não encontrei a estrela que caiu da cumeeira
da soleira do barracão da minha avó na subida
da quebrada do barranco no começo do morro o
picumã deixou o terno de linho branco do
meu tio hugulino preto
o meu tio
o terno
a descer o morro do cemitério circunspectos
o anel de ouro no dedinho mindinho
no anel uma pedra reluzente vermelha
diziam que era rubi
a pender da algibeira do colete uma corrente
que prendia um relógio omega ferradura
legítimo dito uma raridade
lá ia o meu tio respeitado
respeitador
brigador
deflorador
falavam as bocas tortas que carregava por
debaixo do colete um punhal cravejado
uma garrucha carregada azeitada
nos bolsões das calças largas muitos pacotes
de dinheiro vivo pois não confiava em bancos
muitos envelopes algodoados com pedras
preciosas razão da qual mantinha as unhas
grandes bem cuidadas que era para fazer
cócegas nas mulheres
pegar as pedras preciosas sem sujar
ou arranhar
ou embaçar
penduraram o terno do meu tio no pau de
fumeiro que servia para defumar carnes
linguiças
que ficava em cima do fogão de lenha da
minha avó a aproveitar o calor do fogo o terno
de branco que era ficou pretinho como carvão
BH, 0701002021; Publicado: BH, 030802022
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