quarta-feira, 12 de outubro de 2022

aqui da janela do barracão da favela

aqui da janela do barracão da favela
vejo o céu a dominar a barrela
dos becos
das vielas
o aglomerado
o gueto são o oco do mundo
a terra da viagem sem volta
o lugar onde judas perdeu as botas
o vento faz a curva
não aguento mais ver tanto tormento
dum lado o assaltante
traficante
um fuzil a me oferecer
doutro a polícia a me endereçar a sua bala
perdida com endereço ao meu coração
ou sempre à cabeça dalguma incerta criança
ou adulto não importa a resposta
ou a explicação para as estatísticas
pobre preto favelado
não tem expectativa duma perspectiva
não pode sair além da janela do barracão da
favela a não ser quando pega carona num
camburão
ou num rabecão na banguela
mesmo com o horizonte à frente o fim da
viagem é o instituto médico legal para falsas
autopsias 
causas mortis
atestado de óbito do indigente
depois é vala rasa recente
tudo muito rápido que atrás vem "gente" ops
gente não meliante pois quem mora na
favela é bandido
assaltante diz a autoridade boquirrota
ignorante que sabe que tudo vai continuar
como dantes no quartel de abrantes pois o
próprio povo não tem interesse de levar a
cidadania
dignidade
a soberania adiante
prefere ficar à janela do barracão da favela
boneco falante manipulado por ventríloquo
ambulante

BH, 0260602022; Publicado: BH, 01201002022

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