sexta-feira, 2 de março de 2012

Cobri meu peito de aço; BH, 040701997; Publicado: BH, 020302012.

Cobri meu peito de aço
Com o albornoz
O grande manto com capuz
Usado pelos árabes
Nas noites frias dos desertos
Alimentei-me de albume
A substância que nutre
A semente dalgumas plantas
Sou uma semente
Sou uma planta
Sou um vegetal
Vivi de albúmen
Na minha fase extrema
Antes de chegar a condição
De ser humano normal
Hoje a minha preocupação
É com certo tipo de proteína
Que possui a propriedade
De se coagular pela ação do calor
Encontrada principalmente
Na clara do ovo
Que a minha mulher tanto gosta
No soro sanguíneo
A alça que sustenta a defesa
Do organismo humano
Com a albuminúria que é a
Existência de albumina na urina
Com uma alimentação sadia
De verduras legumes grãos a
Compor com a alcachofra
Planta hortense da família das
Compostas a alcaçuz a planta
De raiz adocicada da família das
Leguminosas sobrepõe às alimentações
Pesadas gordurosas saturadas
Que causam mais mal ao organismo
Do que alimentá-lo intoxicam-no mais
Do que ajudam a preservá-lo

Carlos Drummond de Andrade, Canto do Rio em Sol; BH, 020302012.

I 
Guanabara, seio, braço 
De a-mar: 
Em teu nome, a sigla rara 
Dos tempos do verbo mar. 
Os que te amamos sentimos 
E não sabemos cantar: 
O que é sombra do Silvestre 
Sol da Urca 
Dengue flamingo 
Mitos da Tijuca de Alencar. 
Guanabara, saia clara 
Estufando em redondel: 
Que é carne, que é terra e alísio 
Em teu crisol? 
Nunca vi terra tão gente 
Nem gente tão florival. 
Teu frêmito é teu encanto 
(Sem decreto) capital. 
Agora, que te fitamos 
Nos olhos, 
E que neles pressentimos 
O ser telúrico, essencial, 
Agora sim és Estado 
De graça, condado real. 
II 
Rio, nome sussurrante, 
Rio que te vais passando 
A mar de estórias e sonhos 
E em teu constante janeiro 
Corres pela nossa vida 
Como sangue, como seiva 
-- Não são imagens exangues 
Como perfume na fronha 
... Como pupila do gato 
Risca o topázio no escuro. 
Rio-tato- 
-Vista-gosto-risco-vertigem 
Rio-antúrio 
Rio das quatro lagoas 
De quatro túneis irmãos 
Rio em ã 
Maracanã 
Sacopenapã 
Rio em ol em amba em umba sobretudo em inho 
De amorzinho 
Benzinho 
Dá-se um jeitinho 
Do saxofone de Pixinguinha chamando pela Velha Guarda 
Como quem do alto do Morro Cara de Cão 
Chama pelos tamoios errantes em suas pirogas 
Rio, milhão de coisas 
Luminosardentissuavimariposas: 
Como te explicar à luz da Constituição? 
III 
Irajá Pavuna Ilha do Gato 
-- Emudeceram as aldeias gentílicas? 
A Festa das Canoas dispersou-se? 
Junto ao Paço já não se ouve o sino de São José 
Pastoreando os fiéis da várzea? 
Soou o toque do Aragão sobre a cidade? 
Não não não não não não não 
Rio, mágico, dás uma cabriola, 
Teu desenho no ar é nítido como os primeiros grafismos, 
Teu acordar, um feixe de zínias na correnteza esperta do tempo 
O tempo que humaniza e jovializa as cidades. 
Rio novo a cada menino que nasce 
A cada casamento 
A cada namorado 
Que te descobre enquanto rio-rindo. 
Assistes ao pobre fluir dos homens e de suas glórias pré-fabricadas.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Como posso sentir amor em meu peito; RJ, 090401996; Publicado: BH, 01º0302012.

Como posso sentir amor em meu peito
Se de manhã à noite
Alimento-me de ódio de rancor?
Meu coração é uma barreira
De concreto armado
Minha mente um vulcão apagado
Coberta de lava petrificada
Minh'alma é vacilante
Um anjo sem asas
Um anjo duvidoso
Sem guarda de sentinela
Que vai vem
Numa dúvida só
Sem ação alguma
Amarrada num nó só
Como posso sentir paz dentro de mim?
Se quando durmo o meu sono é pesadelo
Meu sonho é infernal
Querem todos os demônios do mundo
Apoderarem-se do meu ser
Não durmo mais
Parece que morro à noite
Velam meu corpo velho
vejo o meu próprio enterro
Sinto até a terra a me cobrir o caixão
Num cemitério de cidade fantasma
Ninguém chora a minha morte
Zombam riem gracejam
Dão até graças a Deus
Inda bem que morreu

É uma tristeza; RJ, 02101101996; Publicado: BH, 01º0302012.

É uma tristeza
Ver esse grupo
Que se apoderou do poder
Entregar assim
A nossa riqueza
Meu coração fica partido
Meu espírito dilacerado
O princípio fica de lado
O que importa é vender
Entrar em orgasmo hilariante
Rir igual hiena na carniça
Quando uma venda é efetuada
É mais um dinheiro
Que será repartido entre eles
Alguém tem que deter
Esse grupo que está aí
Chega de entregar
É hora de integrar
O Brasil nunca foi nosso
Sempre fomos escravos
Sempre ficamos subjugados
À mercê dos estrangeiros
À mercê das multinacionais
Precisamos agora
Levantar a voz
Proteger o que é nosso
Enquanto há tempo
Amanhã vamos chorar
Vamos lamentar
Ter que comprar caro,
O que hoje entregamos
De mãos beijadas

Persiste; RJ, 02001101996; Publicado: BH, 01º0302012.

Persiste
Invade
Aumenta
Cresce cada vez mais
Deixa em pânico
Enfraquece mata
Pior que a AIDS
Pior que o câncer
Pior que a lepra
Apodrece decepa
Seca cai
Pior que a morte
O azar a falta de sorte
Mais ruim do que o mau
Mais mal do que
O doente terminal;
O paciente letal
Impede a vida
Isola a felicidade
Acaba o prazer
Termina em derrota
Termina em rendição
O maior dos complexos
Nem Freud deu jeito
Espanta o amor
Põe para correr a paz
Deixa mudo o falante
Deixa branco o preto
Claro o moreno
Esfria o quente
Estou a falar do medo

Solano Trindade, Poemas; BH, 01º0302012.

CANTO À AMADA
Eu tenho uns versos bonitos
Pra cantar pra minha amada
Sempre sempre desdobrada
Em beleza e formosura

Ontem minha amada estava
Dentro da cara da Lua
Numa garota da rua
No palhaço da folia

Um dia vi minha amada
Nas águas do grande mar
Outra vez a encontrei
Num belo maracatu

Numa canção ela estava
Num samba estava também
Estava numa boa pinga
Sempre está no meu amor

Eu tenho uns versos bonitos
Pra cantar pra minha amada
Sempre sempre desdobrada
Em beleza e formosura


SOU NEGRO
A Dione Silva
Sou Negro
Meus avós foram queimados
Pelo sol da África
Minh'alma recebeu o batismo dos tambores atabaques, gonguês e Agogôs

Contaram-me que meus avós
Vieram de Loanda
Como mercadoria de baixo preço plantaram cana pro senhor do Engenho novo
E fundaram o primeiro Maracatu.

Depois meu avô brigou como um danado nas terras de Zumbi
Era valente como quê
Na capoeira ou na faca
Escreveu não leu
O pau comeu
Não foi um pai João
Humilde e manso

Mesmo vovó não foi de brincadeira
Na guerra dos Malês
Ela se destacou

Na minh'alma ficou
O samba
O batuque
O bamboleio
E o desejo de libertação...


GRAVATA COLORIDA
Quando eu tiver bastante pão
Para meus filhos
Para minha amada
Pros meus amigos
E pros meus vizinhos
Quando eu tiver
Livros para ler
Então eu comprarei
Uma gravata colorida
Larga
Bonita
E darei um laço perfeito
E ficarei mostrando
A minha gravata colorida
A todos os que gostam
De gente engravatada...


TEM GENTE COM FOME
Trem sujo da Leopoldina
Correndo correndo
Parece dizer
Tem gente com fome
Tem gente com fome
Tem gente com fome

Piiiiii
Estação de Caxias
De novo a dizer
De novo a correr
Tem gente com fome
Tem gente com fome
Tem gente com fome

Vigário Geral
Lucas
Cordovil
Brás de Pina
Penha Circular
Estação da Penha
Olaria
Ramos
Bom Sucesso
Carlos Chagas
Triagem, Mauá
Trem sujo da Leopoldina
Correndo correndo
Parece dzier
Tem gente com fome
Tem gente com fome
Tem gente com fome

Tantas caras tristes
Querendo chegar
Em algum destino
Em algum lugar

Trem sujo da Leopoldina
Correndo correndo
Parece dizer
Tem gente com fome
Tem gente com fome
Tem gente com fome

Só nas estações
Quando vai parando
Lentamente começa a dizer
Se tem gente com fome
Dá de comer
Se tem gente com fome
Dá de comer
Se tem gente com fome
Dá de comer

Mas o freio de ar
Todo autoritário
Manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuu
          ...............................................................................................................

NEGROS


Negros que escravizam

E vendem negros na África

Não são meus irmãos


Negros senhores na América

A serviço do capital

Não são meus irmãos


Negros opressores

Em qualquer parte do mundo

Não são meus irmãos


Só os negros oprimidos

Escravizados

Em luta por liberdade

São meus irmãos


Para estes tenho um poema

Grande como o Nilo

Alphonsus de Guimaraens, Ária ao luar; BH, 01º0302012.

O luar, sonora barcarola, 
Aroma de argental caçoula, 
Azul, azul em fora rola… 
Cauda de virgem lacrimosa, 
Sobre a montanha negras pousa, 
Da luz na quietação radiosa. 
Como lençóis claros de neve, 
Que o sol filtrando em luz esteve, 
É transparente, é branco, é leve. 
Eurritmia celestial das cores, 
Parece feito dos menores 
E mais transcendentes odores. 
Por essas noites, brancas telas, 
Cheias de esperanças de estrelas, 
O luar é o sonho das donzelas. 
Tem cabalísticos poderes 
Como os olhares das mulheres: 
Melancolia e enerva os seres. 
Afunda na água o alvo cabelo, 
E brilha logo, algente e belo, 
Em cada lago um sete-estrelo. 
Cantos de amor, salmos de prece, 
Gemidos, tudo anda por esse 
Olhar que Deus à terra desce. 
Pela sua asa, no ar revolta, 
Ao coração do amante volta 
A Alma da amada aos beijos solta. 
Rola, sonora barcarola, 
Aroma de argental caçoula, 
O luar, azul em fora, rola…