terça-feira, 17 de março de 2026

não reconheço a minha poesia não é de empolgar

não reconheço a minha poesia não é de empolgar
não é do tipo de arnaldo antunes pop concreta
não é concisa nem chic já disse que é de pau a
pique de sebe taipa não levanta poeira das
estradas nem pó das prateleiras nem é
transparente como a cristaleira é uma poesia
antiga ultrapassada que não será lida em
nenhuma academia nem no municipal não
participará de sarau pois tímida envergonhada
tem medo de ser ousada audaciosa é uma poesia
ociosa tem preguiça de tudo omite o que deveria
ser dito quando bebe uma ou outras é que
procura si sobressair mas aí está trôpega bêbada
embriagada fala aos borbotões grita gesticula
grunhe uiva já ninguém a escuta ninguém a dá
ouvidos nem moucos às bêbadas fica louca então
a pensar que está lúcida espera elogios mas quem
elogiou a loucura foi erasmo não está mais entre
nós só a obra pode agora morrer sem elogios
esquecida num sanatório tal bispo do rosário
sem resgate recuperação sou o que queria fazer
dessa poesia uma poesia zen nobre uma obra de
arte uma obra-prima a representação do que é
clássico erudito também vou morrer em vão
longe da companhia dessa poesia não ficará aí
para me defender bem como não a defendi o
que quero? o que não quer o meu coração cada
um vai para o seu lado todos os caminhos levam
ao mesmo lugar só sou o que não sei onde quero
chegar ando em círculos avanço regrido ando
para trás as mãos vazias i peito a arfar a cabeça
pendente ninguém aparece para me dizer se a
minha poesia é de gente indigente já sei que é
gostaria de ouvir o outro lado as opiniões lúcida ou
opaca obtusa clarificada? daí depende minha salvação

LN, 050502008; Publicado: BH, 0170302026

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