quinta-feira, 17 de julho de 2025

quando penso nos líderes africanos que o capitalismo matou

quando penso nos líderes africanos que o capitalismo matou
ou o colonolialismo assassinou ou o imperialismo exterminou
ou o liberalismo dizimou meus pensamentos seriam muitos não
caberiam na minha cabeça minhas palavras bem mais do que
as dos dicionários enciclopédias bibliotecas minhas letras em
quantidades hiperbólicas maiores do que as de todos os alfabetos
desconhecidos ou conhecidos os nomes desses líderes com
todos os nomes que já existiram ou que existirão serão
lembrados tais os nomes de patrice lumumba vítima da covarde traição
que sofreu nunca deveriam ser esquecidos sempre pronunciados
como resistência idem thomás sankara ou kwame nkrumah
eduardo mondlane steve bico outros muitos outros meninos
meninas jovens mulheres homens que foram depredados
precocemente porém a áfrica continua a ser saqueada
ouro prata cobre diamantes cérebros cabe a nós a defendermos
aos líderes rebeldes revolucionários atuais igual ao de burquina
fasso Ibrahim traoré com seu primeiro-ministro jean emmanuel
ouédraogo que não podem ter o mesmo fim de
muammar gaddafi
outro líder revolucionário rebelde que só queria o bem do seu
próprio povo a áfrica é um continente só não deveria haver
fronteiras entre as nações nem irmãos contra irmãos com todos
a compartilhar pacificamente pois já doou à humanidade à
civilização sangue pele suor órgãos riquezas tal ao leopoldo ll
da bélgica tão cruel genocida agora basta deixai a áfrica ditar
teu próprio destino andar com as próprias pernas em 
harmonia irmandade liberdade fraternidade igualdade
sem interferência de quem quer que seja

BH, 0150702025; Publicado: BH, 0170702025.

a saúde mental melhora a cabeça da gente?

a saúde mental melhora a cabeça da gente?
minha mente está doente demente decadente
septuagenário decrépito enclausurado em cárcere
privado com carcereiro carniceiro acostumei-me
à pouca luz fotofóbico até a meia-luz ofusca-me a visão
de morcego marmota toupeira as crateras estão todas
entupidas as fossas a transbordar mucosas os póros
sebentos a expelir suores gordurentos os ares nojentos
os cheiros fedorentos não suporto nem aguento até
do ventilador o vento calorento a pele de papel velho
ensebado quer desgrudar da carne podre em pelancas a
cara de carranca a face falsa o rosto roto a boca arrota
desgostos quem se importa com fantasma que não
assusta nem criança? quem vê invisível em andança
pelos cantos a arrastar os pés acorrentados presos às
bolas do passado? preciso duma vacina de saúde mental
aos setenta é surreal marginal que a vida toda levou
vida de vagabundo de vadio de vagabundagem
de vadiagem a dar trabalhos de noite até de manhã cunhã
mucama poranga hoje durmo no pisador às vezes pisado
pela senhora pelo senhor dói para quem era feitor capitão
do mato hoje é só fedor sem paz sem amor sem perdão
só inconsciente com a consciência pesada mãos trêmulas
pés sem chão ausência de ar nos pulmões dor no peito
motivo dos defeitos pronto para um defunto perfeito
ou talvez o mais certo um cadáver fresco imperfeito

BH, 060502025; Publicado: BH, 0170702025.

domingo, 13 de julho de 2025

uma vez numa madrugada duma quebrada um cara me falou

uma vez numa madrugada duma quebrada um cara me falou
tens que buscar o fio da meada confesso que não entendi a
metáfora o cara continuou repetiu tens que encontrar o veio
da lavra confesso que também não entendi a metafísica de
batear de separar o joio do trigo ficava com a joia rara a pérola
negra branca da cor que for o ouro maciço para fazer o
feitiço acontecer mesmo que não sejas bruxo mago ou outra
coisa que queiras ser tens que decidir com ousadia com
audácia com coragem de enfrentar a aragem da madrugada
mais tenebrosa a brisa mais horrorosa a poesia não nasce
numa rosa ou num lírio ou num sorriso duma criança
poesia não é elite não é burguesia é maresia salgada o sal
da terra na pele na ferida aberta lombrei que cara doido
fala coisa por coisa palavras que não dizem nada letras que
não formam tesouros besouros espetados vivos em alfinetes
meninos queimados vivos meninas assadas em espetos de
defumadores não teve jeito perdi o fio da meada bati
cabeça a noite toda bebi mais do que deveria fui parar numa
delegacia os policiais tentaram me agredir me ameaçaram
de morte com arma em punho mostrei um livro que trazia
comigo que foi o meu escudo foi a minha proteção vi que
meti mais medo em toda guarnição fui liberado quando o
dia raiou sem nenhum arranhão sorte minha meu irmão

BH, 070702025; Publicado: BH, 0130702025.

sexta-feira, 11 de julho de 2025

O MELHOR DE NINA SIMONE:




 

nada que escrevo me regata das trevas que nado

nada que escrevo me resgata das trevas que nado
nem poesia como se soubesse o que é poesia onde
morro afogado nem poema como se também soubesse
o que é poema onde sufocado no vômito debato
nada
salva-me das sombras onde estou crucificado
ou das
penumbras onde latejo na escuridão nem luz
de farol
nem luz da lua nem luz do sol nem luz da rua
nada
devolve-me a alegria nem a ode à alegria as suítes
as cantatas as fugas para jesus a alegria dos homens
de bach em bar nada me recupera do ostracismo
já tentei dum tudo virei um nada já nadei em mar aberto
quase fui parar no fundo já bebi todas mais algumas
nas madrugadas das garrafadas das goladas quebrei
cara nas quebradas levei porradas dei porradas
esporradas parei em delegacias em hospitais fui botado
para correr apanhei do forte descontei no fraco tive medo
dos valentões meti medo nos covardes quo vadis não
sei para onde vou não vou para o céu vou para a zona
tomar mais umas ou outras se não tiver umas putas me
alivio numas travestis o negócio não é chorar
é sorrir
chorar é para quem é infeliz sou feliz como uma
meretriz
que recebeu um quinhão pelo bom trabalho
prestado
a algum alheio coração rufião estou bêbado
não nego
neu irmão bebi demais meu nego porém para quem
nunca teve nada perdeu tudo beber demais nunca é muito

BH, 070702025; Publicado: BH, 0110702025.