sexta-feira, 30 de outubro de 2020

gato donde tu és?

Gato donde tu és?
de angora na turquia
angorá da melhor raça
de gatos de coelhos
procedentes semelhantes
a estes no comprimento ou
na pintura do pelo hoje é
melhor ser bicho do que ser
gente de acordo com a raça o
tratamento é dez vezes melhor
do que tratamento de criança
de que vale ser homem não
ter emprego não ter um salário
não ter felicidade quero ser
um cachorro de família rica te
garanto que nada me faltará
vou viver numa angra viajar
por pequena enseada não
vou comer angu nem massa
de farinha de milho com água
sal escaldada ao fogo vou
fazer confusão fazer intriga
um angu de caroço uma
complicação intrigalhada de
briga rolo se não tiver minha
ração meu naco de carne
meu pedaço de osso de ouro
meu bocado de pão de ló se
fosse uma criança abandonada
pela sociedade pelo governo
pelo povo a quem iria reclamar
o que viesse me faltar?

BH, 0100801999; Publicado: BH, 03001002020

sou um homem angular sou referente

sou um homem angular sou referente
a ângulo tenho forma de ângulo de
todos os ângulos de figura geométrica
formada por duas linhas que se
cruzam além do infinito sou uma
esquina sou uma aresta um ponto de
vista sou um prisma agudo aguardo
menor do que o reto obtuso menor
que é formado por duas semirretas
que se cortam perpendicularmente
nos ângulos que tenho adjacentes
alternados só sou guloso por ser
feliz viver em paz ao fazer o bem
mas também vivo preso na angústia
na estreiteza de espaço estou limitado
à brevidade da vida acorrentado à
ansiedade extrema preso à opressão
trago no fundo do peito grande aflição
no coração sou um ser angustiante
só aprendi a me angustiar a afligir a
minh'alma que não está cheia de paz
sou todo assim angustioso de cheio
de transbordar me dói a  angustura
que parece que vai me matar a casca
febrífuga estomacal da qual estou
entalado numa passagem estreita
entre ribanceiras no fim do abismo onde
perdi as asas não posso mais voar aos céus

BH, 0100801999; Publicado: BH, 03001002020

vou pedir ao anhangá espírito

vou pedir ao anhangá espírito
do mal diabo dos índios tupis
para não me atrapalhar 
liberar o meu anhanguera
meu gênio manhoso meu
lado velhaco pois não sou
destemido nem sou ousado
sou só um anho tacanho
dum cordeiro pronto a ser
sacrificado não tenho a
coragem nem tenho a fé de
me libertar de fugir do sacrifício
me visto de aniagem que é o
tecido grosseiro para sacaria
sou anídrico seco não contenho
água nem estou contido meu
organismo nem para lágrimas
aguardo em meu anidrido a
substância química proveniente
teoricamente da desidratação
dos oxácidos anidros não tenho
o anil ou o azul extraído das
folhas da anileira doutras plantas
quanto mais o do azul do céu
estou a ficar senil ao não
consegui anilar a minha vida
ou tingir com anil ou dar ou
tomar a cor da anileira a planta
da família das leguminosas sigo
aniquilado neste anilho preso no
pequeno aro metálico para
guarnecer ilhós a espécie de anel
de ferro com que se prendem os
polegares de criminosos
transportados sob prisão

BH, 0100801999; Publicado: BH, 02901002020

a minha animação é de anilina

a minha animação é de anilina
alcaloide artificial base de muitas
matérias corantes sou um animador
amador de animar versão animo a
repreensão animo a censura o
castigo o ódio animo a ira a raiva a
injustiça sou um animal do mal ser
organizado que vive sente move
para causar a infelicidade a pessoa
grosseira ignorante injuriante tal
qual todo homem que rasteja na
poeira o ser vivo irracional morto
um cavalo injuriado o referente
próprio proveniente do irracional
carnal material reconheço o
animalaço da minha animalidade
do conjunto de qualidades atributos
que só os animais têm é o animalismo
do que é a minha natureza o animalizar
da minha alimentação convertida em
substância própria à nutrição animal
agora como um fantasma só sei
animar as trevas como uma
assombração dar vida alma à
escuridão igual a um sobrenatural
incentivar a violência estimular a
guerra desenvolver a dor cobrar
com juros de agiota furor ânimo de
serpente tornar a vida morta a
morte eterna decidi banir o
anímico deixar só o osso calcinada
a flor da pele ressequida

BH, 0100801999; Publicado: BH, 03001002020

posso considerar a alma como a causa

posso considerar a alma como a causa
de todos os fenômenos vitais intelectuais?
posso ser adepto dessa doutrina? reconhecer
o animismo? posso ser um animista? um
referente partidário? tenho ânimo? por acaso
tenho alma? sou espírito? tenho uma índole?
armazeno produzo meu mel pólen néctar sou
alguma energia? tenho alguma coragem em
mim? qual é a minha intenção de vida? expresso
algum incentivo à alguma coisa? cinergia ou só
tenho animosidade? sentimento de aversão a
alguém? tenho calor para viver? excitação para
amar? num debate ou polêmica tenho opinião?
sou por acaso animoso? cheio valoroso? posso
aninhar-me em paz? recolher-me em meu
ninho? agasalhar-me com segurança
conchegar-me com amor? ocultar-me na luz? ou
é a minha aniquilação? chegou o meu
aniquilador? é o meu aniquilamento? a hora
aniquilar-me? reduzir-me a nada? destruir-me no
que restou? exterminar-me comigo? abater-me
a humilhar-me? quem responderá essas
alvidradas crônicas terminais?

BH, 0100801999; Publicado: BH, 030010020201

terça-feira, 27 de outubro de 2020

não sei angariar nada muito menos

não sei angariar nada muito menos
alistar amigos atrair trair pessoas
aliciar mulheres para aliviar obter
ajuda a pedir também não aprendi
a angélica a lição cantada durante
benção do círio pascal nem conheço
a planta da família das umbelíferas
da família das liliáceas bem como
as flores dessas não sou angelical
referente aos próprios anjos nada
tenho de angélico nem de angelim
da árvore leguminosa que fornece
madeira muito dura estou mais para
angelita herege que adorava os
anjos mereço mais é a fogueira
nada tenho de angelitude de
natureza angélica nem sei orar o
ângelus que é a oração que se
reza às seis horas da tarde não
sei nem a ave maria sou é um
angico a árvore de grande porte
da família das leguminosas com
esta minha angina inflamação
das mucosas compreendidas
entre a garganta a cárdia as
raízes dos brônquios dita
doença do peito dos que
sofrem as coronárias caracterizada
por dor violenta constritiva
acompanhada de sufocação
ânsia tenho mais duma angiocolite
inflamação dos canais biliares

BH, 070801999; Publicado: BH,02701002020

se fizésseis uma angiografia uma descrição

se fizésseis uma angiografia uma descrição
minuciosa dos vasos do meu corpo de ser
humano não encontrareis o que procurais
a não ser o nada se apelareis para a
angiologia parte da anatomia que
estuda também as veias encontrareis
o vácuo para ser estudado dentro de
mim só os vermes a comer minha carne
apodrecida ou os ancilóstomos parasitas
certos gêneros de vermes intestinais de
alma de ente de espírito nada posso
dizer minh'alma está perdida nem o
anglicanismo salva o meu espírito ou
o ramo do protestantismo recupera o
meu ente a religião oficial da Inglaterra
não aceita alma igual à minha nem a
licença anglicana que quer ser referente
quer processar uma salvação total deixa
de me causar tanto mal não encontro no
anglicismo o vocábulo ou a construção
sintática de procedência inglesa para
qualquer explicação que seja à minha
falta de explicação ainda mais ao não
ser um anglo ou um saxão ou um inglês
sim um mineiro caipira caipora do interior
de cidade pequena da roça do mato do
rio da pedra do pau do cepo do caminho
do barro tabatinga do barranco da terra
vermelha das serras das carrancas

BH, 0100801999; Publicado: BH, 02701002020

não entrei na formação da formatação

não entrei na formação da formatação
como as de vários compostos a significar
um termo inglês nem entrei em nada
quando nasci nem vivi o de viver de
anglo-americano nem o de comer do
anglo-saxão por enquanto só o de beber
o de comer o de viver de anglo-brasileiro
ou de anglo-mineiro arroz com feijão
não de povo bárbaro de origem
germânica ou do que constitui um dos
elementos formadores da população
inglesa estou mais é para angola penso
que sou mais é angolano ou um escravo
negro angolense procedente da áfrica
filho de pai negro por exemplo as nossas
raízes vieram nos porões dos navios
negreiros presas nos grilhões debaixo
de chicotes da violência da covardia da
injustiça da colonização o que nós
negros temos mais que engolir? dar
graças a deus? vangloriar? coisa que
não faço nem me orgulho ou me ufano
pois pelo que aprendi até agora só
perdi nada achei nada ganhei nada
lucrei com esta prática quem quiser
que festeje pois nunca foi nosso
nunca nos pertenceu quem vai bater
palmas depois das palmadas não sou eu

BH, 0100801999; Publicado: BH, 02701002020

sábado, 24 de outubro de 2020

tomei uma aneurina de vitamina b¹

tomei uma aneurina de vitamina b¹
que quase morri de meu aneurisma
não era o remédio nem para a
dilatação circunscrita das paredes
duma artéria ou do coração e na
anexação da paixão o anexar do
sentimento sentido no agregar do
amor ao incorporar o espírito ligar
os fios juntar as linhas reunir com
o anexim o adágio popular no
anexo do plexo do nexo o que foi
anexado ao sexo ao que se liga ou
se acrescenta como acessório à
construção especial que não faz
parte do prédio principal da vida
de todos os animais do que vive
se move em terra ou na água do
ser anfíbio ou batráquio até a
substância mineral essencialmente
composta por sílica cal magnésio o
anfibólio da terra donde a minha
anfibologia a ambiguidade que
tenho que carregar que não tem
mais tamanho pois não sou um
anfictiónia membro do conselho
de representantes dos antigos
estados gregos nem participei
da anfictiónia ou assembleia
dos anfictiónias por direito que
tinham certas cidades de se
fazerem representar perante
essa assembleia de cimeira

BH, 070801999; Publicado: BH, 02401002020

minha metamorfose já começou

minha metamorfose já começou
saí dum anfídeon do orifício do
útero passei por uma vagina
antes um anfígeno de silicato
de potássio de alumínio corpos
simples que servem de ácidos
ou bases virei um antípoda
animal que tem duas qualidades
de pés depois uma anfíteno de
serpente cuja cauda se parece
com a cabeça chamada de cobra-
-de-duas-cabeças nenhuma
funciona nem a de baixo nem a
de cima cheguei a este fantasma
de anfiteatro do grande recinto
circular ou quadrado ou elíptico
dotado de arquibancadas camarotes
geral em cuja parte interna ou ao
ar livre realizar-se espetáculos nesse
recinto fechado que é o meu coração
circundado em aulas evoluí para
anfitrião recebo em minha própria
casa sirvo arroz com feijão na ânfora
com agrião no vaso de duas asas
assimétricas usado pelos gregos
romanos para líquidos o cavalo de
tróia o presente dos gregos que
homero relata no viril poema épico
ilíada chego ao meu semblante
anfractuoso que não esconde a minha
anfractuosidade no qual apresento
saliências depressões sinuoso
ortuoso encerro minha metamorfose

BH, 070801999; Publicado: BH, 02401002020

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

deixa lá o anequim arlequim

deixa lá o anequim arlequim
o tubarão da família dos
lamnídeos cetáceos muito
grande voraz pierrô que
não satisfaz encontrado em
águas brasileiras de bicho
sagaz não faz assim rapaz
se não vais lá o barômetro cujo
funcionamento brando de vento
lento te baseia na elasticidade
de lâminas metálicas com caixa
de vácuo não natural na mistura
das coisas toma uma anestesia
fica com a perda da dor doutro
parcial ou total geral da 
sensibilidade celestial toma um
anestesiante ou o que deixa o
anestesista te anestesiar ou
provocar uma morte súbita com a
dose do anestésico cujo médico
ou o auxiliar aplica durante uma
operação cirúrgica com a droga
que suprime a realidade ou mata a
verdade ou saia do que dói doido
doído ou mude para o hospício
aqui fora estão os doentes lá estão
os sábios sabidos os que conhecem
o desconhecido conhecem as trevas.

BH, 070801999; Publicado: BH, 01901002020

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

na redução das células vermelhas rosas

na redução das células vermelhas rosas
brancas roxas do sangue por deficiência
decadência carência ineficiência falência
demência de materiais necessários
especiários ordinários temerários
libertários revolucionários à produção
das hemoglobina albumina cristalina
parafina gomalina serafina do distúrbio
na formação solução fabricação
denominação sedimentação dessas
células ou perdas lerdas cerdas
merdas das mesmas por hemorragia
enxurrada cachoeira anemia de anêmico
pálido cálido da cor da paz celestial ou da
cor dos ventos universais na anemografia
ou na descrição da riqueza que não pode
pegar com as mãos pés o anemógrafo
registador raro ou o anemômetro que
marca em gráfico a força divina ou a
direção dos ventos ou a conhecer a
anemologia ou o estudo dos ventos
terrestres ou me diz aí na anemometria
com a força a direção o sentido a
balançar as anêmonas do gênero de
plantas ornamentais da família das
ranunculaceaes da flora floral a flor
dessa natureza bela a me desculpar a
teimosia é a minha anencefalia a
monstruosidade que consiste na falta
de cérebro cerebelo cérbero causa a
abrevia falta de ação na minha reação
nervosa de total paralisia do irreal

BH, 070801999; Publicado: BH, 01501002020

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

andorinha de nome comum dos pássaros

andorinha de nome comum dos pássaros
da família dos hirundinídeas voou dos
pireneus para andorra principado entre
espanha frança num voo andorrano-pirenaico
natural ao chegar em território andorrense
pousou num galho de andrade de velha
árvore da família das lauráceas sob as
sombras vestido de andrajos um trapo de
homem um farrapo de vida pensador
mendigo andrajoso com espírito
esfarrapado de coração maltrapilho de
estudioso de andrologia ciência que
estuda o homem suas doenças as dos
órgãos sexuais masculinos estudioso da
androgenesia ciência do desenvolvimento
físico moral do homem conhecidas do
androceu o conjunto dos órgãos
masculinos duma flor das mulheres
androfágicas com sabor de androfagia
abelhas rainhas da androfobia horror
ao sexo masculino muitas vezes com
suas razões pelo o que é causado pelo
androide andrógino autômato que só
tem a figura de homem mas não é ficam
as plantas que têm flores de ambos os
sexos no mesmo pedúnculo ou na mesma
espiga que reúne os dois sexos na
hermafrodita comum de dois e resumir
tudo na androlatria no culto divino
tributado ao homem sem ser merecedor

BH, 070801999, Publicado 01401002020

o homem fenece na andromania insaciável

o homem fenece na andromania insaciável
de furor interino na ninfomania extrema no
que é um lugar ermo sem caminho ou
público pouco asseado se torna andurrial
compulsivo ao não tentar anediar ou alisar
a rudeza do ser na anedota da vida o riso
do destino o relato breve dum sucesso
curioso de final divertido do anedotário
diário da coleção anedótica cotidiana
anegar na mentira submergir na
falsidade a mergulhar na ilusão perde
os dedos para não abrir o anel tem
que passar pela pequena argola ou
uma simples adornada que se usa
nos dedos como um enfeite não
encontra saída por não abrir o aro da
cadeia ou quebrar o elo da corrente ou
desfazer as figuras em forma de aro
ou soltar o caracol do cabelo ou fazer
um boca à boca numa anelação de
respiração difícil em peito ofegante
expulsar os anelados os vermes do
corpo que divididos em segmentos
semelhantes anelídeos não anelar a
felicidade não dar forma nem
encaracolar ou respirar com
dificuldade não ofegar desejar
ardentemente a desobstrução do obtuso
aspirar a inspiração anular as forças malignas
relativas das espécimes aneladas viciosas

BH, 070801999; Publicado: BH, 01401002020

domingo, 11 de outubro de 2020

Diálogo - Texto escrito pelo professor Paulo Freire extraído do livro Pedagogia do Oprimido -editado pela editora Paz e Terra 18a edição.

Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão.

Se não amo o mundo, se não amo a vida, se não amo os homens, não me é possível o diálogo.

O diálogo, como encontro dos homens para a tarefa comum de saber agir, se rompe, se seus pólos (ou um deles) perdem a humildade.

Como posso dialogar, se alieno a ignorância, isto é, se a vejo sempre no outro, nunca em mim?

Como posso dialogar, se me admito como um homem diferente, virtuoso por herança, diante dos outros, meros "isto", em que não reconheço outros eu?

Como posso dialogar, se me sinto participante de um "gueto" de homens puros, donos da verdade e do saber, para quem todos os que estão fora são "essa gente", ou são "nativos inferiores"?

Como posso dialogar, se parto de que a pronúncia do mundo é tarefa de homens seletos e que a presença das massas na história é sinal de sua deterioração que devo evitar?

Como posso dialogar, se me fecho à contribuição dos outros, que jamais reconheço, e até me sinto ofendido com ela?

Como posso dialogar se temo a superação e se, só em pensar nela, sofro e definho?

A auto-suficiência é incompatível com o diálogo. Os homens que não tem humildade ou a perdem, não podem aproximar-se do povo. Não podem ser seus companheiros de pronúncia do mundo. Se alguém não é capaz de sentir-se e saber-se tão homem quanto os outros, é que lhe falta ainda muito que caminhar, para chegar ao lugar de encontro com eles. Neste lugar de encontro, não há ignorantes absolutos, nem sábios absolutos, há homens que, em comunhão, buscam saber mais.

Não há também, diálogo, se não há uma intensa fé nos homens. Fé no seu poder de fazer e de refazer. De criar e recriar. Fé na sua vocação de ser mais, que não é privilégio de alguns eleitos, mas direitos dos homens.

A fé nos homens é um dado a priori do diálogo. Por isto, existe antes mesmo de que ele se instale. O homem dialógico tem fé nos homens antes de encontrar-se frente a frente com eles. Esta, contudo, não é uma ingênua fé. O homem dialógico, que é crítico, sabe que, se o poder de fazer, de criar, de transformar, é um poder dos homens, sabe também que podem eles, em situação concreta, alienados, ter este poder prejudicado.

Esta possibilidade, porém, em lugar de matar no homem dialógico a sua fé nos homens, aparece a ele, pelo contrário, como um desafio ao qual tem de responder. Está convencido de que este poder de fazer e transformar, mesmo que negado em situações concretas, tende a renascer. Pode renascer. Pode constituir-se. Não gratuitamente, mas na e pela luta por sua libertação. Com a instalação do trabalho não mais escravo, mas livre, que dá a alegria de viver. 

Sem esta fé nos homens, o diálogo é uma farsa. Transforma-se, na melhor das hipóteses, em manipulação adocicadamente paternalista.

Ao fundar-se no amor, na humildade, na fé nos homens, o diálogo se faz uma realização horizontal, em que a confiança de um pólo no outro é conseqüência óbvia. Seria uma contradição se, amoroso, humilde e cheio de fé, o diálogo não provocasse este clima de confiança entre seus sujeitos. Por isto inexiste esta confiança na antidialogicidade da concepção "bancária" da educação.

Se a fé nos homens é um dado a priori do diálogo, a confiança se instaura com ele. A confiança vai fazendo os sujeitos dialógicos cada vez mais companheiros na pronúncia do mundo. Se falha esta confiança, é que falharam as condições discutidas anteriormente.

Um falso amor, uma falsa humildade, um debilitada fé nos homens não podem gerar confiança. A confiança implica no testemunho que um sujeito dá aos outros de suas reais e concretas intenções. Não pode existir, se a palavra, descaracterizada, não coincide com os atos. Dizer uma coisa e fazer outra, não levando a palavra a sério, não pode ser estímulo à confiança.

Não é porém, a esperança um cruzar de braços e esperar. Movo-me na esperança enquanto luto e, se luto com esperança, espero.

Se o diálogo é o encontro dos homens para ser mais, não pode desfazer-se na desesperança. Se os sujeitos do diálogo nada esperam do seu que fazer, já não pode haver diálogo. O seu encontro é vazio e estéril. É burocrático e fastidioso.

passar a vida à toa a decorrer o tempo

passar a vida à toa a decorrer o tempo
perdido ter aproximadamente algum
censo de razão a proceder com moral
a estar na lógica sentir-se na ética ter
como companhia pura sabedoria a
estar de caso com alguém que seja
a criatividade a andadura com a
inspiração o pavimento dum edifício
de total inteligência igual ao qualquer
dos passos que se ensinam aos
cavalos de sela ter por parceria
andarilho metafísico ou o ser que
anda na filosofia o rapaz que nas
praças de touros recolhe do chão
farpas outros objetos pernas ou
muletas de pau com ressalto onde
se colocam os pés andas de padiolas
andeiro da verdade que anda muito
na realidade andejar na imensidão
vaguear no azul do firmamento com
um andejo de anjo na abóbada do
céu um anelo à felicidade um desejo
intenso de fé veemente na coragem
na aspiração ao conhecimento o
andor do entendimento equilíbrio no
discernimento sobre os quais são
transportados imagens de santos
nas procissões da estética do povo
andino dos habitantes dos andes na
américa do sul madeira de andiroba
árvore da família das meliáceas

BH, 070801999; Publicado: BH, 01101002020

empregado de irmandade confraria

empregado de irmandade confraria
religiosa que distribui avisos ou
pede esmolas de casa em casa
cansei minha andadura meu modo
de andar sem modo no meu passo
de cavalo caiu em minha cabeça
no meio da rua da aldeia global
um andaime de construção um
estrado de madeira suspenso por
cordas sobre o qual trabalham
operários a partir duma certa
altura não virei um andaluz ou
natural de andaluzia na espanha
não andei na luz no meu andamento
que foi o meu testamento de
movimento musical desenvolvimento
melódico na marcha dum negócio
da estrada segura para a andança
do sertanejo a andada dos sem terra
o caminho dos desempregados do
errante andarilho assalariado
desiludido andante em busca de
vida melhor caminhante sem
esperança da cadência do andamento
musical entre o adágio o alegro o trecho
nesse andamento andantino um pouco
mais vivo do que morto para dar passos
seguros andar de pé caminhar livremente
no chão ir dum lugar a outro a pé ou a
cavalo como se tudo fosse numa
democracia percorrer as sendas da vida
com cidadania mesmo transportado
aos caminhos do destino mas com
soberania de cidadão da humanidade
de ser humano a transbordar de
humanismo se errar não permanecer no
erro prosseguir nos trilhos mover sem
correntes funcionar normalmente trabalhar
por direitos sem trabalho não se é nada

BH, 070801999; Publicado: BH, 01101002020

o homem moderno ainda sofre

o homem moderno ainda sofre
de ancilostomíase típica doença
provocada pelo ancilóstomo do
amarelão de vulgo opilação de
gênero de helmintos parasitos do
intestino do homem moderno que
não usa mais ancinho instrumento
com dentes de ferro longo cabo
que serve para juntar palhas
matos gravetos viaja de navio
modelo de última geração não
usa mais âncora em nenhum
coração se prende aos ferros
ou se lança ao fundo das águas
tenebrosas não mais fixa sua
embarcação em porto seguro
ou em ancoradouro ou lugar
próprio para embarcações
ancorarem num peito de porto
seguro moderno de bonança
de calma de alma depois da
procela que não grita mais
lançar âncora ou fundear sem
basear-se em algo ou sem
fundamentar-se ao ancorar-se
ou pegar a ancoreta a pequena
pipa também achatada
lateralmente para transportar
líquidos anda vem comigo
expressar incentivo  olha o
andaço da pequena epidemia
vem dar uma andada de mãos
dadas sou um andadeiro ando
muito bom de andar só não
tenho dinheiro mas sou um
cavalo cujo passo habitual é
a andadura especialmente
ensinado para a montaria
moço de recados da
periferia andador profissional

BH, 070801999; Publicado: BH, 01101002020

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

vou me encontrar no ponto de junção

vou me encontrar no ponto de junção
de dois vasos ou canais na
anastomose na osmose celular na
inversão violenta na ordem habitual
das palavras ou vocábulos da
anástrofe delirante no efeito de
anatematizar na anatematização
dos meios dos princípios dos fins
lançar anátemas feito chuva sobre
as cabeças desprotegidas propor
anatomia na ciência que estuda a
estrutura dos seres vivos organizados
com dissecação de qualquer corpo
encontrado nas calçadas fazer
análise minuciosa dos organismos
ostomizados ao anavalhar a
carne num corte anatômico ao
ferir a carne como um anatomista
pessoa que se especializou em
anomatizar com navalha sem
anestesia para estudar peça
por peça do organismo alterado
por processos patológicos com
todos ainda vivos na
anatomopatologia imunizar com
a anatoxina a toxina que perdeu
a toxidade sem sofrer alteração
na sua capacidade da anca
anatomopatológica da região
lateral do corpo humano desde a
cintura até a articulação superior da
coxa no quadril no quarto traseiro
do animal ou a garupa de terminal

BH, 070801999; Publicado: BH, 0701002020