segunda-feira, 3 de agosto de 2026

não auscultei meu coração era muito selvagem

não auscultei meu coração era muito selvagem
para uma auscultação se dizia sim o peito dizia
não se se mostrava sangrento molhado o seio
era árido de seco arenoso desértico não dei
ouvidos à sistole à diástole agora sou um sítio
ermo agora um tolo numa colina queimada
numa vereda cinzenta empoeirada num sertão
de cactos palmas espinhos ossadas o sangue
não é mais arterial é sangue ralo porém venoso
pouco ou quase nada rega o corpo que mais
parece um esqueleto de caveira triste que não ri
de vergonha por estar desdentada quando a
chuva voltar dentro de mim cultivarei grama de
jardim flores vivas sempre-vivas nada de morte
de azar só vida só sorte vagarei de sul a norte
de leste a oeste indene onde estiver o vento
com sua rosa dos ventos estarei em poesia em
poema em prosa sempre em oração em reza
forte em prece não mais entristecida alguém
terá que ouvir ao dar ouvidos não olvidados por
mais abissal levantei das cinzas lázaro a correr
ouvi o grito do infinito o eco da caverna a ordem
suprema levanta anda haja vida onde nunca
houve toma essa alavanca esse ponto de apoio
mova o mundo ao rumo dum horizonte novo

BH, 0100702026; Publicado: BH, 030802026

sexta-feira, 31 de julho de 2026

DAVD BOWIE


 

O MAIOR GIRASSOL DO MUNDO, PAMPULHA LAKE:



 

CAETANO VELOSO:


 

emperrei na encruzilhada empaquei na estrada

emperrei na encruzilhada empaquei na estrada
não disse nada silenciei como se fosse surdo
nem me assustei como se fosse cego
perguntaram-me és mudo? também não
respondi pudera tudo já era tudo jaz como um
cadáver nada mais faz o mundo se corrigir em
qualquer lugar que seja que se chega não se é
mais um bom lugar para se viver pois para se
viver bem hoje nem é preciso aprender a viver
é preciso aprender a se fingir de morto um bom
fingidor vai longe ultrapassa o horizonte navega
no infinito nem parece um pecador com dez
mandamentos para defender como ser o melhor
dos homens porém a escuridão escureceu o
caminho a luz se apagou o amor não brilhou a
paz mudou de cor o sol não nasceu se nasceu
ofuscou nem à esperança consegui dar a mão
para atravessar a rua o medo aumentou nem
pensei nos questionamentos pois não tinha
argumentos vazio de pensamentos não posso
mais voltar se encontrasse a lucidez o
discernimento que felicidade bonança de
tranquilidade nunca mais a tristeza ia fazer de
mim um choro sem fim só um florido jardim
onde poderia construir um altar para a urna com
as cinzas que agora seria reduzido com o tempo

BH, 080702026; Publicado: BH, 0310702026

tenho que parar com esse negócio

tenho que parar com esse negócio
alguém tem que parar com esse negócio
ninguém quer parar com esse negócio
equiparar a situação a melhorar o ganha pão
espalhar de grão em grão a semente
até a um grão-pará a cultivar o trigo
separar o joio encontrar a joia
deixar de paranoia de teoria da conspiração
desejar inspiração ao deixar de ser psicopata
ao deixar de ser doente de psicose
de cirrose xarope para tosse epocler
marie claire zé mané remédio melhor
é contrafilé em gincana à parmegiana
depois dum copo de cana donana soberana
cabelo de índia comprido maior do que
rabo de cavalo acordei num estalo
que vem de século em século depois
só de milênio em milênio
quem não antenou antenor áquiles matou
heitor seu nestor nunca ouvi falar doutro
vavá só o do samba ou do jogador garrincha
pelé discutir sobre mulher o assunto que dá pé
tem quem dá outras coisas 
cada um dá o que tem deu o que é seu
ninguém tem nada com isso
só deu um grito quando ardeu
só dei um grito quando acordei do pesadelo
na hora do estalo universal
meu deus era dia de carnaval

BH, 0300602026; Publicado: BH, 0310702026