quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Ana Lucia Sorrentino, Faz Sentido.


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Que o momento filosófico
mais interessante
seja aquele em que,
por um instante,
você se perca.
Não na complexidade
do meu raciocínio,
mas em meus seios tesos
sob a camisa de tecido fino.
Que a inadequada questão pessoal
te flagre despreparado
e te faça corar,
inexperiente menino.
Que o que pulsa em mim
te deixe mais perturbado
que o fantasioso deus de Leibniz
e mais atônito
que o mundo ideal platônico.
Quando racionalmente
chegarmos à conclusão
de que ter prazer e ser feliz
é subversão
e quando,
buscando a minha verdade,
teus hábeis dedos
se embrenharem sem medo
por baixo do meu vestido,
terei então compreendido
que filosofar pode fazer sentido.

Não há lugar algum onde poderíeis; BH, 0401102013; Publicado: BH, 0701102013.

Não há lugar algum onde poderíeis
Levar a poesia a poesia é uma deusa
Está em todos os lugares imaginados
Não imaginados se fordes a um exoplaneta
Ali estará a poesia se fordes aos mais
Profundos dos precipícios ali também
Estará a poesia nos abismos dos fundos
Dos mares inda lá encontrareis a poesia
Não há onde a poesia não esteja presente
Por isso não precisa ser levada são bilhões
De seres mundo fora a levar poesias nas
Bagagens nos alforges nas corcundas nos
Ossos dos esqueletos mos núcleos das
Células nos DNA nos genomas nos núcleos
Dos átomos nas partículas que se partem
Nas colisões dos aceleradores nas estrelas
Que nascem nos partos nos berçários das
Constelações dos aglomerados das
Galáxias no caos universal até no caos
Encontrareis a poesia há algum lugar
Que a poesia não esteja? imagineis que
Ainda há um lugar inacessível tosco
Inatingível inda há um lugar selvagem
Indomável um lugar crespo crestado um
Lugar chumbado luz nenhuma entra calor
Nenhum sai é o coração do homem
Onde se aninhou a maldade

terça-feira, 5 de novembro de 2013

As últimas palavras de 13 grandes escritores, GGN.


Prestes a morrer, as pessoas quase sempre dizem algumas palavras, às vezes com clareza, outras vezes de maneira desconexa. O jornal “ABC” (segunda-feira, 28), de Madri, publicou as últimas palavras de 13 grandes escritores. O Jornal Opção traduz e publica os microtextos, quase microcontos.

Autor de “Walden” (muito bem traduzido para o português por Denise Bottmann), Henry Thoreau, o “pai” da desobediência civil, disse “alce” e “índio”, mas sem apresentar um mínimo de contexto. Consi­derando que era apaixonado pela natureza, suas palavras certamente têm a ver com aquilo que apreciava e/ou admirava.
James Joyce
“Ninguém me entende?”
Escritor de uma lucidez e de uma lógica espantosas, consta que, nas proximidades da morte (ocorrida em decorrência de uma cirurgia malfeita), Joyce estava meio maluco. Parece que achava que Hitler havia começado a guerra para atrapalhar a repercussão de “Finnegans Wake”. Seu livro mais famoso é “Ulysses”.
Jane Austen “Só quero morrer.”Esta foi a resposta da autora de “Razão e Sensibilidade” quando, pouco antes de morrer, suas irmãs perguntaram-lhe o que queria.  
   
Franz Kafka “Mata-me! Ou serás um assassino!”As últimas palavras do autor de “A Metamorfose” e “O Processo” foram para um médico que não queria dar-lhe uma dose letal de morfina. Ele estava morrendo de tuberculose (aos 41 anos) e mal conseguia falar. 
 
Charlotte Brontë “Não vou morrer. É verdade?” Ele não nos separará. Nós somos muito felizes.”Charlote Brontë estava casada havia nove meses quando faleceu, aos 38 anos, de câncer. É autora do romance “Jane Eyre”.    
Truman Capote  “Sou eu, sou Buddy... Tenho frio.” Buddy era como o chamavam o autor de “A Sangue Frio” quando ele era menino.  
    
 Emily Dickinson “Devo entrar; a rã está ascendendo.” A poeta norte-americana sofreu severos desmaios e esteve prostrada, em sua cama, nos últimos sete meses de vida.  
    Liev Tolstói “Amo tantas coisas, tanta gente...”. Em seus últimas dias, o autor de “Guerra e Paz” deixou sua casa e viveu entre gente do povo.
    
 Anton Tchekhov “Faz muito tempo que não bebo champanhe...”. Pouco antes de morrer, em seu leito, o autor de “Tio Vânia” pediu morfina e champanhe ao seu médico.
     
Eugene O’Neill “Eu sabia, eu sabia... Nasci num quarto de hotel e morrerei num quarto de hotel.” O autor de “Longa Viagem Noite Adentro” morreu de pneumonia, depois de padecer uma enfermidade semelhante ao Mal de Parkinson, doença que o impediu de escrever durantes anos.
     
Henry David Thoreau “Alce americano... Índio.” Não se sabe o que o autor de “Walden” quis realmente dizer com suas últimas palavras. Talvez seja mais uma referência à natureza, que amava.
   
  Lewis Carroll “Afasta essas pastilhas. Não preciso mais delas.” O autor de “Alice no País das Maravilhas” foi poeta, matemático e fotógrafo.
   
J. M. Barrie “Não posso dormir.”Pouco antes de morrer, Barrie cedeu os direitos de “Peter Pan” ao Hospital Great Ormond Street, de Londres, que continua beneficiando-se dos direitos autorais.   
 Lord Byron “Agora eu irei dormir.” O autor de “As Peregrinações de Childe Harold” morreu na Grécia — vítima de uma febre —, enquanto lutava contra os otomanos.  

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Direito à vida, por Luiz Inácio Lula da Silva.

 

Em todo o mundo, seja nos países ricos, em desenvolvimento ou pobres, o acesso a tratamentos médicos mais avançados está cada vez mais desafiador.  Muitos dos doentes não conseguem beneficiar-se dos medicamentos que poderiam curá-los ou pelo menos prolongar as suas vidas.

 A questão não é mais se existe cura para uma doença — porque, em muitos casos, ela existe — mas de saber se é possível para o paciente pagar a conta do tratamento. Milhões de pessoas encontram-se hoje nessa situação dramática, desesperadora: sabem que há um remédio capaz de salvá-las e aliviar o seu sofrimento, mas não conseguem utilizá-lo, devido ao seu custo proibitivo.

Há uma frustrante e desumana contradição entre admiráveis descobertas cientificas e o seu uso restritivo e excludente.

De um lado, temos as empresas farmacêuticas, que desenvolvem novas drogas, com investimentos elevados e testes sofisticados e onerosos. De outro, temos aqueles que financiam os tratamentos médicos: os governos, nos sistemas públicos, e as empresas de planos de saúde, na área privada. No centro de tudo, o paciente, lutando pela vida com todas as suas forças, mas que não tem condição de pagar para sobreviver.

Nos Estados Unidos, onde o presidente Barack Obama trava há anos uma batalha com a oposição conservadora para estender a cobertura de saúde a milhões de pessoas. Na Europa, mesmo em países ricos o sistema público muitas vezes não consegue garantir o pleno acesso aos novos medicamentos. No Brasil, cada vez o governo precisa de mais recursos para os medicamentos que compra e fornece gratuitamente, inclusive alguns de nova geração. E na África, o HIV atinge contingentes enormes da população, ao mesmo tempo que doenças tropicais como a malária, perfeitamente evitáveis, continuam causando muitas mortes e deixaram de ser priorizadas pelas pesquisas dos grandes laboratórios.

Um vídeo que circula na Internet, feito por uma companhia de celular, tem emocionado o mundo ao mostrar os dramas entrelaçados de um garoto pobre da Tailândia que tem que roubar para obter remédios para sua mãe, e o de uma jovem tendo que lidar com as contas astronômicas de hospital para salvar o seu pai.

Conheço o drama de ter entes queridos sem um tratamento de saúde digno.  Em 1970, perdi minha primeira esposa e meu primeiro filho numa cirurgia de parto, devido ao mau atendimento hospitalar. Os anos que se seguiram, de luto e dor, foram dos mais difíceis da minha vida.

Por outro lado, em 2011, já como ex-presidente, enfrentei e superei um câncer graças aos modernos recursos de um hospital de excelência, cobertos pelo meu plano privado de saúde. O tratamento foi longo e doloroso, mas a competência e atenção dos médicos, e o uso dos medicamentos de ponta, me permitiram vencer o tumor.

É fácil ver as empresas farmacêuticas como as vilãs desse processo, mas isso não resolve a questão. Quase sempre são empresas de capital aberto, que se financiam  principalmente através de ações nas bolsas de valores, competindo entre si e com outras corporações, de diversos setores econômicos, para financiar os custos crescentes das pesquisas e testes com novas drogas. O principal atrativo que oferecem aos investidores é a lucratividade, mesmo que essa se choque com as necessidades dos doentes.

Para dar o retorno pretendido, antes que a patente expire, a nova droga é vendida a preços absolutamente fora do alcance da maioria das pessoas. Há tratamentos contra o câncer, por exemplo, que chegam a custar 40 mil dólares cada aplicação. E, ao contrário do que se poderia imaginar, a concorrência não está favorecendo a redução gradativa dos preços, que são cada vez mais altos a cada nova droga que é produzida. Sem falar que esse modelo, guiado pelo lucro leva as empresas farmacêuticas a privilegiarem as pesquisas sobre doenças que dão mais retorno financeiro.

O alto custo desses tratamentos tem feito com que planos privados muitas vezes busquem justificativas para não dar acesso a eles, e que gestores de sistemas públicos de saúde se vejam, em função dos recursos finitos de que dispõem, frente a um dilema: melhorar o sistema de saúde como um todo, baseado em padrões médios de qualidade, ou priorizar o acesso aos tratamentos de ponta, que muitas vezes são justamente os que podem salvar vidas?

O preço absurdo dos novos medicamentos tem impedido a chamada economia de escala: em vez de poucos pagarem muito, os remédios se pagariam ­­— e seriam muito mais úteis — se fossem acessíveis a mais pessoas.

 A solução, obviamente, não é fácil, mas não podemos nos conformar com o atual estado de coisas. Até porque ele tende a se agravar na medida em que mais e mais pessoas reivindicam, com toda a razão, a democratização do acesso aos novos medicamentos. Quem, em sã consciência, deixará de lutar pelo melhor tratamento para a doença do seu pai, sua mãe, seu cônjuge ou seu filho, especialmente se ela traz grande sofrimento e risco de vida?

Trata-se de um problema tão grave e de tamanho impacto na vida — ou na morte — de milhões de pessoas, que deveria merecer uma atenção especial dos governos e dos órgãos internacionais, e não só de suas agências de saúde. Não pode na minha opinião continuar sendo tratado apenas como uma questão técnica ou de mercado. Devemos transformá-lo em uma verdadeira questão política, mobilizando as melhores energias dos setores envolvidos, e de outros atores sociais e econômicos, para equacioná-lo de um modo novo, que seja ao mesmo tempo viável para quem produz os medicamentos e acessível para todos os que precisam utilizá-los.

Não exerço hoje nenhuma função pública, falo apenas como um cidadão preocupado com o sofrimento desnecessário de tantas pessoas, mas acho que um desafio político e moral dessa importância deveria ser objeto de uma conferência internacional convocada pela Organização Mundial de Saúde, com urgência, na qual os vários segmentos interessados discutam francamente como compartilhar os custos da pesquisa cientifica e industrial com o objetivo de reduzir o preço do produto final, colocando-o ao alcance de todos que necessitam dele.

Não há dúvida de que todos os setores vinculados à medicina avançada devem ter os seus interesses levados em conta. Mas a decisão entre a vida e a morte não pode depender de preço.  

sábado, 2 de novembro de 2013

Candeia, Testamento de Partideiro.


Ao meu amor, deixo o meu sentimento, na paz do Senhor
E para os meus filhos deixo o bom exemplo, na paz do Senhor
Deixo como herança força de vontade, na paz do Senhor
Quem semeia amor, deixa sempre saudade, na paz do Senhor
Aos meus amigos deixo o meu pandeiro, na paz do Senhor
Honrei os meus pais e amei meus irmãos, na paz do Senhor
Mas aos fariseus não deixarei dinheiro, na paz do Senhor
Pros falsos amigos deixo o meu perdão, na paz do Senhor
Porque o sambista não precisa ser membro da academia
Ao ser natural em sua poesia, o povo lhe faz imortal
O sambista não precisa ser membro da academia
Ao ser natural em sua poesia, o povo lhe faz imortal
Mas se houver tristeza, que seja bonita, na paz do Senhor
Pois tristeza feia o poeta não gosta, na paz do Senhor
Um surdo marcando o som da cuíca, na paz do Senhor
Viola pergunta, mas não tem resposta, na paz do Senhor
Quem rezar por mim, que o faça sambando, na paz do Senhor
Porque um bom samba é forma de oração, na paz do Senhor
Um bom partideiro só chora versando, na paz do Senhor
Tomando com amor batida de limão, na paz do Senhor
E como levei minha vida cantando, na paz do Senhor
Eu deixo o meu canto pra população, na paz do Senhor
E como eu levei minha vida cantando, na paz do Senhor
Eu deixo o meu canto pra populaçõa, na paz do Senhor

Quando se pega numa pena; BH, 02801002013; Publicado: BH, 0201102013.

Quando se pega numa pena
Não é para se ter pena sentidos
Sentimentos quando se pega
Numa pena pega-se como
Se pegasse numa vara de granito
Num pedaço de carvão de lava
De vulcão milenar ou num caco
De pedra lascada o papel vira
Parede consagrada dos santuários
De cavernas o papel vira pergaminho
Misterioso ou papiro onde se
Registrou o início do universo
Há de se fazer uma reverência
Antes uma oblação uma deferência
Como se estivesse diante do
Maior tesouro jamais visto na
Face do planeta há de se nascer
De novo em alma em espírito
Em ser é um momento tão
Importante de grandeza tão
Exacerbada que fica-se tudo
Pequeno o infinito se sente
Ameaçado é um momento tão
Solene como se fosse o nascimento
Duma estrela não há com
O que se comparar em dimensão
Todas as galáxias conglomerados
De constelações deslocam-se num
Só momento em respeitoso silêncio
Na espera dum protagonismo
Na ansiedade de ser personagem
De ser parte desta obra-prima
Desta obra de arte desta procissão
Só captadas pelos quasares do pensamento

Nelson Sargento, De boteco em boteco.




Vou de boteco em boteco
bebendo a valer
na ansia de esconder
as dores do meu coração
conselhos não adiantam
estou no final
perdi o 
perdi a moral
meu caso não tem solução
Vou de boteco em boteco
bebendo a valer
na ansia de esconder
as dores do meu coração
conselhos não adiantam
estou no final
perdi o 
perdi a moral
meu caso não tem solução
eu bebo de mais pro meu tamanho
arranjo brigas e sempre apanho
isso me faz infeliz
entro no boteco
pra afogar a alma
as garrafas então batem palmas
me embriado
elas pedem bis
entro no boteco
pra afogar a alma
as garrafas então batem palmas
me embriado
elas pedem bis
Vou de boteco em boteco
bebendo a valer
na ansia de esconder
as dores do meu coração
conselhos não adiantam
estou no final
perdi o 
perdi a moral
meu caso não tem solução
eu bebo de mais pro meu tamanho
arranjo brigas e sempre apanho
isso me faz infeliz
entro no boteco
pra afogar a alma
as garrafas então batem palmas
me embriado
elas pedem bis
entro no boteco
pra afogar a alma
as garrafas então batem palmas
me embriado
elas pedem bis