terça-feira, 29 de outubro de 2019

Os mortos, RJ, 1977.

Nunca desesperar por causa duma derrota
Nunca chorar por causa duma morte
Depois da tempestade tudo volta ao normal
E reina a calma em nossos corações
Nunca desistir antes de arriscar
Nunca entregar os pontos antes de tentar
E nunca correr antes de lutar
Enfrentar tudo de peito aberto
Com fome e com sede
Morto ou vivo
Quem cala dizem que vence
Mas vence também quem age calado
Calar só não adianta nada
Ser persistente
Ser chato 
E ser inteligente
Nunca desesperar
Nunca desistir
Nunca perder a calma
E nunca acovardar
Tudo é possível até o impossível
Tudo se constrói
E nada hoje em dia é novidade
E nada hoje em dia é surpresa 
Nem mesmo a morte
A única coisa certe
Mas que sempre chega
Em hora errada
Mas quando se morre
Também se acaba
E acabou sonho
Acabou pesadelo
Acabou vida
Acabou morto
Acabou morte
Para que chorar então?
Chorar pelos vivos que estão mortos
Que estão perdidos
Os mortos já encontraram
O caminho certo.

sábado, 26 de outubro de 2019

Menina me nina, RJ, 1977, Publicado: BH, 02601002019.

Menina me nina
Me nina menina
Me ponha no colo
Me coça a cabeça
Me caça piolhos
Que quero sonhar

Menina me nina
Me nina menina
Me ponha na cama
Se deita ao meu lado
Me toca o corpo
Que quero te amar

Me nina menina
Menina me nina
E na madrugada
Alegre de amor
Com tu em meus braços
A sentir o teu calor

Me nina menina
Menina me nina
Que quero dormir
Depois de te mar
Me beija a boca
Que quero te beijar

Menina me nina
Me nina menina
E quando acabar
Me faça um café
E dum dia para o outro
Viraste mulher

Menina me nina
Me nena menina
E se me deixar
Vais ter que voltar
Por que vou chorar
E só tu podes me acalentar

Me nina menina
Menina me nina
Menina me nina
Me nina menina
Menina menina
Me nina me nina.

E bateste a porta na minha cara, RJ, 1977, Publicado, BH, 02601002019..

E bateste a porta na minha cara
E corri para a janela 
E bateste a janela na minha cara
Então entendi que já era tarde
E que até que enfim entendeste
Que realmente não sou de nada
E que nem estou à altura
De receber como mulher
Alguém com a tua dimensão
Mas fui eu mesmo que procurei
Distanciar-me de ti
Fui eu mesmo que procurei
Fugir de ti
E esconder-me de ti
É que não garanto-me
E poderia prejudicar a tua vida
E faça isso mesmo
E bata em minha cara todas as portas
E faça isso mesmo
Bata em minha cara todas as janelas
Fecha tudo para mim
E não me queiras mais
E nem me olhes mais
Sou um frustrado
Sou um egoísta
Sou um esgotado
E só posso agora é pedir desculpas
Por que se pedir perdão
Estarei a pedir muita coisa
E bateste a porta na minha cara
E vou dar meia volta 
E vou embora
Não vou bater na porta 
Não vou bater na janela
Por que elas não se abrirão.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Tu e eu, RJ, 1977.

Tu és a minha mulher
E sou o teu homem
Tu és o meu amor
E sou o teu amor
Tu és a minha vida
E sou a tua vida
Tu és a minh'alma
E sou a tua alma
Tu és o meu espírito
E sou o teu espírito
Tu és a minha paz
E sou a tua paz
Tu és o meu pensamento
E sou o teu pensamento
Tu és o meu sustento
E sou o teu sustento
Tu és a minha menina
E sou o teu menino
Tu és a minha garota 
E sou o teu garoto
Tu és a minha moça
E sou o teu moço
Tu és a minha rapariga 
E sou o teu rapaz
Tu és o meu sexo
E sou o teu sexo
Tu és o meu prazer
E sou o teu prazer
Tu és o meu orgasmo
E sou o teu orgasmo
Tu és o meu carinho
E sou o teu carinho
Tu és os meus beijos
E sou os teus beijos
Tu és a minha mulher
E sou o teu homem
Tu és o meu homem
E sou a tua mulher
Tu és eu
E sou tu
Nós somos um só ser.

Não vou esperar para levantares, RJ, 1977.

Não vou esperar para levantares
E coares o café se for esperar
A tua preguiça ir embora
Não chego ao trabalho na hora certa
Ficas a assistir a porcaria da televisão
Até de madrugada
E na hora de levantares
Não consegues nem abrir os olhos
E se vou chamar 
Para coar o café
Ainda tem a coragem de me pedir
Para não encher o saco
E não vou esperar
Toda vez que espero
Não chego em tempo
Podes ficar a dormir
Podes ficar a mofar
Não venho para o almoço
Por que já sei
Que vai ser igual
Aquele de ontem
Parece até almoço de presidiário
Parece até que moro numa prisão
Ou num campo de concentração
Não vou esperar mais
Por nenhum favor teu
Nem por teu amor 
E nem por teu café.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Deixa rodar, RJ, 1977.

Deixa rodar
Deixa a roda
Deixa amar
Deixa o amor
Não faz mal
E nem mata
E tudo roda no mundo
E tudo gira no mundo
E tudo ama no mundo
E tudo deixa
Cada um em seu lugar
E não move uma pedra
E não move um dedo
E não move uma molécula
E nada move
E tudo inerte roda
E tudo inerte gira
Em torno da roda
Em torno do amor
O amor é o eixo
O amor é a coluna
E o centro da máquina
Preste a entrar em evolução
E fugir por um vulcão
Para dar um banho de lava
Em cada coração
De cada ser humano
De cada roda
De cada amor
Então deixa
Deixa se queimar
Deixa se consumir
Vai se renovar
Vai reviver
Uma nova vida
Um novo ser
Vai surgir do fogo
Para limpar a cara
E purificar a alma
Deixa rodar
Procura entender
Deixa o mundo desabar
Em cima do teu ser.

Sub, RJ, 1977.

E sou um subempregado
E tenho um subemprego
E ganho um subsalário
E sou um sub-assalariado
E sou um subnutrido
E um subdesenvolvido
E sou um sub-homem
E um sub-ser
Duma sub-raça
E tenho uma subcultura
E sei uma sub-leitura
E tenho uma sub-noção
Uma sub-razão
E uma sub-opinião
E sou um sub-operário
Sou uma sub vida
E sou um sub vivente
E sou um sub sobrevivente
Tenho uma sub mente
Um sub pensamento
E um sub espírito
E sou uma sub vítima
Uma sub alma
Um sub cadáver
E um sub defunto
Que uma sub sepultura
Duma sub estrutura
Não aceitou 
E fui banido
Do centro e do núcleo
Do sul e do norte
E fui banido
Da vida e da morte. 


terça-feira, 22 de outubro de 2019

O homem deve pagar por tudo aquilo que falar, RJ, 1977.

O homem deve pagar por tudo aquilo que falar
De outro homem ou de qualquer outro assunto
O homem deve pagar por tudo aquilo que falar
Principalmente se falar pelas costas
O homem deve pagar e pagar caro
Talvez até com a própria vida
Pelo que falou e pelo que falar
Peixe morre é pela boca
Quem fala demais dá bom-dia a cavalo
Em boca fechada não entra mosquito
E aquela velha pergunta 
Caveira quem te matou?
E aquela velha resposta
Foi a língua meu senhor
Portanto o homem deve pagar
Por tudo que falar
Se não pagar cedo
Vai pagar mais tarde
Se não pagar aqui 
Vai pagar no além
Mas o homem deve pagar
Pela sua língua grande.  

E vinha a andar pela rua da cidade, RJ, 1977.

E vinha a andar pela rua da cidade
Quando passou por ele uma linda mulher
Passou e sorriu para ele
Ele sorriu e foi atrás dela
E quando conseguiu abordá-la
Que grande decepção
Não era mulher nada
Não era mulher não
Era um homem vestido de mulher
E quase caiu para atrás de vergonha do mico
Era um tremendo dum pederasta
E imagina um homem travestido de mulher
E ele a falou que era mulher
E ainda falou que ela era linda
E pensou que mundo é este que estamos
Os homens viram mulheres
E as mulheres viram homens
E ele só acreditava nessas coisas
Quando era bem criança
E o pessoal do tempo dele dizia
Que se a gente fosse ao arco-íris
A gente passava por uma transformação
Quem fosse homem logo virava mulher
E quem fosse mulher logo virava homem
Porém agora estava a ver claramente
Que não é preciso ir ao arco-íris
Para poder mudar de sexo
Para a gente poder ser
O que a gente realmente quer ser
E dizia que nasceu homem
E que quer ser homem
E que tem que se honrar
E se garantir até a morte
E que outro homem na vida dele
Só mesmo o próprio pai
E que não sabia o que se passava
Pela cabeça desses homens de hoje
E pensava que futuramente
Só vai existir pelo mundo
Homossexuais e lésbicas
E dava graças a Deus de que
Quando esse tempo chegar
Com certeza ele estará morto
E que não veria tanta vergonha
Tanta falta de orgulho
E de amor próprio e 
Inchava o peito estufado 
E tanta falta também que faz uma porradas
No lombo de gente sem vergonha
E a estourar tal uma rã
Porrada também ajuda a consertar linha torta
E fui criado à base de muito cacete
E levei porrada uma grande parte de minha vida
E não fui criado como mulher
E nem fui criado com frescura
Por isso até hoje sou homem
Garanto-me muito bem
E não envergonho-me de ser homem.

domingo, 20 de outubro de 2019

Cachaceira, RJ, 1977.

Alguém chegou e bateu à porta do quarto do barraco
Senti logo quem era pelos passos cambaleantes
E pelos esbarrões nos móveis e arrastões dos pés
Senti logo como estavas mais bêbada do que nunca
E é uma pouca vergonha
Mulher casada e do lar
Mãe de família e de filhos
Andar assim embriagada pelas ruas
E pela noite igual à uma vagabunda
Tu tens marido e tens casa e tens lar
Não sei por que tens que andar por aí
De boteco em boteco a beber a valer
Igual à uma prostituta a encher a cara
E só a beber e a chegar à casa 
Tarde da noite e toda suja e fedorenta
E teve uma noite aí que chegaste toda urinada
E pensei até que vieste dum curral
Vê se tu te acertas
Cachaça não é meio de vida não
Cachaça não enche a barriga
Cachaça só enche a cara
E já te avisei para mais de uma vez
Vai tomar uma banho e tomar um café forte
Vê se tiras também esse bafo de onça
Pois não vou beijar uma boca com esse cheiro de bueiro
Escova pelo menos os dentes da frente
E na próxima vez
Que chegares em casa 
De porre desse jeito
Nunca mais vou fazer amor contigo
Toma jeito e vê se para de beber.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

A semente da vida, RJ, 1977.

E sou um esperma de masturbação
E um esperma de masturbação
Lançado em terra seca
Em plena luz do sol do meio dia
E com o termômetro a marcar
40º à sombra
E sou um assassino assassinado
O calor me secou antes do tempo
E mal toquei a terra
Já estava morto
E sou u morto masturbado
Em lugar dum óvulo
Encontrei tera e areia
Sal e calcinação
E não posso sobreviver sem um óvulo
Não posso fecundar sem o óvulo
Tem que ter um óvulo
Ainda mais que sou 
A semente da vida
Ou será que sou
A semente da morte?
Lanço aqui o meu protesto
Quero mais respeito comigo
É de mim e do óvulo
Que se nasce muita gente importante
Muitos ministros corruptos
Muitos generais ditadores famosos
E muitos presidentes déspotas
É de mim e do óvulo
Que nasceu muita gente boa
Diz aí uma pessoa
Que não foi formada
De um óvulo e um esperma?
E não existe essa pessoa e
Desde de milhares de anos antes de Cristo
Que eu já existia
Mas se me lembro
Nunca fui tratado como atualmente
E nunca fui combatido como hoje
E usam todos os tipos de armas
Para me exterminarem
E usam todos os tipos de cirurgias
Para impedirem o prosseguimento
De minha fecundação à vida
São todos contra um
E sou o fruto do amor
E sou a herança de Deus
E vou mandar um pequeno lembrete
A médicos e químicos
Aos cientistas e demais pessoas
Que procuram a todo custo
Que andam a inventar à toda hora
Fórmulas e remédios e modos e jeitos
De acabarem comigo
Pois lembreis
Que também fostes feitos de mim
Em cada um de vós
Existe uma parte de mim
E se vossas mães
Não tivessem óvulos
E se vossos pais
Não tivessem uns espermas
Vós hoje não existiríeis 
E não estaríeis aí a inventar drogas
A inventar outros meios
De acabar com a semente da vida
Não vos esqueceis disso.

Vômito espiritual, RJ, 1977.

Vomitei um sangue roxo coagulado
Bem no meio do espaço
E o meu avesso cheio de pus
Levou-me ao desespero
Cuspi catarro ensaguentado na calçada
Mais parecia uma morte
E meu peito cheio de vácuo
Pairou na imensidão
Minha cabeça cheia de excrescências
Caí na podridão
E veio uma saliva grossa 
No céu de minha boca
Minha língua cascuda e áspera
Mais parecia asfaltada
Não falava
Não sentia
Machucava o gustativo
Matava as papilas
Minha boca frágil e sangrenta
De sangue salgado e quente
Que nem o vampiro Drácula
Ia querer provar
Estava mais para placenta
Dum embrião morto
Retirado torto
Dum útero podre
Cujo feto expelido
Era uma carne crua mal mastigada
Que ficou engasgada
Numa garganta qualquer
E depois foi arrancada
Com muito custo
A trazer com ela
Detritos dum estômago
Cheio de úlcera e câncer
E vomitei isso tudo
Na boca escura da noite
Arregalei os olhos para a lua
Lua escura e sem luz
E um lobisomem me viu
E fugiu de mim
Um morcego passou ao longe
E não se atreveu nem a voar 
Sobre minha cabeça e
Vaguei noite a dentro e
Vaguei noite à fora
Nem planetas
Nem satélites
Nem astros 
Nem discos voadores
Nem nada me queria
Nada queria me levar
Só uma gosma mal cheirosa
Sem pensamento
Sem espírito
Ao sabor da brisa noturna
Se deixava embalar
Sem alam
Sem corpo
E sem forma.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Gato, RJ, 1977.

Gato
E sou um gato
Mas não sou
Um gato preto
E nem tenho
Sete vidas
Sou um gato daqueles
Que comem ratos
Sou um gato daqueles
Que vivem
Pelos depósitos de lixos
A caçar algo
Para comerem
E sou um gato assombrado
Um gato louco
Um gato qualquer
Que vive em cima
Dum telhado velho.

Uma menininha, RJ, 1977.

Uma menininha
Sentada num banco
Dum jardim
Em seu pé
Uma só sandalhinha
A outra
Com certeza perdeu
A menininha também
Deve estar perdida
Seu semblante é triste
Se apresenta abatida
Todo mundo passa
E ninguém observa
Que só calça
Uma única sandalhinha
Onde está a outra?
Deve estar perdida
Que igual nós
Também estamos
Nós nos perdemos
E não nos entristecemos
Iguais aquela menininha
Que deve estar perdida
E perdeu também
A sua sandalhinha
Uma menininha
Sentada num banco
Dum jardim?
Não era jardim
Mas está toda sujinha
E está triste
Por que está suja
E nós não nos entristecemos
Por estarmos sujos
E estamos mais sujos
Do que aquela menininha
Nós somos sujos e perdidos
E outros bichos mais 
E nos disfarçamos
E tentamos nos esconder
Daquilo que realmente somos
Uma menininha
Que em seu pé
Tem uma só sandalhinha
E seu olhar é azul
E o seu rostinho é triste
E está sozinha
E demônios e capetas
Com tridentes e dentões e chifrões
Passamos e nem a olhamos
Temos medo de olhar
E se olharmos não veremos
O quanto somos feios
A menininha é um anjo.

João Pelé, RJ, 1977.

João Pelé
Era meu amigo
Eu era menino
E não entendia
João Pelé
João Pelé
Um pobre coitado
Era a desgraça 
Em forma de gente
E eu era menino
E não sabia
O João Pelé
E um belo dia
João Pelé adoeceu
Estava a apodrecer
Ainda vivo
Seu corpo sujo
Cheirava mal
Nem eu seu amigo
Cheguei perto dele
Senti medo
Senti nojo
Meu estomago embrulhava
Quando eu chegava perto
E eu era menino
E não entendia
O João Pelé
Então o meu pai
Mandou um homem
Colocá-lo num caminhão
E deixá-lo na porta
Dum hospital
Mas no outro dia
Despacharam de volta
O João Pelé
E a doença agravava
E o João Pelé morria
E eu era menino
Um ignorante menino
E não entendia
O João Pelé
E não entendia
A doença de João Pelé
E um dia qualquer
Não me lembro bem
João  Pelé acabou por morrer
E eu era menino ainda
Não senti falta
Não chorei
O pobre João Pelé
E eu não te entendia
Era menino ainda
E teu corpo decomposto
Foi coberto
Por um lençol branco
Da cor do teu coração
Teu corpo foi velado
E tua morte foi iluminada
Por uma única vela
E quem doou foi uma meretriz.

Humanidade, RJ, 1977.

Existe sempre um pensamento
A vagar na humanidade
Há sempre um sentimento
Que para imaginar
É bem difícil
Por que ninguém imagina
Que na humanidade de hoje
Ainda exista um pensamento
Um pensamento de amor
Ninguém imagina
Que exista um sentimento
Um sentimento de dor
Mas existe
A luz da humanidade
Não se apagou
E quem quiser
Ainda pode ser feliz
Ainda pode ter paz
E quem quiser
Ainda pode ser
Ainda pode viver
Bem e em comunhão 
Com todo mundo
Existe sempre um sorriso
No mais feio rosto
Tem sempre uma lágrima
No mais seco e cego olhar
Por isso não é difícil 
De se conseguir
A vida aqui
Se fores duro
A vida é dura
Se fores grosso
A vida é grossa
Se forres difícil
A vida é difícil
Se fores estúpido
A vida é estúpida
Se fores ignorante
A vida é mais ignorante ainda
Quem faz a tua vida
És tu
Ninguém vai te mudar
Ou mudar o teu destino
Conforme fores para a vida
Ela vai ser sempre para ti
O que fores para ela
Se fores bom
A vida é boa.

Borracha Franca, RJ, 1977.

Borracha Franca
E conheci várias pessoas
Na Borracha Franca
Onde o meu pai
Tinha uma venda
E essas pessoas
Que conheci ali
Muitas marcaram 
Em minha vida
Era o João Pelé
O Leleu e o Lulu
E o irmão do Lulu
Que não tinha nome
E um baiano vulgo
Baiano Cachorro Cadela
Que só vivia arrudiado de vira-latas
E quase foi assassinado a facadas
Dentro da venda
Se não fosse o meu pai
E era o Júlio Mamão
E uma mulherzinha
Que tinha o apelido 
De Ele Merece
Era uma bebadazinha
Muito simpática
Que se tornava agressiva
Quando alguém mencionava 
Ele Merece
E eram a Maria Gaguinha
E a Maria Cachaça
O Lauro que morreu inchado
O João Boi Manso
O estranho Barbeiro
E o Bezim Alfaiate
Muita gente 
Ali da beira da linha
Onde passava a Maria Fumaça
Impressionou-me
E tinham ainda
O Neguin Friaça
E o Formiga
Que dizia sempre
Eu é home
E o Chico e a Laura
Prostituta que conheci
Em toda a minha infância
Com a mesma cara
E o Cearense Laranjeiro
Que me vendia fiado
E o Para-Bala
O mais feroz de todos
E Maria Pau-Rolou
E Maria Relógio
Que tinha numa perna
Uma grande pereba
E tinham ainda o Bota-Ovo
E o Papa-Mel
E muita gente tinha
E muitas pessoas
E todas me marcaram
Na Borracha Franca.

Este ano ainda, BJ, 1977.

Este ano ainda
Não beijei nenhuma boca
Este ano ainda
Não amei nenhuma mulher
E nem vi
Nenhum corpo nu
Este ano ainda
Não sei o que é mulher
Mulher agora
Só no ano 2000
Ou além do ano 2000
Este ano ainda
Não amei mulher alguma
É que estou a racionar
Ou é por que este ano
As coisas estão piores
Mas a verdade é 
Que sumiram as mulheres
De minha vida
Não senti mordidas na boca
Não senti arranhões no corpo
E não senti nada
E não senti amor
E nem senti paixão este ano
Meu coração apagou
Evacuei para a linha de fundo
Todas as mulheres
E quero agora só a paz
Só a paz comigo mesmo
Muita tranquilidade
E consciência tranquila
Graças a Deus
Este ano ainda
Não cometi o adultério
E nem cometi a prostituição
Deixei de ser um prostituto.