terça-feira, 28 de junho de 2022

chego ao final sem vitória anunciada

chego ao final sem vitória anunciada
o certo é que todo mundo chega ao final
com vitória mas como sou diferente
chego ao final sem vitória sem história
para que história se toda história é
uma mentira? para que vitória
se todo vencedor é um perdedor?
chego ao final animal sem ideal
sem ideia que não evoluiu
nem revolucionou nem modernizou
o universo chego ao final conservador
preconceituoso misógino homofóbico
reacionário capitalista neoliberal
globalizado imperialista nazista
direitista anticomunista anti socialista
racista religioso fundamentalista
armamentista nacionalista contra os
sem tetos contra os sem terras contra
os índios os indígenas ambientalistas
contra os quilombolas patronal
patriarcal chego ao final irracional a
queimar mendigos debaixo das marquises
a exterminar população de rua a
atropelar animais abandonados a
ser conivente com a pedofilia os
estupros a violência contra as mulheres
confinamento de favelados suburbanos
discriminação dos mais pobres
chego ao final a pensar na meritocracia
de louros para mim os meus maus
pensamentos mandamentos
argumentos desmandamentos
mórbidos sentimentos medonhos
sentidos macabras direções bizarras
realizações bisonhas falações monstruosos
comportamentos chego ao final sobrenatural
om minhas assombrações sem limitações

BH, 02001102020; Publicado: BH, 0280602022.

(FIM DA APOSTILA DE ESTUDOS POÉTICOS E 
PROSAICOS NÃO TÃO POÉTICOS E NEM TÃO 
PROSAICOS ASSIM.)

nesta apostila de estudos poéticos

nesta apostila de estudos poéticos
prosaicos não tão poéticos
nem tão prosaicos assim não se aprende
nada nem de poesia
nem de prosa
não passa dum passatempo dum
vagabundo sem tempo a vadiar na
vagabundagem
dum vadio a vagabundear na vadiagem do tempo
ainda mais agora que está a se 
provar cientificamente que o tempo não existe
queria ver quem vai passar o tempo
ou matar o tempo
ou ter tempo para alguma coisa
então tudo que se diz a respeito do
tempo não foi dito
ou foi desdito
ou perdeu a valia
a correria não tem mais serventia
a hora
o dia
quem diria que um dia ia se dizer
que o tempo não existia
então quem inventará nova tese
ou nova teoria
ou nova ciência
ou nova filosofia
nova psicologia
nova psiquiatria para direcionar rumos
aos novos loucos que surgirão nas alegorias
quem terá tristeza
quem terá alegria
o que será do poema
o que será da poesia
da saudade
da nostalgia as únicas coisas que me alimentam
são o meu pão de cada dia
vou seguir o sol
de noite a lua lobisomem
é o que sei fazer nesta agonia de homem

BH, 0260602022; Publicado: BH, 0280602022

segunda-feira, 27 de junho de 2022

sensação é para vivo

sensação é para vivo
emoção é para quem respira
morto sente é calafrio na
calada da noite no arrepio
no fundo da campa num
lugar arredio longe onde
se dane a gritar de frio
o osso congelado esfarela
o esqueleto se esgoela
a caveira se esgueira
nas sombras dos muros
dos cemitérios a se disfarçar na
cal a aproveitar a se camuflar
com os ossos de marfim
mesmo quando vem da lua a luz
ninguém repara passeia entre
os seres transparentes
a se fazer de gente
não há quem comporta
sensação de morto é diferente
emoção de morto é mofo
é se quedar quieto indigente
no quarto em travas gemente
a esfolar os cotovelos
a ralar os joelhos
a despelar os tornozelos
a ferir as cicatrizes
a raspar as tatuagens
a decifrar as estrias
os códigos genéticos
secretos de mistérios afins
nas raízes dos jardins
nas pétalas dos jasmins
nos cálices das corolas
das floras das copas das árvores
doutrora no apogeu da aurora
sensação é para vivo
emoção é para vivo
quando chega a hora

BH, 0260602022; Publicado: BH, 0270602022

negro chegou à senzala da casa grande no útero da mãe escrava

negro chegou à senzala da casa grande no útero da mãe escrava
cativa estuprada que trabalhou toda as idades
infantil adulta idosa a labutar sem parar
negro a viu cair morta no terreiro
nem pode acompanhar o que se chamou de enterro
o capataz disse que tinha muita coisa para se
fazer
de longe viu o corpo roto da mãe ser jogado numa
vala rasa que mais parecia um esgoto mas com alguns
punhados de terra por cima
não podia parar de trabalhar
ali serviu desde menino aos serviçais da senzala
aos capatazes da fazenda
aos senhores de engenhos da casa grande até
à idade avançada também já anoso alquebrado
o capataz chefe o chamou 
negro fostes vendido para uma fazenda na bahia
de trabalho mais leve aqui não aguentas a fazer quase nada
lá pelo menos vais ganhar para pagares o que comes
pois o senhor patrão não vai te manter aqui só a comer
a beber
a dormir
sem fazeres nada
negro mas senhor chefe capataz cheguei aqui
na barriga da mãe
vivi
trabalhei em todos os quintais
terreiros
terrenos
colheitas
tenho pouco tempo de vida
deixa-me morrer aqui
deus te ajuda
o senhor me joga na mesma valeta junto de mãe
de jeito nenhum
amanhã teus novos donos vêm te buscar
naquela noite negro não dormiu
fez mumunhas
sussurrou
chorou em zumbidos mandingas
soluçou rezas
suspirou cantos
cantigas
ladainhas baixinhas
lundus
ramerrames
amargamente não sonhou
de manhã quando vieram buscá-lo
empacou
fez birra
pirraçou pois queria despedir
agradecer o patrão senhor que relutou em
comparecer à presença do negro mas foi
negro disse patrão aqui vivi os meus dias bons
maus
como não sirvo mais fui vendido
perto do rosto do senhor assoprou
o patrão sentiu um bafo de bafio
negro partiu
naquela noite o patrão não dormiu
tossiu
espirrou
escarrou
suou
sentiu dor a noite toda
de manhã ao lavar o rosto sentiu uma espinha
na face que em poucos dias se tornou uma cratera
que expôs a caveira que o matou em algums
meses sem nada curar
do negro nunca mais se ouviu falar

BH, 01901102020; Publicado: BH, 0270602022

no escuro corredor da morte não há luz no início

no escuro corredor da morte não há luz no início
nem no meio
nem no fim
no vão da escada sem corrimão
só o abismo do espaço aberto
uma alma pendida na corda bamba
oscila entre a fenda
o lance seguinte sem reguinte de cabeça
contra a parede
que resistiu ao tempo sentado no meio do corredor
como se fosse sem querer saber de nada
o autista ignora a si mesmo severo
despreza tudo que se pensa
que não se deve desprezar
não sente nem o sofrimento que causa aos
outros
doente sem cura
com secura bebe pouca água
respira pouco
soluça muito
debate sempre como se tivesse
um motor de vento em popa de bonecos de
animações em portas de lojas de varejos
miudezas
sem gostos
sem sentimentos
sem sentidos
sem falas
sem dores
na solidão sólido desconhece o amor
a paz
a amizade
vontade
poder
potência
até estas letras
estas palavras ficarão ignoradas pelo varão
que nunca teve uma varoa
é casto como um catão
ou o vento
é límpido
transparente como uma lágrima pura
de diamante raro
é poeta morto
é uma elegia
agita os braços brancos de neve
de cordilheira dos andes
dos alpes
resiste com os ossos nobres feitos dos
mármores selecionados das montanhas
é filho de titãs de elfos de ninfas de duendes
de libélulas de polifemos ciclopes que habitam
o ventre sacro da terra

BH, 01901102020; Publicado: BH, 027060202.

quem quer saber de denotação conotação

quem quer saber de denotação conotação
se para se comer não tem nem pão
se me impuseram a língua portuguesa com
tanta língua nativa
ativa por aqui
porque não me deram o tupi-guarani?
ou a linguagem dos lagartos linguarudos
ou os cacoetes de comunicação dos
calangos nos muros
dos sábias
dos bem-te-vi?
mas não me ensinaram uma língua d'alem-mar
idioma de trás dos montes
não uma fala de fonte
ou um canto de regato
ou uma canção de córrego
ou um riso de rio
ou um gorjeio de pássaro
arrulho de arroio
com tantos discursos
conotações
denotacoes na natureza viva
dão-me de presente uma morta
com tantas ondas do mar a badalar aos meus ouvidos
ventos bentos a soprar os meus alentos
desalentos
tormentos
fazem-me chorar em prantos de biomas
doutros universos
em latim tradicional do ora-pro-nobis
fica sem função
o ninho da rolinha fica sem passarinho
o meu coração em desalinho
não choro mais chorão em chorinho
nem oro mais em oração
ou em prece em devoção
ou em reza forte contra assombração
igual todo menino fazia para cair bicho em alçapão
rezava à ave maria todo dia quando a noite chegava
meter medo na molecada mas sempre tinha
um mais destemido
as meninas admiravam
levantavam as saias
mostravam o verdadeiro admirável mundo novo
os segredos
os regos
valas
veios
minas dos tesouros donde os afoitos tiravam
vantagens sobre os outros
à boca devoradora da esfinge enigmática

BH, 01901102020; Publicado: BH, 0270602022

domingo, 26 de junho de 2022

sentimento sem sentido ou direção não convém ao coração

sentimento sem sentido ou direção não convém ao coração
o ser que já é pequeno vira então um anão de espírito turvado
turbado abalável que a alma rasga igual velho papel de ente
que fica doente entidade que perde a felicidade o corpo
vida a vida ganha a morte o azar ganha da sorte sem sorteio
o sonho vira pesadelo de quem caiu num despenhadeiro foi
coberto pelo desmoronamento duma falésia que descia duma
pradaria ao vale que sorria à sombra duma duna manufaturada
grão por grão à penumbra da assombração que se aboletou nas
costas do ancião que com ânsia vergado sem vara sem cajado
de joelhos ralados os punhos esfolados os couros das mãos
calejados com marcas de cravos cravejados  costas cicatrizadas
de feridas crônicas feitas a ferro quente equilibrava-se no
vácuo atlas com o mundo nos ombros sobrenatural o
olho do universo mostrou o resistente calango no alto do
muro que foi todo cimentado a manter a geração seguiu
seu destino de lutas pois o outro nome da natureza é seguir
é continuar a vida a mover o universo mesmo que seja
a última coisa que se há de fazer para registrar uma
fenomenologia fenomenal duma cadeia universal
orgânica ou inorgânica cíclica ou acíclica fechada ou
aberta errada ou certa o firmamento é quem indica a
frequência a se seguir desde que se diga para poder
existir brilhar enquanto a luz quer nos resguardar
das trevas do caminho sem lâmpadas nos pés

BH, 01801102020; Publicado: BH, 0260602022

o cérebro projeta imagens já até provei comigo

o cérebro projeta imagens já até provei comigo
mesmo que o cérebro projeta imagens como
um projetor de cinema ou um refletor de led
transcendental de olhos fechados ou bem
vendados com libras de chumbo se enxerga
pela glândula pineal como um olho universal de
olhar dimensional o corpo fala sem linguagens
sem letras sem palavras sem sons a perfeição
restaura a alma refrigera o espírito mata-se a
sede com águas tranquilas cristalinas de
manaciais celestiais mata-se a fome com
manás das matas chora-se à natureza que ama
que é destruída não sabe chorar cura-se as
doenças com os curandeiros das tribos
guerreiras dos pajés velhos dos xamãs doutras
chamas sacerdotes sacerdotisas que adotam
métodos divinos com poções pós mágicos
mandingas doutros continentes de planetas
diferentes gestados em placentas de galáxias
infinitamente infinitas vem um sol atrás doutro
cada um com uma gravidade duma gravidez
duma grandeza divina de luz infernal que fura o
olho do mortal vem uma estrela atrás doutra
cada uma com uma gestação de universos
inimagináveis para que servem essas coisas
que não servem para nada? pergunta o vil que
não é são ao ser vão esmagado pelos átomos
das moléculas da matéria a matéria gera o caos
o caos o fogo o fogo homem que não torna das cinzas homem

BH, 01801102020; Publicado: BH, 0260602022

sexta-feira, 24 de junho de 2022

nunca mais se ouviu uma canção de ninar

nunca mais se ouviu uma canção de ninar
além desse nunca mais há ainda muitos
outros nunca mais do passado no aquém
que nunca mais se ouviu falar nunca mais
se olhou o firmamento azul do azul do céu
azul nunca mais se olhou a lua nunca mais
se seguiu o sol em suas viagens sem volta
nunca mais se falou em poesia nunca mais
se declamou um poema poente nunca mais
se observou uma flor nascente ou um pássaro
numa haste ou numa árvore contente ou um
besouro num toco dum pau oco nunca mais
se impediu uma árvore de ser cortada ou
queimada nunca mais se plantou uma árvore
no planeta era um dos dez mandamentos da
humanidade nunca mais se foi humano da
raça humana nunca mais se brincou de mais
nada só se levou tudo a sério a guerra a sério
a fome a sério até à última extremidade do
extermínio se levou a sério campos de
refugiados de flagelados de extermínio
nunca mais a humanidade voltou ao
humanismo o homem a ser humanista
nunca mais se fez uma criança feliz pelo
contrário quando não a matamos ao nascer
a matamos com a violência do dia a dia com
o estupro a pedofilia ou a exploração de
qualquer espécie nunca mais se ouviu cantar
coisas de amor numa cantiga antiga de ninar 

BH, 01701102020; Publicado: BH, 0240602022

decepcionadamente com a república federativa do brasil golpista de direita

decepcionadamente com a república federativa do brasil golpista de direita
decepcionadamente também com o partido dos trabalhadores ainda
decepcionadamente com o clube de regatas do flamengo olho aqueles que
querem reformas estruturais de base revoluções marxistas leninistas
trotskistas em combinar com o povo trabalhador brasileiro que tem se
demonstrado conservador misógino racista fundamentalista religioso
armamentista xfóbico apolítico omisso analfabeto político percebo os que
ainda pensam adaptar o time do flamengo a um futebol objetivo moderno
quando o próprio time não tem vontade de nada sigo excepcionalmente
comigo mesmo nas minhas tentativas infrutíferas de sonhar um país um
partido um time de futebol referências no mundo moderno caio na utopia
no onirismo vem a realidade puxar o meu tapete a me lançar no pesadelo
cotidiano que é a minha vida o meu país o meu partido o meu time de
futebol a esperança de ser a nova ordem mundial morre na primeira
esquina no próximo boteco diante duma garrafa de cerveja duma dose de
pinga pura da boa da forte quando me dou por mim lá estou arrastado
por algum pé dalguma puta saliente inconstitucionalissimamente

BH, 01701102020; Publicado: BH, 0240602022

quinta-feira, 23 de junho de 2022

não abri mais os olhos desde o dia no qual nasci

não abri mais os olhos desde o dia no qual nasci
desci da esfera colossal para o mundo real
o meu sonho acabou sem ser realizado
não quebrei os pontos dos meus olhos costurados
não rompi as barreiras dos meus ouvidos chumbados
quem queria me dizer alguma coisa não me disse nada
também não disse nada a ninguém pois a língua
estava presa no fundo da garganta cada vez mais
era engolida ao contrário pelo esôfago
nunca pronunciou amor
nunca teimou pela paz
só propagou a guerra
a mentira
a violência
o desamor
desde então este meu coração
é só solidão é rocha de vulcão é resposta sem solução
é braço sem mão é baleia no arpão é boca sem pão
é cristão sem visão
lábios que só dizem não é
cérebro sem percepção é cabeça sem noção é
mente sem razão
é pensamento sem dimensão é discernimento
sem direção é sentido sem condição é escada
é sem vão é rampa sem corrimão é pião sem cordão
é criança sem irmão é deus sem adoração é prece
sem oração é garganta sem canção é alma sem
iluminação é pântano sem drenação é edifício
sem fundação é alicerce sem sustentação
a cada dia é uma nova arruinação que até parece
uma maldição que não tem fim de tanta estigmatização
mas um dia a luz há de chegar com a acepção

BH, 01201102020; Publicado: BH, 0230602022

nem sei que dia é hoje para que saber que dia é hoje

nem sei que dia é hoje para que saber que dia é hoje
se morrerei amanhã de madrugada quando for no
infinito de manhãzinha? quando penso que sou
centro do universo o universo puxa o meu tapete
embarco numa cápsula do tempo à velocidade
da luz
para a mais distante galáxia a zilhões de anos-luz
desta o infinito fica aí a sorrir de mim como se fosse
um extraterrestre dum exoplaneta dum exo sistema-solar
dum exo universo que engloba uma exo galáxia
nunca será manhã em nenhuma manhã onde se
esperava que fosse manhã dum dia bem iluminado
onde pudesse enxergar o átomo a molécula a
matéria a poeira o pó acordo coberto de
pólen das flores do jardim da casa da minha mãe a
vejo a regar as flores as plantas as relvas hoje
está noutro jardim é também uma flor a mais
preciosa de todas as flores preciosas que os astros
já expuseram na abóbada do firmamento celestial
os incautos tentam descobrir os leigos explicar
aquele brilho ali mas estático sei a fonte nascedora
daquela luz especial que toda vez que tentam
definir nalgum aparelho de última geração
se abriga espetacular no refúgio de criança do meu coração

BH, 01201102020; Publicado: BH, 0230602022

estaquei no meio do caminho do destino como uma pedra

estaquei no meio do caminho do destino como uma pedra
ou como um burro que empaca numa estrada
ou o boi que se recusa a marchar ao matadouro
que até as minhas pegadas se petrificaram
como um tesouro fóssil
não mais arredei a rocha
se transformou em diamante
empacado ali com o universo nas costas
as dimensões no cangote
o infinito na cacunda
a eternidade na corcova
corcovado ancião vi o corvo a me devorar o
fígado de naco em naco
de bocado em bocado
acorrentado ao pelourinho sou mais um prisioneiro
desta caverna filosófica
mais um protagonista dessa cadeia de
cordilheiras de personagens coadjuvantes da
história universal
quando acordei do sonambulismo o
meu esqueleto continuou a dormir
a minha caveira a sorrir pois nunca vi uma
caveira triste mesmo quando era guardião do
ossuário da cidadezinha onde nasci
conheço todos os ossos do manequim do mais profano
ao mais sacro
enchi o saco com os ossos em cacos
faço tubos tubulares
flautas doces
clarinetas com os inteiriços
nobres jardins
do mais puro marfim
a morte viu que era pouca
que era pequena diante de mim
a minha sepultura foram todos os montes montanhas
picos cordilheiras
nunca monumento de mausoléu
restos de planetas irreconhecíveis
rochosos perdidos pelos universos estranhos
milênios depois quando abriram a tampa do sarcófago
a campa do meu sepulcro sepultura
só encontraram esta folha de lápide a lápis

BH, 0601102020; Publicado: BH, 0230602022

pai colocou dvd de beth carvalho no celular para assistir

pai colocou dvd de beth carvalho no celular para assistir
está aqui à minha frente como sempre infinitamente a
rabiscar reminiscências numa folha branca de papel
com isso aqui em calmaria saí do surto só bato umas
palminhas não umas punhetinhas de vez em quando
estou a gostar dos sambas que a beth está a cantar pai
levanta as vistas nossos olhares se encontram percebo
a satisfação de pai que percebe a minha mãe saiu a
irmã foi dar aula por incrível que pareça a casa está em
paz pax peace o lar home sweet lar home é
aparentemente doce estou realmente entretido com o
celular cheguei até a pensar que pai é um cara legal 
pensei não falei nada pois não nasci para falar nada
nunca não de elogiar de tecer loas a alguém o telefone
tocou pai levantou sem identificar de quem era a ligação
dispensou só para não me atrapalhar ficou muito abatido
porque perdi o benefício que o governo me dava nem
pai nem mãe podem trabalhar mais a despesa comigo
com a casa são grandes estamos por passar um aperreio
danado mas ninguém tem nada com isso o nosso povo
votou mesmo foi para isso para piorar foder
com as nossas vidas coisas do destino

BH, 0601102020; Publicado: BH, 0230602022

há os que tiram leite da rocha

há os que tiram leite da rocha
água das pedras
vida dos desertos
faz cair maná dos céus
sou não
tiro letras das águas
palavras do fogo
poesias do ar
poemas da terra
sangue do éter
apascento rebanho rebelde
nos campos das vertentes mais verdes
desfilo nos desfiladeiros pensamentos de
geleiras seculares
canto odes infinitas nos paredões dos despenhadeiros
mergulho eco nos abissais abismos
imaginários das abscissas
não me perco nos subterrâneos sem fundos
dos mais longínquos universos paralelos
para arrumar versos nunca dantes imaginados
guio minha nau catarineta
meu navio argos com tripulação argonauta
minha jangada de nióbio
pelos oceanos das lágrimas
dos negros africanos
das mulheres sacrificadas
das crianças violentadas
não fico satisfeito pois são tantos defeitos
que impedem minha perfeição
latejo meu coração nas pontas
das lanças de lajedos dos malfeitores
não vou longe com os meus suores
meu sangue é pouco
para o sangue derramado da humanidade
não faço um pacto pela raça humana
não caso com um ser humano
meu olhar de gelo congelou a paisagem
numa cena cinzenta
um cenário que tem o céu por moldura

BH, 060110220; Publicado: BH, 0230602022

quarta-feira, 22 de junho de 2022

meus santos nenhuns foram beatificados

meus santos nenhuns foram beatificados
ou canonizados ou santificados pelo papa
ao contrário foram relhados nos pelourinhos
todos são santíssimos designados por
instituições de entidades onde o papa não
passaria dum espírito anão meus espíritos
todos são espíritos concebidos pelas luzes
dos soles das maiores grandezas todos os
meus entes são de moradias eternas de
casas de poetas de portos de bardos cais
de embarcações universais me elevaram
além de mim em estaturas de firmamento
dito em testamentos as lições recebidas
consagro em escrituras as palavras citadas
datadas que guardo em santuário de coração
cada estátua de letra de pingo de sangue
cada provérbio em versículo em verso de
hemorragia me deixo crescer sem agonia
amadurecer-me sem angústia me absorver
sem ansiedade já aprendi a viver a não ficar
mais doente de depressão da minha
esquizofrenia de esquisito também já
aprendi a não morrer sigo eterno o eterno
nesta composição com certeza da condição
de ser inabalável fundido em núcleos de
vulcões siderais curado fundamental sarado
são a desprezar o vão com suas coisas vãs
este grito de aedo que acordou cedo antes
do tempo moderno registo nesta ata de acha
que ouço do vento são finos argumentos de
confrarias superiores vai tu vão tuas moradas
teus moradores pelas estradas que ligam
macrocosmos resgatai as mensagens
esquecidas nos varais celestiais nos portais
das dimensões trazei de volta a alegria a
felicidade o amor aos vossos corações mortais
nunca mais voltai às trevas das escuridões
abissais para não morrerdes nunca mais

BH, 0501102020; Publicado: BH, 0220602022

terça-feira, 21 de junho de 2022

reverencio reverendo este abençoado universo

reverencio reverendo este abençoado universo
saúdo saudável com saudade esta bem-aventurada
via-láctea respeito respeitosamente este venerável
sistema solar onde peço a minha benção a este
glorioso planeta terra azul água ar fogo todos os
elementos entram em jogo nesta ebulição de
composição poética sem goética de redação
antológica de antologia de escrita guiada pelos
deuses que nos permitiram fazer parte de
tamanha imensidão inexplicável de grandeza
inigualável apesar de sermos seres tão
insignificantes que há pouco andávamos de
quatro patas que teimamos em nos mostrar
gigantes mas acabamos tombados por esses
tempos infinitos oh blocos de rochas
desconhecidas que vagam por essas distâncias
insondáveis levados por forças estranhas oh
longínquas pradarias falésias plataformas
planícies planaltos aonde não se aportam nem
através dos pensamentos nobres oh ventos
dançadores movedores de moinhos milenares
açoitadores de vendavais de tempestades
furacões ciclones de planetas de galáxias de
aglomerações de constelações oh fenecidas
imagens que olhos normais jamais verão nem
em sonhos oh letras de ouro que cravejam
palavras de diamantes raros lapidados em
choques interuniversais de fundições
intergalaticas tingidos pelo sangue que jorra das
pontas dos meus dedos nesta epopeia lírica
deste poeta funâmbulo prestidigitador 

BH, 0501102020; Publicado: BH, 0210602022.

manuscrito de papiro transcrito de pergaminho encontrado no mar morto do meu coração

manuscrito de papiro transcrito de pergaminho encontrado no mar morto do meu coração
de cordeiro de teócrito com cabeça de fauno no cepo à espera do golpe do cutelo do carrasco
que a mando do sacerdote decepará a carne do cerne do pescoço para o corpo de cordeiro ser oferecido
aos deuses desconhecidos sem fiéis o braço do algoz está suspenso apenas pendido pelo universo
só à espera do sopro do vento que inflará a vela que levará o espírito à eternidade deste escrito sobrenatural
de letras de assombrações palavras fenecidas de entidades de seres perecidos nas rochas das ruínas
milenares que o tempo transformará em areia de desertos de exoplanetas que escondem sombras
nas penumbras habitadas por átomos de partículas de moléculas de matérias de esqueletos teimosos
caveiras rebeldes que se reverberam por reencarnações das mesmas carnações podres do pântano
do lago morto onde navega a embarcação do barqueiro que transporta as almas para o despenhadeiro
onde ancorou o meu coração de repente o universo soltou o braço pendido do demente o cutelo desceu
pungente sedento de sangue para matar a sede do mar vermelho se reuniram os sátrapas sacripantas
os sábios os filósofos de aquemêndia sassânida disseram o cadáver vomitado na praia do mar mediterrâneo
nas junções das placas tectônicas de todos os mares oceanos sagrados onde os justos andavam
em sagração sobre as águas a justiça da liberdade era trazida pela maresia doce da brisa marinha

BH, 02701002020; Publicado: BH, 0210602022

conversei telepaticamente com pai

conversei telepaticamente com pai
só conseguimos falar por telepatia
sou espírito incorporado no corpo
dum menino branco
pai é espírito mas de carne de osso
que fica só a escrever pelos cantos da casa
está desempregado desesperado como sempre
mãe é um sofrimento só
ainda mais agora que passou dos setenta
perdeu o meu benefício
parece até que vai ter que devolver
uma quantia que
governo pensa que
pagou demais
mãe quer mudar para casa menor
aluguel mais em conta
pai bebe todo santo dia
chega à casa bêbado
perturba mãe
aborrece irmã
comigo não mexe
pois sabe que
dou porradas
não são poucas
morre de medo de mim
de me encher o saco
para não surtar
senão quebro a casa toda
a cara também
bato a cabeça na parede
dou socos nas paredes
enfio dedo nos olhos
um pandemônio danado
se ninguém ajudar mãe
nem sei o que vai fazer
nem quer falar com ninguém
que perdi benefício
no fundo fico com dó
mas que posso fazer?
pai parasse de beber já ajudava pouco
velho doido por cerveja
cachaça conhaque
não há nada que
o afasta do álcool
às vezes fala que
bebeu álcool puro
acredito

BH, 02301002020; Publicado: BH, 0210602022

se precisares pensar para escrever não escrevas

se precisares pensar para escrever não escrevas
se quiseres torturar a mente em busca dalgo
como um demente trêmulo tal um decrépito
romper a normalidade para imortalizar uma poesia
não o faças nem fales o que fizeste ou o que
deixaste de fazer pois a letra procura a palavra
a palavra procura a frase a frase a sentença a
sentença o período quando menos esperas teus
fantasmas te deixam de legado uma obra-prima
que ao final assinarás como se fosse tua até
vangloriarás ufanamente que esquecerás dos teus
fantasmas escondidos dentro de ti nos escombros
das tuas masmorras calabouços prisões que usam
por moradas de versículo em versículo escreverás
uma biblioteca não ganharás o prêmio nobel de
literatura
combaterás o capitalismo derrotarás a burguesia
aniquilarás a elite destruirás a cleptocracia
enterrarás
a plutocracia resgatarás a democracia
devolverás
ao povo o que é do povo o poder do povo amarás ao
teu próximo como a ti mesmo viverás em paz sem
cartões de créditos débitos não cometerás
nenhum desmandamento comerás teu arroz
com feijão farinha beberás tua água fresca do
pote amanhã de noite quando for no mar noite
dormirás o sono dos justos na embarcação dos sonhos
não acordarás sonâmbulo a andar por sobre as águas

BH, 02301002020; Publicado: BH, 0210602022

meu coração não é meu pois é transplantado doutro peito ateu

meu coração não é meu pois é transplantado doutro peito ateu
é um coração carregado de sangue venoso sufocado de ódio
afogado de cólera de ira não irá muito longe neste destino
incerto tropeçará nas pedras deste caminho estreito mas meu
coração é um aleijão por dentro um capenga manco sem
muleta para coxo de bengala se instala em qualquer valeta
come em qualquer cocho pois é um coração de porco tem
gosto por qualquer esgoto não há nada que dispare este
comboio que descarrilhou na encruzilhada dos fantasmas das
assombrações dos vagões dos porões dos sótãos soltaram
minhas mãos me vi afundar num mar de bílis num oceano
gástrico arrotei amargo com amargor depois que vomitei azedo
de choco nada em mim era doce tudo era louco a mágoa só
aumentou quando a morte viu a careta da minha cara de
caveira de fóssil de esqueleto chorou como chora uma criança
desmamada de criatura sem criador da minha caveira de cara
risonha ria da morte bisonha eternamente enquanto cavalgava
meu cavalo do tempo meu coração dançava com o vento menino
redemoinho me elevei ao firmamento que se abriu receber-me

BH, 01601002020; Publicado: BH, 0210602022

do vale é o lírio a estrela da manhã

do vale é o lírio a estrela da manhã
o lírio é a estrela da manhã do vale
um complementa o outro fica impossível de
se imaginar o vale sem o lírio o lírio sem o vale
pois são vestidos de riquezas que não se pode
comparar naturalmente o lírio nem o tal do
salomão chegou perto o vale é a morada
preferida do vento quando vem em disparada
das nuvens pelas paragens veredas sendas
encostas torna subir às alturas repentinamente
despenca alado no ventre do vale a brincar com
o lírio na haste tenra forma-se um belo trio a se
apreciar a qualquer momento da vida a quem
tem um bom gosto a desfrutar a ouvir as
canções do vento a declamar poesias à estrela
da manhã o dia empresta toda alegria para não
decepcionar um é companheiro doutro mesmo
quando chega a noite o vale está escuro vem a
lua a observar o prateado na relva que ajuda a
clarear até as nuvens somem do céu nessa hora
o universo se aproxima tão densamente que a
pulsação é sentida no coração na vida na
natureza se ouve uma oração é a criança a
agradecer é o pastor a vigiar é a ovelhinha a
balir de contentamento o vale é só o lírio o vento
a estrela da manhã o firmamento

BH, 02001102020; Publicado: BH, 0210602022