domingo, 31 de julho de 2011

Elegia do amor perdido; RJ, 0260301999.

Hoje estou muito triste,
E não existe motivo,
Para continuar a viver;
Hoje gostaria de morrer,
Para poder chorar,
A dor do meu amor perdido;
Meu pranto vai ser infinito,
E meu choro vai ser ouvido,
Nos quatro cantos do mundo;
A tristeza será meu consolo,
E minhas lágrimas,
O pão de cada dia;
Perdi o meu amor,
E me perdi;
Não venhais me consolar,
Não venhais me dizer,
Palavras de apoio;
Quereis me ajudar de verdade,
Deixeis-me morrer,
Ajudeis-me a morrer;
Ouçais meu lamento,
Minha súplica de morto,
Pois a partir de hoje,
Não sou mais vivo,
Não respiro mais,
Não mais porei fim,
À elegia do amor perdido,
E à tristeza dentro de mim.

Ode visceral, RJ, 0260301999.

Este canto sai das minhas entranhas,
Dos labirintos das estruturas escondidas,
Lá no fundo de mim;
A ode do uivo visceral,
Expelido de um organismo de esperança,
Das tripas sulfurosas,
Atormentadas por fraquezas exteriores;
Este é o canto físico da alma,
O grito rouco do espírito,
A busca do Orfeu à Eurídice,
Nos meandros do inferno;
É a resposta de Dante,
Ao sopro gélido de Caronte;
É o canto do poeta que procura,
A rocha firme da sobrevivência,
O chão da felicidade,
E cada pétala de flor,
Cada bater de pálpebras,
Cada voar de borboletas,
A se transformar em notas musicais;
E cada sopro de vento,
Vibrar da brisa,
E reverberação do ar,
E com num cântico novo no firmamento;
Este canto sou eu,
Eu sou o cantor,
Poeta e regente,
E da minha garganta flui,
Este canto excelente.

Preciso de alguém; BH, 070701999.

Preciso de alguém,
Para me alfinetar,
Picar meus olhos com alfinete,
Igual fazia Santa Luzia,
Nos nossos tempos de criança;
Quando espiávamos as mulheres nuas;
Alguém precisa me ferir,
Com as palavras que quero ouvir,
Com as palavras que preciso ouvir;
Tu precisas me criticar,
Agredir-me com socos e murros,
Mutilar-me e deformar-me,
Igual aos filhos dos vietnamitas,
Que sofreram os efeitos,
Do agente laranja,
Jogado sobre eles pelos americanos,
Na guerra do Vietnam,
E nasceram todos deformados,
A faltar partes e pedaços,
Pelos corpos franzinos,
Todos mil vezes mutilados;
Pegue uma pequena haste delgada,
Aguçada em uma das extremidades,
E terminada por uma cabeça na outra,
Para prender tecidos e peças de vestuário,
E enfie esta haste,
Na minha garganta;
Tenho que gritar de dor,
Tenho que uivar de dor,
Preciso sentir dor,
E ficar indignado,
Com tanta injustiça,
Tanta falta de Deus,
Tanta falta de amor,
Tanta falta de paz;
Preciso me sentir envergonhado,
Pagar pelos crimes hediondos,
Cometidos pela humanidade,
Em nome da humanidade;
Preciso sentir vergonha,
Em me olhar no espelho,
E ver que sou um representante,
Desta raça humana.

Sou um resmungão; RJ, 0150401999.

Sou um resmungão,
Vivo a resmungar,
E a maldizer da vida;
Tinha que perder a língua,
Cortá-la fora
Ou comê-la aos pedaços;
Sou um chorão,
Um bebê sem chupeta,
De fraldas molhadas,
De fundilhos sujos;
Sou um dom casmurro,
Um enfadonho e taciturno,
Carrancudo e reclamão;
Espero tudo cair do céu,
E a ajuda da nação;
Não faço nada,
Não sei fazer nada,
E nem tenho profissão;
Quem olha para mim,
Vira a cara para o lado,
E cospe no chão;
Sou um fofoqueiro nato,
Um fuxiqueiro-mor,
Falo mal de todo mundo,
Sem poupar ninguém;
Afasto de mim as pessoas,
Isolo-me da vida,
Escondo-me nas trevas,
Fujo da luz,
E caio todo santo dia,
Nos braços da morte.

Elegia da violência contra a criança; RJ, 0260301999.

A noite é escura e, negra a sombra, assombra;
O tempo sem lua e sem estrelas,
As crianças abandonadas,
Sofrem desventuras e padecem nas mãos,
De assassinos cruéis;
Em cárceres privados,
Acorrentadas às paredes,
Amarradas aos muros,
Que nem parece que Jesus,
Foi criança também;
É triste e desesperador,
É estarrecedor, e não podemos permitir,
Que meninos e meninas,
Sejam tragados assim,
Pelas mandíbulas sedentas,
Dos animais e das feras,
Que odeiam as crianças;
Fico com vergonha,
Das vezes em que,
Perco a paciência,
Com os meus filhos;
Perdoa-me Senhor,
Perdoa-me filhos,
Perdoai-nos crianças,
Meninas e meninos,
De todas as partes do mundo,
E que sofreram e que sofrem,
Todo tipo de violência;
Que um dia,
Essa violência acabe,
E as crianças sejam mais respeitadas.

A alfarroba é o fruto da alfarrobeira; BH, 060701999.

A alfarroba é o fruto da alfarrobeira,
E a alfarrobeira é uma árvore,
Da família das leguminosas.
E a alfavaca é uma planta labiada,
Do gênero ocimum, de suave aroma;
A alfazema é planta também,
Da mesma família,
Que exala forte fragrância;
Em uma o perfume é suave,
Na outra é mais forte;
O que me faz lembrar,
Do alfeloeiro da rua,
Que fazia alféloa para vender;
A massa de açúcar ou
Melaço em ponto forte,
Usada como confeitaria,
Como o açúcar-cande alfênico;
E o doce feito dessa massa,
Muito alva e consistente,
Que torna as pessoas
Delicadas e melindrosas,
Calmas e acanhadas,
Enebriadas pelos olores,
Odores e cheiros de dar
Água na boca com o sabor
Da alféola e do alfenin;
E me faz sentir um alferes,
Do antigo posto militar,
Correspondente ao atual
Segundo-tenente;
Recebo logo uma alfinetada,
Por minha tamanha pretensão,
Querer tantos aromas,
Querer tantos perfumes,
Querer tantos doces,
Querer tantos cargos,
Recebo logo outra picada de alfinete,
Com uma dor aguda e rápida,
E recebo logo uma crítica,
Por minha ação,
Vem logo uma agressão,
Por minha ilusão.

Almas mortas; RJ, 0150401999.

Almas mortas,
Sem plágios e sem cópias;
Almas mortas,
Somos todos almas mortas;
Mentes vazias, opacas,
Cabeças ocas no vácuo;
Seres inexpressivos,
Somos todos seres inexpressivos;
Perdidos e sem luz,
Sem órbita e sem rumo,
Sem caminho a seguir,
Sem ponte para atravessar,
Sem estrada para avançar;
Répteis nocivos,
Somos todos répteis nocivos;
Fazemos mal ao próximo
E a nós mesmos;
Não nos amamos
E nem nos respeitamos;
E temos inveja
Da paz alheia;
Não temos felicidade,
Não procuramos a felicidade
E inda acabamos,
Com a felicidade do semelhante;
Almas mortas,
Somos todos almas mortas,
Sem direito à ressurreição.

Rio Preto; RJ, S/D.

"Rio Preto era um negro,
Que não tinha sujeição,
No gritar da liberdade,
O negro deu para valentão."
 
                 X

"A barata diz que tem,
Sete saias de filó,
É mentira da barata,
Ela tem é uma só,
Rá, rá, rá, ró, ró, ró,
Ela tem é uma só."

O importante sou eu saber; RJ, 0270301999.

O importante sou eu saber,
Que não posso;
Mesmo que algum dia,
Surja uma oportunidade,
O importante de tudo,
Sou eu saber,
Que não posso;
E não quero mais,
Aprofundar-me,
No mérito da questão;
Não posso e está acabado;
Sei disto e o que é importante,
Sou eu mesmo saber,
Que não posso;
Seria uma heresia,
Seria um pecado,
Seria uma indignação;
E é por isto que,
Tomo este exame de consciência,
Esta tomada de decisão,
Não posso e não interessa;
O pensamento já bani,
Da minha cabeça e mente;
O meu espírito está presente,
Em toda esta decisão;
Penseis o que quiséreis,
Faleis o que quiséreis,
Eu que não quero pensar,
Eu que não quero falar;
Sei direitinho a lição;
É tiro e queda,
É terra e chão.

Ode à Liberdade; RJ, 0280301999.

Aonde anda a Liberdade?
Preciso sair do cativeiro,
Preciso ser livre,
E me libertar;
Não posso perder meu canto,
Meu canto de Liberdade,
De amor à vida,
De simpatia à paz;
Aonde anda a Liberdade?
Quebreis meus grilhões,
Quebreis minhas algemas,
Abrais as portas,
Dos meus presídios,
Das minhas sepulturas,
Campas e catacumbas,
Tumbas e sepulcros,
Covas e túmulos;
Ar puro para mim,
Desenterreis-me logo,
Apureis os ouvidos,
E ouçais minha ode à Liberdade,
Ode à Liberdade,
Ao valor de ser livre,
Feliz e sadio;
Derrubeis os muros,
Que querem me sufocar,
Derrubeis as paredes,
Que querem me esmagar.

Em treze anos; RJ, 0150401999.

Em treze anos,
Acabei com dois bares;
Um na Rua do Rezende, 133-A,
Que tinha por razão o nome de
Depósito de Doces João de Deus Ltda,
Que foi batizado pelo nome de fantasia de
Baixo Rezende F.C;
O outro que faliu, abandonei,
Foi na Rua Macapuri, no IAPI da Penha,
Que tinha o nome de fantasia e de razão
Gelo Bar, onde permaneci dois anos
E poucos meses; agora parto em busca
De um novo projeto;
Sem um centavo no bolso,
E sem saber como começar,
Para a nova caminhada,
Que terei que dar;
Tenho que aproveitar,
A experiência que guardei,
Se sobrou alguma,
Para o novo empreendimento,
E não deixar mais,
As coisas acontecerem,
Ao ponto de em treze anos,
Perder tudo que consegui.

Eu tenho um sonho; BH, 060701999.

Eu tenho um sonho,
Abir uma loja de alfarrábios,
De livros antigos, livros velhos,
E ser um alfarrabista,
Um vendedor e colecionador
De obras-primas, um Mindlin;
Eu tenho um sonho,
Abrir uma loja de livros,
Livros novos e usados
E ser um livreiro comprador,
Vendedor e ledor,
Para ver o povo todo,
Com um livro na mão,
No lugar de um celular,
Um livro bom e barato,
No lugar de um celular;
Um romance eterno,
Uma literatura surrealista,
Um clássico da humanidade,
No lugar de um celular;
Um Machado de Assis,
Um Guimarães Rosa,
Umberto Eco,
Gabriel Garcia Marques
E outros mais,
Que deveriam nos acompanhar,
Vinte e quatro horas por dia,
Por onde a gente fosse,
Como um celular nos acompanha;
O povo precisa de cultura,
Leitura e conhecimento,
Sabedoria e inteligência;
A única maneira,
De preservar o crescimento,
Do povo brasileiro,
É com a cultura
E desenvolvimento intelectual;
Eu tenho um sonho,
Abrir uma loja de alfarrábios.

Afonso Romano de Sant'Anna, Chegando em casa; BH, 310702011.

Chegando em casa
Com a alma amarfanhada
E escura
Das refregas burocráticas
Leio sobre a mesa
Um bilhete que dizia:
- Hoje 22 de agosto de 1994
Meu marido perdeu, deste terraço:
Mais um pôr de sol no Dois Irmãos
O canto de um bem-te-vi
E uma orquídea que entardecia
Sobre o mar

sábado, 30 de julho de 2011

Afonso Romano de Sant'Anna, Estão se adiantando; BH, 300702011.

Eles estão se adiantando, os meus amigos.
Sei que é útil a morte alheia
Para quem constrói seu fim.
Mas eles estão indo, apressados,
Deixando filhos, obras, amores inacabados
E revoluções por terminar.
Não era isto o combinado.
Alguns se despedem heróicos,
Outros serenos.
Alguns se rebelam.
O bom seria partir pleno.
O que faço?
Ainda agora
Um apressou seu desenlaçe.
Sigo sem pressa.
A morte
Exige trabalho, trabalho lento
Como quem nasce.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Uma pedra; RJ, 0270301999.

Uma pedra,
Uma rocha,
Um rochedo,
Têm mais vida,
Do que este ente,
Que empunha agora,
Está caneta oblíqua,
Na débil mão direita;
Uma pedra é mais forte,
Uma rocha é mais firme,
Um rochedo é maior;
E então olho o mar,
Olho os rios,
Olho os oceanos;
O mar é mais profundo,
O rio é mais largo que,
O oceano é mais vida;
E eu réptil vil,
Só sobrevivo nas trilhas escaldantes,
Das areias dos desertos;
Só sobrevivo dos restos,
Dos despojos dos vermes,
Das carnes apodrecidas;
Tudo por que não encontrei,
O caminho da fé,
O caminho da coragem,
Da lucidez e da razão;
E tenho que me contentar,
Com as migalhas das sobras,
Dos banquetes dos mendigos,
Das ruas das cidades.

5-3-2-0-9-0-9-5-3-2-4-5-0-9-4-3-2-1-0-9; RJ, 0280301999.

5-3-2-0-9-0-9-5-3-2-4-5-0-9-4-3-2-1-0-9
Todos os números do universo,
Serão poucos para enumerar,
A quantidade de vezes,
Que eu quero te amar;
Todas as estrelas do céu,
Todas as areias da praia,
Todas as folhas de papel,
Todos os cavalos de raça;
Por mais que procure definição,
Nada vai igualar um dia,
Todo amor que sinto por ti,
Dentro do meu coração;
E quando olho teu olhar,
Começo então a chorar,
Sinto uma fragilidade no ser,
É o medo de ti perder;
E sei que tudo é tão simples,
Torno-me um ser simplório,
Só não quero em nossa convivência,
Um relacionamento transitório;
Se sou fraco demais,
Na minha explanação,
Mostra-me do que és capaz,
Na minha elevação;
Tira-me então da calçada,
Sejas minha eterna amada,
Pares o tremor da minha mão
E me esqueça nas masmorras
Do teu coração.

É o fim de todas as doenças; RJ, 0150401999.

É o fim de todas as doenças,
Acabou-se o câncer,
Acabou-se a Aids;
Todo mundo agora,
Vai ter saúde,
Para o resto da vida;
Se for de doença,
Ninguém morre mais;
Podem fechar as farmácias,
As fábricas de remédios,
E os laboratórios;
Acabaram-se as doenças;
Chega de hipocondria;
Ninguém vai mais,
Encher o estômago de remédios;
É o fim de todas as pragas,
É o fim de todas as epidemias,
É o fim de todos os surtos,
É o fim de todas as pestes;
Nova era vai iniciar,
No seio da humanidade,
Com amor e fé no coração,
Com coragem e vontade,
Todas as doenças serão banidas
E só a saúde,
E só a pureza,
Encarnadas na alma,
Farão refletir na carne,
O brilho da nossa sanidade.

Quero um pé de alface; RH, 060701999.

Quero um pé de alface,
Da planta hortense,
Da família das compostas,
Preciso usar numa salada,
Depois, na hora do almoço;
Uma alfacinha Lisboeta, não,
A alfafa leguminosa, não,
Usada como forragem, luzerna;
E arrumar qualquer adorno,
Para casa e para mim,
Um enfeite bonito,
Uma joia rara, alfaia;
Encomendar um terno novo,
Numa oficina de alfaiate,
Numa loja de ternos prontos,
Numa boa alfaiataria,
Minha sobrinha vai casar;
E o alfaiate tem que ser bom,
Igual ao Bezinho,
Pois o ofício dele,
È fazer roupa de homem
E não voar igual ao pássaro,
Da família dos fungílidas;
E na repartição fiscal, alfândega,
Onde se cobram os impostos,
Taxas de importação e exportação,
Do país, a aduana, passar bem distante,
Pois nada tenho a declarar,
E sou favorável à sonegação;
Todos os impostos e taxas pagos,
Só servem para sustentar,
A mordomia da elite e da burguesia;
O alfandegário aduaneiro que me perdoe,
Mas do dinheiro de impostos e taxas,
O povo não ver nem o cheiro;
O dinheiro todo gasto no Senado
E na Câmara, com os salários altos,
Dos senadores e deputados e funcionários,
A melhoria do Brasil estará no dia,
Em que as cabeças dos políticos,
Forem cortadas, a golpes de alfange,
Cimitarra mourisca de lâmina larga e curva.

A fonte não vai se esgotar; RJ, 0150401999.

A fonte não vai se esgotar,
A fonte não vai se secar,
E mesmo depois de morto,
Eu quero continuar,
A mandar através de psicógrafos,
Mensagens do além;
Pois bem sei,
Que depois de mim,
Do meu tempo,
Da minha era,
A guerra não vai chegar ao fim;
A humanidade não terá amor,
O mundo não viverá em paz,
E as pessoas não terão respeito,
Umas pelas outras;
Vai tudo continuar,
Do jeito que está agora;
É por isso que,
Quando for embora,
Quero continuar a manter contato,
Com um vivo qualquer;
Pois penso que a felicidade,
Inda vai demorar a chegar,
No coração das pessoas;
E lá onde estiver,
Quero continuar a  mandar,
Energias boas e positivas,
Palavras meigas e de carinho,
Para suaviza o sofrimento,
De quem ficar a padecer aqui;

O descobridor; RJ, 0270301999.

Não quero descobrir,
O caminho marítimo
Para as índias;
Não quero descobrir
O Brasil e nem quero
Descobri a América;
Quero descobrir eu;
Quero ser o descobridor
De mim; saber o que é,
Que acontece comigo;
Saber qual a causa,
Da minha razão,
De saber e de existir;
Quero me descobrir,
Ser o meu descobridor;
Onde andam meus tesouros?
Onde andam minhas riquezas?
Que não são as comuns,
Que não são as dos comuns;
Quero ser o meu pirata,
De perna de pau,
De olho de vidro,
E cara de mau;
Quero ser o meu pilhador,
Volver toda a terra,
Dentro de mim,
Para descobrir os caminhos,
Que devo seguir;
Nada quero descobrir,
A não ser eu próprio.

Sou repetitivo; RJ, 0280301999.

Sou repetitivo,
Isto sei que sou;
Sou demasiado cansativo,
Isto sei que sou;
Não perco a esperança,
Não perco a calma,
Todo ser humano é assim,
Menos os primitivos,
Menos os primatas,
Os neandertal da vida,
Os homens da pré-história;
Esses são diferentes,
Não são iguais a gente,
Que vivemos no mundo de hoje;
Hipócritas, falsos, mentirosos e cínicos;
Doentes, psicopatas, esquizofrênicos e loucos;
É o que na realidade,
Se enquadra à personalidade,
Do ser humano atual;
E tenho dúvidas,
Do ser, do humano e do atual;
Sou repetitivo,
Chato e ignorante,
Apedeuta vil e notório,
Porém incansável na minha busca,
À luz no fim do túnel,
E à felicidade real;
Olha aí de novo,
Outra vez na repetição.

Eu sou o alfa; BH, 060701999.

Eu sou o alfa,
A primeira letra,
Do alfabeto grego,
Correspondente ao a,
Das línguas neolatinas;
Eu sou o princípio das coisas,
Da filosofia, do princípio, da razão,
O Alef do Borges;
Eu sou a estrela,
De maior grandeza,
De uma constelação,
De uma galáxia;
Sou o começo do nada,
A alfabetização e o efeito de alfabetizar;
Sou o início do caminho,
O alfabetamento do deficiente,
O que veio ao mundo,
Para alfabetar;
Por em ordem alfabética,
As almas penadas,
Que perambulam pelas ruas;
Sou o ser alfabético,
Tenho o alfabeto nas veias,
Ajo segundo a ordem das letras;
Quero a alfabetização,
E o efeito de alfabetizar,
Todo o povo progressista e ordeiro,
Toda a nação do progresso;
E ao olhar-me no espelho,
Ver a imagem de um alfabetizado,
Que aprendeu a ler,
Que aprendeu a escrever,
E quer ensinar a ler,
Ensinar a escrever,
O conjunto das letras usadas,
Na grafia de uma língua,
O abededário nacional,
O conjunto de noções elementares,
Da arte ou da ciência;
Eu sou o último alfa;
O primeiro de uma continuação.

Muita paciência; RJ, 0150401999.

Muita paciência,
Vou ter que usar,
De muita paciência;
Sei que é chato,
Sei que é triste,
Começar de baixo,
Começar do nada,
E em outro lugar;
E o importante,
É começar, é atirar,
Apesar de não ter
Balas no revolver,
E de não ter revolver,
O importante é começar,
Com ânimo e disposição,
Com o pensamento voltado,
Para a solução,
Para a resposta,
Para a certeza,
De um despertar bem melhor;
Muita paciência,
E paciência tenho;
Sou tão paciente,
Que pareço um inútil,
Fico na inércia,
Fico igual morto,
Para não perturbar,
O espírito na hora,
Que for mudar;
Muita paciência.

O vocabulário é curto e grosso; RJ, 0270301999.

O vocabulário é curto e grosso,
A palavra é de baixo calão;
A ideia é fraca e pobre,
E o ideal é vazio de alicerce,
Sem meta e tema,
Caminho e destino;
É assim que é,
A cabeça deste bardo,
Que tenta encontrar,
Um lapso de lucidez e razão;
A voz é de um troglodita,
A dialética é opaca,
O raciocínio é morto,
E a inteligência fede,
Tanto quanto defunto,
Fora da tumba;
O canto é de choro,
De lamento e de lágrima,
Não para mais,
Foi aí que formaram-se os rios,
Os mares e os oceanos;
O canto é o choro,
Dos índios e das florestas,
Dos bichos e dos pássaros,
Das crianças e dos menores,
Abandonados por Deus
E pela sociedade.

O melhor estilo; RJ, 0280301999.

O melhor estilo,
É não ter estilo;
O melhor pensamento,
É não pensar;
O melhor acerto às vezes,
É errar toda hora;
E o melhor caminho a seguir,
É não seguir caminho nenhum;
A melhor poesia,
É não existir poesia;
E o melhor poema,
É o não poema;
Chega de elegia,
Ode e sinfonia;
O melhor do ser,
É o não ser;
A Terra não gira ao contrário,
E a igreja não vive sem vigário,
O céu sem Deus,
E o inferno sem Satanás;
O melhor do diretório,
É o contraditório;
E toda ação requer uma reação;
Todo belo tem seu lado feio,
E às vezes é vice-versa;
O contrário é o viário;
E conclusão:
O melhor da razão,
É a falta de razão.

Vem fazer para mim; BH, 060701999.

Vem fazer para mim,
Uma aletria agora,
Com massa de farinha de trigo,
Em fio fino e fofo;
Uma espécie de macarrão bem delgado,
Um cabelo-de-anjo
Para alevantar o astral,
Que estou meio down;
Com a fome a apertar,
E não posso,
Ficar deitado nesta cama,
Preciso levantar agora,
Para fazer uma obra de arte,
Uma obra-prima,
Um clássico da humanidade;
Não será em verso alexandrino,
De doze sílabas,
Que geralmente é feito com pausa,
Com cesura após a sexta sílaba tônica
E quem sou eu a apregoar um hemistíquio,
Para pensar tão grande, e ser o natural
De Alexandria, no Egito?
Sou Alexandre, o Grande?
Com o cavalo Bucéfalo?
Quem sou eu,
Para querer ir tão longe?
Fazer versos alexandrinos,
Que pretensão?
Fazer obra-prima:
Fazer obra de arte,
Fazer clássicos;
Vê se acorda, rapaz,
Estás a sonhar acordado,
Estás a sonhar alto,
Cuidado para não cair da cama.

Estou de saco cheio; RJ, 0280301988.

Estou de saco cheio,
Saco cheio de ti;
No passado pensava,
Que te amava,
Hoje, no futuro, vejo,
Que estava errado,
Que estava enganado,
Que não era amor,
O que sentia por ti;
E não sabia,
Que um dia,
Ia transformar em raiva,
Transformar em ódio,
O meu sentimento,
O amor que guardo aqui,
Bem dentro do peito;
E não sabia,
Que ia ser rancor,
Que ia sentir,
Por todo teu amor;
Suportar-te hoje ,
É um sacrifício,
E amar-te hoje,
É um sofrimento;
Viver contigo agora,
É um grande erro,
Fazer amor contigo,
É um ato de suicídio.

Enfim nova vida ; RJ, 0150401999.

Enfim vida nova para o Felipe,
Vida nova para a Nanayah,
Vida nova para o Lucas,
Vida nova para a Nazaré,
Vida nova para mim;
Vamos mudar do Rio de Janeiro,
Para Belo Horizonte;
Espero que seja,
A coisa mais certa,
Que já fizemos,
Em toda a nossa vida;
Não podemos é fazer,
Mais nada errado;
Não podemos é permitir,
A fragilidade influir,
No nosso seio;
Precisamos por em prática,
O uso da nossa inteligência,
Apesar de que não estejamos,
Acostumados a usá-la;
Enfim, vida nova para todos nós,
Vamos mudar em busca,
De uma vida melhor,
Mais tranquila e mais feliz;
E espero com fé em Deus,
Que esta decisão,
Seja importante à nossa união.

Não acontece nada com eles; RJ, 0270301999.

Não acontece nada com eles,
Às vezes me dá,
Um desejo de ira,
Um desejo de vingança;
Como as pessoas que fazem o mal,
Que semeiam a violência,
A agressão e a morte,
E continuam aí,
Sem nada acontecer com elas?
Às vezes me dão uma raiva,
Um rancor dentro de mim;
Sei que estou errado,
E que não é certo pensar assim;
E gostaria de ver,
Toda pessoa que estivesse
A fazer o mal,
A semear a discórdia,
O ódio e a infelicidade,
A pagar o mesmo pato;
Não pode elas fazerem de tudo,
Tudo que é ruim,
E nada acontecer com elas;
Eu sei que não presto,
Nem quero ser juiz,
Mas não gosto nem de ouvir,
O som do sorriso,
De uma pessoa que sei,
Que não presta.

Afonso Romano de Sant'Anna, Entrevista; BH, 290702011.

Telefonam-me do jornal:
- Fale de amor-
Diz o repórter,
Como se falasse
Do assunto mais banal.
- Do amor? -
Me rio
Informal.
Mas ele insiste:
- Fale-me de amor-
Sem saber, displicente,
Que essa palavra
É vendaval.
- Falar de amor? -
Pondero:
O que está querendo, afinal?
Quer me expor
No circo da paixão
Como treinado animal?
- Fala...- insiste o outro
- Qualquer coisa.
Como se o amor fosse
“Qualquer coisa”
Prá se embrulhar no jornal.
- Fale bem, fale mal,
Uma coisa rapidinha
- Ele insiste, como se ignorasse
Que as feridas de amor
Não se lavam com água e sal.
Ele perguntando
Eu resistindo,
Porque em matéria de amor
E de entrevista
Qualquer palavra mal dita
É fatal.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Sociedade dos cabeças ocas; RJ, 0280301999.

Alguém tem que continuar a ouvir,
Música erudita;
Alguém tem que andar,
Com um livro debaixo do braço,
Um violão na mão;
Alguém tem que resistir,
Procurar pensar em alguma coisa,
Nos princípios e nas causas,
Nas leis e na filosofia;
Sociedades dos cabeças ocas,
Mentes vazias, espíritos do mal,
Almas perdidas, sombras infernais,
Silhuetas diabólicas;
Alguém tem que fazer poesia,
Fazer poemas e sinfonias;
Alguém tem que continuar,
Com a preservação,
Os cabeças ocas estão a tomar conta
De toda a sociedade;
Da árvore da vida,
Da ciência do bem e do mal;
Tenho medo dos cabeças ocas,
Dos cara de pau,
Dos mentes de madeira;
Tomara que dê cupim,
Em toda essa sociedade,
Dos cabeças ocas.

Por fora todo mundo pode ver; BH, 050701999.

Por fora todo mundo pode ver,
Sou grande como um elefante,
Volumoso igual a um hipopótamo,
E farto feito uma baleia,
Que até fico impedido de ser alentado;
A enorme quantidade de gordura,
Impede meu processo alentador,
E não posso me alentar naturalmente,
E nem ter alento e ânimo para a vida;
E aí não consigo alimentar meus pulmões,
Incitar a respiração aliviadora,
O respirar tranquilamente,
Sem resfolegar com a falta de ar;
E no meu alento penoso, bufo,
Meu fôlego pesado, arfo,
Parece de chumbo, ufa,
Que me falta até coragem,
Para andar nas ruas;
E pegar uma aragem;
Por fora todo mundo pode ver,
Por dentro o ar causa uma alergia,
É uma intolerância do organismo,
A aceitar alguns goles de ar,
Como a certas substâncias ou agentes físicos;
O ar é alérgico aos meus pulmões,
E não posso estar alerta,
Ter atenção dentro de mim,
Perceber atentamente o que se passa,
Ficar de sobreaviso,
Com o sinal vermelho,
Para manter-me em vigilância,
Pois apesar de ser muito grande por fora,
Sou pequeno e apertado por dentro,
Do tamanho da cabeça de um alfinete,
De um grão de areia;
Além de alisado,
Abestalhado e abobalhado,
Com as aletas atrofiadas,
As pequenas alas interrompidas,
As asas do nariz são desenvolvidas
Para o pouco oxigênio que uso,
Insuficiente, de um ar rarefeito,
Sem nenhum nutriente.

Está certo o que vou fazer?; RJ, 0150401999.

Está certo o que vou fazer?
Está correto?
Não será erro?
Não será o contrário?
Tenho que ir
Ou tenho que ficar?
Como se acaba,
Com uma dúvida?
E se não der certo?
Como se acaba com a incerteza?
A perplexidade e a emoção?
O pior é a emoção,
Impede a ação natural,
Leva ao sentimentalismo,
E o coração fica frágil,
Toma o lugar da mente;
Espero a partir de hoje,
Acabar com isso tudo,
E equilibrar as ações,
Sair das coisas erradas,
Partir para as coisas certas;
Sair da indefinição,
Procurar meu rumo,
No meu próprio torrão;
Se o que está para acontecer,
É certo ou não,
Nem eu sei a resposta;
No erro não poso mais sobreviver.

Parei de beber; RJ, 0280301999.

Parei de beber,
Parei de fumar,
E de prevaricar,
Minha vida não melhorou,
Um milímetro;
Não evolui um segundo,
Não me libertei em nada,
Continuo preso,
E sem esperança;
Nem o viagra,
Para dar-me mais tesão;
Até agora,
Não senti o efeito,
Da mudança e transformação,
Que tento impor,
Em minha vida;
Parei de viver,
Parei de amar,
Parei de sorrir;
Não revelei-me,
Alguém superior;
E a minha mediocridade,
Se acentuou mais ainda;
Minha pequenez,
Está em evidência,
Agora do que antes;
Parei de ser eu.

Quando eu tiver; RJ, 0270301999.

Quando eu tiver,
A maioridade poética,
Serei um completo;
Quando atingir,
O pico da inspiração,
Não terei dificuldade,
Para tirar do meu coração,
Sem medo de errar,
Sem medo de existir,
Todas as obras máximas,
Das poesias e dos poemas,
Que o mundo não conheceu;
E aí o universo morreu;
Esparramou a poesia cósmica,
Iluminou o buraco negro,
E são conhecidos,
Todos os quasares,
Objetos e astros,
Do universo no passado;
E até o universo futuro,
E a poesia de resistência,
Sobreviverá juntamente,
Com o poema da ressurreição;
Quando fizer um mestrado,
Ter o meu PHD,
Meu grau máximo,
O universo desintegrou;
E o que restou,
Não foram nem partículas,
Nem moléculas,
Só restos de nada.

O que fizeste; RJ, 040701999.

O que fizeste comigo,
Foi uma aleivosia hedionda,
Uma traição de Judas,
Um crime cometido,
Com a falsa aparência,
De uma velha amizade;
Foi uma perfídia, com
Qualidade do que é pérfido;
Faltou a fé jurada,
E foi uma traidora,
De uma deslealdade,
Que não tem mais tamanho;
Teu amor aleivoso,
Deixa-me nervoso,
E o dia em que eu,
Desligar-me de ti,
Sem sofrer,
Vai ser uma aleluia,
Uma exclamação de glória,
Um cântico de júbilo,
Como num sábado,
Em que a igreja católica,
Celebra a ressurreição de Cristo;
Além do que,
Tudo que já fizeste,
Todo erro que já cometeste,
Só me fizeste colocar,
Do lado de lá,
Lá mais adiante,
Para lá de tua imagem,
Longe do teu corpo;
Afora do teu espírito
E tudo que representa teu contexto;
Serás estranha para mim,
Como o alemão natural,
O idioma da Alemanha;
E para fugir,
Vou para além mar,
Para lá do mar,
Nas terras que ficam,
Do outro lado,
Onde não serei encontrado.

Afonso Romano de Sant'Anna, Turista Acidental; BH, 280702011.

Fui fotografado à minha revelia,
Em frente a um templo egípcio
No Metropolitan Museum de Nova York.
À minha revelia, de novo, fotografado fui
Na 5a. Avenida às três e meia da tarde.
Assim, um sem-número de vezes
Em frente ao Coliseu,
Nas ruínas de Machu Pichu,
Perto da Torre de Londres,
Junto à Catedral de Colônia,
Sobre as pedras da Acrópole, em Atenas,
Nas mesquitas de Istambul
E, evidente, em Juiz de Fora.
Guardado estou
Em álbuns
Japoneses, italianos, americanos, alemães, franceses
Argentinos, senegaleses,
Disperso
Desatento
Como se aquele corpo
Não fosse meu.
Quando mostram as fotos aos parentes e vizinhos
Sou pedra-porta-árvore-sombra-paisagem.
Ninguém, reunindo as fotos, perguntará:
- Quem é este constante figurante
No flagrante do alheio instante?
Disperso-dispersivo estou.
Que álbum conterá a unidade perdida
Revelada do negativo
Perambulante que sou?

Maurício assombração; RJ, 0150401999.

Falei do Maurício,
E foi só o Maurício,
Ou a assombração dele,
Chegar diante de mim,
E falar uns impropérios,
Para eu perder todo o controle,
Sobre a situação;
Geralmente comigo é assim,
Perco-me logo,
Gaguejo e fico trêmulo;
O sangue foge de minhas veias,
E fico com as vistas turvas;
A cabeça dói rápido,
E toda a fortaleza se transforma,
Numa casa de pau-a-pique,
Construída num terreno de areia;
Toda a defesa falha,
E o sistema entra em pane,
E sai fora do ar;
E toda esta disfunção,
Tem que acabar;
E só tento falar a verdade,
Por não gostar de mentiras,
Não gostar de ilusão;
Só tento falar a verdade,
Por não gostar de falsidade;
E só não prospero,
Por não ter de prosperar;
Aceito o destino,
Conformei-me
E não quebrei as correntes,
Das cadeias que me prendem,
À minha eterna masmorra,
Xô, Maurício.

Negativamente a sabedoria; RJ, 0290301999.

Negativamente a sabedoria,
Distanciou-se como pode,
Dos abismos do meu cérebro;
A minha imensidão,
Que imaginava,
Comparada à do universo,
Se revelou menor do que uma molécula;
Não percebia que o céu era azul,
E que o firmamento,
Se refletia no cristal do mar;
Pedra preciosa viva,
Diamante lapidado,
Pela própria natureza,
Que cansou de me ver chorar,
E misturar minhas lágrimas,
Com as águas do mar;
E minhas lágrimas,
Também são azuis, então;
Sábios são os que sobrevivem,
Só com o instinto;
Sábios são os sábias,
E os pássaros que sabem cantar;
As formigas e as abelhas,
E os vaga-lumes também;
Sábias são as joaninhas,
E os beija-flores;
Eu, pobre mortal,
Digno apenas de minha sepultura,
E da poeira pela qual,
Vou me alimentar na eternidade.

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Vou-me embora; RJ, 0270301999.

Vou-me embora,
Para Belo Horizonte,
Capital de Minas Gerais;
Minha mãe está lá,
Meu pai está lá,
Meus irmãos estão lá,
Vou para lá também;
Esta é para agradecer
Ao Rio de Janeiro,
Por todo este tempo,
Que vivi aqui;
Agora chegou a hora,
Vou pegar o saco e a viola,
E vou-me embora;
Meu tio Lourenço está lá,
Minha madrinha Nilza também;
Meus sobrinhos estão lá,
E é para lá que vou;
É para lá que quero ir,
Para Belo Horizonte,
Capital de Minas Gerais;
De onde eu,
Nunca deveria ter saído;
Porém mineiro é assim,
Um dia volta,
Para ficar de bem com a terra;
Tem muito cemitério bom
E tranquilo lá em Minas,
E não quero ser enterrado
Em outro lugar:
Adeus meu Rio de Janeiro.

Alegreto; BH, 040701999.

Compus para ti um alegreto,
Um andamento musical menos vivo,
Que o alegro; compus este trecho,
Para cantar neste fundamento;
Encosta a cabeça aqui,
No rumo do coração,
E vais escutar o musical,
O estado de euforia,
O contentamento de alegria,
Que se manifesta nas batidas,
Por palavras e atitudes
Do coração;
Compus para ti um alegro,
Andamento musical vivo,
Rápido e compassado,
Mais lento que o vivace;
Encosta os ouvidos aqui,
Ouças a composição que fiz,
O movimento de dentro,
A divisão neste andamento,
Que flui pela aleia,
A alameda da cidade,
Que leva de encontro,
À felicidade,
E de onde vamos viver na aleitação,
No aleitamento natural,
Manhã e tarde e noite,
A alimentar com leite,
A alimentar-te como se fosses neném;
Aleitar teu organismo,
Até ficares da cor de leite;
E o nosso lado aleijado,
O nosso aleijão,
O mutilado do nosso ser,
O deformado do nosso espírito,
Não vão mais aparecer;
Nada mais vai nos aleijar,
Deturpar nosso amor,
E todo aleive maldoso,
Aleivosia difamatória,
E calúnia silenciosa,
Cairão por terra,
Sem raízes próprias.

Meu Deus; RJ, 0150401999.

Meu Deus,
Por que não aprendi a pensar?
Se penso logo existo,
Então não existo,
Pois não sei pensar;
Ainda mais pensar rápido,
Com objetividade;
Eu não sei pensar,
Não aprendi a pensar,
E nem a canalizar o pensamento,
Em torno de um bem;
Não aprendi mesmo;
E todo meu pensamento,
É ilógico e sem raciocínio,
Não tem ética e nem rumo;
É sem estrutura e força;
Meu Deus,
Onde vou encontrar,
A fonte do pensamento,
A fonte da inteligência,
Para armazenar dentro de mim
E nunca mais deixar sair?
Dinheiro gera felicidade,
Inteligência também,
E a maior pobreza do homem,
É a falta de inteligência,
De pensamento lógico,
Positivo e real;
Chega de crueldade,
Chega de irrealidade,
Sem o controle firme do pensamento,
O homem desestrutura,
Penso, e penso rápido,
Logo, não existo.

Eu sou quem falo; RJ, 0270301999.

Eu sou quem falo,
Que procuro o novo,
Que procuro a evolução,
Que procuro o progresso;
É mentira, não é verdade, não;
Sou um homem mais do que atrasado,
No passado do pretérito do pretérito,
Nunca cheguei ao presente,
E nem vou estar no futuro;
Sou um caipira,
Um homem da roça,
Um homem do campo,
Um sertanejo, um jagunço, um peão;
Sou um vaqueiro,
Um tocador de viola,
Um guia de carro de boi;
Sou um boiadeiro,
Não tenho boiada,
Nem tenho dinheiro;
Um operário desempregado,
A fábrica está fechada;
Eu sou quem falo,
E ninguém vai me ouvir;
Ninguém vai me atender,
Entender-me e prestar atenção,
Sou um pé no chão,
Sem sapato e sem meia;
Não vou brilhar no amanhã.

Fernando Pessoa, Não sei quem sou; BH, 0270702011.


Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo.
Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros)...
Sinto crenças que não tenho.
Enlevam-me ânsias que repudio.
A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me aponta
Traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha,
Nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo.
Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos
Que torcem para reflexões falsas
Uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore (?) e até a flor,
Eu sinto-me vários seres.
Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente,
Como se o meu ser participasse de todos os homens,
Incompletamente de cada (?),
Por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço."

Quando é que vou saber; RJ, 0290301999.

Quando é que vou saber,
Que estou a agir com lucidez,
Inteligência e sabedoria?
Quando é que vou saber,
Que o que quero,
É o que está certo e correto?
Quando é que vou saber,
Que estou a viver de verdade?
Não estou a fingir e nem a iludir,
Não estou a mentir e nem a enganar;
Natural e simples,
Verdadeiro e real,
Divino e celestial;
Meu bom Deus do céu,
As dúvidas me destroem e matam,
Minha hemorragia sangra sem parar,
E não sei estancar o sangue;
Não quer parar de jorrar;
Não quer coagular o sangue;
O céu está fechado;
As nuvens são grossas e pesadas;
E parece que daqui a pouco,
A tarde chorará também,
Numa hemorragia de água,
Lágrima e sangue;
Tudo por estar perdido,
Sem encontrar solução,
O veio da mina de ouro,
Que tenho na palma da mão,
A um palmo dos meus olhos,
Na ponta do meu nariz,
E fora do raio de minha visão.

O teu ato e efeito de alegares; BH, 040701999.

O teu ato e efeito de alegares,
Tudo o que quiseres contra mim,
De nada vai te ajudar;
O que alegas não tem fundamento,
E as tuas razões apresentadas,
Em juízo e pelas partes,
Que te interessam mais,
Tudo que pode ser alegado,
Um dia pode ser usado,
Contra ti mesmo;
O que apresentas,
Ou mencionas como provas,
As razões que expuseste,
Os pretextos e pretensões,
Tudo que alegaste,
Só vão servir de alegoria para mim,
No processo retórico pelo qual,
Se traduz um pensamento,
Em imagens poéticas,
Que se imaginam,
Como seres animados,
As qualidades e ações;
E cada figura que simbolize,
Uma ideia abstrata;
O teu caso vai ser então,
Um caso alegórico,
E quando tudo for definido,
Só vais me alegrar,
Causar-me alegria,
E tornar alegre o meu ser,
Ao embriagar-me levemente,
Sem beber nada;
Só vou ficar eufórico
E em estado de ligeira embriaguez;
Cheio do que provoca,
Sente ou demonstra
Que está contente,
Com cor viva e vistosa,
Florido como um alegrete,
Um pouco recipiente retangular,
Onde se cultivam plantas e flores,
Jardineira de estufe,
Como tudo que querias,
Era causar-me alegria.

Vou deixar alguns amigos aqui; RJ, 0150401999.

Vou deixar alguns amigos aqui,
Uns amigos verdadeiros, outros
Nem tanto, falsos amigos;
Como existe tanta coisa falsificada,
Pirata e de baixa qualidade,
Também existem amigos falsos,
Piratas e sem qualidades;
Porém, são amigos,
E como vou deixá-los,
Já estou triste,
Pela falta que sentirei de:
Caboclo Bonchão irmão do Bebeco,
Almir Ladrão, Zé Henrique do Coco,
Tatá Magdaleno, Charles e Josias;
Seu Luiz da Cerveginha Preta, Coronel,
Seu Alvacir, Jorge Dorme Sujo, Silvio;
Joel Barriga Dura, João Carbureto,
Didi Pedalada, Brinquedo Assassino,
E toda a turma veterana unida do copo
Nadir Figueiredo: Ventania, seu Manoel
Da Viação Campo Grande, Mário Rosa;
São todos amigos, Manelão,
Verdadeiros ou não;
Só Deus saberá a verdade;
E não posso enumerar todos,
Que o papel seria pouco,
E a tinta da caneta não bastaria;
Perdoem-me aqueles amigos,
Os já falecidos e os vivos,
Que por acaso a memória,
Esqueceu de lembrá-los.

Não vou chegar aos pés de Rainer Maria Rilke; RJ, 0270301999.

Não vou chegar aos pés de Rainer Maria Rilke,
E nem à perfeição,
Das suas "Elegias de Duíno";
E nem vou atingir o êxtase,
Não vou atingir o triunfo,
Das odes de Fernando Pessoa;
Faço o meu feijão com arroz
E farinha, meu angu à baiana,
Meu sarapatel e baião de dois,
Com o meu parco vocabulário,
E meu pobre português;
Se um dia achardes, ou alguém achar,
Que mereça atenção e leitura,
Darei graças a Deus, então;
Bem sei que nada é novo;
E tudo que se pensa,
Já foi pensado;
E tudo que se escreve,
Já foi escrito;
Nada é mais, ou menos feio,
Nada é mais, ou menos bonito;
É que não tenho profissão,
Não estudei e nem tenho diploma,
Sou teimoso e esperançoso,
Fico nesta ideia fixa,
De me transformar num escritor,
De dar à luz a um poeta,
E saber que ninguém vai ler.

A vantagem de nascer morto; RJ, 0290301999.

A vantagem de se nascer morto,
É que não precisa se suicidar,
Nem sofrer e nem chorar;
É a mesma vantagem,
De quem nasceu sem cérebro,
Não precisa pensar;
Se viver já é tão difícil,
E quase impossível,
Imagina então pensar;
Pensar é a tarefa mais dura e árdua,
Que o ser humano tem que carregar,
É a cruz da humanidade;
Pensar dói, cansa, irrita;
Prefiro morrer a ter que pensar;
Quem pensa afunda, não prospera,
E nem sai do lugar;
A vantagem de nascer morto,
É que não precisa entender,
Não precisa compreender,
E nem vai ser chamado de apedeuta;
Não vai dar trabalho,
E nem vai dar explicação;
Nasceu, está morto, natimorto,
Liberou o corpo, sem velório,
Sem enterro, sem burocracia;
Até uma salva de palmas,
Até tiro de canhão,
Bater de sinos e queima de fogos;
É assim que se deveria comemorar,
Quem nasce morto.

Aldeído já estudei; BH, 040701999.

Aldeído já estudei,
É a substância orgânica,
Líquida, muito volátil,
Obtida geralmente,
Por oxidação dos álcoois;
Aldeota já li,
Em Guerra e Paz,
De Leon Tolstoi,
A pequena aldeia,
Iasnaia Poliana,
Onde ele passava os dias,
Para meditações;
E bati com a aldraba,
A argola e peça de ferro;
A aldrava para bater às portas,
E abri-las também;
A tranqueta metálica,
Para baixar e levantar,
O ferrolho de portas e janelas;
E para não aldrabar,
Fechar e bater com aldrava,
E para não aldravar,
E nem pôr aldrava,
Estarei e a porta estará,
Sempre aberta,
Àqueles que precisam,
De um pedaço de pão;
Ao errante aleatório,
Dependente de acontecimento incerto,
Que por acaso batem à nossa porta,
Filhos do casual,
Que o destino lançou às ruas,
A vida abandonou ao léu,
Sem um cheirinho de alecrim,
Da planta odorífera,
Da família das labiadas;
Sem folha e ramo e flor desse arbusto,
Onde homens, mulheres, crianças,
Disputam restos de comidas,
Feito galos de briga,
Num bailar de alectoromaquia,
E lutam entre si,
A herança de vida ou morte.

Maurício; RJ, 0150401999.

Hoje vi o Maurício,
Vi-o de longe;
Com as mãos nos bolsos,
Boné na cabeça,
Magro fiapo de gente,
Encostado à árvore em frente,
Bambo feito o vento;
Da última vez que o vi,
Ele chegou aqui,
Pediu uma cerveja,
Bebeu, e saiu a correr,
Sem me pagar;
Apareceu hoje, depois de tanto tampo,
Todo vermelho, como um pimentão,
Raquítico e caquético;
Ficou a fitar-me, dissimulado,
E depois desapareceu;
Senti pena do Maurício;
É mais um escravo das drogas,
Não se aguenta mais nas pernas,
E não abandona o vício;
Geralmente é assim,
Quando querem abandonar,
A morte não deixa,
A morte é mais rápida;
E se o Maurício não abrir os olhos,
A escuridão vai chegar,
E quanto mais ele tentar respirar,
Mais vai ser puxado para o fundo;
Hoje vi o Maurício,
Em estado lastimável;
Perdi na hora a raiva,
E só a pena,
Tomou conta,
Do meu coração.

Tem hora que a coisa para; RJ, 0290301999.

Tem hora que a coisa para,
E empaca de vez,
Não vai mais para a frente,
E nem para atrás;
Não evolui e nem regride,
Fica estacionada, no espaço,
Parada no tempo,
Longe do momento;
E por mais que se almeje,
Uma fresta de luz,
Um pedaço de abertura,
Uma vibração de esperança,
Chega-se à estaca zero;
Volta-se ao início do tempo,
À criação do universo,
Ao primeiro tudo,
E ao primeiro nada;
Às grandes invenções e descobertas;
O homem aprende a andar,
A chorar e a rir;
O homem aprende tudo,
Aprende a matar, subjugar,
Corromper e guerrear;
Só não aprende a ser homem,
Só não aprende a viver;
Tem hora que falta o ar,
O coração parece parar um segundo,
E a esperança ocupa a alma,
A paz está a vir aí,
O amor está a chegar,
E inda estamos a sonhar.