domingo, 31 de março de 2019

São Paulo me mete medo; BH, 0250102011; Publicado: BH, 050202011.

São Paulo me mete medo
Mas não quero morrer sem conhecer
Um dia levarei meu coração
Para auscultar o coração dessa cidade
O coração dela não para o meu
Pode parar um dia São Paulo não
Tem ideia da sede que sinto
Quero bebê-la toda engoli-la com
A minha gula para matar minha
Fome de devorá-la São Paulo também
Faz aniversário com sua eterna garoa
Seus negros seus brancos seus pobres
Seus ricos seus passos de samba seus
Pas de deux seus homens suas mulheres
Enfim seu povo trabalhador nordestino
Que construiu carregou nas costas atlas
Ah São Paulo terra brasileira já bem
Cantada por poetas trovadores
Intelectuais inesquecíveis escritores
São Paulo me mete medo o paulista
Apressado comporta-se como se
Não ligasse para as coisas mas é
Puro folclore o paulistano é humano
Atual moderno do futuro pensa grande
Como a cidade que o acolhe
Apesar de todo medo de estar sempre
Surpreso levo os meus parabéns a São Paulo
Aos seus prédios museus edifícios
Favelas capões subúrbios trens metrôs
Carros ônibus parques jardins rios
Viadutos fábricas escritórios a todo
Universo que compõe esse universo
Que é São Paulo ou São Paulo me mete
Medo mas insisto não desisto
Vejo com ufanismo de brasileiro
Minha São Paulo da garoa meu
São Paulo nosso eterno celeiro

É preciso incitar o povo; BH, 0240102011; Publicado: BH, 060202011.

É preciso incitar o povo
Contra o poder se o poder lançar
A polícia contra o povo para não
Apanhar por reclamar seus direitos
O povo também tem que se armar
Tem que se preparar usar de
Estratégias contra as forças
Organizadas do poder do estado
Para reprimir prender agredir
Ao povo as autoridades constituídas são
Eficientes para apresentar serviços
Públicos básicos são deficientes o
Povo tem que aceitar pacificamente
A ineficiência do poder público
Que não é público nem funciona
Se o povo usa os meios legais para
Respostas dos seus anseios não obtém
Sucesso se apela para um protesto
Uma maneira de arregimentar mais
Adeptos para a reclamação logo
Vem a polícia armada para a guerra
Agride detona o povo com um só
Detalhe a polícia é paga sustentada
Pelos impostos pagos pelo povo sou
Favorável a um incitamento à violência
Como forma de defesa de reação
Se vai para apanhar então vá preparado
Barras de ferro porretes correntes armas
Coquetéis molotoves armas artesanais
Bombas caseiras armadilhas estratégias
Ciladas é usar de tudo contra a força do
Poder do estado que é bem armada
Bem preparada confronto é confronto
Guerra é guerra não pode apanhar de graça

Meu caro amigo José; BH, 0260102011; Publicado: BH, 060202011.

Meu caro amigo José
Saudações cordiais
Lembras do livro "A Jangada de Pedra" de
José Saramago acabei de lê-lo
Penso que deverias fazer o mesmo
É um livro surrealista sensacional
Narra a separação da Península Ibérica
Do continente europeu as personagens
São interessantíssimas procuram
Desvendar o mistério da separação
Vagam pela Europa em grupo num
Automóvel onde uma personagem era
Acompanhada por passarinhos a outra
Era uma mulher que havia riscado no chão
Justamente no lugar em que começou-se
A rachadura José Saramago é um escritor
Português de grande cultura sensibilidade
Só o fato de ser o primeiro escritor
De língua portuguesa a ganhar o
Prêmio Nobel de Literatura fará
Com que aumentes o respeito por ele
A leitura desse livro doutros dele como
"A Caverna" te causará emoções inigualáveis
Tenho consciência que gostarás me agradecerás
Pela indicação grato cordialmente

Rubem Alves; BH, 0260102011; Publicado: BH, 070202011.

Nos textos de Rubem Alves nota-se a liberdade
A capacidade de voar que a literatura
Dar a quem descobre os seus mistérios
Tanto ao escritor quanto ao leitor
Nos textos observa-se é a vontade de voar
A imaginação ganha asas aguça-se a
Criatividade realmente viajamos por
Mares desconhecidos por céus nunca
Sondados por outro lado há uma antítese
Quando fala que às vezes o livro é
Algo depravado com tantas coisas boas
Interessantes que temos para observar na
Natureza com exemplares da fauna da
Flora que ler naquele momento torna-se
Algo secundário porém não chega a ser
Um descaso com os livros com as palavras
Com as letras Guimarães Rosa dizia que
Viver era muito perigoso Clarice Lispector
Dizia que escrever era muito perigoso
Penso que temos de nos cuidar com os dois
O viver o escrever a vida a literatura
Ambas são traiçoeiras

sábado, 30 de março de 2019

Álvaro de Campos/Fernando Pessoa, Clearly Non-Campos; BH, 060202011.

Não sei qual é o sentimento, ainda inexpressivo,
Que subitamente, como uma sufocação, me aflige
O coração que, de repente,
Entre o que vive, se esquece.
Não sei qual é o sentimento
Que me desvia do caminho,
Que me dá de repente
Um nojo daquilo que seguia,
Uma vontade de nunca chegar a casa,
Um desejo de indefinido.
Um desejo lúcido de indefinido.
Quatro vezes mudou a'stação falsa
No falso ano, no imutável curso
Do tempo consequente;
Ao verde segue o seco, e ao seco o verde,
E não sabe ninguém qual é o primeiro,


Nem o último, e acabam.

Mário Quintana, Sobre a coberta; BH, 060202011.

Sobre a coberta o lívido marfim
Dos meus dedos compridos, amarelos...
Fora, um realejo toca para mim
Valsas antigas, velhos ritornelos.

E esquecido que vou morrer enfim,
Eu me distraio a construir castelos...
Tão altos sempre... cada vez mais belos!...
Nem D. Quixote teve morte assim...

Mas que ouço? Quem será que está chorando?
Se soubésseis o quanto isto me enfada!
...E eu fico a olhar o céu pela janela...

Minh'alma louca há de sair cantando
Naquela nuvem que lá está parada
E mais parece um lindo barco a vela!...

Manuel Bandeira, Ruço; BH, 060202011.

Muda e sem trégua
Galopa a névoa, galopa a névoa.

Minha janela desmantelada
Dá para o vale do desalento.

Sombrio vale! Não vejo nada
Senão a névoa que toca o vento.

Lá vão os dias de minha infãncia
 - Imagens rotas que se desmancham:

O vento do largo na praia,
O meu vestidinho de saia:

Aquele corvo, o voo torvo,
O meu destino aquele corvo!

O que eu cuidava do mundo mau!
Os ladrões com cara de pau!

As histórias que faziam sonhar;
E os livros: Simplício olha para o ar,

João Felpudo, Viagem à roda do mundo
Numa casquinha de noz.

A nossa infância, ó minha irmã, tão longe de nós!

Nietzsche, A ponderação aliada à ignorância; BH, 060202011.

Por toda parte onde compreendemos, tornamo-nos
Gentis, felizes, inventivos e por toda a parte onde aprendemos
Suficientemente e onde educamos a vista e o ouvido, nosso
Espírito se mostra cheio de desembaraço e de graça.
Mas compreendemos tão poucas coisas e somos tão miseravelmente
Instruídos que raramente acontece que abracemos uma coisa e
Ao mesmo tempo nos tornemos dignos de amor: antes, rígidos
E insensíveis, atravessamos a cidade, a natureza e a história
E nos orgulhamos dessa atitude e dessa frieza, como se elas
Fossem o efeito da supeioridade.
Nossa ignorância e nossa medíocre sede de saber se dispõem
Muito bem para assumir a máscara da dignidade e do caráter.

Mário Quintana, O descobridor; BH, 050202011.

Ah, essa gente que me encomenda
Um poema
Com tema...

Como eu vou saber, pobre arqueólogo do futuro,
O que inquietamente procuro
Em minhas escavações no ar?

Nesse futuro,
Tão imperfeito,
Vão dar,
Desde o mais inocente nascituro,
Suntuosas princesas mortas há milênios,
Palavras desconhecidas mas com todas as letras
Misteriosamente acesas.
Palavras quotidianas
Enfim libertas de qualquer objeto.

E os objetos...

Os atônitos objetos que não sabem mais o que são
No terror delicioso
Da Trasnsfiguração!

Não tenho novidades nem sou novidadeiro; BH, 0210220102011; Publicado: BH, 070202011.

Não tenho novidades nem sou novidadeiro
Ouçam as notícias que trago as boas novas
Os espelhos tudo está quebrado o tempo
O relógio a hora não tenho o moderno não 
Sou moderno o que trago é algo 
Ultrapassado é o ontem que teimou hoje é
O amanhã com gosto de passado as 
Boas eras estragadas faziam estragos 
Nas estradas as águas já rolaram 
Levaram casas abriram valas fecharam 
Vales mudaram os arredores o que era 
Novo ficou velho o que era velho ficou 
Novo com a erosão do meu coração o 
Terreno mudou só o aluvião é novo na 
Terra velha no lodo velho na lama que 
Sujaram teus pés enterraram teus 
Sonhos mas novidades não tenho não 
Sei o nome de quem morreu nem sei
Quem desapareceu mas tudo mudou
Depois que a chuva passou a barreira
Ruiu a pedra deslizou do alto do morro
A água que desceu da montanha foi em 
Forma de cachoeira de catarata cascatas 
Que aos gorgulhões tiravam da terra 
Rugidos de dor cheiros de morte mortes 
Não são novidades não são boas eras
Boas novas modernas mortes são mais
Antigas do que o antigo mortes são um
Perigo um castigo um abrigo que nos
Encontraremos no final da chuva
Quando o sol da gruta não sair mais

Penso que resolvo não resolvo nada; BH, 0210102011; Publicado: BH, 070202011.

Penso que resolvo não resolvo nada
Engabelo embaço enrolo penso que penso
Não penso nada nem sequer falo
Perdi o vocabulário as palavras voaram
Os atos estacionaram na inércia
No inato sem fato espalho boatos
Querem-me a trabalhar como? que
Poderei gerar de trabalho? quê? cadê
A força motriz? querem-me fora da
Cruz livre dos cravos sem a coroa
De cardos na cabeça querem-me
Com cabeça? impossível nesta primavera
Sei deixa vir o verão o inverno
Outono outra primavera escravizar
Assim um pobre coração é necessária
Outra abolição este é o meu consolo
Saber que neste solo encontrarei
Uma espera uma boca aberta na
Esfera mas não esperem nada de mim
Não sois vermes vermes são
O que fazem festim em carnes mortas
Quê? deis de ombros fazeis como
Os pardais voeis para direções opostas
Uns aos outros fazeis restrições
Obstruís meus caminhos derrubais pontes
Explodis estradas sulcais minhas
Costas com as dores dos meus ancestrais
Lavrais-me camaradas o trabalho será
Árduo sou terra infértil terreno ignóbil
Sou nação de seres vis não deixamos
Restos migalhas vestígios nem
Imagens caídas dos céus

Almejei sem merecer um amor com anelo; BH, 0200102011; Publicado: BH, 070202011.

Almejei sem merecer um amor com anelo 
De prazer não fui capaz de retribuir o que
Ofereceu-me sagaz era já não
Mais rapaz não enfrento pois não sou
Tenaz frustro o que me faz
Não contento só com o meu pensamento
Então desfaço a arapuca solto a presa
Que caiu na armadilha tiro a pelota
Do estilingue não arremesso nada
Mais ao alvo na mosca não acerto
Meu tiro na mira fui posto de lado
De franco atirador desclassificado ao
Apertar o gatilho foi pela culatra
Se desfez na bruma do mar
A brisa do rosto era o que
Mais queria emoldurar me fiz de rasto
Ficou rastro do meu corpo no asfalto
Fiz-me de sereno para namorar me fiz
De orvalho para apaixonar era a névoa
Que não conseguia ver fiz uma poesia
Para a entreter se voltar sei
Que vou morrer não tenho nada para
Dar nem mesmo prazer ansioso fecho
Os olhos para não ver o desagrado
Causado pelo narciso que sou ao só
Apaixonar pela sombra deste meu amor
Que me reflete na poeira na fumaça
Que embaça a imagem na borra
No bagaço no entulho ao lançar meus
Olhos para a frente meus caminhos ficavam
Para atrás as trevas me envolviam
Persistentes pertinente a luz se
Distanciava mais mais a perdi
Antes de a encontrar

Não quero rimas assim tão desarrumadas; BH, 0210102011; Publicado: BH, 070202011.

Não quero rimas assim tão desarrumadas
Antagônicas formadas de antíteses rimas
Redundantes repulsivas que se repelem
Não se atraem como imãs feitas de cheiro
De hortelã quero-as ofegantes arfantes
Sôfregas de ansiedade desesperadas a buscar
Abrigos nas rochas trombas d'águas a causar
Danificações enchentes a transbordar
Corações meninos assassinos a matar
Calangos passarinhos a empalar tanajuras
Não quero rimas assim tão liberais que
Não arranquem sangue não jorrem lágrimas
Nem causem funerais quero rimas demais
Mortíferas a vida é tão tediosa não
Ouço barulho de corpos que caem nem
O tic-tic dos vermes nos cadáveres
Ou o pic-pic dos pássaros de rapina nos
Despojos quero rimas que causem nojos
Enfados canseiras ranger de dentes
Dementes inconscientes inconsequentes
Pois a dor da humanidade é a dor das
Gentes a loucura do mundo insensato a
Solidão do vão da escada do corrimão
Depois da corrida do corredor ao
Anoitecer quero rimas que não despertem
Euforia que passem como passam as nuvens
Os ventos os tornados que fiquem
Como fica o eixo da Terra a força da
Gravidade o peso dos tempos a teoria
Da relatividade enfim rimas sem idade

Luís Carlos, Chafariz secular; BH, 070202011.

No estilo arquitetônico obsoleto
Das construções serenas do passado,
Existe um chafariz abandonado
Na vestuta cidade de Ouro Prêto.

 - Flor da umidade, cresce-lhe um bolêto
Em cada canto e o musgo em cada lado.
Mas vem-lhe do conspecto deformado
A fúnebre tristeza do esqueleto.

Exaustos de verte-lhe a cristalina
Linfa, três leões, ao sono da ruína,
Bocejam para o tempo - o seu algoz.

Pendura-se-lhe do alto um velho escudo,
Onde quem passa lê, pasmado e mudo:
 - Mil novecentos e cinquenta e dous!

Raimundo Correia, Anoitecer; BH, 080202011.

Esbraseia o Ocidente na Agonia
O Sol... Aves, em bandos destacados,
Por céus de ouro e de púrpura raiados,
Fogem... Fecha-se a pálpebra do dia...

Delineiam-se, além, da serrania
Os vértices de chama aureolados,
E em tudo, em torno, esbatem derramados
Uns tons suaves de melancolia...

Um mundo de vapores no ar flutua...
Como uma informe nódoa, avulta e cresce
A sombra, à proporção que a luz recua...

A natureza apática esmaece...
Pouco a pouco, entre as árvores, a lua
Surge trêmula, trêmula... Anoitece.

Olegário Mariano, Recife de coral; BH,080202011.

(Traduzido de J. M. de Heredia)

O sol dentro do mar, em misteriosa aurora,
O preofundo brenhal dos corais ilumina;
Mesclando, ao fundo da bacia esmeraldina,
A fauna florescente e a luxuriante flora,

E tudo que de sal e de iôdo se colora,
O musgo, a actínia, o ouriço e a pobre alga franzina,
Põe desenhos irreais de sombra purpurina
No chão rendado a que o pólipo se incorpora.

Apagando o esplendor da espuma eriada, passa
Um peixe a navegar na trama que se enlaça;
Ora as águas alisa, ora as águas desfralda...

Súbito agita em leque a barbatana enorme,
E à tona de cristal água mansa que dorme
Corre um frêmito de ouro e nácar e esmeralda.

Emílio de Menezes, O salto do Guaíra; BH, 080202011.

Largo oceano azul, ora margeando
Campina extensa, ora frondosa mata,
Léguas e léguas marulhoso e brando,
O rio enorme todo o céu retrata.

Súbito, as águas, brusco, represando,
Em torvelins de espuma se desata:
Vertiginoso, indômito, raivando,
Ruge, fracassa e tomba em catarata.

Tomba, e de novo em arco se levanta:
Nada a brancura esplêndida lhe turva
E na apoteose em que a caudal se expande,

Do sol aos raios, multicor se encurva
Em tanto resplendor e glória tanta,
Rútilo arco-íris, luminoso e grande.

Olavo Bilac, Ouvir estrêlas; BH, 080202011.

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso! - E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: tresloucado amigo,
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem quando estão contigo?

E eu vos direi: Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.

Álvaro de Campos/Fernando Pessoa, Datilografia; BH, 080202011.

Traço, sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,
Formo o projeto, aqui isolado,
Remoto até de quem eu sou.
Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tic-tac estalado das máquinas de escrever.
Que náusea da vida!
Que abjeção esta regularidade!
Que sono este ser assim!
Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavalarias
(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,
Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,
Eram grandes palmares do sul, opulentos de verdes.
Outrora...
Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tic-tac estalado das máquinas de escrever.
Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.
Na outra não há caixões, nem mortes.
Há só ilustrações de infância:
Grande livros coloridos, para ver mas não ler;
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos nós,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que é o que viver quer dizer.
Neste momento, pela náusea, vivo só na outra...
Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
Se, desmeditando, escuto, 
Ergue a voz o tic-tac estalado das máquinas de escrever.

Mário Quintana, Que bom ficar assim; BH, 080202011.

Para Reynaldo Moura

Que bom ficar assim, horas inteiras,
Fumando... e olhando as lentas espirais...
Enquanto, fora, cantam os beirais
A baladilha ingênua das goteiras.

E vai a Névoa, a bruxa silenciosa,
Transformando a Cidade, mais e mais,
Nessa Londres longínqua, misteriosa
Das poéticas novelas policiais...

Que bom, depois, sair por essas ruas,
Onde os lampiões, com sua luz febrenta,
São sóis enfermos a fingir de luas...

Manuel Bandeira, Versos escritos n'água; BH, 080202011.

Os poucos versos que aí vão,
Em lugar de outros é que os ponho.
Tu que me lês, deixo ao teu sonho
Imaginar como serão.

Neles porás tua tristeza
Ou bem teu júbilo, e, talvez,
Lhes acharás, tu que me lês,
Alguma sombra de beleza...

Quem os ouviu não os amou.
Meus pobres versos comovidos!
Por isso fiquem esquecidos
Onde o mau vento os atirou.

Nietzsche's; BH, 080202011.

Logo após a experiência!

"Mesmo os grandes espíritos não têm uma experiência mais
Larga do que cinco dedos - logo depois cessa a reflexão e seu vazio
Indefinido, suas asneiras, começam."

A ilusão da ordenação moral do mundo

"Não há qualquer necessidade eterna que exija que toda a falta
Seja expiada e paga - crer nessa necessidade era precisamente uma
Terrível ilusão, apenas útil: - do mesmo modo que é uma ilusão
Crer que tudo o que é considerado como falta é na realidade uma.
Não são as coisas que perturbaram de tal forma os homens, mas
As opiniões sobre coisas que não existem."

Os sedentários e os homens livres

"É somente nos infernos que nos é mostrada alguma coisa do sombrio
Pano de fundo de toda essa felicidade de aventureiro que envolve Ulisses
E seus companheiros como de uma eterna luminosidade - desse pano de
Fundo que nunca mais podemos esquecer: a mãe de Ulisses morreu de
Desgosto e do desejo de rever seu filho!
Um é impelido de lugar para lugar
E é isso que parte o coração do outro, do ser terno e sedentário!
A aflição parte o coração daqueles que vêem seu ente mais querido abandonar as
Ideias e a fé do passado - tudo isso faz parte da tragédia que os espíritos
Livres criam - essa tragédia de que estes algumas vezes têm conhecimento!
Então deverá ocorrer de serem forçados, como Ulisses, a descer entre os
Mortos para lhes aliviar seu desgosto e tranquilizar sua ternura."

Mário Quintana, A casa fantasma; BH, 080202011.

A casa está morta?
Não: a casa é um fantasma,
Um fantasma que sonha
Com a sua porta de pesada aldrava,
Com os seus intermináveis corredores
Que saíam a explorar no escuro os mistérios da noite
E que as luas, por vezes,
Enchiam de um lívido assombro...
Sim!
Agora
A casa está sonhando
Com o seu pátio de meninos pássaros
A casa escuta... 
Meus Deus! a casa está louca, ela não sabe
Que em seu lugar se ergue um monstro de cimento e aço:
Há sempre uma cidade dentro de outra
E esse eterno desentendido entre o 
Espaço e o 
Tempo.
Casa que teimas em existir
 - A coitadinha da velha casa!
Eu também não consegui nunca afugentar meus pássaros...

Bebi o esterato de designação genérica; BH, 090702002; Publicado: BH, 080202011.

Bebi o esterato de designação genérica 
Dos sais esteres do ácido esteárico não
Sei mais o que foi que aconteceu
Comi a estaurolita mineral ortorrômbico
Ortossilicato básico de alumínio ferro
Num restaurante não matei a fome
Assim como não matei a sede nem sei
Mais o que foi que aconteceu penso que
Foi o LSD estatucional ou o funcionário
Estatutário que não funcionou alguma coisa
Não funcionou vi-me numa estatuaria
A fazer parte duma coleção de estátuas
Falei com aquele que se preocupa com a
Estatística que o problema era estatístico
Não acreditou me provou com
A mais b que estava errado ou
A dormir ou a sonhar estatelado
Observei que clamamos por justiça quando
Não somos justos estirado vi que clamamos
Por clemência quando não somos clementes
Estendido ao comprido por osmose
Juramos a verdade quando falamos a
Mentira na nossa estasiofobia no nosso
Medo mórbido de nos pormos de pé ante aos
Fortes tomamos conhecimento da performance
De políticos que se dizem éticos a respirar o
Mesmo ar de políticos que passamos a vida
Toda a combatê-los na esperança de
Um dia vê-los banidos do cenário
Político nacional depois deles veicularem
Tantas mentiras que tornaram-se verdades
Hoje seguem de mãos dadas com os "éticos"
A rirem todos de nossa cara a gozar a
Mofar de nós já daqueles que antes o
Denunciavam hoje são correligionários
Alguma coisa ainda continua errada
Com estarrecimento digo que até o
Mundo continua erado o estado me
Deixa estarrecido antes espantado hoje
Aterrado antes assustado hoje apavorado
Não adianta estardalhaçar para mim
A lei é eficiente se tumultuar fazer
Barulho chamo a polícia não adianta
Despertar a atenção ao redor de si quando
Todos dormem o vento é bulhento o mar é
Rumorejante o mato é barulhento a tarde
Estardalhante o homem continua a seguir
O seu caminho sem voz

Só gosto de escrever quando sinto; BH, 01501002006; Publicado: BH, 080202011.

Só gosto de escrever quando sinto
Que estou em perfeita equanimidade
Se não houver em mim serenidade de
Espírito em quaisquer circunstâncias
Não consigo armar uma frase nem
Uma sentença ou mesmo uma oração
Por mais simples que sejam só com total
Equidade é que penso na maioria das 
Vezes nas contendas antagônicas
Ponho em evidência a imparcialidade
Quando erro pareço-me doente a sofrer
De escarlatina de doença febril contagiosa
Caracterizada por manchas vermelhas no
Corpo porém como todo ser humano não
Sou perfeito sempre meus erros vêm
À tona para deixar-me escarlate de
Vergonha a imperfeição põe para fora
Uma cor vermelha muito viva é
A vergonha que tem essa deficiência
Se pudesse fofar a terra a fazer
Escarificações a escarificar o terreno
Enterraria-me no local fugiria da presença
Da humanidade mais rápido do que quando
O diabo foge da cruz se meu cérebro
Fosse um escarificador como o instrumento
Cirúrgico para fazer incisões simultâneas
Na pele ou máquina de fofar terra
Enfiaria a cabeça num buraco
Como faz a ave-truz assim a fugir
Da presença do homem a fugir do
Perigo da violência injustiça
Da incisão da mentira da
Escarificação da falsidade se um
Dia com um escareador escarear meu 
Ser igual o alargar dum furo para embutir
A cabeça dum parafuso ou prego
Veria-me de repente embutido de
Algum teor qualitativo não com
Este sofismo que só faz tornar-me
Uma escarcha estúpida uma coisa
Que não tem nada a ver com fio
De ouro ou prata tecido em seda
Sim com o escarchar de geada
Que queima mata a selva verde
É por isto que ouço esta gritaria dentro
De mim minh'alma num só alarido
Um ente feito de vagalhão aprisionado
Em rocha viva um escarcéu mental
Aí viro um cavalo com escarça que
Não pode andar devido a doença
No casco ai sinto o que sente o
Escaravelho designação genérica
De vários besouros da família dos
Escarabídeos transpassado pelo alfinete
Do pesquisador ou do colecionador
Finda assim o meu escaramuçar
Não faço mais escaramuças literárias
Basta de desordem com as letras
Desavenças com as palavras perco
Sou derrotado em qualquer combate
De pouca importância é só escaramuça
De fogo-de-palha quem quiser
Investigar não encontrará vestígio
Donde vivi se remexer nada do
Que escrevi será encontrado se
Esgaravatar a ferida não sairá
Mais sangue pode escarafunchar
A vontade a fonte secou já é
Difícil para mim o respirar sou todo
Uma só escara a mesma crosta
Escura resultante duma morte
Ou dum esclerosamento de parte
Dum tecido tentar escapulir
Agora é impossível um cadáver
Fugir ou escapar dum cemitério
Só em filme de terror