estou sem matéria-prima cerebral literal
linear quando vinha para cá vi um vale
passei à margem pensei que se passasse por
aqui mil vezes durante jamais passaria com
os olhos fechados ou a dormir passaria
sempre bem desperto com olhos bem abertos
pois esse vale vale mais do que cem olhos
sou o que devo esta obrigação ao vale não o
vale a mim esse vale vale uma eternidade
lembrei-me agora apesar de ainda estar por
baixo por fora completamente com a cabeça
sem nada por dentro não estou a sentir
discernimento nem estou a sentir lucidez não
é metáfora não é figurado é literal mesmo
falta-me conteúdo a causa do que deixou-me
assim meio com amnésia infrutífero sem
verve sem cerne praticamente sem recheio
também não falei que hoje está difícil até
agora só apareceram estas parcas linhas
diante de mim não perdi a tentação o desejo
de querer registrar um momento mas nesse
momento não consegui registrar nada que
valha um registro as pessoas passam a correr
os carros a voar só os pássaros são os que
sumiram da paisagem são raros até as
borboletas também estão escassas é por isso
que a poesia demora a fluir o poema a luzir
o ser que vive disso igual vivo sente falta
parece até que vai morrer quando não
frutifica um soneto no pomar da literatura
a poesia para mim é mais do que uma religião
é o sangue das minhas veias o tecido que cobre
minha pele minhas carnes é o pensamento que
falta-me às vezes é o meu comportamento que
que choca as pessoas é o silêncio que faz um
barulhão danado ao meu ouvido o motoqueiro
que passa a equilibrar em pé em cima da moto
de motocross é a mulher que passa a rebolar
um bundão indomável aqui na rua quase a
causar um acidente ou quase a ser atropelada
pelos automóveis hoje realmente não sai nada
de dentro de minha cabeça a não ser esta borra
neste papel quem quiser que chame de poesia
NL, 030502008; Publicado: BH, 0170302026
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