domingo, 2 de setembro de 2018

Pousas teus lábios nos meus; BH, 0190202000; Publicado: BH, 0190702012.

Pousas teus lábios nos meus
Como uma ave pousa no ninho
Pois sou um alônimo um autor que
Não assume a própria obra
Que usa nome diverso do seu
Faz todas as publicações em nome alheio
Até os beijos que peço uso de
Artifício inconveniente com receio
De não ser convincente de tão alopático
Que já não escondo mais
Meu crânio alopécio triste
Que não me deixa passar
Despercebido incólume e incógnito
Como a alopecura da planta
Da família das Gramíneas
Pousas tua vulva em meus lábios
Esta alópia concha fina
Mais ou menos rugosa e fibrosa
Barbatana sem posição fixa
Dos peixes alópteros esguios
Abres-me o teu cadeado
Usas o meu ferrolho
Soltas o aloquete do teu coração
Adoças a alosna da minha vida
Tiras de mim o amargor da losna
Que trago na minh'alma
Faças-me a acostumar
A ser um ser da tua manada
Ponhas-me em lotes iguais
Nos anseios da tua necessidade
Fazes juntar a mim o teu amor
Alotar em meu espírito
Toda a tua paz
Alar o meu ser no teu ser
Preso no pequeno cabo náutico 
Alote dum grande amor

Gostaria muito; RJ, 1981; Publicado: BH, 0190702012.

Gostaria muito
De falar contigo
Num papo livre
Aberto liberal
Gostaria de me esvaziar
De me vomitar em ti
Ao me abrir
A me escancarar
Contar para ti
Tudo que sinto
Tudo que tenho
O que sou
Gostaria muito
De ter coragem
De ser eu mesmo
De enfrentar a vida
De enfrentar a morte
Mas sou covarde
Fraco doente
Perdi a língua
Não sei falar
Nem sei conversar
Sou tímido acanhado
Tenho medo de ti
Sou inibido limitado
Não consigo ser
Não consigo fazer
Nada de diferente
Gostaria muito
De abrir a minha mente
De abrir minh'alma
Depositar minha semente
Tudo que me atormenta
Tudo que me maltrata
Que me machuca
A teus pés
Gostaria muito 
Que me ajudasses
De verdade

Estou estrangeiro aqui; BH, 0190202000; Publicado: BH, 0190702012.

Estou estrangeiro aqui
A falar uma língua estranha
Que não é a que nasci
Autóctone de terras estranhas
Distantes longínquas esquecidas
A fome aumenta a alotriofagia
Na perversão alimentar
Com tendência a ingestão
De substâncias repugnantes
Normalmente sem sentido do gosto
Alotriogeusia extrema xenomórfica
Do mineral cujas faces cristalinas
Não são próprias daqui
A percepção olfativa é anormal
Disosmia heterosmia alotriosmia
Alucinação olfativa causada pelo
Aloucamento alotriomórfico
Insanidade semântica,
Que me faz insanir
Aloucar-me a ganir
Debaixo da sola da alparca
Alousar da sandália
Do calçado coberto de lousa
Preso ao pé por meio 
De tiras de couro ou de pano
Feita em alpargataria
Oficina ou loja de alparqueiro
Fabricante de alparcas santas
Lá onde o sol levanta de tarde
Se esconde na alpendrada
O alpendre grande da noite na 
Boca do céu em forma de alpendre
Com luz do luar alpendrado
Estrela a alpendrar uma canção
Em serenata boa que vem cobrir
Meu choro com vela a lágrima quente 
Que escorre quando o fogo vem 
Junto queimar meu corpo

As alpercatas apertam meus pés; BH, 0190202000; Publicado: BH, 0190702012.

As alpercatas apertam meus pés
Seu alpercateiro por favor
Dá um jeito nestas alpercatas
Estas sandálias danadas
Estão a me lascar o calo
Seu alparcateiro faz favor
Vou chamar o senhor
De todas as maneiras possíveis
Para ser bem atendido
Veja que alperce encontrei
Eta damasco grande de cheiro
Semelhante ao do pêssego umbuzeiro
Eta alperche de árvore boa
Alpercheiro que produz
Um alperceiro de bom cheiro
Que até o alpícola
Que vive lá nos Alpes
Sente o aroma da saudade
O cheiro da floresta
Não andei sobre as águas
Mas ando sobre as alpondras
Pedras de passagem duma
Para outra margem dum rio
Sem me afundar n'água fria
Quando olho cá de baixo
O alporama eterno
A vista do panorama dos Alpes
Parece um quadro de pintor genial
Que apesar da alporca
Da escrófula doença
Caracterizada pela intumescência
Dos gânglios do pescoço
Já no final alquebrado
Fraco abatido desiludido
Faz um alqueiramento de toda a obra
Todo o alqueire do trigo
Ao alqueirar medir os alqueires
O joio alqueivar amontoar os galhos secos
Para queimá-los em fogueiras como
Nos tampos da inquisição

Se soubesse; RJ, 1981; Publicado: BH, 0190702012.

Se soubesse
Qual o caminho,
Que leva
Aos pés de Deus
O seguiria
Sem vacilar
Mas para chegar
Aos pés de Deus
O homem tem que ter
Muito dinheiro
Joias ouros
Pratas diamantes
Pedras preciosas riquezas
Deus só nasceu para ricos
Pobres favelados
Que nascem nos guetos
Nas sarjetas nas valas das favelas
Deus não dá nem bola
Deus não quer nem saber
Agora falou que é rico
Que tem dinheiro
É poderoso grande
Abrem-se logo
Todas as portas dos céus
Para o ditoso entrar
É por isto que
Nunca vou encontrar
O caminho que levará
Aos pés de Deus
Por que sou pobre fraco
Não tenho dinheiro nem poder
Não tenho joias para oferecer
Nem ouro para pagar
Nem nada a ofertar
Deus para o pobre
Não quer nem saber de olhar

Na alquifa do alquifol do alquifu; BH, 0190202000; Publicado: BH, 0190702012.

Na alquifa do alquifol do alquifu
Fiz uma mistura de galena
Areia empregada em cerâmica
Numa mistura de pó de gelena
Com que os orientais pintavam as
Sobrancelhas pois até hoje sou
Um alqueive um terreno alqueivado
Estado de terra que durante um ou
Mais anos não se semeia para
Conservar a força produtiva pode
Até dar alquejense num dia
Pode até dar alquequenque 
Noutro dia planta herbácea
Medicinal da família das Solanáceas
Donde o inseto homóptero parasito
Pulgão que vive nos vegetais
Matei todos um por um com as unhas
Como se matasse piolhos
Que me embriagasse com licor napolitano
Alquermes da região da Itália
Por onde andei só para alquilar
Alugar cavalgaduras
Sair em aventuras
Um mosqueteiro gentil
Um Dom Quixote senil
Sem o Sancho Pança servil
De alquilaria em alquilaria
Estabelecimento de alquila
Com contrato de alquiler
Profissão de alquilador
Aluguel pago com alquime
Pechisbeque de ouro falso
Ouro alquímico do passado
Nos alambiques sem serpentinas da alsácia
Na alquitara alsaciana da França
Tomei porres alataicos
Escalei os montes de Altai Ásia Central
Convivi com os povos que os habitam

Posso enganar-te; BH, 0190202000; Publicado: BH, 0190202010.

Posso enganar-te
Dizer que o meu coração
É uma alistromeria
Gênero de Amarilidáceas
Sul-americanas cultivadas
Por suas flores ornamentais
Posso enganar-te
Dizer que sou um Altair
Uma estrela de constelação da Águia
Que sou de todas as qualidades
Altamado igual aos panos
Nisto esconder minha altanadice
Minha soberba meu orgulho
Meu falso aspecto altanado
Meu falso semblante altaneiro
Nem um alter tenho
Os alteres de raça de cavalos
Sou só este alterador da verdade
Modificador da mentira em verdade
Alterante da realidade
Modificante da ilusão
Penso que tenho o poder
De alterar o destino
De ser alterativo egocentrista
Antagonista altercador
Discutidor sem razão
Briguento só com os fracos covardes
Aí vejo todo o meu pecado alternado
Um por um disposto com alternação
Sucessivamente a vir
Um depois doutro a me envergonhar
O coração que dizia alteniflório
Tal que tem flores alternas
Não passava duma caverna
Sombria úmida fria caverna
Onde só a dor é revezada
Um dia fora outro dia dentro