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sábado, 15 de fevereiro de 2014
Francisco Buarque de Holanda, Bastidores.
Chorei, chorei
Até ficar com dó de mim
E me tranquei no camarim
Tomei um calmante, um excitante
E um bocado de gim
Amaldiçoei
O dia em que te conheci
Com muitos brilhos me vesti
Depois me pintei, me pintei
Me pintei, me pintei
Cantei, cantei
Como é cruel cantar assim
E num instante de ilusão
Te vi pelo salão
A caçoar de mim
Não me troquei
Voltei correndo ao nosso lar
Voltei pra me certificar
Que tu nunca mais vais voltar
Vais voltar, vais voltar
Cantei, cantei
Nem sei como eu cantava assim
Só sei que todo o cabaré
Me aplaudiu de pé
Quando cheguei ao fim
Mas não bisei
Voltei correndo ao nosso lar
Voltei pra me certificar
Que nunca mais vais voltar
Vais voltar, vais voltar
Cantei, cantei
Jamais cantei tão lindo assim
E os homens lá pedindo bis
Bêbados e febris
A se rasgar por mim
Chorei, chorei
Até ficar com dó de mim
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
Aos meus amigos desiludido confesso; BH, 02801202013; Publicado: BH, 0140202014.
Aos meus amigos desiludido confesso
Perseguir obras-primas caçar obras de
Arte não é tarefa fácil para um vil
Mortal meus amigos me lancei nesta
Empreitada sem estar preparado
Devidamente estudado deu no que
Deu só nunca deu numa obra de arte
Numa bela arte nem nunca deu numa
Obra-prima mas de teimosia aí deixo
Uma liturgia pagã profana uma literatura
Que se não encantar pelo menos a mim
Serviu para preencher o meu tempo
Ocioso meus amigos não sei o que
Leva-me a pensar que faço algum tipo
De literatura não será acadêmica não
Será classificada não será definida
Mas me agradará em vida talvez
Postumamente o que não poderei
Confirmar possivelmente sem querer
Acabei de escrever há pessoas que
Pensam que cantam que encantam há
Pessoas que pensam que tocam há
Pessoas que pensam que pensam
Penso que escrevo com o mesmo
Direito doutras pessoas que pensam
Que fazem alguma coisa mas de todas
A arte mais difícil foi a que escolhi
Que é a arte de escrever de ainda ter
Que procurar leitor caçar ledor à unha
Para o que escrevi duplamente maldita
Esta arte de perseguir obras-primas
De caçador de obras de arte literárias
Pelos diversos universos inóspitos fora
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
Tom, Chovendo na roseira.
"Olha está chovendo na roseira
Que só dá rosa mas não cheira
A frescura das gotas úmidas
Que é de Luisa
Que é de Paulinho
Que é de João
Que é de ninguém
Pétalas de rosa carregadas pelo vento
Um amor tão puro carregou meu pensamento
Olha um tico-tico mora ao lado
E passeando no molhado
Adivinhou a primavera
Olha que chuva boa prazenteira
Que vem molhar minha roseira
Chuva boa criadeira
Que molha a terra
Que enche o rio
Que limpa o céu
Que trás o azul
Olha o jasmineiro está florido
E o riachinho de água esperta
Se lança em vasto rio de águas calmas
Ah, você é de ninguém
Ah, você é de ninguém"
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
Peregrino caminhaste só solitário; BH, 0501202013; Publicado: BH, 0120202014.
Peregrino caminhaste só solitário
A sós? o que importa-me existir?
Existir para que? quisera ser
Pobre diabo capeta sem inferno
Existir pelo menos no nada quisera
Que ó mortais sem nada mortais
Que têm tudo não têm um vento
Não têm um sol um céu ou pelo
Menos uma nuvem quisera poder
Ter poder mortais sem morte ter
Um monte um outeiro uma
Montanha poder dizer o que
Pode dizer um mortal mudo? o
Que pode dizer um mortal que
Nem a morte quer? quem é que
Quer alguma coisa a não ser a
Morte? se a morte não quiser
Nem a morte o que será daquele
Que nem a morte tem para barganhar?
Oferecerá o que à eternidade? que
Resposta dará ao infinito? ficarei
Aqui sem grito no silêncio a
Propagar estas reminiscências da
Morte fincarei aqui pois não
Agradei ao escriba secular não
Serei o que receberá as mensagens
Psicografadas dos fantasmas que
Refugiam-se no limbo fantoches de
Fantasmas que manipulam a felicidade
terça-feira, 11 de fevereiro de 2014
Mia Couto: Para ti;
Para ti
Foi para ti
Que desfolhei a chuva
Para ti soltei o perfume da terra
Toquei no nada
E para ti foi tudo
Para ti criei todas as palavras
E todas me faltaram
No minuto em que talhei
O sabor do sempre
Para ti dei voz
Às minhas mãos
Abri os gomos do tempo
Assaltei o mundo
E pensei que tudo estava em nós
Nesse doce engano
De tudo sermos donos
Sem nada termos
Simplesmente porque era de noite
E não dormíamos
Eu descia em teu peito
Para me procurar
E antes que a escuridão
Nos cingisse a cintura
Ficávamos nos olhos
Vivendo de um só
Amando de uma só vida
Foi para ti
Que desfolhei a chuva
Para ti soltei o perfume da terra
Toquei no nada
E para ti foi tudo
Para ti criei todas as palavras
E todas me faltaram
No minuto em que talhei
O sabor do sempre
Para ti dei voz
Às minhas mãos
Abri os gomos do tempo
Assaltei o mundo
E pensei que tudo estava em nós
Nesse doce engano
De tudo sermos donos
Sem nada termos
Simplesmente porque era de noite
E não dormíamos
Eu descia em teu peito
Para me procurar
E antes que a escuridão
Nos cingisse a cintura
Ficávamos nos olhos
Vivendo de um só
Amando de uma só vida
domingo, 9 de fevereiro de 2014
Meus camaradas companheiros amigos; BH, 0230102014; Publicado: BH, 090202014.
Meus camaradas companheiros amigos
Ao meu lado vinde a noite é longa
Grande a jornada vinde a mim meus
Irmãos em universo a quem posso
Chamar de irmãos vinde a mim os que
Foram os que estão os que irão todos
São os meus comparsas todos são os
Meus cúmplices bons peregrinos bons
Caminhantes todos são os meus guias
Vinde a mesa está posta no meio da
Estrada na presença de todos ceemos
Cada um agora conta a própria história
É a hora do destino amanhã seguiremos
Viagem o infinito é logo ali à distância
Dum grito todos seremos eternos
Uns nos outros os que foram os que
Ficam os que irão vinde não estaremos
Sozinhos não seremos abandonados
Faremos parte duns doutros cada um a
Completar cada um para a posteridade
Vinde quem não quiser que seja mortal
A sós não será obrigado a nada nem
A viver vinde o tempo somos nós
O tempo será feito por nós
domingo, 2 de fevereiro de 2014
Carlos Drummond de Andrade, Stalingrado.
Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,
e o hálito selvagem da liberdade
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem,
enquanto outros, vingadores, se elevam.
A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho.
Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,
na tua fria vontade de resistir.
Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome
(em ouro oculto) estará firme no alto da página.
Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.
Saber que vigias, Stalingrado,
sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes
dá um enorme alento à alma desesperada
e ao coração que duvida.
Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente!
As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio.
Débeis em face do teu pavoroso poder,
mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,
as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta,
aprendem contigo o gesto de fogo.
Também elas podem esperar.
Stalingrado, quantas esperanças!
Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!
Que felicidade brota de tuas casas!
De umas apenas resta a escada cheia de corpos;
de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.
Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem trabalho nas fábricas,
todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,
mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,
ó minha louca Stalingrado!
A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,
apalpo as formas desmanteladas de teu corpo,
caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,
sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?
Uma criatura que não quer morrer e combate,
contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,
contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,
contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate,
e vence.
As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.
Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.
Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres,
a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,
e o hálito selvagem da liberdade
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem,
enquanto outros, vingadores, se elevam.
A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho.
Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,
na tua fria vontade de resistir.
Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome
(em ouro oculto) estará firme no alto da página.
Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.
Saber que vigias, Stalingrado,
sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes
dá um enorme alento à alma desesperada
e ao coração que duvida.
Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente!
As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio.
Débeis em face do teu pavoroso poder,
mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,
as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta,
aprendem contigo o gesto de fogo.
Também elas podem esperar.
Stalingrado, quantas esperanças!
Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!
Que felicidade brota de tuas casas!
De umas apenas resta a escada cheia de corpos;
de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.
Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem trabalho nas fábricas,
todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,
mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,
ó minha louca Stalingrado!
A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,
apalpo as formas desmanteladas de teu corpo,
caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,
sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?
Uma criatura que não quer morrer e combate,
contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,
contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,
contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate,
e vence.
As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.
Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.
Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres,
a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.
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