sexta-feira, 30 de julho de 2021

Até hoje não consegui entender

Até hoje não consegui entender
Porque é que não sei chegar a
Um modo de melhor me
Compreender quando penso que
Estou me entender quando
Penso que estou me conhecer
É aí que vejo que sou um
Estranho para mim não me
Assimilo nada não me sinto
Nada nem sei nada de mim
Cada vez mais me complico
Comigo mesmo com  este
Problema sem solução que sou
Quebro cabeça pensar que
Desejo descobrir formas almejo
Resolver fórmulas que me
Levem à uma conclusão ao
Meu próprio respeito sou um
Alienígena para mim sou um
Extraterrestre dum exoplaneta
Num objeto voador não
Identificado deve existir gente
Por aí que me conhece muito
Mais do que sou só sei me
Complicar me enredar me
Mistificar só sei me embaraçar
me fechar dentro da minha
Legítima ignorância até hoje não
Consegui me desvendar nem
Saber porque é que sou mesmo
A cada dia que passo comigo me
Enquadro cada vez mais no
Quadrado dos quadrados no
Cubo dos cubos chego a ser
Ridículo ao meu respeito
Preciso duma saída de
Emergência de dentro de
Mim preciso é dum
Discernimento melhor do meu
Conhecimento necessito 
Iluminar minha pessoa assumir
Que sou gente também o
Meu ser é humano minha raça
É humana a minha sociedade é
A humanidade aí então serei feliz
Serei um ser iluminado em toda
Parte do meu íntimo aí então
Serei mesmo amor serei um
Gente boa todo mundo vai gostar
De mim vou gostar de todo mundo
Assim poderei dizer para mim
Mesmo que como é bom ser lúcido

RJ/1977; Publicado: BH, 0300702021

Chamo-me adeus

Chamo-me adeus
Chamo-me ninguém
Chamo-me nunca
Pega esse outro nome
Que pensavas
Que era o meu nome
Jogues noves fora
Jogues no vaso
Jogues onde quiseres
Não tenho nome
Não tenho eu
Não tenho tu
Nem te conheço
Nem me conheces
Nunca te vi
Nem nunca me viste
Chamo-me beltrano
Chamo-me fulano
Chamo-me sicrano
Pegues a sacola
Vás embora vaza
Rasgues o endereço
Também vou mudar daqui
Esqueça o amor
Esqueça os beijos
Esqueça a boa vida
Esqueça o carinho
Esqueça a paz
Esqueça o homem
Não sou teu homem
Não sou gente
Não sou humano
Agora fiz tudo que querias
Agora dei tudo que pedias
Já deves estar
Bem satisfeita
De barriga cheia
Não quero nem lembrar
De como é
Que me tratavas
Chamo-me louco
Chamo-me maluco
Chamo-me doido
Agora podes
Ficar bem mais tranquila
Pois nunca mais
Vou olhar para ti
Chamo-me até logo
Chamo-me tchau
Chamo-me passar bem
Chamo-me adeus

RJ/1977; Publicado: BH, 0300702021

Quero amanhecer o dia de hoje

Quero amanhecer o dia de hoje
Em festa a comer a beber poesias
Em banquete a comer a beber poemas
Fominha a ruminar rimas guloso a
Mastigar estrofes insaciável a digerir
Versos sedento a engolir tudo pois quero
Amanhecer o dia de hoje com fome com
Muita fome de zé com fome com muita
Inspiração de cada dia dada no amanhecer
Do dia de hoje quero amanhecer o dia de
Sol junto com o sol junto com o céu com
As cores da madrugada quero amanhecer
Quero amanhecer o dia de hoje mais vivo do
Que nunca mais alegre do que ontem
Mais gente do que sou mais eu do que
Ninguém quero amanhecer o dia de hoje
Bem mais poeta com bom humor com 
Mais amor quero amanhecer o dia claro de
Hoje um fruto maduro um pão bom um
Ser experiente deixar amanhecer quero
Amanhecer o dia de hoje pois quero ser a
Manhã que amanhece no dia de hoje

RJ/1977; Publicado: BH, 0300702021

Catarro expectorado

Catarro expectorado
Duma pessoa caturra
Dum homem cru
Escarro expelido dum
Escorpião de veneno mortal
Dum ser não sido cujo pão é
A inexistência que come no
Vômito de cada dia de peito
De fole sem fôlego dum forno
Apagado sem calor que o 
Pão não assou o bolo solou
Duma carne putrefata cuja
Putrescência já chegou ao 
Auge a putrescibilidade não
Tem mais possibilidade duma
Restauração devido a grande
Teor pútrido de ser debiloide
Ababelado feito de várias
Misturas feito de várias
Confusões da carne do corpo
Do sangue arterial transformado
Em venoso a causar a morte a
Mão decepada que aperta o pescoço
Do dedo desvairado que puxa o
Gatilho ao nascer mais um defunto
Defumado para dar emprego a um
Coveiro que no aborto precisa
Matar a fome do abutre ou dum
Corvo sombrio ou dum urubu
Suicida desprezado pelo lobo
Amado pela hiena um cão sem
Lei ou um cão sem dono ou um
Vira-latas dum cão belo dum
Belo catarro expectorado

RJ/1977; Publicado: BH, 0300702021

Nem ouro nem prata

Nem ouro nem prata
Não tenho ouro não
Tenho prata nem tenho
Petróleo nem nenhum
Dinheiro não tenho
Joias não tenho pedras
Preciosas ou semipreciosas
Não tenho riquezas não
Tenho bens não tenho
Ações nem tenho nenhuns
Investimentos é que não sou
Burguês não sou da elite
Nem sou da classe média
Não tenho imóveis nem
Tenho móveis não tenho
Navios ou iates ou ilhas
Nem tenho bosques não
Tenho vilas nem tenho
Vales ou mansões castelos
Não tenho automóveis
Nem tenho luxo só lixo
Não sou de luxo só de lixo
Nem sou milionário não
Sou nem rico não tenho
Lucros nem tenho a força
Não tenho o poder nem
Sou o maior ou o melhor
Sou o amor tenho amor
Faço amor quero amor
Não tenho ouro não tenho
Prata sei bem disso não
Tenho nada nem sou de
Nada é o que sei de mim

RJ/1977; Publicado: BH, 0300702021

Só me resta agora

Só me resta agora
Só mereço agora
A pena de morte
Pelo fuzilamento ou forca
Só me resta agora
Só mereço agora
A guilhotina ou garrote vil
Ou esquartejamento
Ou cadeira elétrica
Isso é só o que mereço agora
Isso é só o que me resta agora
Esse é o meu prêmio
Ser decapitado
Amarres minhas mãos
Os meus pés
Amarres-me todo
Coloques uma pedra
Bem pesada no meu pescoço
Jogues-me no fundo do mar
Só mereço agora
Só me resta agora
Ser queimado vivo
Numa fogueira da inquisição
Ou ser crucificado
De cabeça para baixo
Em cima dum formigueiro
De formigas carnívoras
Só mereço agora
Só me resta agora 
Ser devorado vivo em
Banquete de confraria de canibais
Ou ser desintegrado
Ou ser submerso
Dentro dum tanque
De ácido sulfúrico
Só mereço isso
Só me resta isso
Só isso
Ainda é pouco para mim
Mas que a justiça seja feita
É o que mereço agora
É o wue me resta agora
Ser julgado castigado
Pela mão humana do ser humano
Por não ser humano

RJ/1977; Publicado: BH, 0300702021

A morte do filho

A morte do filho
O filho quando morre
Causa grande dor
Nos pais
Mas essa dor
Não é maior
Que causa
Quando morre
Maior é a dor para a mãe
Do que quando o filho morre
É ao nascer
Mas essa dor é diferente
É de alegria
É de amor
É de vida
É suportada
Com coragem
Com fé
Mas o filho quando morre
Deixa uma dor de morte
De tristeza
De pranto
Pranto de mãe
Que acaba de perder
O filho pela segunda vez
O seu amado filho
Filho morto
Que não vai causar mais
Aquela alegre dor
Que é a dor do nascer
Choram lágrimas de mãe
Choram lágrimas de dor
Choram lágrimas de amor
Amor de mãe

RJ/1977; Publicado BH, 0300702021

quinta-feira, 29 de julho de 2021

Tombo na vida

Tombo na vida
Tenho que dar
Um tombo na vida
Ou do contrário
Vou continuar assim
Do jeito que sou
Até à morte 
Nada muda
Nada acontece
Tudo muda
Tudo acontece
Tudo se transforma
Na natureza
Apenas fico no passado
No tempo
No espaço
Apenas fico morto vivo
Fico vivo morto
No vácuo obscuro
Por isso
Tenho que urgentemente
Dar um tombo
Na minha vida
Um tombo certo
Um tombo perfeito
Um tombo novo
Ou do contrário
Posso cair de mal jeito
Quebrar o pescoço
Tenho que dar
Um tombo na vida
Virar doutro lado
Virar ao avesso
Mostrar ainda
O meu lado bom
O meu lado útil
O meu lado de bem
Por isso que digo
Que tenho que dar
Um tombo na vida

RJ/1977; Publicado: BH, 0290702021

Maria Gaguinha

Maria Gaguinha
Coitadinha
Entrava na venda do pai
Com os pés
As pernas inchados
Cheios de perebas
Maria Gaguinha
Pobrezinha
Entrava na vendinha
Pedia assim
Mim me dá dá
U um um uma ca
Ca ca cha cha cin cin nha aí
Bebia a cachacinha
Cuspia no chão
Passava o pé descalço
Cheio de perebas no cuspe
Tirava o dinheirinho
Todo amarrotadinho
Talvez o único
Pagava a cachaça
Depois saía
A gaguejar pragas sozinha
Toda sujinha
Maria Gaguinha
Pequenininha
Vozinha fininha
Corpo frágil
Vivia pelas vendas
A gaguejar à toa
Cousas que pouca gente entendia
A tomar cachaça
Que pagava
Que alguém pagava
A cuspir pelos chãos
Maria Gaguinha
Do álcool desdobrado
Da pinga falsa
Vivia pelas calçadas
Cheias de cuspes
Onde caía
Dormia embriagada
Num dia
Apareceu engravidada

RJ/1977; Publicado: BH, 0290702021

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Não faças a guerra

Não faças a guerra
Faças uma poesia
Faças um poema
Não faças a guerra
Faças uma música
Faças uma canção
Não faças o ódio
Faças o bem
Faças a união
Não faças o mal
Faças o amor
Faças a paz
Não faças a dor
Faças a vida
Faças a alegria
Não faças o sofrimento
Faças viver
Faças amar
Não faças morrer
Faças sorrir
Faças cantar
Não faças chorar
Faças ser
Faças existir
Não faças sofrer
Faças uma poesia
Com muita sinfonia
Faças um poema
Com a luz do dia
Não faças a guerra
Faças a filarmonia
Com muita harmonia
Não faças a morte
Faças a ressurreição
Nãos faça o enterro
Nem o aterro
Mas faças o desterro
Faças um acerto
No teu coração
Faças um aperto
Com tua alma
Tem algo solto
Dentro de ti
Que te impede
De ser o que
Realmente és
Um ser feliz
Um ser real
Não faças a guerra
Faças uma poesia então
Cantas uma canção
Faças um poema então
Avanças na direção
Com amor
Não faças a guerra
Nem o terror

RJ/1977; Publicado: BH, 0280702021

Livra-nos Senhor do imposto de renda

Livra-nos Senhor do imposto de renda
Dos demais impostos livra-nos oh
Senhor do alto aluguel da taxa de lixo
Livra-nos oh Senhor das demais taxas
Desumanas da denuncia vazia livra-nos
Senhor do jornal O Dia do Jornal O
Globo de todos os jornais livra-nos
Senhor da TV GLOBO da TV TUPI
Livra-nos oh Senhor das polícias
Militares das políticas porcas
Livra-nos Senhor de todos os
Políticos da hipocrisia de todos os
Poderes dos padres dos bispos das
Freiras do papa da igreja católica
Livra-nos Senhor dessas sujas religiões
Dos pastores suas igrejas evangélicas
Dessas doenças venéreas livra-nos oh
Senhor da desnutrição analfabetismo
Do subdesenvolvimento dessa classe
Média desconscientizada livra-nos oh
Senhor da burguesia da elite de todas
As prisões cadeias da ignorância
Livra-nos Senhor da podridão mental
Dos corruptores corrompidos corruptos
Sequestradores livra-nos oh Senhor do
Esquadrão da Morte do racismo da
Desigualdade livra-nos oh Senhor da era
Atômica das armas nucleares de todos
Armamentos livra-nos oh Senhor dessa
Era moderna dessa extinção poluição
De todos os males dessa sociedade
Livra-nos Senhor das doenças da inflação
Das crises desses loucos que querem
Governar-nos livra-nos oh Senhor do
Poder do ódio do poder pela força de
Todos esses médicos desses hospitais
Livra-nos Senhor dos hospícios dos
Nossos patrões dos nossos chefes de
Qualquer trabalho explorador mal
Remunerado livra-nos oh Senhor de
Qualquer emprego calamitoso dos
Motoristas de ônibus de táxis dos
Funcionários públicos livra-nos oh
Senhor dos assalariados dos operários
Pelegos de todos esses mendigos da
Pobreza da insuficiência livra-nos oh
Senhor desse amadorismo sono eterno
Livra-nos Senhor da psicologia moderna
Da filosofia moderna da parapsicologia
Atual da medicina atual livra-nos oh
Senhor dos índices sociais atuais dos
Prefeitos municipais dos governadores
Estaduais dos presidentes das nações
Poderosas das nações dos presidentes
Deste país livra-nos oh Senhor do baixo
Salário mínimo das nossas mínimas
Condições de sobrevivência na vida
Livra-nos Senhor da nossa escravidão do
INPS suas filas da CEF dos vendedores
Da loteria federal livra-nos oh Senhor das
Companhias de seguros administradoras
Corretores de imóveis livra-nos Senhor
Dos advogados dos juízes de direito de
Todos os mercenários livra-nos oh Senhor
Dos nossos inimigos militares da alta
Sociedade dos jornalistas livra-nos oh
Senhor dos trogloditas dos intelectuais
Dos poliglotas livra-nos oh Senhor das
Mercenárias das escolas de hoje dos
Colégios particulares de todas as
Faculdades universidades pagas
Livra-nos Senhor dos desfiles das
Forças armadas da guerra fria de todas
As guerras livra-nos Senhor dos técnicos
De televisão de todos os técnicos dos
Contratos de risco dos cientistas bélicos
Livra-nos oh Senhor de todas as ciências
Exterminadoras dos ninfomaníacos
Perseguidores dos homossexuais
Hermafroditas também livra-nos Senhor
Dos masoquistas dos sádicos dos
Sadomasoquistas dos que não respeitam
As mulheres lésbica livra-nos Senhor dos
Doentes sexuais de todo sexo podre livra-nos
Oh Senhor da prostitutas psicopatas neuróticos
Paranoicos débeis mentais retardados
Livra-nos Senhor dos loucos doidos
Malucos dos missionários profetas dos
Conselheiros livra-nos oh Senhor dos
Escritores dos poetas dos prosadores
Dos literatos dos críticos livra-nos oh
Senhor dos dentistas dos cronistas da
Censura da ignorância da censura da
Grande ignorância do censor livra-nos oh
Senhor da poluição sonora do extermínio
Do meio ambiente das multinacionais
Livra-nos Senhor da dívida externa dos
Dólares americanos da queda do cruzeiro
Dos Henrys Kinssingers do preço do
Petróleo derivados livra-nos oh Senhor
Da falta de gasolina da falta de luz da
Falta de paz da falta de amor livra-nos oh
Senhor da falta de mulher da falta de
Dinheiro da falta de cerveja da falta de
Cachaça de chope livra-nos oh Senhor da
Falta de poesia da falta de poemas da
Falta de inspiração de disposição livra-nos
Senhor da falta de sono da falta de sonho
Da falta de ideias ideal dos turistas
Idiotas das velhas mais chatas livra-nos
Senhor das mocinhas antipáticas que não
Dão convivência dos puxa sacos das
Repartições públicas dos órgãos federais
Cartórios escreventes livra-nos Senhor dos
Tabeliães ministros dos embaixadores dos
Diplomatas dos deputados senadores
Vereadores dos juros das compras a
Crédito livra-nos oh Senhor dos ladrões
Donos das lojas das cadernetas de
Poupança do BNH do SFH da correção
Monetária dos juros de mora das UPCs
Livra-nos oh Senhor da seleção brasileira
De futebol da CDB do time do fluminense
Da torcida do Fluminense das empresas
De turismo da RioTur livra-nos Senhor
Das joalherias H Stern e invasores do
País e do leite pasteurizado do alto preço 
Do pão do café das desnecessárias
Importações das exportações do pouco
Que temos das exportações em massa das
Mãos de obras especializadas livra-nos oh
Senhor dos edifícios dos monumentos de
Concreto armado das vigas chapas de aço
Da selva de pedra livra-nos oh Senhor do
Nosso espírito de homens irracionais da
Nossa semelhança com o macaco quando o
Macaco estiver errado livra-nos oh Senhor
Da falta dum mundo melhor dos Amarals
Netos da vida dos desenhos animados dos
Filmes de cowboys dos filmes enlatados
Americanos para televisão do rock and roll
Livra-nos Senhor do blues do jazz que aqui
Jaz das músicas estrangeiras dos uísques
Nacionais dos The Beatles dos conjuntos
De rock livra-nos oh Senhor das cocotas
Das gatinhas dos gatões surfistas das
Pranchas de surf das companhias 
Construtoras dos espigões nas regiões
Livra-nos Senhor dos carros fortes dos 
Triciclos dos Correios da Light da CEG
Da Companhia Estadual de Esgotos da 
COMLURB livra-nos oh Senhor das violações
De nossos direitos humanos das privações
De nossas liberdades livra-nos oh Senhor 
De todos esses males dos males vindouros 
Livra-nos Senhor de todas as proibições de
Quaisquer domínios sobre nós de tudo que
Sabes que causa nossa vergonha de tudo
Que sabes que nos falta livra-nos oh Senhor
Das nossas mediocridades amém amém amém

RJ/1977; Publicado: BH, 0280702021

terça-feira, 27 de julho de 2021

Diz para mim

Diz para mim
Existe algo mais gostoso
Do que a boca
Duma mulher
Diz para mim
Existe algo mais bonito
Do que o corpo
O corpo nu
Duma mulher
Anda diz para mim
Existe algo mais indispensável
Na vida dum homem
Do que a vida
Duma mulher
Hein?
Existe?
Fala?
Diz para mim
Existe algo mais valioso
Do que o amor sincero
Duma mulher sincera
Diz para mim
Existe algo mais pacífico
Do que os olhos
Duma mulher feliz
Não mudes de assunto
Respondas-me
Existe ou não?
Existe algo mais alegre
Do que o sorriso
Duma mulher?

RJ/1977; Publicado: BH, 0270702021

É só procurar

É só procurar
Que se encontra
Porque quem procura
Sempre acha
Quem bate na porta
A porta se abrirá
Ficar só a esperar
Não traz nenhum lucro
Vá de encontro
Ao que queres
Há alguém esperançoso
A querer também
Se não atacares
Não serás atacado
O leão mata
Só quando tem fome
Não és um leão
Não precisas matar
Precisas matar sim
A tua fome
Tua fome de homem
Não é a esperar
Que o pão caia do céu
Que matarás tua fome
Pão nosso de cada dia
Não cai do céu
Comerás o teu pão
Com o suor do teu rosto
Não procuras
Não batas com a cabeça
Mão lutes
Quero ver se consegues
Saciar com o pão fácil
Quero ver se o maná
Vai cair para ti
Até para roubar um pão hoje
Está bem mais difícil
A vida está dura
Até para a vida mole
A vida está ruim
Até para o boa vida
A vida está difícil
Até para a vida fácil
Então o que resta é a luta
É procurar sem cessar
Com corpo alma coração
Em espírito em verdade
Nunca viver a esperar
Mas ir sempre ao encontro
Do que possa te interessar
O pão de cada dia
Nunca te faltará

RJ/1977; Publicado: BH, 0270702021

Não gosto de ti

Não gosto de ti
Não encontro motivação
Sabes muito bem disso
Se pudesse
Acabaria contigo
Tiraria teus olhos
Com minhas unhas
Arrancaria tua língua
Com minhas mãos
Abriria tua cabeça
Tiraria teus miolos
Os esfregaria no chão
Mas não destilo motivação
De fazer isso contigo
É muito grande a ansiedade
Mas não sei o que me impede
De te exterminar
De te esquartejar
Não gosto de ti
Chego a te odiar
Se pudesse
Virar-te-ia ao avesso
Deixaria tuas tripas
Teu intestino
Teu estômago
À luz do sol
Até tudo secar
Aí moeria tudo
Numa farinha fina
Depois jogaria ao vento
Para cada molécula
Tomar rumo diferente
Sabes muito bem
Qual é a minha intenção
De fazer contigo
De te internar
Ou de te enterrar
Tenho uma obsessão infernal
Feral de acabar contigo
És um homem

RJ/1977; Publicado: BH, 0270702021

Com coração de tição

Com coração de tição
Que vontade de exterminar
Tudo que vejo ao redor é
Uma vontade louca de 
Quebrar de matar de
Aniquilar 0de parar o
Tempo deixá-lo apodrecer
No tempo apodrecer no 
Espaço sem ninguém a ter
Nada a ver com isso sem
Pensar em ti a te esperar a
Vida toda sem pensar em
Mim numa vontade sádica
Que tenho de te retalhar
Jogar numa talha ou num
Pote ou espalhar os pedacinhos
Pelo mundo a fora pois não
Mereces nenhum pingo de
Consideração ou de atenção
Aqui feito louco a me acabar
Por ti posso passo muito
Bem sem ti que desejo que
Tenho de parar agora parar
De tu de tudo de todo mas
Teu fantasma me persegue
Atiça-me o fogo o meu
Coração vira um tição

RJ/1977; Publicado: BH, 0270702021

Não gostas quando falo de amor

Não gostas quando falo de amor
Não gostas quando te procuro
Para amar não gostas quando
Falo-te que vou aí para te beijar
Na boca tens vergonha tens
Nojo desprezas amar já sei
Muito bem como é que és 
Sei que tens asco de dizer que
És mulher sejas mais mulher
Sejas sem vergonha não
Gostas quando falo que vou te
Acariciar que vou te abraçar
Que vou te fazer tudo que
Um homem faz com uma
Mulher não gostas não
Deixas fazer nada não
Gozas não gostas fazes
Cara feia falas até que vais
Deixar-me se continuar a
Tentar com o que não gostas

RJ/1977; Publicado: BH, 0270702021

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Para se fazer uma poesia

Para se fazer uma poesia
Ideia não falta inspiração
Não falta para se escrever
Uma poesia para um poema
mesmo ideal nem é preciso
Algo mais completo nem é
Preciso algo mais complexo
Ou mais formado para a
Poesia ou construído o
Poema é não esnobar a
Classe é não desprezar a
Categoria com um tema
Qualquer se faz uma obra
Com um lema sério entra
A rima entra a cadência
Entra a métrica entra a
Estrofe entra o verso
Entra a divisão silábica
Entra a tradição entra o
Dom entra tudo do fácil ao
Difícil a poesia celeste o
Poema terrestre a poesia
Sobrenatural o poema natural a
Poesia imortal o poema imortal

RJ/1977; Publicado: BH, 0260702021

Não te entregastes a mim

Não te entregastes a mim
Nem confiastes em mim
Até hoje és reservada
Quando estás comigo
De nada valeu minha
Sinceridade minha
Franqueza minha
Verdade sempre a
Duvidar sempre a afastar
Cada vez mais de mim
Gosto muito de ti
Penso até em te amar
Mas tens que acabar
Com essa mania de
Medo que tens não
Quero o teu mal não
Quero a tua ruína quero
Te ver feliz quero te ver
Sorrir nunca passou por
Minha cabeça a ideia de
Te fazer chorar és a
Minha menininha podes
Ser até o meu amor só
Depende de ti acreditar
Em mim acreditar em ti
Acreditar no amor não
Custa nada ser feliz
Quero muito te fazer feliz

RJ/1977; Publicado: BH, 0260702021

Ontem peguei um porre

Ontem peguei um porre
Bebi mais que um gambá
Fiquei por dever duas cervejas
No bar ainda quis brigar mas
Não tomo vergonha na cara
Tomo tudo menos isso todo dia
Tenho que beber já virou rotina
Em minha vida fico bêbado
Então aí começa o show aí
Começa a confusão a
Esculhambar geral a agredir
Uns a desrespeitar outros
Viro um bicho viro um perigo
Brigo bato apanho quebro
Os copos quebro as garrafas
Quebro a cara fico a dever a
Todo mundo esculpas fundos
O dono do bar já até me proibiu
De entrar no seu botequim
Pois quando entro tem confusão
Tem palavrão tem empurrão
Acabo na rua a xingar a mãe
Dum a provocar outro ontem
Peguei um porre de novo que
Arruinou-me falei coisas que
Não deveria perdi dinheiro
Amizade de muita gente
Sou mesmo um pobre de espírito
Quando bebo para ficar alegre
Acabo com a minha alegria
Faço a tristeza outros assim
Não desejo tentar me alegrar
Pois os meus porres só
Servem para me matar

RJ/1977; Publicado: BH, 0260702021