ou a cabeça aberta ou o crânio neandertal
arejado só o crânio de cromagnon
petrificado a única cabeça aberta que tinha
era a cabeça rachada de samba lê lê que
nunca pensou ainda mais agora que está
quase septuagenária é que não vai pensar
só por pedradas doutro menino era que às
vezes a caixa era arrebentada me viciaram
em gammar nada de raciocinar me
entupiram de memoriol nada de memorizar
ou de lembrar ou de recordar ou de
mentalizar me afogaram de biotônico
fontoura ficava raquítico sem atitude sem
ânimo nem as surras as tacas me
despertaram pelo contrário me inibiram
muito mais continuava criança obscura que
a vizinha chamava de menino malino com
olhos de criminoso assassino fui assim já
condenado na infâmia da infância morria
afogado nos rios rasos sob os risos alheios
corrias de brigas de bois que pensava que
eram bravos não enxergava um palmo à
frente do nariz devido à miopia tardiamente
detectada não escutava direito esquecia as
rezas as orações as preces que aprendia os
óculos nas cachoeiras os quebrava nas
peladas do futebol nos campinhos piado
desde então virei piada de quatro olhos
nunca mais deslanchei dessas amarras
malditas das cavernas
BH, 02701002021; Publicado: BH, 060902022
Ivanovitch, o Prêmio Nobel de Literatura, nunca laureado.
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