quinta-feira, 5 de novembro de 2026

não falo mais nada pois não sei mais falar

não falo mais nada pois não sei mais falar
quando sabia falar ne calava agora que
não sei mais falar mudo não falo mais
nada nem de útil nem de inútil além do
mais tudo que alguém pensa que tem
para falar já foi falado de todos os jeitos
de todos os lados não falo mais nada nem
a mim mesmo nem de mim mesmo nem
a ninguém nem de ninguém se fosse
alguém não falaria o que valeria a pena
falar toda fala é fala pequena entra num
ouvido sai noutro daqui a pouco aquela
fala já morreu caducou envelheceu o
melhor da vida é calar nem ter nada para
ouvir nem ter nada para falar a vida é
muito ávida rápida breve passageira
corriqueira mal mal dar-se tempo de
beber comer feijão sem sal se bobear
piscou a morte levou no dia seguinte
ouvidos moucos ouvidos olvidos ou
vidas de mercadores o nome nem
sobrenome fulano beltrano sicrano que
se pensava um falador pensador jaz
mudo surdo cego esquecido com o
esqueleto desovado igual graveto
levado pelos ventos assombrados das
cidades fantasmas gameleiras encovadas

BH, 01401002026; Publicado: BH, 0501102026

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