segunda-feira, 12 de setembro de 2022

não inspiro nada no momento

não inspiro nada no momento
nem sentimento
ou sentido
ou direção
apenas deixo a mão a
levitar no papel leviatã
ou às vezes descer um papel
do alto dos céus
a alma no divã
o corpo não sei aonde anda
ou em companhia de qual má
companhia
o espírito obsceno
absorto como se fosse morto
num retrato abstrato a imagem
já a se esvair nos grãos de areia
da ampulheta
a silhueta a bater punheta
para angariar de esmola
um prazer dum colchão
de molas as gotas do orgasmo
colam as paralelas com goma
arábica numa aquarela bela de
passarela de paralelepípedos
que fez o horizonte de tela de
visgo de jaca que prende
passarinhos em gaiolas de
taquaras de bambus
ou arapucas de gravetos
galhos secos obsoletos
ou forquilhas
borracha
pelotas de barro que
assassinavam os tizius
coleiros descuidados
os meninos eram exterminadores
do futuro levados moleques
sacis negrinhos dos pastoreios
rumãozinhos enfezados lapidadores
de cabeças alheias
espiadores de debaixo de saias
das empregadas distraídas
musas para mãos já calejadas
de artistas do surrealismo pueril

BH, 01001202021; Publicado: BH, 0120902022

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