar no
espaço deste universo para
destravar liberar o firmamento é
arregalar os olhos engolir o azul
encharcá-lo de álcool para que o
azul nunca mais saía de dentro
do bojo anil no qual foi engolido

não quero ser entendido por ninguém BH, 020602019; Publicado: BH, 0240302022.

não quero ser entendido por ninguém
nem muito menos por alguém também
não quero entender nada se pudesse
pelo menos um dia na vida venceria a
mim mesmo não teria mais motivos de
desprezo de depressão de pânico nem
pediria penico aflito em praça pública
em qualquer situação parece que todos
querem que entenda alguma coisa se a
coisa mais insignificante nunca consegui
entender sabe duma coisa não quero
saber de coisa nenhuma ficar dentro de
casa é um saco a coçar o saco sem
nada para beber nem aguardente nem
água abençoada nem água benta
sozinho a escrever feito um neandertal
que sem saber deixa poesia rupestre
nas paredes de suas cavernas a matar
de inveja os tirados escritores ou poetas
pintores ou outros porras mais loucas
quem quiser fazer alguma coisa vai
primeiro aprender a fazer uma escrita
cuneiforme ou então tomar no botão
não faças nada tens aí o que registado
em tua gruta? tens aí o que fossilizado
nas estrias dos teus envelhecidos
mofados ossos? não apresentas nada?
nem o limo dos sacórfagos nem o mau
cheiro das múmias? ora volta ao caos
pega carona num meteoro desvia a rota
salva os dinossauros da extinção

terça-feira, 22 de março de 2022

infelizmente hoje não beberei BH, 060202019; Publicado: BH, 0220302022.

infelizmente hoje não beberei
é muita infelicidade num dia
tão bonito assim não se ter um
para se beber umas cervejas
geladas muitas cervejas geladas
pois cervejas geladas não podem
ser poucas nem consumidas com
moderações respondo por mim
não sei o que pensam os outros
nem quero saber o que pensam
os outros condenam ou não o
que quero é beber cervejas
geladas muitas cervejas geladas
a melhor invenção do mundo foi a
cerveja gelada então ficou a
perfeição se não fosse útil não
teria sido inventada ou nem
descoberta por alguém ou por
ninguém não nego que às vezes
bebo demais misturo tudo todas
dou vexame vomito na presença
dos semelhantes fazer o quê?
amanhã tenho que beber mais
seguir quem bebe seguir o
conselho dos melhores
bebedores dos que sabem
realmente beber ir parar numa
delegacia de vez em quando
para explicações averiguações
por brigar ou bater ou apanhar
por causa das bebedeiras são
cousas mais do que normais
não são nem para envergonhar
ninguém ou alguém aqui ou no
aquém ou no além amém pois
deus perdoa quem mata quem
rouba quem blasfema cobiça a
fêmea alheia deus não perdoará
um miserável dum bebedor de
cervejas geladas? um desgraçado
que para mais nada serve na vida
nem para ser um velho safado a
correr atrás dos rabos de saias
baratos das putas dos muros ruas
de cantos escuros dos subúrbios

realmente é o fim dos tempos BH, 020602019; Publicado: BH, 0220302022.

realmente é o fim dos tempos
a nossa geração a se despedir
com o terraplanismo que o
aquecimento global vem dos asfaltos
que a força da gravidade inexiste
que jesus cristo estava numa
goiabeira mas deus enviou em
pessoa uma besta do apocalipse
para presidir o país a nossa geração
está a se despedir assim
melancolicamente com a destruição
dos trabalhos dos trabalhadores do
trabalhismo redondamente
confundidos com o comunismo ou
com o socialismo ou com qualquer
outro conceito com viés ideológico
tudo que é progressista é posto por
terra abaixo nessa nova desordem
nacional justificada por combate
político até mesmo a inteligência
ou a sabedoria ou a filosofia ou a
ciência ou a genialidade como
querem fazer com o banimento da
memória do nosso professor paulo
freire a nossa geração está a se
despedir com o estrago feito que
será irreversível se não for parado
imediatamente o modelo instalado
por parte do povo apolítico
analfabeto político omisso brasileiro
a nova geração que ocupará o
nosso lugar será funcional sem os
jovens geniais rebeldes de
antigamente sem cinemas sem
romances sem poesias sem
poemas sem poetas ou bibliotecas
ou museus será uma sociedade
acéfala sem memórias ou
lembranças recordações ou
nostalgias serão cabeças de
bitolas cérebros de planilhas
rebimbocas das parafusetas

fico impressionado com as coisas que não impressionam a ninguém BH, 020602019; Publicado: BH, 0220302022.

fico impressionado com as coisas que não impressionam a ninguém
penso que sou mesmo o único idiota as coisas que impressionam a
alguém a mim não têm efeitos nenhuns chego à conclusão de que
sou mesmo o único idiota não tenho rádio não tenho tv o
computador é estorvo para mexer celulares e tablets
embananam-me como se fossem umas conjecturas sem
soluções jornais não os uso mais nem para limpar a bunda
contundo-me como entender como foi colocado um rotundo no
poder quero ficar aleatório não consigo não posso viver num
dormitório preciso acordar a sociedade antes que seja tarde mas a
sociedade está sonâmbula anestesiada por igrejas pronta para uma
eutanásia geral ou uma arrebentação de lobotomizados ostomizados
invertebrados que perdem direitos não ficam nem assombrados
detestam ser confrontados pedem para não falarmos em política
defendem seus pontos de vistas cegos mesmos sem fundamentos ou
sustentações fogem dos debates ou querem agredir ou impedir o
contraditório o contraponto meninos vi é o fim da picada vi uma faixa
em defesa da educação ser retirada da fachada duma universidade
por mitotauristas defensores do mitotauro que saiu do labirinto

as vasilhas areadas estão expostas ao sol a secar BH, 020602019; Publicado: BH, 0220302022.

as vasilhas areadas estão expostas ao sol a secar
um aroma de gordura despende da cozinha a
lixeirinha está abarrotada o móvel da pia não tem
forro de fundo a porta é arrematada com durex
igual a do banheiro uma lasca de madeira prende
o portal de entrada da sala de estar de visitas
pregos enferrujados por quase todos os cantos
paredes dos cômodos o que é usado por cozinha
falta uma parede é constantemente invadido por
pombos que sujam tudo o cão concorrente vive
mais dentro de casa do que do lado de fora
algumas vezes já o peguei a mijar nas paredes
mas é o preferido o preterido é o que escreve
ontem li alguns poemas do velho safado fiquei
com inveja quase joguei fora todos os meus que
chamo de poemas até jurei que nunca mais
empunhetaria uma esferográfica atmosférica
para uma masturbação poética já sexagenário
estou aqui sem aprender sem cumprir nada a
querer gerar poemas de escritos escrotos de
poesia fria não tomo vergonha nesta carranca
medieval medonha de meliante neandertal de
embarcação de viking o ronco do avião me
acorda onde estava mesmo? voltei a dormir
com dor de dente de cabeça a coluna
arregaçada quase não consigo me locomover
como lagarto louco soturno pelos corredores
noturnos do hospício abandonado

"Último Caderno", Prece, SL/SD; Publicado: BH, 0220302022.

Que Deus faça
Que Deus dê vida
A tudo que
Está escrito
Nestes cadernos
Que Deus abençoe
Que Deus perdoe
Algum pecado
Escrito aqui
Na inocência
Fui sincero
Fui franco
Que Deus guie
No que vou dizer
Que Deus faça
Que Deus dê vida
Que Deus perfume
Que Deus dê amor
A tudo que
Está registrado aqui
Amém.

      (Fim dos cadernos de 1975).