segunda-feira, 5 de setembro de 2022

não abras a janela

não abras a janela
pois não quero ver o mundo
não quero ver rios
ou terras
ou terraços
ou continentes
ou não quero nem saber de orientes
ou ocidentes
ou estrelas cadentes
não acendes a luz
pois não quero enxergar mais nada
não quero saber nem de mim
ao sair fecha a porta
a tranca pelo lado de fora
agora sou isolado do universo
não quero saber de quem quer saber de mim
não quero saber de quem não quer saber de mim
só quero saber de não querer saber de mim
só quero saber de querer não saber
de quem não quer saber de mim
agradeço a eficiência
ou a pouca paciência
a indecência
ou a saliência
ou a ciência
chegou a hora da deficiência em evidência
tranca à chave a casa
os portões
as janelas
solta os passarinhos das gaiolas
solta os cachorros
espalha por aí
que morri de inanição
que morri à mingua
sem um pedaço de pão
que não sabes de mim não
que só voltarei noutra encarnação 

BH, 02601002021; Publicado: BH, 050902022

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