terça-feira, 10 de agosto de 2021

não me resta resto do resto da vida

não me resta resto do resto da vida
nem me resta vida sem sabor de
morte a dor é sempre profunda na
face do corte da navalha do chicote
que retalham os retalhos da ferida não
há sobra nem um pingo de amor paz
nem os farelos que ficam no fundo do
saco quero para tapar o buraco do
meu dente nada não me deixaram
uma lição qualquer nem me ensinaram
a lei da sobrevivência saí pelo mundo
pelo fundo igual cego sem bengala
sem guia até hoje vago na imundície
desta porcaria por não encontrar o
caminho que um dia vai me trazer a
razão de viver de ser já sei decorada
toda a razão do meu cotidiano quando
chego em casa estourado só me resta
vontade de morrer de noite para não
dormir em pesadelo infernal a sonhar
sonhos de loucuras mil quando termina
a morte ressuscito sou um defunto mais
morto do que vivo na noite anterior me
dói todo o cadáver alquebrado procuro
não encontro a minha sepultura me
sobe à face a cólera da amargura odeio
este mundo está humanidade sem sal
me odeio mais ainda por não ser o sal
para salgar esses espíritos flácidos
frágeis perecíveis para que não
apodreçam também saio para a rua
igual a um esqueleto sinistro de caveira
sobrenatural foge de mim a barata que
encontro na calçada a procurar um lugar
qualquer para se esconder em segurança
porque tens medo de mim barata angelical?
a minha formação está mais horrenda do
que a tua? perto de mim és uma santa pura
virgem puta com toda a tua beleza aspecto
divinal tenho que me esconder de ti me
envergonhar ter medo de ti fugir de ti
sumir de tua presença soberba não sou
digno de olhar para uma simples barata 
numa simples calçada nem mereço comer
o resto do resto da tua comida porém os
meus restos mortais podes devorar se não
sentires nojo das minhas carnes podres ou
então podes procurar algo melhor para
comer pobre barata desiludida também
abandonada nessa calçada resto de mim
sou mais infeliz do que tu que pelo menos
tens a honra de ser uma barata o que sou?
sou mais infeliz do que o infeliz que não
sabe que é infeliz não me resta resto do
resto desta minha vida nem me resta
minha vida sem sabor de minha morte no
dia no qual me restar amor nesta minha vida
então serei o meu eu o meu firme o meu
belo o meu forte mais forte do que o
próprio pau da peroba muito mais forte do
que o próprio pau do jacarandá bem muito
mais alto do que o próprio céu bem muito
mais profundo do que o próprio mar do universo

RJ/1977; Publicado: BH, 0100802021

Nenhum comentário:

Postar um comentário