sábado, 20 de abril de 2019

Para ver se vai melhorar; BH, 0401201999; Publicado: BH, 0601202012.

Para ver se vai melhorar
Vou-me acupunturar
Fazer uma acuta completa
E com um instrumento
Destinado à medição de ângulos
E medir todos os meus
Esquadria de salta-regra
De aspecto acutangulado
Que tem ângulos agudos
Mas também não sei se tem não
Só sei que preciso fazer algo
Para melhorar o viver
Sinto-me um dromedário
Com esta corcova pesada
Que trago aqui nas costas
Quero algo acautelado
Para arrancar esta corcunda
Ficar um pouco mais erecto
E um pouco menos pesado
Quem sabe arranjo um cutelo
Corto-me em várias partes
Uma vira acutiboia
Outra cobra áglifa
Outra cobra cipó
E outra ainda acutimboia
Tenho que me transformar
Completar a metamorfose
Sair deste acutenáculo
Seguram-me para fazer a sutura
Não tem anestesia
Não tem analgésico
O espelho refletiu um acuticoneo
Não decepou minhas antenas
Terminadas em pontas.

Antigo LXIV, Tomo uma cerveja quente; Publicado: BH, 02801202011.

Tomo uma cerveja quente
Uma atrás da outra
Cerveja quente é bom
Não faz mal
Já estou cheio
De cerveja gelada
Agora só bebo quente,
Uma atrás da outra
Não dá porre,
Não dá dor de cabeça
Não dá enjoo
E nem azia
Beba agora mesmo
Neste momento
A tua cerveja quente
Não importa a marca
Que seja cerveja
E que esteja quente
Bem natural
Aumenta o tesão
E tem mais saúde
E na hora do amor
Tu não brochas
E satisfaz melhor
A mulher que está contigo
Podes acreditar
No que digo.

O que estou a procurar? BH, 0180601999; Publicado: BH, 02601202012.

O que estou a procurar?
O que estou a esperar?
É o que pode sair da cabeça dum homem
De quarenta e quatro anos
Nascido no dia dez
Do mês de janeiro
De mil novecentos e cinquenta e cinco
Na cidade de Teófilo Otoni
Estado de Minas Gerais
País Brasil
Homem sem profissão
Desempregado e duro
Sem formação e cargo
Homem à margem da elite
Pois odeia a elite
À margem da burguesia
Pois abomina a burguesia
O que quero encontrar?
É se existe lugar na sociedade
Que possa ser encontrado
O que tenho a dizer?
O que tenho a opinar?
O que tenho para falar?
A humanidade pode esperar
Alguma coisa de mim?
Já venci o meu medo?
Já venci a minha covardia?
A apatia e a preguiça?
Injustiça e imperfeição?
Qual é a minha linha de pensamento?
Sou dotado de inteligência?
Acompanho a evolução?
Ou o que me espera
É só a morte simples e pura?
O que me espera é só o buraco
E a loucura? onde serei jogado?
E devorado pelos vermes da terra
O que estou a procurar?
Vou morrer sem achar?
O que estou a esperar
Vou morrer sem encontrar?
Pois nada se pode esperar
De cabeça de homem
Do calibre desta
Que vos escreve aqui agora. 

Um amor açoriano; BH, 0180601999; Publicado: BH, 02601202012.

Um amor açoriano
Natural das Ilhas dos Açores
Que saiba acoroçoar
Incitar a paz
Animar a felicidade
Encorajar o viajante
Preso com correntes
Nos remos das galaras
Os escravos negros
Trazidos à força
Da costa da África
Um amor que não quer se acorrentar
Que não queira escravizar
E que corra em socorro
Que saiba acudir
Que saiba dar refúgio
Na hora da procela
Um amor que vai nos acorrer
No negror da noite
Medonha noite de alto-mar
Onde começou a história
Dos tempos do descobrimento
Dos tempos das caravelas das naus
Viagens infinitas e sem voltas
Viagens perdidas
Terminadas no fundo do mar
Um amor desconhecido
Que não seja acossador
Que não nos faça passar
Pelo vexame do acossamento
Que não nos venha acossar
Ir ao nosso encalço
Nos perseguir sem tréguas
Nos atormentar dia e noite
Um amor que seja
O nosso porto seguro
Onde possamos acostar
Pôr junto um do outro
Encostar sem aranhar
Aproximar sem medo
Apoiar e dar apoio
Ser a costa e o porto
Navegar em águas tranquilas
Procurar e dar amparo
Recostar-se um ao outro
Ser da mesma opinião.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

O sangue jorra em bicas; RJ, 0260401997; Publicado: BH, 02601202012.

O sangue jorra em bicas
A abertura na carne
É dilacerada e funda
Correntes sanguíneas
Esvaem-se palas ruas
Paredes e portas e janelas
Estão todas salpicadas
A chacina foi cruel
Mulheres e homens e crianças
Todas padeceram
Aos corte de facões
Foices e machados e enxadas
É um verdadeiro poema sangrento
Poema escrito com sangue inocente
E não se tem ainda
A ideia de quando vai parar
Cada vez mais
Sangue vai jorrar
Meu Deus do céu que vergonha
Eu estou a sentir agora
Vejo golfo de sangue
A fugir livremente
Da garganta cortada
Daquela criança ali
Estendida no chão
Inda me olha
Senti tudo no olhar
As pálpebras fecharam-se
Tentei chorar
As lágrimas não vieram
Serão lágrimas sem sangue
Dum covarde fraco e medroso.

Vejo a morte; RJ, 0260401997; Publicado: BH, 02601202012.

Vejo a morte
Toda a hora à minha frente
Pessoas que se apodrecem vivas
Se acabam nos vícios
De álcool e de drogas
Se deterioram e não encontram
Meios adequados
De darem a volta por cima
Vejo todas elas
De olhos injetados
Pernas bambas
Semblantes moribundos
A representação autêntica
Da própria morte
E é a pior morte
A morte espiritual
A morte d'alma
A morte d'eu
Da identidade perdida
Do elo de ligação
Do nada ao tudo
E a chegada fúnebre
Do tudo ao nada
A tortura interior
O carrasco do íntimo
Com a lâmina afiada
Já a cortar
As cordas que prendem o coração
Desses fantasmas perdidos
Que vagam dia e noite
A arrastar o ataúde
A procura dum lugar
Para depositá-lo.

O meu coração; BH, 0180601999; Publicado: BH, 02601202012.

O meu coração
É o lugar ideal
Para acostar
A tua embarcação
Meu ser é acostável
Venhas fazer e adquirir
Costume comigo
Venhas habituar com a minha companhia
Venhas acostumar com o meu modo de ser
Sou manso de espírito
E sereno de coração
Aqui não há rochas traiçoeiras
As águas são claras e calmas
Podes dar crédito ao que digo
Sou digno de crédito
Confies e tenhas como verdadeiro
O meu coração
Podes lançar as âncoras
Já estás autorizada
Não precisas de representante
Não estás perante
Governo estrangeiro
Sou conhecido e público
Não foi à toa que meu posto
Conseguiu fama e reputação
Adquiriu credibilidade
Queiras acreditar
Aqui não tem estranho
O amor é puro e verdadeiro
O sentimento não é piegas
Fraco e oscilante
Tragas teu navio
Tragas teu barco
Tragas teu iate
E vejas no cais
O acotovelamento do povo
Vejas a gente toda
Se acotovelar em turba
A golpear entre si com os cotovelos
A procurar melhor visão
Para não perder a hora exata
Da tua chegada ao meu coração
Olhas só os empurrões
Instigação dos encontrões
O amontoar de gente que saúda
A nobreza da tua embarcação.