sexta-feira, 15 de julho de 2022

todo cinza num dia cinza depositado

todo cinza num dia cinza depositado
numa urna fúnebre cinza deixa um fosco de cinza
cadê aquela tonalidade azul que estava ali
naquela nesga do firmamento?
cadê aquele dia transparente?
tudo agora à toda hora é só dia da cor do pesadelo
são covas
mais covas
sepulturas
mais sepulturas
féretros
mais féretros
não se dão contas de tantos cadáveres
quem carregará esses corpos mortos podres às costas?
quem enterrará esses despojos de restos
mortais nos sepulcros?
são esqueletos
mais esqueletos
são ossadas
mais ossadas
são caveiras
mais caveiras
alguém há de responder por esse genocídio
guardará no ossuário interior todos esses
ossos abandonados pelos céus
pelos infernos
não parece ter fim a tempestade sem fim de mortes
não parece ter um basta a tormenta mortífera
o furacão nos abocanha
não temos mais a salvação no planeta placenta
ou na terra firme
ou na terra à vista que querem a alcunha de terra plana
cada alma terá que abrir um cemitério dentro
da própria alma para hospedar todas essas
almas cinzentas que ficarão sem paraíso

BH, 080702021; Publicado: BH, 0150702022

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