quinta-feira, 28 de março de 2013

MIKIO, 119; BH, 0270302013.

FHC, vulgo Fernando Henrique Cardoso, na
ABL, Academia Brasileira de Letras, é o
Esperado; lá encontram-se Roberto Marinho,
José Sarney, Merval Pereira, um FHC
A mais, não fará nenhuma diferença; mas,
Penso que ali não é o lugar ideal
Ao pior presidente da República Federativa
Do Brasil; ali é a Casa de Machado de
Assis, o nosso maior gênio literário, o nosso
Maior escritor, e não a casa de quem pediu
Para esquecer o que escreveu e que, teve a 
Coragem de dizer, que assinou documentos sem ler;
E ali é a Casa do grande Austregésilo de Athayde e 
Não a casa de quem chamou aposentado de 
Vagabundo; e independente da minha vontade, já vejo 
FHC, numa cadeira da Academia, como o vi
Na cadeira da Prefeitura de São Paulo; mas
Lá, o Jânio Quadros jogou-o para escanteio,
Depois de desinfetar completamente a
Cadeira; lembro-me que de uma feita, ter
Comprado um livro de Montesquieu, e
Quando o vi, com a tradução de FHC; me desfiz
De imediato do livro, passeio-o adiante sem
Nem sequer lê-lo; a Academia Brasileira de
Letras não ganha nada com a eleição de FHC,
Como não ganhou nas eleições de Sarney,
Marinho, Merval; para ele será bom, muito
Vaidoso, fofoqueiro linguarudo de vários
Idiomas, adora meter a língua a falar mal do
Brasil; e tem o apoio do PIG, Partido da
Imprensa Golpista, conivente; STF, Supremo
Tribunal Federal que o acoberta; PGR,
Procuradoria Geral da República engavetadora;
E de outras entidades comandadas por seus
Comparsas lesa-pátria; na certa, muitos farão
Artigos a comemorar a chegada de mais um
Imortal em avançado estado de decomposição
À ABL, eu repudio, com todo o meu desprezo.


O triste é que o medo me causa uma estranha epigastralgia;
BH, 0120102004;
Publicado: BH, 0280302013.


O triste é que o medo me causa uma estranha epigastralgia, 
E paro por covardia numa falsa epífrase; num acrescentamento 
A uma frase que parecia concluída, para se desenvolver
Ideias acessórias; e com dor no epigástrico, meu
Pranto é de epífora, com o escoamento das lágrimas
Pela face, em virtude de obstrução dos canais lacrimais;
E sozinho, solitário, mais do que só, aumenta
O meu epifitismo, meu estado lamentável de condição
De epífito e aí, sinto-me o vegetal que vive
Fixado em outro, mas sem ser parasita e o
Meu caso então, nem o epifenomenalismo, a doutrina
Que considera os fenômenos psíquicos como meros
Acessórios dos movimentos nervosos, é capaz de explicar;
E este epifenômeno adicional que se superpõe a
Outro, mas sem modificá-lo, nem exercer sobre ele
Nenhuma influência, só o sistema que sobrevém;
A impedir o epicédio, a ceifar a composição poética,
A calar o discurso em memória de alguém, a matar
A elegia, a entristecer ainda mais a nênia; não,
Não posso deixar a epêndima, a membrana que forra
Os ventrículos cerebrais e o canal central da medula,
Seja lesionada, destruída pela burrice, ignorância;
E grito com epêntese, com aumento de som no
Meio da palavra, a tragar no ombro a dor do mundo
E a perder a oportunidade de escoiçar o sofrimento;
O Atlas que carrego no ombro é epentético, é o
Som, é a letra, é a força acrescentada, colocada
No meio da palavra que se quer esbofetear; é
O canzarrão Cérbero, o buraco negro que quer
Engolir o universo; desde o tempo do epeu, é de
Tudo que diz respeito aos epeus, antigo povo do
Peloponeso; a mãe epeia era a que estava sobre
O epilenômeno e antes de iniciada toda forma,
Desaparece o efêmero; vou embaixo buscar a solução,
Trago um epiblema, resolução da epiderme, da
Raiz e outros órgãos subterrâneos dos vegetais;
Dilato o epicanto, a dobra da pele no ângulo
Interno do olho e não enxergo mais, nem por
Dentro e nem por fora; o epicárpico gerado no epicárpio,
A película externa dos frutos, não afasta do epicaule,
Vegetal parasito, que cresce no caule de outros
Vegetais; no espaço quando olho o epiciclo,
Pequeno círculo imaginário da esfera celeste, o
Qual tem o centro da circunferência de outro
Círculo maior, minha dúvida só aumenta;
O mundo epicicloidal, é mais antigo do que a
Humanidade imagina; o epicicloide não pode
Ser e nem é mais moderno, a palavra já é mais
Antiga do que a curva gerada por um ponto
Fixo de uma circunferência que rola, sem escorregar,
Sobre a parte convexa, ou côncava de outra face;
O órgão colocado sobre o receptáculo da flor, o epiclino,
Deveria fazer o papel do epicmástico, que aumenta
Gradualmente a febre; e como outro epacmástico,
Duplicar a febre de vida no universo e o
Universo não pode ser epicondiliano e nem ter
A característica do epicôndilo, a saliência mais
Externa da extremidade inferior do úmero;
Por mais que busquemos entender o universo não
Temos nem início e nem meio e nem fim;
E muito menos efeito que cause qualquer tipo de
Epidemicidade, ou de tudo que tenha qualidade
Daquilo que é epidêmico, a não ser o homem;
O homem é quem é o fator epidemiológico do nosso
Universo e se ele for epidemiologista não saberá
Impedir o fim do futuro; haja epidemiológico,
Haja pessoa versada em epidemiologia, não
Poderá impedir que o epidendro, gênero de
Orquídeas, seja preservada e tudo que
Cresce sobre as árvores e sob também, virará
Cinzas, sombras, penumbras, carvões, simulacros;
Tesouro epigráfico, luxuoso epigramático, satírico
Até, porém, a trazer do epigramatista, um sumo
Epilogador, cujo resumidor de tudo, seja o encontro
Das formas, o sintetizador dos princípios, o epimítio
Das coisas, no entender da moralidade da fábula,
No maior crescimento da face dorsal das folhas, se
A epinastia tem alguma fantasia escondida na
Agonia, ou na angústia da epinefrina, que lança
A adrenalina, na nossa nervosia que às vezes
Não tem o sentido que tem a parte superior do
Filete dos estames das plantas que dão flores
Sinantéreas; já que ninguém procurava a
Epinema no epioolítico, formação posterior à
Do terreno oolítico; no terreno contemporâneo do
Homem, o epiórnis, os tesouros procurados, não são
Encontrados, tais os estames que nascem unidos
À corola; e o epipétalo perdido, levado pelo vento,
Não será o esquecido epipigma, antigo instrumento
Cirúrgico para reduzir as luxações do braço, do epiplo
Peritônio que flutua livremente no abdome na frente
Do intestino delgado, no omento do epíploo; paro no
Organismo epiglótico e não engulo o fantasma epígino,
O estame vegetal que está sobre o ovário, ou acima dele
E com a epiginia no auge do epigeu, e tudo que
Está sobre a terra, ou fora dela, dos cotilédones quando
Durante a germinação, são arrastados pelo caulículo
Para fora da terra, como sucede com os do feijão;
Assim é o gênese da epigeia, o rochedo epígeno, e a
Rocha que apresenta o fenômeno da epigenia.

terça-feira, 26 de março de 2013

João Ubaldo Ribeiro, Senhor Presidente; BH, 0260302013.


Antes de mais nada, quero tornar a parabenizá-lo pela sua vitória estrondosa nas urnas. Eu não gostei do resultado, como, aliás, não gosto do senhor, embora afirme isto com respeito. Explicito este meu respeito em dois motivos, por ordem de importância. O primeiro deles é que, como qualquer semelhante nosso, inclusive os milhões de miseráveis que o senhor volta a presidir, o senhor merece intrinsecamente o meu respeito. O segundo motivo é que o senhor incorpora uma instituição basilar de nosso sistema político, que é a Presidência da República, e eu devo respeito a essa instituição e jamais a insultaria, fosse o senhor ou qualquer outro seu ocupante legítimo. Talvez o senhor nem leia o que agora escrevo e, certamente, estará se lixando para um besta de um assim chamado intelectual, mero autor de uns pares de livros e de uns milhares de crônicas que jamais lhe causarão mossa. Mas eu quero dar meu recadinho.

Respeito também o senhor porque sei que meu respeito, ainda que talvez seja relutante privadamente, me é retribuído e não o faria abdicar de alguns compromissos com que, justiça seja feita, o senhor há mantido em sua vida pública – o mais importante dos quais é com a liberdade de expressão e opinião. O senhor, contudo, em quem antes votei, me traiu, assim como traiu muitos outros como eu. Ainda que obscuramente, sou do mesmo ramo profissional que o senhor, pois ensinei ciência política em universidades da Bahia e sei que o senhor é um sociólogo medíocre, cujo livro O Modelo Político Brasileiro me pareceu um amontoado de obviedades que não fizeram, nem fazem, falta ao nosso pensamento sociológico. Mas, como dizia antigo personagem de Jô Soares, eu acreditei.

O senhor entrou para a História não só como nosso presidente, como o primeiro a ser reeleito. Parabéns, outra vez, mas o senhor nos traiu. O senhor era admirado por gente como eu, em função de uma postura ética e política que o levou ao exílio e ao sofrimento em nome de causas em que acreditávamos, ou pelo menos nós pensávamos que o senhor acreditava, da mesma forma que hoje acha mais conveniente professar crença em Deus do que negá-la, como antes. Em determinados momentos de seu governo, o senhor chegou a fazer críticas, às vezes acirradas, a seu próprio governo, como se não fosse o senhor seu mandatário principal. O senhor, que já passou pelo ridículo de sentar-se na cadeira do prefeito de São Paulo, na convicção de que já estava eleito, hoje pensa que é um político competente e, possivelmente, tem Maquiavel na cabeceira da cama. O senhor não é uma coisa nem outra, o buraco é bem mais embaixo. Político competente é Antônio Carlos Magalhães, que manda no Brasil e, como já disse aqui, se ele fosse candidato, votaria nele e lhe continuaria a fazer oposição, mas pelo menos ele seria um presidente bem mais macho que o senhor.

Não gosto do senhor, mas não tenho ódio, é apenas uma divergência histórico-glandular. O senhor assumiu o governo em cima de um plano financeiro que o senhor sabe que não é seu, até porque lhe falta competência até para entendê-lo em sua inteireza e hoje, levado em grande parte por esse plano, nos governa novamente. Como já disse na semana passada, não lhe quero mal, desejo até grande sucesso para o senhor em sua próxima gestão, não, claro, por sua causa, mas por causa do povo brasileiro, pelo qual tenho tanto amor que agora mesmo, enquanto escrevo, estou chorando.

Eu ouso lembrar ao senhor, que tanto brilha, ao falar francês ou espanhol (inglês eu falo melhor, pode crer) em suas idas e vindas pelo mundo, à nossa custa, que o senhor é o presidente de um povo miserável, com umas das mais iníquas distribuições de renda do planeta. Ouso lembrar que um dos feitos mais memoráveis de seu governo, que ora se passa para que outro se inicie, foi o socorro, igualmente a nossa custa, a bancos ladrões, cujos responsáveis permanecem e permanecerão impunes. Ouso dizer que o senhor não fez nada que o engrandeça junto aos corações de muitos compatriotas, como eu. Ouso recordar que o senhor, numa demonstração inacreditável de insensibilidade, aconselhou a todos os brasileiros que fizessem check-ups médicos regulares. Ouso rememorar o senhor chamando os aposentados brasileiros de vag abundos. Claro, o senhor foi consagrado nas urnas pelo povo e não serei eu que terei a arrogância de dizer que estou certo e o povo está errado. Como já pedi na semana passada, Deus o assista, presidente. Paradoxal como pareça, eu torço pelo senhor, porque torço pelo povo de famintos, esfarrapados, humilhados, injustiçados e desgraçados, com o qual o senhor, em seu palácio, não convive, mas eu, que inclusive sou nordestino, conheço muito bem. E ouso recear que, depois de novamente empossado, o senhor minta outra vez e traga tantas ou mais desditas à classe média do que seu antecessor que hoje vive em Miami.

Já trocamos duas ou três palavras, quando nos vimos em solenidades da Academia Brasileira de Letras. Se o senhor, ao por acaso estar lá outra vez, dignar-se a me estender a mão, eu a apertarei deferentemente, pois não desacato o presidente de meu país. Mas não é necessário que o senhor passe por esse constrangimento, pois, do mesmo jeito que o senhor pode fingir que não me vê, a mesma coisa posso eu fazer. E, falando na Academia, me ocorre agora que o senhor venha a querer coroar sua carreira de glórias entrando para ela. Sou um pouco mais mocinho do que o senhor e não tenho nenhum poder, a não ser afetivo, sobre meus queridos confrades. Mas, se na ocasião eu tiver algum outro poder, o senhor só entra lá na minha vaga, com direito a meu lugar no mausoléu dos imortais.

O mentiroso é um farsalhão e a mentira uma farsa grande; BH, 0210702005.

O mentiroso é um farsalhão, e a mentira é uma farsa grande, 
E de pouco mérito; mentira é palhaçada,
Ato burlesco, uma farsada infeliz de quem vive na farsa e
Que tem o destino como uma peça burlesca de teatro e
Faz da vida um ato ridículo, próprio da farsa, da coisa de
Pantomima; mesmo que o fim seja negro, um berço escuro,
Sujo de carvão, coberto de fuligem, o próprio farrusco e a
Verdade estiver escondida lá, atrás dela teremos que
Ir, até a encontrar; a verdade não é ferrugenta,
Corta mais do que a espada imprestável e na
Nossa face, ela não pode se passar por um chanfalho;
E no nosso rosto, ela não pode ser uma máscara e no
Nosso semblante, carranca e nem na nossa cara, farrusca;
A verdade é grande, não é pequena, tal qual
Um farroupo, um porco que não tem um ano; foi
Justamente atrás da verdade, que surgiu a revolução
Federalista gaúcha de 1835, foi ao procurá-la que o
Farrapo foi à guerra; foi a verdade que deu viva à
Farroupilha e fez do farroupa, indivíduo que se passava
Por miserável, desprezível e mendigo, menção de
Herói nacional; a mentira é frágil, de um lado, igual ao
Farro, o bolo de farinha de trigo, e do outro, grossa, tal o caldo
Grosso de cevada; ao debochado, amigo de pândegas, boêmio
E farrista, poucos dão crédito nos dias de hoje; verdade então, aquém,
Aqui, ali, além, apareça sem desdém; que seja vinda do
Farricoco, pessoa que usava hábito e capuz para acompanhar
Enterros, tomar parte em procissões; do fárreo, bolo de farinha
De trigo, o primitivo "bolo de noiva", que em Roma, simbolizava
O casamento; a verdade é para acabar com o farrear da mentira em nossos
Corações; e quem fica a descomedir-se moralmente em patuscadas,
No fim vira um trapo, um mulambo humano, pessoa que,
Mais parece pedaço de roupa esfarrapada e não
É o digno revolucionário gaúcho do período regencial;
Minha gente, já dizia a minha avó: mentira é farraparia,
Falsidade é farrapagem, e ilusão é mulambaria; e a ira é
Que nos faz esfarrapar a nossa fardagem e é o ódio
Que vem farrapar a nossa consciência; só que não se
Preocupa com a consciência é o fascíola, o verme achatado,
Da classe dos Trematódeos, que se encontra sobretudo nos
Canais biliares do carneiro; a espécie de plantas criptogâmicas,
A fasciolária, gênero de conchas univalves, fusiformes, pois
Quem não as têm, não se encontrará nem com a fasciotomia, a
Incisão cirúrgica da fáscia, ou aponevrose; a humanidade,
Desde dos fastos, desde dos anais, registros públicos de fatos,
Obras memoráveis, desde o calendário da Roma Antiga,
Que continha os dias fastos e os nefastos, procura a felicidade,
O conhecimento, e desvendar todos os mistérios;
Aquele que gosta de luxo, é arrogante, pomposo, farto em
Todo o seu físico, fartuoso no vestir, fartoso no andar, e
No sorrir, não passa de uma fataça, uma tainha grande
E acabará, com certeza, numa frigideira de gordura quente
A ferver e depois será servido; cada fatacaz, cada pedaço,
Cada fatia grande, aos famintos e sem o milagre
Da multiplicação; a felicidade agora, meu povo, é
Improrrogável, não é a verdade que acarreta
Desgraças, não é o falso que é nocivo, funesto; é a
Verdade que tem de ser irrevogável, a qual teimo com
Ela, determinado pelo fato, de que é a mentira
Que é fatal para a raça humana; é a fatalidade o que nos
Causará a falta da verdade, é o acontecimento funesto, a
Desgraça, o fatalismo, o próprio do sistema dos que tudo
Atribuem à fatalidade, ou ao destino a negar o livre-arbítrio;
A mentira sim, é que e fatalista, e o homem deve
Ser criador, inventivo, fértil, fecundo de grandes e boas
Ideias para justamente com tanta e busica fecundidade,
Abundância e grande produção, faculdade reprodutora e
Facilidade de proliferação de obras de todos os tipos, afastar
Da arte a densidade conjuntural e estrutural da mentira.


Meu sonho é escrever com fecundidade;
BH, 01º0801101202005;
Publicado: BH, 0260302013.


Meu sonho é escrever com fecundidade 
E quando penso em escrever, penso em James Joyce, penso na qualidade
Dele de fecundo; e quando penso em escrever, penso em Fernando Pessoa
E penso na abundância que ele foi e que ainda é
E continua a ser; e tantos outros de grande
Produção, que se eu fosse pensar neles agora, de
Uma vez só, o meu pensamento seria bem pequeno; e
Não teria eu faculdade reprodutora, facilidade
De produção de obras de arte e nem proliferação
Que me igualasse à fecundez dos nossos grandes
Nomes da humanidade; meu sonho é um escrito
Fecundativo, um manuscrito fecundante, um pergaminho
Composto de teor fertilizante e que servisse para fecundar
Não só a mim, mas a todo representante da raça
Humana; se tivesse o dom de comunicar a um germe,
O princípio, a causa imediata de um desenvolvimento,
Penso que assim saberia fertilizar, desenvolver, fomentar
E concertar as melhores ideias para a felicidade
Dos seres humanos; por isto procuro pensamento fecundante
E espírito fecundador e ser um ser fecundativo e
Aumentar a minha fecundação, para que ela seja
Maior do que a de febo, do que a de febra que me
Compõem, para que não seja simplesmente, uma carne;
Uma carne sem osso e sem gordura e muito menos uma fibra, ou
Só um nervo; e composto de força e de energia,
Um faz tudo nesta arte que amo e poder ser considerado
O indivíduo que exerce variadas indústrias e se ocupa
Em múltiplos misteres, uma leal e real factótum, escrita feita
De ferro, (Fe); meu sonho é um dia ser capaz de ser capaz, ser
Salvo e resgatado pela poesia, mas, ao ser este fato falido, o
Farinhento deste semblante feculento, que se dissolve com qualquer
Favônio e não o vento considerado próprio e que trazia felicidade,
Qualquer outro desmancha meu ar feculoso; já próximo do fateiro
Da morte, sinto que tenho que guardar a alma numa
Fateira, pendurada num gancho, ou num arpão com
Que se tiram objetos do fundo da água; o espírito até
Que já foi uma espécie de âncora para fundear pequenos
Barcos; hoje é só procelas, nenhum gancho de ferro para
Pendurar carnes, segurará a minha, quando a morte
Vier buscá-la; de mim, aqui nesta terra, não restará
Talhada, ou porção, pedaço, fatia; é por isto que deixo a
Minha obra me fatiar, fazer de mim em fatias, a mostrar o
Quanto sou trágico, de aspecto sinistro, de jeito profético
E de fado fatídico e chego a ser fatigador quando falo;
O mundo torna-se cansativo e o destino a fatigante e o caminho
Exaustivo, porém, a luta sem fatigamento, a vida sem fadiga e
Sem o estafante que nos causa prazer no fim da jornada;
Ou o fatigiado que valorizará o nosso pensamento no fim
Do período; foi fatigante, mas valeu a pena, é meu, sou
Meu, sou eu, podeis me fatigar no sofrimento, e na
Injustiça; podeis me importunar, enfastiar e cansar,
Morrerei fatigioso e feliz e cansativo e embriagado
De lucidez; aquele que prediz o futuro, que fala que é
Profeta, vaticinador, fatíloquo infalível, ou fatiloquente,
Não passa de um néscio e nem deixa de ser presumido,
Petulante, vaidoso e oco, pois o fátuo no fundo é um louco;
Não conhece nem o fatímida, o descendente de Fátima, filha
De Maomé, cuja descendência se formou a tribo dos
Fatímidas, que constituíram o império do Magrebe, em Marrocos;
É assim que quando escrevo, mesmo ao não atingir a grandeza
De quem escreve de verdade, dispo-me da roupa e do terno e de todo
Vestuário e do fato da farpela e da fatiota e nu, feito
Um idiota, que não sabe coisa e nem ação feita; e que
Não sabe o que é real, não entende um acontecimento
E sem sucesso, não dá conta nem de um rebanho pequeno; e
Com efeito só entende de intestino e de barriga de animais.


Konstantinos Kaváfis, O Deus abandona Antônio;
Publicado: BH, 050402013.


Quando, à meia-noite, de súbito escutares 
Um tiaso invisível a passar 
Com músicas esplêndidas, com vozes - 
A tua Fortuna que se rende, as tuas obras 
Que malograram, os planos de tua vida 
Que se mostraram mentirosos, não os chores em vão. 
Como se pronto há muito tempo, corajoso, 
Diz adeus à Alexandria que de ti se afasta. 
E sobretudo não te iludas, alegando 
Que tudo foi um sonho, que teu ouvido te enganou. 
Como se pronto há muito tempo, corajoso, 
Como cumpre a quem mereceu uma cidade assim, 
Acerca-te com firmeza da janela 
E ouve com emoção, mas ouve sem 
As lamentações ou as súplicas dos fracos, 
Num derradeiro prazer, os sons que passam, 
Os raros instrumentos do místico tiaso, 
E diz adeus à Alexandria que ora perdes.



Konstantinos Kaváfis, À espera dos bárbaros;

Publicado: BH, 050402013.


O que esperamos na ágora reunidos?
É que os bárbaros chegam hoje.
Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?
É que os bárbaros chegam hoje
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.
Por que o imperador se ergueu tão cedo
E de coroa solene se assentou
Em seu trono, à porta magna da cidade?
É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
O chefe deles. Tem ponto para dar-lhe
Um pergaminho no qual estão escritos
Muitos nomes e títulos.
Por que hoje os dois cônsules e os pretores
Usam togas de púrpura, bordadas,
E pulseiras com grandes ametistas
E anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos,
De ouro e prata finamente cravejados?
É que os bárbaros chegam hoje,
Tais coisas os deslumbram.
Por que não vêm os dignos oradores
Derramar o seu verbo como sempre?
É que os bárbaros chegam hoje
E aborrecem arengas, eloquências.
Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
E todos voltam para casa preocupados?
Porque é já noite, os bárbaros não vêm
E gente recém-chegada das fronteiras
Diz que não há mais bárbaros.
Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.



Konstantinos Kaváfis, Ítaca;
Publicado: BH, 060402013.



Se partires um dia rumo a Ítaca, 
Faz votos de que o caminho seja longo, 
Repleto de aventuras, repleto de saber. 
Nem Lestrigões nem os Ciclopes 
Nem o colérico Posídon te intimidem; 
Eles no teu caminho jamais encontrarás 
Se altivo for teu pensamento, se sutil 
Emoção teu corpo e teu espírito tocar. 
Nem Lestrigões nem os Ciclopes 
Nem o bravio Posídon hás de ver, 
Se tu mesmo não os levares dentro da alma, 
Se tua alma não os puser diante de ti.
Faz votos de que o caminho seja longo. 
Numerosas serão as manhãs de verão 
Nas quais, com que prazer, com que alegria, 
Tu hás de entrar pela primeira vez um porto 
Para correr as lojas dos fenícios 
E belas mercancias adquirir: 
Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos, 
E perfumes sensuais de toda espécie, 
Quanto houver de aromas deleitosos. 
A muitas cidades do Egito peregrina 
Para aprender, para aprender dos doutos.
Tem todo o tempo Ítaca na mente. 
Estás predestinado a ali chegar. 
Mas não apresses a viagem nunca. 
Melhor muitos anos levares de jornada 
E fundeares na ilha velho enfim, 
Rico de quanto ganhaste no caminho, 
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse. 
Uma bela viagem deu-te Ítaca. 
Sem ela não te ponhas a caminho. 
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.
Ítaca não te iludiu, se a achas pobre. 
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência, 
E agora saber o que significam Ítacas.



Fórum “SP Sem Passado: Ensino de História e Currículo; BH, 0260302013.



Carta Aberta

São Paulo, 16 de Março de 2013. 

Recentemente, através das Resoluções nº 81 de 16/12/2011 e nº 2 de 18/01/2013, a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo retirou o ensino de História (além de Geografia e Ciências Físicas e Biológicas) dos 1º, 2º e 3º anos da Matriz Curricular dos anos iniciais do Ensino Fundamental e reduziu a presença da disciplina de História a 5% da carga horária no 4º e 5º anos, restando apenas 100 horas de estudo de História numa carga total de 5.000 horas de estudos para as crianças entre 6 e 10 anos de idade. 

Soma-se a esse sequestro cognitivo, a proposta curricular São Paulo Faz Escola, criada em 2007 e ainda mantida pela atual gestão do governo do estado, com seus fascículos apostilados voltados aos anos finais do Ensino Fundamental e Médio, denominados Caderno do Professor e Caderno do Aluno, que padronizam práticas, engessam a autonomia e a criatividade dos professores, objetivando o estreito propósito de treinar jovens para obter melhores notas nos sistemas padronizados de avaliação como SARESP, Prova Brasil e ENEM. 

Diante desse fato, a ANPUH-SP e ANPUH-Brasil, através de seus GTs de Ensino de História e Educação, promoveram, no dia 16 de março do corrente ano, o Fórum SP Sem Passado: Ensino de História e Currículo no auditório da Faculdade de Educação da USP, que contou com cerca de 120 participantes, entre professores do Ensino Fundamental e Médio, estudantes de História e Pedagogia, além de professores e pesquisadores de ensino de História da FEUSP, FFLCH-USP, UNIFESP, UNESP, PUC-SP, UNICAMP, UNINOVE e FIG. 

Durante o evento, foi ressaltada a defesa da escola pública e destacou-se a importância do ensino de História na formação de crianças, jovens e adultos, pelas possibilidades de ampliação do conhecimento do mundo historicamente constituído, compreensão das temporalidades históricas, reflexão crítica sobre ações, acontecimentos e processos de transformação, e formação humanística. Da mesma forma, foi expressa uma legítima preocupação diante da ausência do ensino de História para crianças, adolescentes e adultos, que serão educados (ou deseducados) na ignorância do passado, resultando numa bomba de lesa-conhecimento. 

Além disso, a proposta indica de forma absolutamente equivocada, que disciplinas como História, Geografia e Ciências não contribuem para o processo de alfabetização e letramento das crianças. Cria-se uma artificial e inverídica oposição entre esses conhecimentos, como se o ensino dessas disciplinas fosse incompatível com Língua Portuguesa e Matemática, negando todas as discussões teóricas e as práticas bem sucedidas, acerca da interdisciplinaridade, e as potencialidades que trabalhos dessa natureza representam para o processo de aquisição da leitura e da escrita. Assim, ao invés de aprofundar a formação dos professores quanto ao conhecimento da especificidade dessas disciplinas escolares visando ampliar as possibilidades de trabalhos que assegurem formas significativas de aprendizagem para os alunos, a SEE/SP prefere promover a subtração de disciplinas básicas do currículo, restringindo o conhecimento de uma expressiva parcela das crianças paulistas, aviltando, inclusive, a formação do professor. 

Se, como disse o poeta Décio Pignatari, “na geleia geral brasileira (e paulista), alguém tem de fazer o papel de medula e de osso”, a ANPUH, mais uma vez não se furta a esse papel e, assim como nas décadas de 1970 e 1980 em que se insurgiu contra a implementação de Estudos Sociais, agora se posiciona contra as propostas curriculares que desqualificam e extirpam História, Geografia e Ciências da formação das crianças paulistas. Sabemos que essas práticas que retiram a História e promovem a amnésia social, promovem também o apagamento e o silenciamento do passado ao deliberadamente ignorar o debate acumulado sobre a História escolar das últimas décadas, bem como as pesquisas nesse campo, instituindo um ensino excludente que priva a parte mais sensível da população, as crianças em formação, do conhecimento histórico. 



GT de Ensino de História e Educação da ANPUH-SP 
GT de Ensino de História e Educação da ANPUH-Brasil

Pier Paolo Pasolini, Noite romana; BH, 0260302013.


Onde vais pelas ruas de Roma,
Nos tróleis ou no elétricos em que as pessoas
Voltam para casa? 
Apressado, obcecado, como se 
Te aguardasse o trabalho paciente
De onde a esta hora os outros regressam.
É logo a seguir ao jantar, quando o vento
Cheira a quentes misérias familiares
Perdidas nas mil e uma cozinhas, nas
Longas ruas iluminadas,
Sobre as quais mais claras espiam as estrelas.
No bairro burguês, reina a paz
Que a todos satisfaz em suas casas,
Não sem alguma cobardia, e que todos gostariam
Que lhes enchesse cada noite da existência.
Ah, ser diferente – num mundo porém
Culpado – significa que não se é inocente…
Vá, desce pelas curvas escuras
Da avenida que conduz ao Trastevere:
Verás que, imóvel e devastada, como
Arrancada a uma lama de outras eras
- Para satisfazer quem pode roubar
Mais um dia à morte e à dor -
Tens a teus pés toda a cidade…
Desço, atravesso a Ponte Garibaldi,
Rente ao parapeito, passando os nós dos dedos
Pelo rebordo de pedra esboroada,
Dura no ar morno que a noite
Ternamente exala, sobre a copa
Quente dos plátanos. 
Na outra margem,
Como lajes em fila descorada,
As mansardas, plúmbeas, rasas, do amarelado casario
Enchem o céu deslavado. 
Caminhando pelo lajedo
Deslabrado, de osso, contemplo, ou melhor,
Cheiro o grande bairro familiar,
Prosaico e ébrio – salpicado de estrelas
Envelhecidas e janelas sonoras -:
O Verão escuro e úmido doura-o,
Por entre as baforadas sujas
Que o vento vindo dos campos
Do Lácio espalha com a chuva
Sobre carris e fachadas.
E como cheira, no calor tão denso
Que é também espaço,
paredão, aqui em baixo:
Desde a ponte Sublicio até o Gianicolo
fedor mistura-se à embriaguez
Da vida que não é vida.
Sinais impuros de que por aqui passaram
Velhos bêbados de Ponte, antigas
Prostitutas, bandos de malandrins
Despudorados: rastos humanos,
Impuros que, humanamente infectos,
Vêm falar-nos, violentos e pacíficos,
Desses homens, dos seus baixos prazeres
Inocentes, dos seus míseros desígnios.


Vinicius de Moraes, Retrato de Maria Lúcia;
Publicado: BH, 0130402013.


Tu vens de longe; a pedra 
Suavizou seu tempo 
Para entalhar-te o rosto 
Ensimesmado e lento
Teu rosto como um templo 
Voltado para o oriente 
Remoto como o nunca 
Eterno como o sempre
E que subitamente 
Se aclara e movimenta 
Como se a chuva e o vento
Cedessem seu momento 
À pura claridade 
Do sol do amor intenso!

domingo, 24 de março de 2013

Minha alma é uma ensambladura de alma; BH, 030040702003.

Minha alma é uma ensambladura de alma
E não é alma e meu espírito é uma
Ensamblagem de espírito, não é espírito;
E tenho ensamblamento de ser, não tenho
Ser, pois não soube ensamblar em mim, um
Ente assim, de entidade elevada, perfeita
E com total coordenação de ideias;
Não soube embutir meu pensamento
Com um padrão de nível de qualidade;
Não servi para entalhar bem a minha
Imagem de homem bom, que sabe
Emalhetar compaixão e marchetar em
Torno de si a verdade; tenho medo de
Ensandecer-me antes do tempo e tudo em torno
De mim, só quer me tornar sandeu;
A televisão me deixa demente, a mídia
É de me enlouquecer e não existe
Nada que possa fazer para me
Impedir de me dementar de uma  vez
Por todas; se ainda obtivesse a condição
De emanchar a minha mente, alargar meu
Ideal, aproveitar as ensanchas e assim
Ampliar tudo dentro de mim, o sofrimento
Seria menos e o meu choro não seria tão
Ensanguentado, tão coberto e manchado
De sangue, que chega a enroxar o semblante;
E a enruçar os cabelos, devido o meu modo
De entudescer-me comigo mesmo; e
Tão ignorante, que chego a embrutecer o
Mundo, a asselvajar o universo e a tornar
Bruto e rude, o chão onde piso; gostaria
De parar também de enrufar-me com as
Pessoas e não pretendo mais arrufar-me com
A natureza e nem zangar-me com os
Meus semelhantes; minha mãe está lá,
Quase a chegar ao fim da jornada
Dela e não quero ir vê-la, porém,
Preciso ir lá; mesmo com o padecimento,
É minha mãe e tenho obrigação de
Prestar solidariedade; sei que não estou
Enroupado de bons princípios, não ando
Vestido de razão e nem agasalhado de
Virtude; não sou o que está bem servido
De roupas, o que está roupido, pois estou
Nu e enroscado, agarrado nos meus
Delitos graves; deixei-me envolver nos
Conflitos e fiquei preso nos complexos
Por meio da rosca do medo e da
Covardia que acompanham-me sempre;
Caí desde que nasci no enroladouro e
Fiquei como o caroço, ou como aquilo
Em que se enrola o fio para formar o
Novelo; e então afoguei-me no enroladoiro,
Pior do que a enrediça, a planta que
Tem os ramos muito emaranhados e de
Onde nãos e aproveita nenhuma meada,
Tal qual deste enrediço, facilmente de
Emaranhamento e dificilmente esclarecedor;
E aqui termino sempre perdido,
Nesta falta de lucidez de espírito,
A procurar sempre o que nunca
Irei encontrar; despeço-me com este
Vago deste vão de vácuo de deserto
Mental, onde nem curandeiro dá mais
Jeito, o benzedor desistiu de benzer, pois
Também viu em mim, um ensalmador
Charlatão e mandingueiro sem enteléquia; e
Pobre na essência da alma e muito distante de
Aristóteles; porém, teimoso, que vai fundo
No veio enredoso, a derrubar o confuso, a decifrar
O complicado e a lutar para retoucar e
Revolver os meandros e os labirintos cerebrais,
Com esperança de enredoucar a estupidez
Do enregelado, do hirto grotesco de coração álgido.


O escritor é um eno e é um vinho que quanto mais velho melhor;
BH, 04040230280602003;
Publicado: BH, 0240302013.


O escritor é um eno e é um vinho que quanto mais velho melhor
E que indica a proveniência,  naturalidade e não a enofobia 
Que causa a aversão, ou o horror; o escritor também traz a
Enofilia, a inclinação ao vinho e a maioria
É de enófilo, beberrão, amigo e comerciante de vinhos;
E assim, sem ser enófobo, está mais para um
Enóforo, casado com uma enófora, tal ao vaso
Para vinho entre os romanos, trazido pelo
Escanção, criado que servia o vinho; e que até
Chega a curar a enoftalmia, a retração anormal
Do olho dentro da órbita; e é no enoitar, no
Chegar do anoitecer, no encanto do enoutar,
Que o poeta sai em busca do enol considerado
Como excipiente medicinal à cura da alma;
O que não se consegue com a forma alcoólica,
Derivada de um aldeído, ou acetona, só
Ao servir o enólico espiritual, a substância
Do corante tinto da enolina e demais
Poder tirado do enológico a gerar a enomancia,
Arte de adivinhar pela cor do vinho
E a aumentar a enomania, a paixão e doença
Resultantes do abuso do enomaníaco, o
Louco beberrão, e enólatra; no nosso caso
E só nos resta o enomel, o xarope que tem
Por base o vinho e em que o açúcar é
Substituído por mel; os euroméis são são os que
Realmente nos interessa nesta ensinança,
Neste ensinamento ensilado, armazenado igual
Cereal em silos; a pena ensiforme, que tem
A forma de espada, é que fere o papel, com
Seu furor ensífero, a deixar para a
Eternidade, este que não se usa mais;
Depois do vendaval de ilusão, continua
Ainda  enradicado em mim a impressão de
Que o bem radicado, o amor arraigado, ou
O perfil de bom implantado, não serão
Suficientes  para suavizarem o meu lado
Enraivado; o meu pedaço que está com raiva,
O teor irritado e enraivecido, quase colérico,
Irado às vezes, sem motivo e encolerizado
Por qualquer descuido alheio; não existe
Enramada, cobertura de ramos de árvores, ou
Sombra ramada, que refresque meu tormento;
Um tronco enramado, um vasto arvoredo que
Tem ramos, formado para enramalhar, ou para
Enramalhetar, ornar e adornar, enramilhetar
Com ramalhetes, reunir todo o verde e não
Deixar enrançar, criar ranço, ou estragar com o
Lodo; os os pântanos vêm enranchar com
As almas e bandear-se com os espíritos e inda
Agrupar-se com as entidades; a cada palavra
Que pena, sinto enrarecer em mim a cultura,
Sinto tornar raro o explicitar da ideia
E ralo o pensamento e cada vez mais
Rarejar as soluções para a enrascadela em
Que se encontra a humanidade, que
Vive sem as resoluções para a enrascadura
Em que se enfia a cada dia; cada
Homem tem o seu enrascar, cada ser passa
Por sua entalação, cada um carrega a sua
Complicação e se afunda na barafunda
Da enrascada e a ajuda que aparece
É só de gente intrigante; e de pessoa
Mexeriqueira, enredadeira e trepadeira
De costas alheias e semelhantes; um
Dia gostaria de ver a intriga acabar e
Enredo ruim, essa enredadela perversa que
Sofre a raça humana; não dou prazo
Ao intrigante e nem ouvido ao mexeriqueiro e
Desprezo o mal enredador, acabo com o
Enredamento e evito o entrelaçamento da
Intriga com mexerico; enredeiro comigo
Só o que cria cultura, poema e poesia.


Meu pensamento é enfatuado e penso ser; BH, 06070202003.

Meu pensamento é enfatuado e penso ser
Presumido, vaidoso e arrogante e devo ter nascido
De um enfatuamento entre meu pai e minha
Mãe, ou da enfatuação de um clone; mas, não
Sei bem o que me tornou tão enfeado assim, que
Qualquer motivo vil e vulgar serve para enfebrecer
Meu ser, passar meu corpo a estado febril
E criar febre na minha alma; mas, não
Nasci em dia de carnaval e por isso
Não sou enfeitado, não ando ornado
De enfeites, nem adornado, ou ataviado e
Muito menos alindado; pois não faço barba
E nem corto, ou penteio os cabelos, odeio
Escovar os dentes e tomar banho; e não
Gosto de roupas novas e detesto sapatos
Novos e literalmente penso que sou
Um homem das cavernas; uma peça
Mal costurada, que serve para formar
Seio e fole, produzir folipo, enfolipar
Ao revestir com flanela, ao enflanelar
O coração; e enfivelar o organismo,
Pôr fivelas nas entranhas, guarnecer
Com fivelas a medula; e costuro neste
Enfivelamento, todo o composto do conjunto
Que me forma e neste ponto não sou
Enfitêutico, não sou de enfiteuticar-me e
Nem de aforar nada dos meus elementos; e
Passo longe de ceder qualquer coisa,
Para não enfistular o sangue, ou
Tornar o tecido fistuloso, ou criar
Fistula na carne; ou ulcerar-se
Qualquer órgão, qualquer órgão
Enfisematoso, qualquer ponto enfisemático,
Que atrapalha o enfiador, o aparelho, ou o
Instrumento que enfia, que faz passar um fio através
De uma agulha, entre uma carne e um
Nervo; é esta enfiação que torna o artigo
Sem o enfiamento, sem a importância
De colocar objetos num fio, a causar total
Enfezamento e não a mesma alegria
De um artilheiro ao fazer um gol, numa
Partida decisiva de futebol; e o artigo
Bruto assim, causa raquitismo, atrofiamento
Mental, aborrecimento e irritação; e nunca
O escrito enfezado, raquítico, pequeno,
Acanhado, aborrecido, irritado, terá no
Seio popular o lugar de um gol; e não
Pretendo enfeudar nada, criar um partido
Dos artigos, entregar-me à uma pessoa,
Como um articulista profissional; e
Avassalar alguém para depender dele,
Para sobreviver, submeter a todos e constituir
Um feudo, para que os artigos também
Sejam comemorados com a mesma,
Intensidade de um gol; nada mesmo
De enfeudação e nem de enfestoar, nada
De enfermeira para quem não está doente;
Quero uma mulher, mas não uma que cuida
De enfermos e não morrerei numa enfermaria;
E morrerei antes de enfermar, numa casa, ou
Numa sala; e se adoentar-me, ou adoecer-me,
Deixai-me sem enfermagem; sem funções e
Sem serviços próprios, sem tratamento;
Podeis enfeltrar o féretro e a tumba; podeis
Envolver em feltro o ataúde e o esquife e no
Lugar do meu nome escreveis assim: caixão
Do defunto; depois é só enfeixar com fereza,
Atar enfeixe com crueldade, juntar com
Ferocidade, reunir os restos mortais no enfeixamento
Final, e enfeitar para enganar os cegos; e usar
Enfeites e atavios, adornar, esconder a tristeza
Que um dia fui em vida.


Triste é entenebrecer o destino;
BH, 040200702003;
Publicado: BH, 0240302013.


Triste é entenebrecer o destino
E cobrir de trevas o futuro, ao enublar os
Dias; triste é ver escurecer a tarde e
0bscurecer a lucidez de espírito e a
Enteléquia encher-se de sombras; e o
Depósito de essência da alma tornar-se
Escuro; se fosse aqui enrenquear o que
É triste, a madrugada seria pequena;
Se fosse aqui dispor em fileira toda a
Minha tristeza, a vida que levo seria
Mais curta ainda, menor do que um
Renque; não tenho qualidades para
Enfileirar e nem elogios para alinhar;
Sou um pigmeu, ameaçado de extinção,
Pois muitas tribos antropófagas acreditam,
Que a minha carne é sagrada e
Os canibais pensam que a minha
Carne é santa, possui poderes, inclusive
Afrodisíacos e querem devorar-me; fujo,
Embrenho-me no mato, vivo escondido em
Buracos e sou caçado, mais perseguido do
Que animal selvagem; e é só assim neste
Lamento, que tento chamar a atenção do
Mundo, para o meu tormento e o sofrimento
Dos meus conterrâneos, os meninos africanos,
As crianças que eles matam, que não têm
Infância e são obrigadas à uma guerra de
Onde jamais sairão com vida; ou não terão
Um sonho para encestar, ou uma ideia para
Meterem em seira, ou um ideal a enseirar,
Ou outro enseiramento qualquer, como
Aquele que enseira figos passados e a morte
É a única herança, de todo esse meu irmão
Enseirador; é triste essa quebrada africana, é
Longa a sinuosidade da estupidez
Humana e qualquer enseio serve para,
Vagar nessa pequena abertura entre esses
Dois montes, onde Noé deixou ensecar a arca,
Ou qualquer outro pode por em seco a
Própria embarcação, e varar o universo,
Em busca de uma solução, sem limitação,
Sem secar o sangue da veia, ou esgotar
A vontade no pensamento, mesmo que
O espírito venha exaurir-se do corpo;
A alma não pode fugir do tapume
Em volta das construções mentais, tais
As feitas debaixo d'água, como se fosse
Para o entre trabalhar em seco e então,
Tomar a resolução de uma ensacadeira;
O ser humano precisa deixar de ser sujo,
O representante da raça humana, não
Deve mais ser gorduroso, nem untado e
Nem coberto de sebo; tudo que possa o fazer
Sentir ensebado, deve ser evitado;
Desde o processo forense, o araraquarense,
O cearense, o brasiliense, o fluminense,
Pertencem a qualquer designativo de
Origem, ou naturalidade; o melhor
É engrazar claridade, enfiar qualidade
Na vida e ensartar suavidade; assim
A tornar-se um engrazador de luz, um
Incrustador de todo tipo de fonte luminosa;
Tal um real ensartador solar e sescar
O semblante sarmento, ao queimar da face
O ensarnecer e o rosto invadido e coberto de 
Sapé para ensanguinhar de coragem
O ensapezado; tornar rubro de vergonha
O mentiroso e pintar de vermelho o falso,
Para que seja facilmente identificado;
Aquele ali é um poeta pequeno, um
Escritor medíocre e é necessário ensanefar
Bem a imagem dele, é ornar  com
Sanefas, para que ele não passe tão
Despercebido e seja logo reconhecido,
Como ensamblador barato; marceneiro
Sem prova, entalhador sem ensaio.