quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Uma menininha; RJ, 1977; Publicado: BH, 01601002019.

Uma menininha
Sentada num banco
Dum jardim
Em seu pé
Uma só sandalhinha
A outra
Com certeza perdeu
A menininha também
Deve estar perdida
Seu semblante é triste
Se apresenta abatida
Todo mundo passa
E ninguém observa
Que só calça
Uma única sandalhinha
Onde está a outra?
Deve estar perdida
Que igual nós
Também estamos
Nós nos perdemos
E não nos entristecemos
Iguais aquela menininha
Que deve estar perdida
E perdeu também
A sua sandalhinha
Uma menininha
Sentada num banco
Dum jardim?
Não era jardim
Mas está toda sujinha
E está triste
Porque está suja
E nós não nos entristecemos
Por estarmos sujos
E estamos mais sujos
Do que aquela menininha
Nós somos sujos e perdidos
E outros bichos mais 
E nos disfarçamos
E tentamos nos esconder
Daquilo que realmente somos
Uma menininha
Que em seu pé
Tem uma só sandalhinha
E seu olhar é azul
E o seu rostinho é triste
E está sozinha
E demônios e capetas
Com tridentes e dentões e chifrões
Passamos e nem a olhamos
Temos medo de olhar
E se olharmos não veremos
O quanto somos feios
A menininha é um anjo.

João Pelé; RJ, 1977; Publicado: BH, 01601002019.

João Pelé
Era meu amigo
Eu era menino
E não entendia
João Pelé
João Pelé
Um pobre coitado
Era a desgraça 
Em forma de gente
E eu era menino
E não sabia
O João Pelé
E um belo dia
João Pelé adoeceu
Estava a apodrecer
Ainda vivo
Seu corpo sujo
Cheirava mal
Nem eu seu amigo
Cheguei perto dele
Senti medo
Senti nojo
Meu estomago embrulhava
Quando chegava perto
E eu era menino
E não entendia
O João Pelé
Então o meu pai
Mandou um homem
Colocá-lo num caminhão
E deixá-lo na porta
Dum hospital
Mas no outro dia
Despacharam de volta
O João Pelé
E a doença agravava
E o João Pelé morria
E eu era menino
Um ignorante menino
E não entendia
O João Pelé
E não entendia
A doença de João Pelé
E um dia qualquer
Não me lembro bem
João  Pelé acabou por morrer
E eu era menino ainda
Não senti falta
Não chorei
O pobre João Pelé
E não te entendia
Era menino ainda
E teu corpo decomposto
Foi coberto
Por um lençol branco
Da cor do teu coração
Teu corpo foi velado
E tua morte foi iluminada
Por uma única vela
E quem doou foi uma meretriz.

Humanidade; RJ, 1977; Publicado: BH, 01601002019.

Existe sempre um pensamento
A vagar na humanidade
Há sempre um sentimento
Que para imaginar
É bem difícil
Porque ninguém imagina
Que na humanidade de hoje
Ainda exista um pensamento
Um pensamento de amor
Ninguém imagina
Que exista um sentimento
Um sentimento de dor
Mas existe
A luz da humanidade
Não se apagou
E quem quiser
Ainda pode ser feliz
Ainda pode ter paz
E quem quiser
Ainda pode ser
Ainda pode viver
Bem e em comunhão 
Com todo mundo
Existe sempre um sorriso
No mais feio rosto
Tem sempre uma lágrima
No mais seco e cego olhar
Por isso não é difícil 
De se conseguir
A vida aqui
Se fores duro
A vida é dura
Se fores grosso
A vida é grossa
Se forres difícil
A vida é difícil
Se fores estúpido
A vida é estúpida
Se fores ignorante
A vida é mais ignorante ainda
Quem faz a tua vida
És tu
Ninguém vai te mudar
Ou mudar o teu destino
Conforme fores para a vida
Ela vai ser sempre para ti
O que fores para ela
Se fores bom
A vida é boa.

Borracha Franca; RJ, 1977; Publicado: BH, 01601002019.

Borracha Franca
E conheci várias pessoas
Na Borracha Franca
Onde o meu pai
Tinha uma venda
E essas pessoas
Que conheci ali
Muitas marcaram 
Em minha vida
Era o João Pelé
O Leleu e o Lulu
E o irmão do Lulu
Que não tinha nome
E um baiano vulgo
Baiano Cachorro Cadela
Que só vivia arrudiado de vira-latas
E quase foi assassinado a facadas
Dentro da venda
Se não fosse o meu pai
E era o Júlio Mamão
E uma mulherzinha
Que tinha o apelido 
De Ele Merece
Era uma bebadazinha
Muito simpática
Que se tornava agressiva
Quando alguém mencionava 
Ele Merece
E eram a Maria Gaguinha
E a Maria Cachaça
O Lauro que morreu inchado
O João Boi Manso
O estranho Barbeiro
E o Bezim Alfaiate
Muita gente 
Ali da beira da linha
Onde passava a Maria Fumaça
Impressionou-me
E tinham ainda
O Neguin Friaça
E o Formiga
Que dizia sempre
Eu é home
E o Chico e a Laura
Prostituta que conheci
Em toda a minha infância
Com a mesma cara
E o Cearense Laranjeiro
Que me vendia fiado
E o Para-Bala
O mais feroz de todos
E Maria Pau-Rolou
E Maria Relógio
Que tinha numa perna
Uma grande pereba
E tinham ainda o Bota-Ovo
E o Papa-Mel
E muita gente tinha
E muitas pessoas
E todas me marcaram
Na Borracha Franca.

Este ano ainda; RJ, 1977; Publicado: BH, 01601002019.

Este ano ainda
Não beijei nenhuma boca
Este ano ainda
Não amei nenhuma mulher
E nem vi
Nenhum corpo nu
Este ano ainda
Não sei o que é mulher
Mulher agora
Só no ano 2000
Ou além do ano 2000
Este ano ainda
Não amei mulher alguma
É que estou a racionar
Ou é porque este ano
As coisas estão piores
Mas a verdade é 
Que sumiram as mulheres
De minha vida
Não senti mordidas na boca
Não senti arranhões no corpo
E não senti nada
E não senti amor
E nem senti paixão este ano
Meu coração apagou
Evacuei para a linha de fundo
Todas as mulheres
E quero agora só a paz
Só a paz comigo mesmo
Muita tranquilidade
E consciência tranquila
Graças a Deus
Este ano ainda
Não cometi o adultério
E nem cometi a prostituição
Deixei de ser um prostituto.

domingo, 13 de outubro de 2019

Chegou a madrugada; RJ, 1977; Publicado: BH, 01301002019.

Chegou a madrugada
Passei a noite inteira contigo
Bebemos juntos
Fumamos juntos
E conversamos juntos
Chegou a madrugada
Passei a noite toda ao teu lado
Mas não te toquei
Não te beijei
Não te abracei
E nem segurei a tua mão
Só passei a noite em tua companhia
E esperei a madrugada chegar
Para poder ir embora
E na despedida
Não pedi nenhum favor
Não pedi nenhuma aperto de mão
Nenhum beijo
E nenhum carinho
Não pedi nenhum abraço
E nenhum pouco de amor
Apenas fiquei a olhar para ti
E para a noite
E para a madrugada
E prefiro a madrugada a ti
E prefiro a noite 
Às tuas carícias
Chegou a madrugada
Passei a noite inteira contigo
Mas eu estava sem ti.

Fui à lua de prata; RJ, 1977; Publicado: BH, 01301002019.

Fui à lua de prata
Pedir uma ajuda
Mas a noite estava escura
E sem estrelas
E tropecei na escuridão
E caí feito um bobo
E continuei morto
E senti nas entranhas
O podre chegar
E se apoderar
De meu semi ser
E não consegui ajuda
E me entreguei
E me enfraqueci
No momento incerto
Então não conseguia
Ser igual antigamente
Ser criança novamente
Ser gente outra vez
Fui à lua de luz
Pedir um favor
Um pouco mais de humanidade
E um pouco mais de amor
Mas a lua fugiu de mim
Fechou o olho caolho
E se escondeu na noite
Virou as costas para mim
E não quis nem saber
Da minha petição
A lua não deu nem bola
Para o meu papo furado
Mandou-me tomar banho
Numa caixa de fósforos
E ir ver se ela
Estava na esquina
Fui à lua de prata
Fui à lua de luz
E a lua estava escura
A lua escureceu a luz para mim
E meu caminho se perdeu.