filosofia do caipira caapora
não catuco cascavel com pau curto
nem enfio a mão em buraco de tatú
não mexo em casa de maribondos
nem ponho o dedo na boca de bobo
faço do desastre a minha arte
faço do não feito o meu feito em
lagoa de piranhas não nado nem de
costas em vassoura de bruxa não
pego carona com o meu susto assusto
na filosofia do caipira caapora o
susto do fantasma que me assustou
não pasto em pasto de boi bravo nem
bebo água de riacho de lobo peço a
deus por todo mundo oro a Deus por
todas as pessoas por mim ninguém
morreria tão cedo comigo a morte
não ganharia vintém não prendo
borboletas com alfinetes nem arranco
asas de besouros conservo a naturalidade
da natureza vejo a beleza no que é feio
faço o cego enxergar longe o mudo
cantar ópera faço o surdo escutar as
odes sinfônica filarmônica marcial
triunfal faço o triste sorrir de alegria
sou igual a cigarra levo a vida a cantar
não sou igual à formiga que passa o
tempo a trabalhar sou igual ao gato
sempre a meditar ao sapo a filosofar por
isso estou de bem comigo mesmo além
disso estou de bem com a humanidade inteira
RJ/1977; Publicado: BH, 030802021
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