carnaval nenhum samba enredo no varal
teimo em dizer carnaval silêncio sepulcral
só alguns granidos dalgum louco por aí só
algum limpar de garganta de alguém na
garagem assoar de nariz no assoalho
espirro incontido deserto mental continua
igual dia de natal nenhuma mulher rainha
princesa nua a desfilar em frente dalguma
bateria frenética como antigamente nem
ronco de cuíca nem batida de surdo nem
repinico de reco-reco nem cadência de
tamborim ou choro de cavaquinho nada no
saara em pleno domingo de carnaval
sumiram passistas mulatas malandros
pandeiros nádegas rebolativas ao ritmo
alucinante do samba mestres-salas
porta-bandeiras sumiu todo mundo do
mundo da fantasia dos desfiles das
passarelas dos salões das apoteoses
só um velho poeta num velho encardido
sofá vermelho a rabiscar à posteridade
a traçar sinuosas linhas à imortalidade
a gerar garranchos à eternidade já meio
surdo completamente sujo já meio cego
desgraçadamente mudo seco até de
baba saliva quiçá sexo já que como
sempre em todo carnaval o senil nunca
tem algum para beber algumas a não
ser quando aparece alguma ajuda dalgum
abastado que deixa de esmola alguns
tostões ou trocados que sobram o velho
serelepe corre ao primeiro bar da
primeira esquina próxima do lar afoga
as mágoas com as lágrimas das
meninas são lágrimas ardentes
cristalinas novamente a vida retorna
ao torno o ancião ressuscita o ralo
sangue a destilar nas veias colombinas
de longe se ausculta as batidas
descompassadas do devasso coração
BH, 0270202022; Publicado: BH, 02501002022
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