quarta-feira, 3 de agosto de 2022

quem sabia que a poesia feria

quem sabia que a poesia feria
alimento de todo dia pão que dá azia
quem sabia que a poesia era agonia
angústia de ansiedade de afogado
ânsia de asfixiado
desassossego de enforcado
haja pânico depressivo no poema agressivo invasivo
quem sabia que poesia
já nasceu uma elegia
sem elegância de cadáver
rigor defumado em fragrância
de réquiem
uma ode fúnebre
um verso rude
um versinho tosco
uma estrofe torta
até um versículo satânico 
quem
sabia alguma coisa dum poema
mudo a borboleta nasceu cega a
cigarra nasceu muda o eco nasceu
surdo o poeta nasceu morto ou
não nasceu matou a mãe quem
diria que faltaria alegria um dia na
vida dum morto que não foi
enterrado pelos seus próprios
mortos as formigas tiveram que
trabalhar em dobro a esconder o
horror do corpo exposto com 
terror às visões das crianças dos
guetos das periferias que nunca
conheceram a poesia o poema
sempre foi o edema duma bala
perdida justamente na boca da
face do olho a olhar o horizonte da
janela do barracão da favela o
sol que se ocultava atrás do monte

BH, 0701002021; Publicado: BH, 030802022

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