terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Um beijo agora; RJ, 0240401996.

Um beijo agora,
Não importa a hora,
Não importa o dialeto,
Não falo inglês,
Não falo francês,
E nem alemão;
Um beijo simples, agora,
Na palma do meu coração;
Aproveita assim,
Minhas pálpebras pesam,
E não sei ainda,
O que será de mim,
Se morro, ou se vivo,
Se fico, ou se vou,
A sentir o calor e a vida,
De boca tão querida;
Nada me faz afastar,
Levar-me para longe,
A esperança de conseguir,
Todos os beijos necessários,
À minha sobrevivência;
Obstinam-me e dão força,
Para uma resistência,
Digna de herói,
Nocauteado e lançado por terra,
Por tão estranho furor;
Um beijo agora,
Sou um terminal,
Preciso de extrema unção;
Sou um delírio tremulo,
Um beijo agora,
Na boca do meu coração.

Dói-me; RJ, 0240601996.

Dói-me,
Como me dói,
Esta barragem que trago
Dentro de mim;
Não há explicação,
Não há lógica,
Porque é que tem
Que ser assim;
Não pode ser normal,
Só pode ser doença;
Não sentir falta,
Não sentir necessidade,
Não sentir fome,
Igual a todo homem;
Acabou o apetite,
E como me dói,
Este vazio que sinto,
Esta falta de estímulo;
Preciso botar fogo no pavio,
Dinamitar esta barragem,
Mandar pelos ares,
Esta falta de iniciativa;
Será que realmente,
Só depende de mim?
E porque é que,
Não encontro a resposta?
Não aguento mais,
Esta dor maldita,
Que me mata aos poucos.

Quem faz poema; RJ, 0260501995.

Quem faz poema,
Não cresce nunca;
Quem faz poesia,
Muito mesos ainda;
Não fica adulto,
Não amadurece e
É eterna criança,
Infantil, pueril, menino,
Só falta mijar na cama,
Usar fralda e mamadeira;
Poeta é assim,
Bobo e juvenil e inocente;
Não faz projetos,
Não faz planos,
Não inventa;
Poeta não defende tese,
Não opera e nem advoga;
O verdadeiro poeta,
Não fala que é poeta, disfarça,
Finge e desconversa,
Só versa,
Tramas poéticas,
Não quer outra coisa,
Não é outra coisa;
E nem se preocupa,
Em exibir o diploma,
A criação é tudo;
Não importa as críticas,
Importa só a inspiração,
Que o poeta tira,
Entre o intervalo,
Das batidas do coração.

Ainda bem; RJ, 0260501995.

Ainda bem,
Que mesmo míope,
Posso ver o céu,
As nuvens e o sol,
Posso ver o azul;
Ainda bem,
Que mesmo ao usar óculos,
Posso ver a lua,
As estrelas que cintilam
Soltas no firmamento;
Posso até ficar cego,
E já vi muitas coisas;
Vi a linha do horizonte,
Vi o mar,
O que mais quero?
Posso até morrer,
Morro feliz;
Vi as mulheres bonitas,
Não as tive,
Só as vi;
Não fui nem amigo,
Só expectador,
Gosto só de olhar;
Ainda bem,
Que mesmo deficiente das vistas,
Acompanhei a trajetória incerta,
Do voo certo da borboleta:
Pousou na flor,
Alimentou-se,
E seguiu adiante.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Nanayah; RJ, 0210501995.

Nanayah,
Sempre quis ter uma filha,
Sempre sonhava e imaginava,
A ser pai de uma filha;
Por mais que pensasse,
Por mais que imaginasse,
Jamais saberia por mim mesmo,
Que seria tão bom e gostoso,
Ser pai de uma filha;
É muito bom ser teu pai,
Só não passava por minha cabeça,
A ideia que viria ainda,
A amar-te tanto assim um dia;
É até difícil escrever para sempre,
Até é difícil explicar eternamente,
Aos incautos e aos navegantes,
O que é te amar e amar e amar;
É algo que vibra aqui dentro,
Que em nenhum dicionário,
Vou encontrar a palavra adequada,
Para poder expressar ao mundo,
A sensação de te amar;
Se juntar todos os alfabetos,
Todas as letras possíveis,
Todos os símbolos antigos,
Todas as linguagens modernas
E as que ainda estão
Para serem criadas,
Com toda a parafernália existente,
Nada será suficiente,
Para refletir o amor,
Que sinto por ser teu pai.

Falta de dinheiro, Rio de Janeiro, 1980.

Falta de dinheiro,
Preciso arranjar dinheiro,
Tenho que dar um jeito,
E arranjar algum dinheiro,
E me virar de qualquer maneira;
Entrar em ação,
Dar uma volta no quarteirão,
Não posso ficar aqui,
Plantado no mesmo lugar;
Tenho que dar um jeito,
Arrumar um feito,
Dar um tombo,
No jeito desta vida;
Não posso continuar,
Tão duro assim,
Sem dinheiro e sem nada,
Sem trabalhar e sem estudar;
Preciso abrir os olhos,
Não pode ser possível,
Não pode ser verdade,
Que de repente vou morrer,
Sem um centavo no bolso;
Cair na calçada,
Ir para o Instituto Médico Legal,
Ficar alguns dias no gavetão,
A esperar reconhecimento
E solicitação do corpo,
Que não aparecem
E então vou ser enterrado como indigente,
Ou ficar no gelo, ou no formol,
Para servir de pesquisa e estudo;
Creio que meu cadáver,
De tão podre que se encontra,
Não servirá para pesquisas
E nem servirá para estudos;
A deixar de lado este velho corpo,
Sem utilidade e sem assunto,
O negócio mesmo,
É arranjar dinheiro;
Se aparecesse alguém,
A querer me comprar,
E me venderia Judas,
Por qualquer dinheiro;
Não posso é continuar,
Nesta pitimba assim;
Tenho que revolver a cabeça,
Sair deste estado vago,
Tentar preencher o lugar,
Que me cabe no espaço;
Não posso é continuar,
A padecer sem um tostão no bolso;
E antes de mais nada,
E antes de tudo,
Tenho que me arranjar,
Preciso me arrumar e
Algum dinheiro emprestado,
Ou roubado,
Para poder sobreviver;
Não posso é sofrer,
Não posso é morrer,
Com esta falta de dinheiro.

Minha cabeça; RJ, 0290501987.

Minha cabeça,
Não presta mais;
Não sei usá-la,
Posso muito bem ir,
Para a guilhotina,
Para o garote vil;
Sou um vil,
Tu já me viste,
Alguma vez?
Nunca que não;
O que é pensar?
Não tenho lembrança,
Não tenho memória,
Sofro de amnésia;
Tomo leite de magnésia,
Vou parar na prisão,
Para me sentir seguro;
Qualquer vento qualquer,
Derruba-me por completo
E me quebro todo;
Colem-me com cola,
Peguem meus pedaços,
Será que servem?
Pendurem no quadro,
Procurem o artista
Que pintou,
Esta obra-prima.

Mulher boa mulher linda; Rio de Janeiro de 1980.

Mulher boa mulher linda,
Mulher gostosa, ai, mulher;
Mulher deliciosa, mulher nua,
Mulher pelada, ai, mulher;
Mulher despida, mulher maliciosa,
Mulher maldosa, ai, mulher;
Mulher generosa, mulher sem roupas,
Mulher sem calcinhas, ai, mulher;
Mulher amante, mulher sem sutiã,
Mulher amada, ai, mulher;
Mulher safada, mulher que rebola a bunda,
Mulher mulher, ai mulher;
Mulher sacana, mulher que mexe as nádegas,
Mulher pilantra, ai, mulher;
Mulher maneirosa, mulher cheia de sexo,
Mulher dengosa, ai, mulher;
Mulher cheirosa, mulher lésbica,
Mulher desejosa, ai, mulher;
Mulher doce, mulher ninfomaníaca,
Mulher feminina, ai, mulher;
Mulher a amar, mulher a gozar,
Mulher livre, ai, mulher;
Mulher menina, mulher no orgasmo,
Mulher moça, ai mulher;
Mulher fêmea, mulher sem vergonha,
Mulher bela, ai, mulher;
Mulher bonita, mulher descarada,
Mulher vagabunda, ai, mulher;
Mulher homossexual, mulher sem igual,
Mulher de verdade, ai, mulher;
Mulher no cio, mulher inquieta,
Mulher voluptuosa, ai, mulher;
Mulher gulosa, mulher na dianteira,
Mulher na traseira, ai, mulher;
Mulher malandra, mulher em cima,
Mulher embaixo, ai, mulher;
Mulher libertina, mulher com a língua,
Mulher insaciável, ai, mulher;
Mulher cheia, mulher com a boca,
Mulher completa, ai, mulher;
Mulher total, mulher com tudo,
Mulher pura, ai, mulher;
Mulher rara, mulher suplicante,
Mulher natural, ai, mulher;
Mulher definida, mulher ofegante,
Mulher querida, ai, mulher;
Mulher desejada, mulher autêntica,
Mulher original, ai, mulher;
Mulher charmosa, mulher extra,
Mulher gloriosa, ai, mulher;
Mulher certa, mulher razão,
Mulher noção, ai, mulher;
Mulher felina, mulher selvagem,
Mulher terrível, ai mulher;
Mulher manhosa, mulher gemedeira,
Mulher ação, ai, mulher;
Mulher sussurrante, mulher eterna,
Mulher que gosta de tudo, ai, mulher;
Mulher que não sossega, mulher infinita,
Mulher universal, ai, mulher;
Mulher apimentada, mulher temperada,
Mulher real, ai, mulher.

Solucei; RJ, 0290501987.

Solucei,
Chorei,
Choro sempre;
Um choro mudo,
Sem lágrimas,
Sem pranto,
Sem ruídos;
Só a face contrita,
Só o semblante contraído,
Refletem a dor;
Só assim sinto,
Que estou a chorar,
A chorar em silêncio;
E de que adianta?
Pergunt e repente;
E tinha mais
Era de dar graças a Deus
E não dou;
Não tenho fé
E nem esperança;
E tinha mais,
Era que dar graças,
A todos os santos;
Os santos não existem,
Se existissem,
O mundo seria outro;
Soluço,
Logo, choro.

Corpo louco e doido e maluco e desesperado; Rio de Janeiro, 1980.

Corpo louco e doido e maluco e desesperado,
Corpo morto e podre e sujo e imundo e ruim,
Corpo sem alma e inanimado e inútil e sem corpo;
Corpo sem sangue e sem órgãos e sem mecanismo,
Corpo sem organismo e sem magnetismo e sem atração e sem nada;
Corpo torto e insano e de pano e de lata e de pau,
Corpo de pedra e fedorento e catinguento e sem cheiro e sem odor;
Corpo sem calor e sem eletricidade e sem vida,
Corpo estranho e psicopata e esquizofrênico e debiloide e anormal;
Corpo filosófico e psicológico e para-psicológico e hipnotizado,
Corpo transcendental e espacial e esferoide e galáxia;
Corpo desconhecido e não identificado,
Corpo oculto e opaco e dilacerado e remendado e atormentado;
Corpo torturado e usado e marcado e ferido,
Corpo tatuado e cicatrizado e aberto e fechado;
Corpo sem ser e sem soma e sem célula e sem molécula e sem poder,
Corpo sem matéria e apagado e frio e sem luz e aleijado;
Corpo corcunda e obeso e grosso e pesado,
Corpo calejado e ignorante e inerte e parado;
Corpo acabado e destruído e destituído,
Corpo construído e deformado e transformado;
Corpo em frangalhos e em chagas e em pedaços,
Corpo descoberto e nu e pelado e queimado;
Corpo matado e cansado e desanimado,
Corpo lasso e sem compasso e sem paço e sem passo e sem espaço;
Corpo oco e vazio e vago e vácuo,
Corpo sem calma e sem espírito e sem tudo;
Corpo cego e surdo e mudo e acorrentado e algemado,
Corpo amassado e preso e detido e trancafiado;
Corpo fuzilado e eletrocutado e esfaqueado,
Corpo esquecido e triturado e moído e espancado e linchado;
Corpo violentado e suicidado e agredido e lesado,
Corpo só e sozinho e solitário e abandonado e deixado;
Corpo sem pernas e sem braços e sem cabeça,
Corpo sem sexo e sem ânus e sem nádegas e sem testículos;
Corpo isolado e decepado e separado e longe e fraco e perdido,
Corpo pervertido e feio e incompleto e sem reflexo e sem imagem;
Corpo sem sombra e em coma e dormente,
Corpo afogado e comido e esquartejado e jogado fora;
Corpo salgado e apimentado e temperado e assado,
Corpo sacana e safado e desejado e tarado;
Corpo rasgado e despedaçado e partido e atirado,
Corpo na valeta e na sarjeta e no esgoto e no gueto;
Corpo dolorido e sem raiz e sem nariz e sem guia,
Corpo débil e rebelde  e revoltado e magoado;
Corpo enjoado e vomitado e escarrado e urinado e defecado,
Corpo cuspido e babado e lambido e gosmado;
Corpo mordido e unhado e chutado e chupado e calado,
Corpo sugado e enrugado e envelhecido;
Corpo inválido e incendiado e pulverizado,
Corpo pó e empoeirado e incinerado e espalhado e soprado;
Corpo entulhado e embrulhado e despachado.

Meus olhos fecham; RJ, 0190101992.

Meus olhos fecham
E não posso dormir;
Nada me sensibiliza
E meus olhos ardem,
Queimam igual a fogo;
Não posso fechá-los,
Nada me arrepia,
Sou mais frio
Do que uma pedra de gelo;
Sou mais raso
Do que a superfície;
Não me atinjo,
Não me alcanço;
O inferno não me quis,
O céu me desprezou;
Não sei onde estou;
Meus olhos fecham,
Estou cego;
Deem-me uma esmola,
Pelo amor de Deus;
Deem-me um guia,
Deem-me uma mão;
Alguma coisa,
Deem-me a luz,
O caminho e a vida;
Deem-me fôlego,
Abram meus olhos.

PDG, Alvarenga Peixoto, 1455, 1; Começamos a tomar o caminho de volta; BH, 0240102012.

Começamos a tomar o caminho de volta; depois
Do pai, o oitavo dos dez e o sexto dos homens,
Iniciou a sua jornada de retorno ao
Infinito; poderia ter criado os filhos, ter
Tido netos e convivido mais com os
Seus; mas quem entenderá o destino individual
De cada um? quem contará a saga? o conto?
A história? todo parto só é parto, quando é
Com dor; e todos os partos dele foram com
Dor; o de chegada, para a mãe; e o de
Ida, para todos nós; rimos muitas vezes
Juntos, e agora choramos separados; porém,
Convivemos pouco, é a realidade da
Vida moderna, a impaciência e a
Intolerância; amamos menos ainda
E talvez até odiamos; quem entenderá
O ser humano? temos desprezo, humilhamos
E depois temos remorso; não respeitamos
E depois ficamos com sentimentos de culpa;
A mãe parece firme pedreira geradora de
Rochas sustentada em cima de rochedos;
Agora é cada um procurar deixar a
Sua marca; toda marca além do bem
E do mal, para que não soframos
Com a dor da ida de cada
Um de nós; é triste quando se começa
A tomar o caminho de volta, bem antes
Do tempo, bem antes de ter vivido.

Rio Grande do Norte, 916, 6; Inda o engodo do Banco do Brasil; BH, 0180102012.

Inda o engodo do Banco do Brasil; até
Parece-me que o Banco do Brasil é
Demotucano, ou que ainda vive a
Regência Trina do atraso: Fernando
Henrique Cardoso, José Serra e Marco
Zero Maciel; se o Banco do Brasil
Não evoluiu, não avançou na
Administração moderna de
Luiz Inácio Lula da Silva e na de
Dilma Vana Rousseff, a culpa não
É minha; Banco do Brasil precisa
Sair do lodo, pensar novos
Horizontes, deixar de bancar o
PIG, Partido da Imprensa Golpista
E a REDE GLOBO, que tanto tentam
Desestabilizar justamente o governo
Do qual o Banco do Brasil representa;
E é justamente ali no PIG, Partido
Da Imprensa Golpista e na REDE
GLOBO, que o Banco do Brasil mais
Joga fora dinheiro dos correntistas,
Dos acionistas, dos investidores e
Dos funcionários; ao alimentar os
Inimigos reacionários da Presidenta
Dilma Vana Rousseff, o Banco do
Brasil enfraquece o governo dela
E a si próprio; em suma, o Banco do
Brasil continua a ser um engodo.

Estou a ficar velho; RJ, 0280501996.

Estou a ficar velho,
O tempo está a passar e
Já estou a sentir na pale
O peso do tempo;
Estou a ficar velho,
As pernas tremem,
A barriga desce cada vez mais
E as mulheres já fogem de mim;
Não sei o que vou fazer,
Para sobreviver à velhice;
A memória acabou
E a mente não comanda
Mais o corpo;
Perdi a virilidade,
Tesão e apetite;
Nada me agrada,
Não agrado a nada;
Sou um velho senil,
Decrépito e demente e ultrapassado;
Abandonado por todos,
Por todos desprezados;
E o pior de tudo,
É que não vivi a vida;
Não fiz nada de bom,
Não criei nada
E nem sequer plantei;
Quando o tempo me vergar de vez,
Deixarei de lamentar
E será tarde demais,
Não dará mais tempo,
De correr atrás.

Mulheres mutiladas; RJ, 060701998.

Mulheres mutiladas,
Somos as mulheres mutiladas,
Quando nascemos,
Vieram anjos negros,
Arrancaram nossos clítoris,
Trompas, ovários, úteros;
Deceparam nossas mãos,
Deceparam nossas cabeças,
Mutilaram nossas almas;
Somos mulheres negras,
Brancas e amarelas;
Miseráveis e abandonadas,
Somos as índias escravas;
Padecemos sob a cortina de ferro,
Cobrimos o rosto,
Com o véu da vergonha;
Fugimos do céu,
Por pensar que o nosso destino,
Nunca será a felicidade,
A não ser o fogo do inferno;
Somos as marginalizadas,
As prostitutas e meretrizes;
Começamos na infância,
A vender nossos corpos;
Vivemos na infâmia,
Sem família e lar e sem pão;
Crucificadas em nome da religião,
Subjugadas em nome da sociedade,
Uivamos em nome de nossa liberdade,
Gritamos em nome do prazer,
Nos embriagamos em nome da verdade;
E assim somos nós denunciadas,
As mulheres mutiladas,
Pelos corações insensatos.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Fidel; RJ, 0220101992.

Fidel,
Um ideal,
Líder revolucionário,
Uma força irreal,
Desconhecida e louca;
Um pulso forte,
Capaz de sustentar,
Capaz de frear
O colonialismo,
O imperialismo;
Capaz de frear,
A investida americana,
Sobre a ilha de Cuba;
Destemido e corajoso,
Cruel e bondoso,
Carismático e odiado;
Abençoado por Deus,
Ateu convicto;
Fiel à Revolução,
A dar a própria vida,
Em troca da liberdade;
Fidel,
O homem que sobra em Cuba,
E que falta à humanidade;
Revolução viva,
Morte aos antirrevolucionários;
Viva Fidel,
Viva Cuba.

Que curiosidade pode existir; RJ, 0210401996.

Que curiosidade pode existir,
A ponto de transformar,
Em algum interesse,
Em alguma utilidade,
O que por ventura venha surgir,
Diante dos meus olhos,
Riscado em papel branco,
Pela tinta da caneta,
Segura por meus dedos;
Se minha alma
É um poço de medo,
A coragem não transpõe meu limite;
E por mais que tente,
Buscar um amparo,
Não encontro abrigo,
Para meu ser combalido,
Sem disposição de enfrentar,
As cruezas que o destino,
Lança a frente,
Diante do caminho,
Feito migalhas de pão,
Esmagadas por pisaduras,
De seres fortes e superiores,
Possuídos de mentes poderosas,
Capazes de feitos inacreditáveis;
Mentes iluminadas,
Brilhantes e fosforescentes,
Que ofuscam a própria luz do sol;
E onde não existe noite,
Não existe escuridão,
Só uma luz intensa e eterna,
Onde se pode olhar diretamente,
E a luz não turva,
O olhar da gente.

Aqui nesta folha branca; RJ, 0210401996.

Aqui nesta folha branca,
Vou deixar sangrar,
Como se fosse uma hemorragia,
Uma sinfonia da dor;
Dor de ver este povo,
Sem futuro,
De ver tantos problemas,
Sem soluções;
Vou compor uma sinfonia do silêncio,
Só com gritos de ais,
Com gemidos latejantes,
Com prantos e choros
De crianças desamparadas,
Órfãos esquecidos
Nas calçadas da vida;
Não terá sorrisos,
Pois não há motivos;
Não terá alegria,
Só tristeza e miséria,
Só pobreza e necessidade;
Pois não há justiça,
Com toda dificuldade,
Obstáculo e abismo,
Com todo precipício,
Buraco e montanhas;
Vou deixar fluir,
Esta sinfonia da dor,
Dor infinita e lancinante,
Que ecoa interminável,
A arrasar vidas e almas,
Num sofrimento infernal,
A silenciar mentes,
A ceifar pensamentos.

Não posso entender; RJ, 0220101992.

Não posso entender,
Como uma nação,
Igual a americana,
Ainda sobrevive,
Ainda resiste,
Não foi ao fim;
Não posso compreender,
A União Soviética,
Desintegra-se,
Acaba-se
E o capitalismo sobrevive;
A podridão e a sujeira,
A mendicância e a burrice,
O analfabetismo e a ignorância,
Ainda estão aí,
Representados pela nação americana;
É difícil entrar em minha cabeça:
O fim do céu
E a permanência do inferno.

paopoesiaazia.blogspot.com.br, Esquina do mundo; BH, 0240102012.

Em um estranho,
O mais estranho dos dias,
Nu,
Senti o tempo parar em uma esquina.

Enquanto ardiam de ânsia meus pés descalços,
Sob o teor imóvel do asfalto
O desfiladeiro de um coração frio tragava o mundo.
"Cego como trator;
Voraz como usina!".

Houve uma chuva fria,
De pétalas e flores constituída.

E no instante do mundo no qual:
O espaço dilui e se espalha;
O tempo pára;
O improvável; nada.
A chuva que caía, logo acumulava.
Formava um rio,
Que subia.

De súbito,
Um mergulho profundo.
(...)
Fui com o amor, subindo a serra.

(...)
Enquanto a cidade desmoronava,
O rio seguia.
Em forma e perfume de mulher amada.

Nietzsche, A verdade tem necessidade do poder; BH, 0240102012.

Em si, a verdade não é de forma alguma um poder
 - Seja o que for que digam geralmente os ridículos racionalistas!
 - Pelo contrário, ela deve atrair o poder para seu lado ou deverá
Colocar-se ao lado do poder, de outra forma perecerá sempre
De novo!
Isso foi demonstrado à saciedade!

Nietzsche, As pequenas doses; BH, 0240102012.

Se uma transformação deve se processar tanto quanto possível
Em profundidade, é preciso administrar o remédio em pequenas
Dose, mas sem interrupção, por um longo período de tempo!
O que podemos criar de grande numa só vez?
Evitaremos, pois, trocar, precipitadamente e com violência, as
Condições morais às quais estamos habituados, por uma nova
Avaliação das coisas - pelo contrário, queremos continuar ainda
A viver muito tempo nessas condições - até que, provavelmente
Muito tarde, percebamos que a nova avaliação se tornou
Preponderante em nós e que as pequenas doses às quais, a partir
De agora, devemos nos habituar, produziram em nós uma nova
Natureza.
 - Começamos também a dar-nos a última tentativa de grande
Modificação nas avaliações - aquelas que se referem às coisas
Políticas - quero dizer, a "grande Revolução" - não foi nada mais
Que um patético e sangrento charlatanismo que, por meio de
Crises súbitas, soube inculcar à crédula Europa a esperança de
Uma cura repentina - tornando assim até nossos dias todos os
Doentes políticos impacientes e perigosos.

Nietzsche, Um homem que aspira; BH, 0240102012.

Um homem que aspira a grandes coisas considera aqueles que
Encontra em seu caminho como meio ou como causa de atraso
Ou obstáculo - ou ainda como parada momentânea.
A bondade de alta categoria para com os outros homens, que é
Própria desse homem, não se torna possível senão quando ele
Tiver atingido sua própria altura e começa a dominar.
Certa impaciência e a consciência de ter sido sempre condenado
À comédia - pois a própria guerra não passa de uma comédia e
De um esconderijo, uma vez que todos os meios só servem para
O objetivo - interferem em todas as relações desse homem: esse
Gênero de homem conhece a solidão e o que ela tem de mais venenoso.

Álvaro de Campos/Fernando Pessoa, Trapo; BH, 0240102012.

O dia deu em chuvoso.
A manhã, contudo, esteve bastante azul.
O dia deu em chuvoso.
Desde manhã eu estava um pouco triste.
Antecipação? tristeza? coisa nenhuma?
Não sei: já ao acordar estava triste.
O dia deu em chuvoso.

Bem sei: a penumbra da chuva é elegante.
Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante.
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
Dêem-me o céu azul e o sol visível.
Névoa, chuvas, escuros - isso tenho eu em mim.
Hoje quero só sossego.
Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
Não exageremos!
Tenho efetivamente sono, sem explicação.
O dia deu em chuvoso.

Carinhos? afetos?
São memórias...
É preciso ser-se criança para os ter...
Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro!
O dia deu em chuvoso.

Boca bonita da filha do caseiro,
Polpa de fruta de um coração por comer...

Quando foi isso?
Não sei...

O dia deu em chuvoso.

                                                                                                10/9/1930

Álvaro de Campos/Fernando Pessoa, "The Times"; BH, 0240102012.

Sentou-se bêbado à mesa e escreveu um fundo
Do "Times", claro, inclassificável, lido...,
Supondo, (coitado) que ia ter influência no mundo...
.....................................................................

Santo Deus!... E talvez a tenha tido!

                                                                                         
                                                                                              16/8/1928

Antônio Nobre, À Lisboa das Naus, Cheia de Glória; BH, 0240102012.

Lisboa à beira-mar, cheia de vistas,
Ó Lisboa das meigas Procissões!
Ó Lisboa de Irmãs e de fadistas!
Ó Lisboa dos líricos pregões...
Lisboa com o Tejo das Conquistas,
Mais os ossos prováveis de Camões!
Ó Lisboa de mármore, Lisboa!
Quem nunca te viu, não viu coisa boa...

Ai canta, canta ao luar, minha guitarra,
A Lisboa dos Poetas Cavaleiros!
Galeras doidas  por soltar a amarra,
Cidades de morenos marinheiros,
Com navios entrando e saindo a barra
De proa para países estrangeiros!
Uns pra França, acenando Adeus! Adeus!
Outros pras Índias, outros... sabe-o Deus!

Ó Lisboa das ruas misteriosas!
Da Triste Feia, de João de Deus,
Beco da Índia, Rua das Fermosas,
Beco do Fala-Só (os versos meus...)
E outra rua que eu sei de duas Rosas,
Beco do Imaginário, dos Judeus,
Travessa (julgo eu) das Isabéis,
E outras mais que eu ignoro e vós sabeis.

Luar de Lisboa! aonde o há igual no Mundo?
Lembra leite a escorrer de tetas nuas!
Luar assim tão meigo, tão profundo,
Como a cair dum céu cheio de luas!
Não deixo de o beber nem um segundo,
Mal o vejo apontar por essas ruas...
Pregoeiro gentil lá grita a espaços:
"Vai alta a lua!" de Soares de Passos.

Formosa Sintra, onde, alto, as águias pairam,
Sintra das solidões! beijo da terra!
Sintra dos noivos, que ao luar desvairam,
Que vão fazer o seu ninho na serra.
Sintra do Mar! Sintra de Lord Byron,
Meu nobre camarada de Inglaterra!
Sintra dos Moiros, com os seus adarves,
E, ao longe, em frente, o Rei dos Algarves!

Ó Lisboa vermelha das toiradas!
Nadam no Ar amores e alegrias,
Vêde os Capinhas, os gentis Espadas,
Cavaleiros, fazendo cortesias...
Que graça ingênua! farpas enfeitadas!
O Povo, ao Sol, cheirando às maresias!
Vêde a alegria que lhe vai nas almas!
Vêde a branca Rainha, dando palmas!

Ó suaves mulheres do meu desejo,
Com mãos tão brancas feitas pra carícias!
Ondinas dos Galeões! Ninfas do Tejo!
Animaizinhos cheios de delícias...
Vosso passado quão longínquo o vejo!
Vós sois Árabes, Celtas e Fenícias!
Lisboa das Varinas e Marquesas...
Que bonitas que são as Portuguesas!

Senhoras! ainda sou menino e moço,
Mas amores não tenho nem carinhos!
Vida tão triste suportar não posso.
Vós que ides à novena, aos Inglesinhos,
Senhoras, rezai por mim um Padre-Nosso,
Nessa voz que tem beijos e é de arminhos.
Rezai por mim... Vereis... Vossos pecados
(Se acaso os tendes) vos serão perdoados.

Rezai, rezai, Senhoras, por aquele
Que no Mundo sofreu todas as dores!
Ódios, traições, torturas, - que sabe ele!
Perigos de água, e ferro e fogo, horrores!
E que, hoje, aqui está, só osso e pele,
À espera que o enterrem entre as flores...
Ouvi: estão os sinos a tocar.
Senhoras de Lisboa! ide rezar.

Mário Quintana, (XIX); Dos Milagres, BH; 0240102012.

O milagre não é dar vida ao corpo extinto,
Ou luz ao cego, ou eloquência ao mudo...
Nem mudar água pura em vinho tinto...
Milagre é acreditarem nisso tudo!

Tomás Antônio Gonzaga, Lira XVIII; BH, 0240102012.

Eu, Glauceste, não duvido
Ser a tua Eulina amada
Pastora formosa,
Pastora engraçada,
Vejo a sua cor-de-rosa,
Vejo o seu olhar divino,
Vejo os seus purpúreos beiços,
Vejo o peito cristalino;
Nem há coisa, que assemelhe
Ao crespo cabelo louro.
Ah! que a tua Eulina vale,
Vale um imenso tesouro!

Ela vence muito, e muito
À laranjeira copada,
Estando de flores,
E frutos ornada.
É, Glauceste, os teus Amores;
E nem por outra Pastora,
Que menos dotes tivera,
Ou que menos bela fora,
O meu Glauceste cansara
As divinas cordas de ouro.
Ah! que a tua Eulina vale,
Vale um imenso tesouro!

Sim, Eulina é uma Deusa;
Mas anima a formosura
De uma alma de fera;
Ou inda mais dura.
Ah! quando Dirceu pondera
Que o seu Glauceste suspira,
Perde, perde o sofrimento,
E qual enfermo delira!
Tenha embora brancas faces,
Meigos olhos, fios de ouro,
A tua Eulina não vale,
Não vale imenso tesouro.

O fuzil que imita a cobra,
Também aos olhos é belo:
Mas quando alumeia,
Tu tremes de vê-lo.
Que importa se mostre cheia
De mil belezas a ingrata?
Não se julga formosura
A formosura, que mata.
Evita, Glauceste, evita
O teu estrago, e desdouro;
A tua Eulina não vale,
Não vale imenso tesouro.

A minha Marília quanto
À natureza não deve!
Tem divino rosto,
E tem mãos de neve.
Se mostro na face o gosto,
Ri-se Marília contente:
Se canto, canta comigo,
E apenas triste me sente,
Limpa os olhos com as tranças
Do fino cabelo louro.
A minha Marília vale,
Vale um imenso tesouro.

Babilak Bah, Nascimento do Eu; BH, 0240102012.

Escalar a ponte do íntimo
Ressuscitar o amigo
Intimado
A ter amor no próximo
Amigo íntimo
Intimado
Partiu na tempestade
De um sonho rápido
Precipitado pelo coração.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Paul Claudel, A santa face; BH, 0230102012.

Certa imagem não poderias apagar de teu coração.
E esta imagem é precisamente aquela gravada no pano de Verônica.
É uma face fina e longa, contornando-lhe o queixo três tufos de barba.
Sua expressão é tão severa que intimida, e tão santa
Que o velho pecado, em nós organizado,
Estremece em sua raiz original, e a dor que ela exprime é tão profunda
Que, surpresos, ficamos parecendo com os filhos que, sem
Compreender, vêem as lágrimas do pai: ele está chorando!
Em vão, bem que desejarias, ó Ivors, desfraldar diante desses olhos
A glória e o esplendor do mundo.
Esses olhos que levantando-se, criaram, num relance, o Universo.
Estão baixos agora e deles descem lágrimas severas;
Sua fronte está suando gotas de sangue.
Mas, considera, ó meu filho, a boca de teu Deus, a boca , ó meu filho, do Verbo.
Que amargor está sentindo, que palavra visceralmente inefável está saboreando.
Pois estes lábios, no canto direito, se entreabrem num sorriso atroz.
Como chora com todo o seu ser, deixando a saliva escapar, igual a uma criança!
Pão não haverá para nós, ó meu filho, enquanto existir esta dor a consolar.
Eis a dor do filho do Homem que desejou provar e assumir o nosso crime.
Eis a dor do Filho de Deus.
Não poder apresentar ao Pai o homem todo no mistério da Ostensão.

Mário Quintana, Viagem; BH, 0230102012.

O sono é uma viagem noturna:
O corpo - horizontal - no escuro
E no silêncio do trem, avança,
Imperceptivelmente avança...
Apenas o relógio picota a passagem do tempo.
Sonha a alma deitada no seu ataúde:
Lá longe
Lá fora
No fundo do túnel,
Há uma estação de chegada
(Anunciam-na os galos agora)
Há uma estação de chegada com a sua tabuleta
Ainda toda orvalhada...
Há uma estação chamada...
AURORA!

Llewellyn Medina, No mês de maio; BH, 0230102012.

No mês de maio
O Rio de Janeiro começa a esconder
A claridade boreal de seus dias
Anunciando que vem aí o inverno.

As pessoas vestem coloridos casacos
E andam contidamente
Com as mãos nos bolsos
Como se guardassem tesouros
Ávidos de ser despojados.

O céu esconde um azul
Sob espessas camadas de cinzentas nuvens
Que o sol timidamente espeta aqui e ali.

As folhas das amendoeiras enrugam-se
Antevendo os dias de inverno
Que elas sabem estão por chegar.

No fim da tarde
O sudoeste sopra silenciosamente
Ferindo o corpo lânguido do carioca
Como se pontiagudas lanças o tocassem.

O mar é cinzento
Encapela-se mas com suavidade
E a praia um cenário de filme de ficção
Vazia
Exceto por um ou outro surfista
Que sonda o horizonte
Na esperança vã de uma "wave".

Com a noite
As luzes espetam-se nos postes altos
Os carros passam em vagarosa procissão
Os faróis acesos ao longe
Parecem vaga-lumes dançando graciosa coreografia

Não se vê a lua
Mas todos sabem que ela está lá
Pois a lua não abandona o Rio
Nem mesmo nas noites
Nas soturnas noites de maio.

Manoel de Barros, Ruína; BH, 0230102012.

Um monge descabelado me disse no caminho:
"Eu queria construir uma ruína.
Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução.
Minha ideia era de fazer alguma coisa ao jeito da tapera.
Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono,
Como as taperas abrigam.
Porque o abandono pode não ser apenas de um homem
Debaixo da ponte, mas pode ser também de um gato no
Beco ou de uma criança presa num cubículo.
O abandono pode ser também de uma expressão que tenha
Entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra.
Uma palavra que esteja sem ninguém dentro.
(O olho do monge estava perto de ser um canto.)
Continuou: digamos a palavra AMOR.
A palavra amor está quase vazia.
Não tem gente dentro dela.
Queria construir uma ruína para a palavra amor.
Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de
Um monturo."
E o monge se calou descabelado.

Manuel Bandeira, Oceano; BH, 0230102012.

Olho a praia. A treva é densa.
Ulula o mar, que não vejo,
Naquela voz sem consolo,
Naquela tristeza imensa
Que há na voz do meu desejo.

E nesse tom sem consolo
Ouço a voz do meu destino;
Má sina que desconheço,
Vem vindo desde eu menino,
Cresce quanto em anos cresço.

 - Voz de oceano que não vejo
Da praia do meu desejo...      

Tito Júlio Fedro, O burro e o Leão caçadores; BH, 0230102012.

O (indivíduo) carente de valentia, que galanteia vantagem
Em conversa, engana a quem o desconhece, (porém) fica
Alvo de irrisão para quem o conhece.
Como o leão quisesse caçar, tendo um burro por parceiro,
Revestiu-o de folhagem e ordenou que, de imediato, aterrasse as
Feras com voz esquisita, enquanto ele as surpreenderia na fuga.
Então o orelhudo, com toda a força, soltou um zurro alto e repentino.
Com (esse) inesperado fragor (ele), espantou os animais.
Aqueles enquanto apavorados, dirigiam-se para os atalhos
Costumeiros, eram abatidos pelo golpe terrível do leão.
Este, já fatigado do extermínio, ordena ao burro que reprima o som.
Ele então, petulante (pergunta):
"Que tal a serventia para ti de minha voz!?"
"Enorme", disse (o leão), "se eu não conhecesse teu tipo e
(Tua) raça, teria fugido com medo igual."

Casimiro de Abreu, Violeta; BH, 0230102012.

Sempre teu lábio severo
Me chama de borboleta!
 - Se eu deixo a rosa do prado
É por ti - violeta!

Tu és formosa e modesta,
As outras são tão vaidosas!
Embora vivas na sombra
Amo-te mais do que às rosas.

A borboleta travessa
Vive de sol e de flores...
 - Eu quero o sol de teus olhos,
O néctar dos teus amores!

Cativo de teu perfume
Não mais serei borboleta;
 - Deixa eu dormir no teu seio,
Dá-me o teu mel - violeta!

Abrenúncio!; BH, 03001001999.

Abrenúncio!
Credo, sai, demônio,
Longe de mim,
Não vou me abrenhar
Em tuas trevas,
Meter-me em teu fogo
Nas tuas brenhas;
Não vou me embrenhar
Em tuas entranhas;
Vade retro,
Belzebu;
Quero renunciar a ti,
Rejeitar e negar,
Repelir e reprovar;
É a tua abrenunciação,
Fiz o ato de te abrenunciar;
Caia fora,
Vai para o teu lugar;
Já estão até a dizer,
Que existe por aí,
Um boneco meu,
Coberto de espinhos,
Agulhas e alfinetes;
Mas na tua malha,
E não vou cair;
O único espinho,
Com que quero me ferir,
É com o que tirou sangue,
Da cabeça de Jesus;
Aquele sangue me banhou,
Lavou-me e abençoou;
Não cola querer agora,
Vir subjugar-me.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Cobri-me de amuletos; BH, 03001001999.

Cobri-me de amuletos
E pedras preciosas gravadas,
Com caracteres que se tomavam
Numericamente, para simbolizar,
Os trezentos e sessenta e cinco dias,
Do ano de minha vida,
E cuja leitura dava,
À palavra mágica Abraxas,
A chave que procuro
E que vai me abrir,
E que vai me libertar
E dar-me a liberdade
E a razão de viver;
E encontrar minha utopia,
Meu sonho de canalizar,
E acabar o pesadelo
E me fazer conservar,
No produto químico abrastol,
Derivado de naftol,
Que usa-se na conservação,
Do vinho e dos alimentos;
E um abraxa perdido,
Inseto lepidóptero nocivo,
Da família dos Geometrídeos,
Vou abrasonar minha alcunha,
Conferir brasão ao meu vulgo,
A por brasão em tudo,
Que me refleti na lama;
E abrasoar a alma,
Espírito e ser,
Guardar tudo no guarda roupa,
Até parar de feder.

Coryplospingus pileatus; BH, 03001001999.

Coryplospingus pileatus,
Era o nome de uma ave,
O abre e fecha,
Que hoje fecha
E não abre mais;
E o medo que carrego,
Nem com o instrumento,
Para forçar a abrir a boca,
Vai-me fazer falar;
Abre-boca muda,
E a covardia que trago,
Passa pela declaração emocional,
Ou desabafo pela retratação
Da penosa situação reprimida,
Por ser conscientemente
Intolerável e aceito;
É o efeito terepêutico
Da ab-reação produzida
Pela expansão das minhas emoções,
Angustiosas extremas,
Ansiosas compulsivas,  a libertar-se;
Só com muito abre e ambrazô,
Muita cachaça e ambrozô
E tira-gosto de abrazô,
Comida de origem africana,
Em forma de pequenos bolos,
Feitos de farinha de milho,
Ou de mandioca e azeite de dendê,
Pimenta e outros temperos
E fritos no mesmo azeite;
Para me fazer esquecer,
Afogado até a alma,
A suspirar e soluçar até o espírito.

Ao meu irmão Andrey Robson Medina Santos; BH, 050502002.

Ao meu irmão Andrey Robson Medina Santos:
Passei por um eletrocardiógrafo, aparelho com o qual
Se tira o eletrocardiograma, gráfico das oscilações da
Corrente elétrica, que se gera no músculo cardíaco
E nem percebi realmente, se fui o que passei
Por ele ou se ele o que passou por mim; levei até
Eletrochoque no processo terapêutico baseado
Na provocação de crises convulsivas através da
Eletricidade aplicada sobre o encéfalo,
Durante curto prazo e com isso quase aprendi
Tudo sobre a electrocinética, estudo das correntes
Elétricas; entendi a eletrocoagulação que é
A técnica de destruição de tecidos por correntes
Elétricas de alta frequência; a eletrocoagulação
Permite a retirada de certos tumores sem risco de
Disseminação e nem de hemorragia; é assim que
Quero apresentar a minha eletrodinâmica,
Parte da física que estuda as ações das
Correntes elétricas, e nem mesmo sei porque;
Confesso que sou um confessional eletrodinâmico,
Que produz corrente elétrica, ou é produzido
Por ela e só o que mente não o é, pois toda
Mentira que fala, quer transformá-la
Em verdade, já que mentira queima o
Eletródio, no ponto pelo qual uma corrente
Elétrica penetra num corpo; um dos condutores
Que mergulham no banho eletrolítico; são
Pois: o positivo e o negativo e que capta o
Elétrodo através da eletroencefalografia, método
De exploração cerebral através dos registros das
Manifestações bioelétricas das células nervosas; pode
Analisar a eletrencefalografia, o eletroencefalograma,
No traçado obtido pelo registro de potenciais
Elétricos de neurônios encefálicos; dizem que
As ondas variam de amplitude e de frequência
Conforme a atividade do cérebro, e espero
Que o meu ainda não esteja apagado e
Muito menos queimado por um curto-circuíto,
Uma migração maléfica, ou movimento indefinido
De proteínas, ou partículas coloidais, sob ação de
Um campo elétrico, numa eletroforese irregular,
Pois não quero parar de gerar, como o eletróforo,
Aparelho que gera eletricidade estática por
Indução, só que a minha, gostaria que
Fosse natural, nada de eletrogalvânica ou
Relativo à pilha voltaica ou seus efeitos, o
Eletrogalvanismo, com o conjunto dos fenômenos
Eletrogalvânicos, enfim, chegar à conclusão,
De que sou um eletrogêneo, algo que produz
Eletricidade, um eletrógeno, que pela
Eletrografia, escreve sem a aplicação
Da galvanoplastia à produção direta,
Lâminas gravadas pela ação da corrente
Elétrica; sou este batalhão de choque todo
Descrito aí acima, para dispor e formar madeixas
Na literatura, emadeixar as letras e palavras com
O emagrecimento do texto, a emaciação da
Linguagem e não embrulhar quem ler; não
Reuni em maço desigual o conteúdo, para
Não emaçar o produto em tudo que corresponde
A preposição em e exprime a ideia de introdução, de
Movimento para dentro ou para algum lugar; tem
A tendência, revestimento para embarcar e empilhar
Sem empobrecer a metáfora e emplumar a retórica,
Mudar o sofisma, antes da consoante que não seja
Aquela e nem antes da vogal que não seja esta:
Enterrar o cadáver interior; entesourar as minas do
Âmago, enovelar as soluções e as resoluções para
A forma culta ir aos que mantêm-se em influir,
Incrustar a joia no coração, a ingerir pétalas de rosas,
Perfumes de flores e a investigar o esconderijo
Da verdade e a origem do amor, para espantar
A fobia aos gatos da guerra, a elurofobia a qualquer
Felino carnívoro e correr para o amparo do
Élitro, asa anterior dos coleópteros de consistência
Córnea e sem nervuras, que protege durante o
Repouso a asa posterior membranosa do período
Elisabetano, onde repousa tudo que é relativo
À rainha Elisabete I da Inglaterra (1533-1603) e
À sua época; canto com a minha boca que
Tem abertura em forma de elipse, conto com
Legado elipsóstomo, com raízes de elipsospermo,
Sementes elípticas, semântica elipsóide, romance
Elipsoidal, texto elipsiógrafo, importante como
Instrumento para traçar elipses, para desvendar o
Ser eleuterógino, da flor quando o ovário
Não adere ao cálice do vinho das eleutérias
E das festas em honra de Zeus Libertador (Eleutério),
Em Platéia, (Grécia antiga), para comemoração
Da vitória de Pausânias sobre os persas e ainda
Do vinho das eleusínias, festas em honra de
Ceres, realizadas em Elêusis (Grécia); travei no
Eleuterantéreo, estames quando as antenas
São livres; e não destravei nem com eletuário,
Medicamento composto de pós, extratos e folhas de
Vegetais, de mistura com mel ou açúcar;
Continuei travado no cosmético, na eletrotécnica, estudo das
Aplicações técnicas da eletricidade, tal a eletropuntura,
Tratamento médico que consiste em fazer
Passar corrente elétrica nos tecidos por meio
De agulhas em contato com eles e, em alguns
Casos implantados nos tecidos; só destravei
Então, com o eletropositivo, com o elemento,
Ou o radical que na eletrólise se dirige
Ao catódio, os metais, o hidrogênio, etc e tal.

e. e. cummings, Carrego o seu coração comigo; BH, 0200102012.

Carrego seu coração comigo
Eu o carrego no meu coração
Nunca estou sem ele
Onde eu for, você vai, minha querida
Não temo o destino

Você é meu destino, meu doce
Não quero o mundo pois, beleza
Você é meu mundo, minha verdade
Eis o segredo que ninguem sabe
Aqui está a raiz da raiz


O broto do broto
E o céu do céu
De uma árvore chamada vida
Que cresce mais do que a alma pode esperar
Ou a mente pode esconder


E esse é o prodígio
Que mantém as estrelas à distância
Carrego seu coração comigo
Eu o carrego no meu coração

e. e. cummings, Eu gosto; BH, 0200102012.

Eu gosto do seu corpo
Eu gosto do que ele faz

Eu gosto de como ele faz
Eu gosto de sentir as formas do seu corpo

Dos seus ossos
E de sentir o temor firme e doce

De quando lhe beijo
E volto a beijar

E volto a beijar
E volto a beijar

e. e. cummings, Nalgum lugar; BH, 0200102012.

Nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
De qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
No teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
Ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

Teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
Embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
Me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(Tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa

Ou se quiseres me ver fechado, eu e
Minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
Assim como o coração desta flor imagina
A neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

Nada que eu possa perceber neste universo iguala
O poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
Compele-me com a cor de seus continentes,
Restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(Não sei dizer o que há em ti que fecha
E abre; só uma parte de mim compreende que a
Voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
Ninguém, nem mesmo a chuva,tem mãos tão pequenas

Nara e Elis: duas vozes, o mesmo país!; BH, 0200102012.



Elis Regina desafiava as notas altas com talento e foi uma estrela de máxima grandeza. Nara teve uma carreira ilimitada apesar da voz limitada nos agudos e graves. Embora nunca tenham sido amigas – e os motivos para o fato são discutíveis – quis a história, essa tirana, que as duas compartilhassem uma data em comum, 19 de janeiro, aniversário de Nara, morte de Elis em 1982. Nara faria 70 nesta quinta!

Por Christiane Marcondes


“Um dia ou a gente se enquadra ou pega estrada”, preconizou o escritor e beatnik Jack Kerouac, referindo-se a uma decisão que vem com a idade. Elis Regina e Nara Leão pegaram estrada aos 11 e jamais se enquadraram. Nara, porque ganhou um violão que enfiou embaixo do braço e saiu por aí. Elis porque na mesma idade começou a cantar em programa de rádio para crianças, O Clubi do Guri. A primeira nasceu no Espírito Santo, em 1942, cresceu em Copacabana quartel-general da bossa nova, a segunda nasceu em 1945 no Rio Grande do Sul, cresceu no Brasil da MPB. 

Nara e a bossa nova se confundem. Ela foi considerada a “musa” do movimento e arregimentou os “narólogos”. Ou os apaixonados por seus joelhos que, comportadamente, ficavam à mostra enquanto a moça tocava violão no banquinho. 

No programa Ensaio, da TV Cultura, Nara recorda que Insensatez foi uma das primeiras músicas populares no grupo de bossa nova, ainda amador na época. Elis Regina também gravou a música de Tom Jobim, mais de dez anos depois.


Insensatez – Nara Leão


How insensitive – Elis Regina – em um show na Itália em 1972


Tom Jobim


Corcovado foi outra bossa do Tom que conquistou uma e outra, a suave e a irreverente. O maestro foi parceirão das duas em tempos diferentes, de Nara logo cedo, quando a bossa nova ainda dizia a que vinha e ganhava um contorno conceitual com o “desafinado” de João Gilberto. Foi admiração mútua, tanto que das 24 músicas selecionadas para um disco de Nara em 1971, 19 eram do Tom, uma delas, Corcovado.

Em 1974, Elis Regina convidou o maestro para gravar um LP só de duetos, entrou para a história. Corcovadoestava na lista das músicas, aliás, já estava no repertório de Elis desde 1972, quando foi muito bem apresentada em um show na Itália.


Nara Leão - Corcovado


No vídeo a seguir, antes do Corcovado se descortinar na música, é a “pimentinha” que se abre em monólogo, confessando-se “mais desvairada” do que nunca.



A banda passou


Na década dos grandes festivais de música, 1960, as duas e todos os grandes nomes da música brasileira se cruzavam nos bastidores da TV Record, palco do evento. Num desses esbarrões, Elis Regina conheceu Chico Buarque, mas acabou desistindo de gravá-lo devido à impaciência com a timidez do compositor, confessou.

Já Nara e Chico entraram em sintonia justamente por causa da timidez, bom, a história dos dois é conhecida e longa, começa quando a musa da bossa nova o lançou. Em 1966, apresentaram A Banda, de Chico, na 2a edição do festival da TV Record. 


Na verdade, Nara iria cantar sozinha, mas quando Manoel Carlos, o dramaturgo e amigo da dupla, ouviu o arranjo instrumental, deu a dica para Chico cantar. A voz de Nara seria abafada pelos instrumentos. Deu certo! Chico começa, Nara arrebenta.



A voz maior e a letra mais linda

Em 1968, na 3ª edição do festival, Elis ganhou prêmio de melhor intérprete, e subiu ao palco pouco antes de Nara Leão, que ganhou pela melhor letra, de Sidney Miller.


Bôscoli e o barquinho

Ronaldo Bôscoli, o primeiro amor de Nara, ela tinha cerca de 16 anos, dedicou-lhe a canção Lobo bobo e Se é tarde me perdoa, quase se casaram, não fosse a impetuosidade de Maysa, que embalouo moço  pra presente e anunciou à mídia um casamento que nunca houve. 

Nara e Bôscoli estavam comprometidos quando os jornais deram a manchete. A cantora não se fez de rogada, ignorou explicações do noivo e foi à luta. De Bôscoli, ficou para o grande público fã de Nara, a gravação de O barquinho, reprodução poética de uma cena real de quando os dois namoravam e quase naufragaram, com Menescal no mesmo barco, o autor da melodia.






Elis, outra coincidência entre as duas, também amou Bôscoli -- muito a contragosto, porque tinha uma antipatia pessoal pelo músico antes de conhecê-lo -- e com ele se casou em 1967, tiveram um filho, João Marcelo. Em 1971, apresentou sua versão de O barquinho na Itália. O casamento naufragava como na cena em que a canção foi originariamente concebida.

O barquinho – Elis - 1972 – Itália



Anos de chumbo


Em 1964, Nara Leão já havia deixado "a moça, o sorriso e a flor" de lado, por influência de Carlos Lyra, que era da esquerda e da UNE. Protagonizou o show “Opinião”,  com direção de Augusto Boal. No repertório, a música do morro “tem vez”, com Zé Keti e João do Vale assinando as composições. Foi considerado subversivo.

Opinião 


Não bastasse, Nara deu uma entrevista contundente, repudiando a ditadura. Depois teve medo, desabafou com Ferreira Goulart, repórter e amigo. Não precisou fugir, o poeta Carlos Drummond de Andrade veio espontaneamente em sua ajuda e escreveu um poema que terminava com um refrão “não prendam Nara Leão”. Era o pedido público de um ícone da literatura nacional a um bambambã entre os militares. Deu certo!

Da Bahia sob medida


No show Opinião, Nara também cantava Carcará, um dos pontos altos:



Quando Nara perdeu a voz em meio ao show e foi proibida pelo médico particular de cantar, a musa indicou uma estreante desconhecida para seu lugar, uma baiana que conhecera em suas andanças pelo Brasil: Maria Bethânia. Com apenas 17 anos, Dona Canô só autorizou a ida da filha ao Rio acompanhada do irmão, Caetano Veloso.

No final da música, Bethânia emenda a letra com um texto sobre a migração do povo nordestino para os grandes centros urbanos brasileiros. Platéia abaixo!






O Brasil que sonha


No auge da ditadura, Nara exilou-se em Paris com o marido, o cineasta Cacá Diegues. Elis ficou! Em 1979, entrou em nova turnê de shows e apresentou “O bêbado e a equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc. Verdadeiro hino da anistia.

E aqui as duas mudaram de papel: Nara já havia sido dura ao dar a sua "opinião" em 1964, Elis foi a um tempo doce e pungente, cantou a volta do sonho e de "tanta gente que partiu num rabo de foguete".




Xeque-mate

Os militares se foram, as duas lutadoras continuaram. Elis Regina morreu de overdose, aos 36 anos, Nara, de morte anunciada, aos 47. Mas as duas brigaram muito pela vida. Nara se foi depois de dez anos enfrentando um câncer na cabeça, em 1989, sete anos depois da pimentinha.

No infinito, onde as duas ainda brilham para quem acredita, talvez tenham finalmente feito as pazes, afinal, ninguém sabe, nem elas, qual foi a briga. 

Elis fez uma autocrítica em uma entrevista que talvez explique a distância entre ambas: "Eu sou esquentada. Tem gente que é calma, a Nara Leão, por exemplo, é uma pessoa que tem uma paciência histórica, sentou, esperou tudo acomodar e fez um disco certo. Aliás, ela sempre faz as coisas certas nas horas corretas e para as pessoas exatas. Eu sou guerreira e pego a metralhadora para sair atrás de quem me enche o saco".

E Elis, digam o que disserem seus críticos, metralhou as querelas do Brasil e cantou a romaria dos que nem sabem rezar, mas precisam de luz na mina escura e funda da vida. 





(http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=173569&id_secao=11)