domingo, 13 de outubro de 2019

Olhaste para mim; RJ, 1977; Publicado: BH, 01301002019.

Olhaste para mim
E viste-me na janela
Teu rosto iluminou
Tua boca sorriu
E teus olhos brilharam
Tu viste-me
E olhaste para mim
E sorriste sempre
E como era lindo
O teu sorriso
E da janela bem te vi
Cantei bem-te-vi
E acenei para ti
Chamei-te para perto de mim
E vieste sempre
E nos amamos
E amei-te
E amaste-me
E nos cavalgamos
E cavalgaste-me
E cavalguei-te
E foi bom 
E foi tudo bom
E foi tudo muito bom
Até o fim do dia
Até o fim da noite
Até a madrugada
Até o amanhecer
Só a fazer amor
No embalo do ranger da cama
No embalo do balançar
Das molas do colchão
Numa pura sinfonia
Numa bela orquestração
 E foi lindo
E foi tudo lindo
E foi tudo muito lindo
Tu linda
Amor lindo
E foi amor
E foi tudo amor
E foi tudo muito amor
Tu feliz
Eu feliz
Nós felizes
E tudo porque
Olhaste para mim
E viste-me na janela.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Bem de manhã; RJ, 1977; Publicado: BH, 0901002019.

Bem de manhã
Quando o sol vem visitar-me
E sinto a paz no nascer do dia
Dá-me muito mais vontade de amar
Bem de manhã
Quando fica o orvalho
Quando fica a névoa
E quando fica a saudade
De mais uma noite que se foi
Sinto mais vontade de viver
Bem de manhã
Quando as coisas se fundem
E se confundem no horizonte
Meus olhos se deslumbram
Com tanta beleza 
E daria tudo 
Para que a minha vida
Fosse um eterno bem de manhã
Quando o canto das aves
E as vozes dos animais
E as vozes dos homens
Se misturam na superfície
A dar um som singelo
A dar um som de vida
De mais um dia
De paz que surge
Bem de manhã
Quando as pancadas do meu coração
Cantam um hino de amor
Sinto-me 
Como se estivesse num céu
Um céu de infinito bem de manhã
De chão com cheiro de madrugada
E a sentir a subir da terra
Aquela fragrância matinal
E a gente se sente mais leve
E a gente se sente mais gente
E a gente se sente mais bem de manhã
Bem de manhã
Enquanto o céu sereno
Nos deixa mais perto de Deus
E a voz do amor
De todo o nosso pensamento
É uma só oração
Senhor 
Faça um bem de manhã novo
Todo dia em nosso coração.

Meu aniversário; RJ, 090101977; Publicado: BH, 0901002019.

Amanhã faço
Vinte e dois 
Anos de idade
E fico a pensar
Se vai adiantar 
Alguma coisa
Vinte e dois anos
De ignorância
Vinte e dois anos
De tamanho e safadeza
Vinte e dois anos 
De ódio e rancor
Vinte e dois anos
De inutilidade e preguiça
Vinte e dois anos 
De inexistência indignidade
Vinte e dois anos 
De doenças
Vinte e dois anos
De mortes e cadáveres
Vinte e dois anos
De podridão e carniça
Vinte e dois anos
De loucura e doidice
Amanhã faço
Vinte e dois anos
De idade?
E fico a pensar
E fico a perguntar
O que fiz
Nesse tempo todo?
Onde estava
Esses anos todos?
O que vivi nessa vida toda?
O que aprendi
Nesse tempo todo?
Vinte e dois anos 
Sim senhor
Vinte e dois anos 
Não senhor
Vinte e dois anos
De quê?
Vinte e dois anos
Azar o meu
Vinte e dois anos
De nada
Vinte e dois anos 
De gula
Vinte e dois anos
De orgulho
Vinte e dois anos 
De ambição
Vinte e dois anos
De soberba
Vinte e dois anos
De egoísta
Vinte e dois anos
De selvageria
Vinte e dois anos 
De idiota
Vinte e dois anos
De mentiroso
Vinte e dois anos
De palhaço
Amanhã faço
Vinte e dois anos
Vinte e dois anos
De mineiro
Vinte e dois anos 
De fome
Vinte e dois anos
De atraso
Vinte e dois anos
De brasileiro.

Micróbios venéreos; RJ, 1077; Publicado: BH, 0901002019.

E já teve todos os tipos
De doenças venéreas e
Se não teve todos os tipos
Pelo menos teve alguns tipos
Como gonorreia
Cancro mole
Cancro duro
Mula e cavalo
Sífiles e pela saco
Chato e muquirana
E muitas outras
E cada uma
Mais porca
E mais fedorenta
Do que a outra
E já foi um porco
Carregado de imundícies
Desde os seus quinze anos e
Logo quando começou
A bancar o homem
Nas zonas meretrícias
Dos bairros da cidade
E que se deu mal
E conheceu coisas
Que nunca sonhava
Em sua vida
E viu doenças em si
E viu micróbios em si
Que nunca imaginava
E desde a primeira vez
Que conheceu uma mulher
Puta de casa de zona
Conheceu também
Várias doenças venéreas
E foi essa a sua recepção
Na primeira noite
De amor barato
De sexo comprado
Por alguns tostões
Mas foi também
Sua primeira noite de morte
Sua fonte secou
Seu membro caiu
Praticamente morreu
E até hoje sente sintomas
E erupções na pele
E só não foi enterrado ainda
Não sabe porque
Sente em seu corpo
Várias dores 
E por seu corpo
Várias feridas
Mas não sabe donde vêm
Com certeza ainda são
Alguns restos de micróbios
Que se encontram encubados
Pois são difíceis de serem exterminados
E aninham-se em lugares vitais
Não sabe como procuram
Tais lugares
Parece que já vêm
A saberem o que vão fazer
E parecem que suas funções
São matar o indivíduo
Esses micróbios venéreos.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

ANDREY ROBSON MEDINA SANTOS, NO ESPELHO DO CÉU.

No espelho do céu
Feito de giz
Fito a geografia
Do meu corpo
Concebido
Construído
E consumido
E busco no fundo
Um modo profundo 
De resolver
Este grande problema
Que não deixa de ser 
Um morto vivo
Que a morte não quis
E vaga de lá para cá
De cá para lá
Sem nunca parar
No mesmo lugar
Sempre a vagar.

Chega de derramar sangue inocente; RJ, 1977; Publicado: BH, 0801002019.

Chega de derramar sangue inocente
Basta de derramar sangue de inocentes
Chega de derramar sangue de puros
Basta de derramar sangue de justos
E chega de derramar sangue de homens
E basta de derramar tanto sangue
Ou um dia vamos todos morrer
Afogados em sangue 
Ou num mar vermelho
Com sangue a entrar pelo nossos olhos
Com sangue em nossa boca
Com sangue a entrar por nosso nariz
E pelos nossos ouvidos de mercadores
E chega de derramar sangue vivo
E basta de derramar sangue cheiroso
De jovens e de novos
E chega de tantas mortes
Mortes abertas e derramadas
Sangue aberto e declamado
Na calçada e na noite
Na manhã e no dia
Chega de derramar sangue útil
Basta de derramar sangue fértil
À vida e ao amor
Chega de desperdiçar 
Sangue forte e varonil
Basta de causar hemorragia de
Sangue arterial e azul de anil e
Faça um curativo
Nesta tua ferida gangrenada
Faça um pensamento
Meu amado Brasil imenso.

Esquizofrenia; RJ, 1977; Publicado: BH, 0801002019.

E não me leva a mal
E não me queiras assim
E nem me julgues
Sou um esquizofrênico e
Isto muito me mata
Isto muito me faz mal
Esta é a minha mágoa
É a minha esquizofrenia
Que me impede
A um relacionamento
Bom e melhor contigo
E me perdoes e me desculpes
Sou um débil mental
Não encontro palavras
Para expressar o que sou
Para expressar a minha loucura
E a minha crônica doidice crônica
O meu lugar é num hospício
Sanatório para loucos
Perigosos e irrecuperáveis
Não me leves a mal
Não me leves ao mau
Louco não sabe o que faz
Louco não sabe o que diz
Louco não pensa
E nem tem sentimentos 
E nem desejos loucos
E meu desejo louco
É só o de matar e o de destruir
Fisicamente e sexualmente
Espiritualmente e maldosamente
Só o mal e a dor
O ódio e o pavor
Causam-me prazer
Sou um sadomasoquista
Misturado com louco
E com doido
E não sei o que sou
E cientificamente não encontro
Designação para o que sou
E sou isto aí
E qualquer coisa sou.