vai à venda de teu pai
buscar uma barra de sabão
para lavar a roupa suja
o tanque está cheio
o sabão acabou
saía a correr
moleque ligeiro
menino perdigueiro
pela cidade a fora
a cruzar ruas
a dobrar esquinas
a farejar becos
a cortar ruelas
até chegar à venda
que era a do meu pai
enchia as mãos sujas de doces
os bolsos de balas
apanhava alguns trocados
escondidos do meu pai
pegava a barra de sabão
outras coisas mais
voltava para à casa
feliz da vida
novamente pelas ruas da cidade
a mexer com uns aqui
a xingar outros acolá
a levar cascudos doutros cá
dava pedradas noutros ali
lá voltava para à casa
todo sujo
todo ligeiro
todo imundo
todo esperto
todo moleque
tal qual um menino
que se presa criança
a barra de sabão
já toda amassada
minha mãe coitada
de tanto esperar
estava cansada
tinha até desistido
de lavar a roupa suja
mandava-me já
para o banheiro
tomar um banho
de chuveiro
esfrega bem o pescoço
atrás das orelhas
que é para tirar as tiriricas
RJ/1977; Publicado: BH, 020802021
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