arquivou-se em todos os escaninhos
da burocracia
foi subalterno
sub-chefe
depois chefe
foi também diretor-geral
quase chegou a ministro.
Mas o que mais gostava
era de receber condecorações
tinha várias
podia-se dizer
tantas quantas as letras do alfabeto
até "k", "w" e "y"
que a reforma ortográfica desconsiderou
embora continuassem em pleno uso
inclusive para ordenar a coleção
do homem que amava condecorações
Gostava de paradas e solenidades
oportunidade em que se exibia
e sempre se frustrava
quando surgia alguém
com mais condecorações ou medalhas
não se resignava então
nunca se resignou
dizia não entender
como a fortuna pudesse ser tão inglória
consentindo em que outras lapelas
pudessem ser mais luminosas que a sua.
2
O homem que amava condecorações
não perdia congressos
preferia os internacionais
oportunidade ideal
para explicar doutoralmente
o significado de cada uma de suas condecorações
chegava a expressar-se em javanês
surpreendia-se a si mesmo
com o fato de os trópicos terem produzido
luminar de seu jaez
Quase sempre se achava o rei da cocada preta
às vezes sentia-se injustiçado
e incompreendido
reverberando porque muitos teimavam
em ignorar suas qualidades
mais - suas condecorações
- era inveja - justificava para seus botões.
Periodicamente
fazia publicar na coluna social
nota ou outra sobre suas virtudes
sempre precedida da enumeração
de todos seus ícones
e assim provocava convites
de poeta municipal
vez por outra poeta estadual
e até, pasmem, do poeta federal
Tal era o peso de suas condecorações
que também andava de lado
mas enfrentava galhardamente
o ônus de sua virtude maior.
3
E assim
o homem que amava condecorações
ia levando a vida
até que um dia surgiu outro homem
que amava mais ainda condecorações
amargurou-se
porque nunca imaginava
que fosse possível
alguém amar condecorações
mais do que ele amava.
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