quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Oi parceiro; RJ, 0310701981; Publicado: BH, 02201102012.

Oi parceiro
Vais tu e tua mina
Para o banheiro
E não reajas
Senão
Vou fuzilar
Passa por baixo
Do balcão
Rapidinho
Foi o que ouvi
Ao entrar numa casa lotérica
Para conferir
O último resultado da loto
Estávamos eu
E a minha mulher
Entramos no banheiro
Que estava
Abarrotado de gente
Todo mundo a tremer
De nervosismo e medo
Fecha a porta aí porra
Gritou o assaltante
Abracei a mulher
A apertei e a beijei
Pensei em Deus
E procurei ficar calmo
E espantar o medo
Foi meu batismo
Graças a Deus
Tudo correu bem
Eu e ela
Não fomos molestados
E dez minutos depois
Saímos atônitos do banheiro.

Tornei-me transparente; BH, 01º0102000; Publicado: BH, 02201102012.

Tornei-me transparente
Ao atravessar o ar
Como um sarafano opaco
Pesado e de chumbo
O gênero de cogumelo de aço
Epífito de ferro puro
Aerófito inoxidável
Morri sufocado com o horror
Que a aerofobia me causava
Era tão imenso o meu medo
Tão extremo meu terror
Que preferi o vácuo por ser
Um aerófobo cadavérico
Enterrado em grande instrumento
Semelhante a um órgão
Movido a vapor
E que produz no espaço
Produz no silêncio
Os sons muito fortes
Levados pelos ventos
Aerofone do sofrimento
Detrimento do aerofotogramétrico relevo
E de parte da física que trata
Das propriedades do ar na aerognosia
O mapa da aerofotogrametria
Com todo o conhecimento possível
Do aerognóstico do conceito aerográfico
Que descreve o ar e suas propriedades
Na tese do aerógrafo PHD
Que para o aerograma infinito
Na mensagem enviada
Pelo telégrafo sem fio
E o mesmo radiograma que reclama
Que chegamos a 2000
Com o mesmo desafio.

Consegui enfim irmão; BH, 020102000; Publicado: BH, 02201102012.

Consegui enfim irmão
A tão esperada afloração
Está é a minha ação
De aflorar de contentamento
É o meu nivelamento espiritual
A emergência de um filão
À superfície da terra
Que se revolve com a mão
Atingi a minha extremidade
Acabou-se o afligimento
Não preciso mais me afligir
E nem ser o afligidor de alguém
Não quero ser o ser que aflige
Algum ser da humanidade
Transpus meu karma afligente
Parei meu pranto aflitivo
Agora é só afleumar meu discurso
Inflamar minhas palavras
Inchar meu ego de amor
Tornar fleumático meu ódio
Pachorrento meu tempo
Impassível tudo em mim
Calmo e tranquilo e sereno
Igual cobra sem veneno
Para que afleimar-me com a vida?
Impacientar-me com as coisas?
Irritar-me com as pessoas?
Zangar-me com tudo e com todos?
Brigar sem motivo algum?
Não quero mais agora xingar
Só aflautar a voz abemolar
Deixá-la doce e melíflua
Aflautada e efeminada até
Para nunca mais meter medo
Nem mesmo nas crianças.

Por Deus; RJ, 0310701981; Publicado: BH, 02201102012.

Por Deus
Se estiveres a preparar
Alguma armadilha
Para mim
Não sei
O que vai acontecer
Deus queira
Que não estejas
A trair-me
Se me fizeres
Alguma molecagem
Alguma sacanagem
Vais ver
O que vou fazer
Espero que não estejas a mentir
Não estejas a enganar-me
E nem a preparar
A minha cama
Espero que
Não estejas a querer
A minha caveira
E nem a querer por fim
À minha carreira
Por Deus
Não aprontes-me
Nenhuma malandragem
Estou a confiar em ti
Não acabes com o meu sonho
Não me iludas
E nem me passes a perna
Vou procurar
Corresponder a altura
A missão que tu
Fores confiar-me
Vou procurar adaptar-me
Seja o que Deus quiser.

Estou aflechado de amor; BH, 020102000; Publicado: BH, 02201102012.

Estou aflechado de amor
Ferido por flecha fatal
Que aquela mulher me atirou
Um amor em forma de flecha
Que por terra me prostrou
Deixei-me aflechar o coração
Que de uma vez mudou
E nunca mais foi o mesmo
E o meu peito transformou-se
E o aflato da vida
Manifestou-se em mim
O sopro da felicidade
Habitou-se em mim
O bafejo da paz
Possuiu-me a alma
E o hálito do gozo
Aumentou o meu prazer
Não precisei nem do amendoim
Com toda a sua aflatoxina
A fatal substância tóxica contida
De hipotética influência cancerígena
E encontrei naturalmente
Meu afrodisíaco aflante
Como quem respira
Uma boa cavalgada anelante
Enebriado cansaço ofegante
Repousar no braço amante
Afivelado e preso
Apertado e seguro
Melhor do que fivela
Dormir feliz e sereno
Junto ao orvalho do coração dela.

Amar sem afito; BH, 020102000; Publicado: BH, 02001102012.

Amar sem afito
Sem indigestão ou diarreia
Amar aflamengado
Semelhante aos flamengos
Com qualquer coisa apimentada
Flamenga e esquentada
Afitar o horizonte infinito
Como se estivesse a fitar
O olhar da mulher amada
Sem sofrer o afitamento
Feito criança com a comida
Que ela acabou de fazer
Não afistular o relacionamento
Nem converter em fístula
Ou encher de fístula o intercâmbio
Cuidar bem da úlcera
Em forma de canal estreito profundo
Será comunicação anômala
Dos órgãos entre si
Do exterior com o interior?
Ser a planta doce
E não acanalha pérfida
De um amor afistulado
E sim afirmador
Afirmante e indivíduo
Com afinco e assiduidade
Aferro e pertinácia
E plantar de estaca e aferrar com fé
Insistir e teimar em amar
Obstinar-se e espetar sem dor
Cravar e fincar afincar o amor
Na insistência da teima
No afincamento pertinaz
Deixar afincado e perseverante vibrante
E a seiva da vida completa o restante.

domingo, 14 de outubro de 2018

Comecei minha afinagem; BH, 020102000; Publicado: BH, 02001102012.

Comecei minha afinagem
Igual a purificação dos metais
Quero estar afinado para o futuro
Temperado tal a um bom instrumento
Que concorde bem com os outros
Bem acabado e feito
E não me sentir imitador
Fazer a minha própria afilhadagem
Proteger-me do mal
Da mentira e da falsidade
Afilado e bem educado
Adelgaçado e tornado fino
Feito cavalheiro de tino
E com inseticida da boa
Livrar-me dos meus pulgões
Meus afídios famintos
Que não querem me ver
A afidalgar-me a
Tornar-me um fidalgo
Com parenças e fazenças
De nobreza e fidalguia
Por fora um mendigo andrajoso
Por dentro total afidalgamento
E é assim que quero ser
Tornado e com modos
Afidalgado de retalhos
Afiançado de caráter;
Garantido pela moral
Abonado pela honra
Afiambrado pelo sabor
Que se assemelha ao bom fiambre
Um presunto de qualidade
Carne de porco de primeira linha
Bem salgada e preparada
Pronta para ser devorada
Numa salada de frios.