segunda-feira, 30 de julho de 2012

Noturno Nº 6; BH, 090702011.

Bebi da água que não matava minha
Sede e comi da carne que não me
Saciava; dormi o sono que me deixava
Com mais sono e sonhei o sonho
Que me mostrava os pesadelos da
Realidade da minha vida; e por
Tempo que vivi foi com sede,
Foi com fome, com sono e sem
Sonho; como almejaria que Deus
Segurasse a minha mão quando
Escrevo para não tremer a letra
De insegurança e intranquilidade
Neste tortuoso papel; bebi o sangue
Que não era meu, sabias? era um
Sangue sagrado, grosso, quente,
Consistente, dava para fazer um
Molho pardo; e em cada esquina
Em busca de um trago, alimentava a
Minha sede; e em cada esquina
Um pedaço de carne não escolhida
Para tira-gosto; qualquer parte de
Cadáver servia para ser seviciada;
Umas carnes eram tenras, lavadas
Com leite materno, perfumadas
Com hormônios de rainhas, naturais
Abelhas doces; outras eram carnes
Cavernosas, nervosas, com nervuras
Expostas, carcomidas pelas feridas
Dos hematomas hermafroditas;
Bebi lágrimas e salivas; bebi óvulos
Fecundados; bebi babas e a sede de
Sempre continuava saariana; e no
Último pedaço de carne, meio crua,
Engasguei-me, não passei pela uretra
E morri afogado num vaso sanitário
De banheiro de bar de zona de boêmia.

Noturno Nº 5; BH, 090702011.

Excitado e com uma comichão na mente,
Um ente meu, saído de mim, eriçado,
Não sabe colocar no lugar de destaque,
A palavra certa de todas as infinitas que
A linguagem do mundo inventa a
Cada segundo; rasteja a procurar uma
Letra perdida do mais perdido dos
Idiomas, e quer comunicar-se com outros
Entes saídos de outros seres, e que
Tenham conhecimento da chave do
Pensamento; o vento traz mistérios e
Soluções, desvenda enigmas e quebra
Paradigmas, causa ilusão e muda
De lugar o cisco do quintal; o navegante,
Então, chega às estrelas; fez uma escada
De poeira e subiu degrau por degrau
Na escala sideral; e quando levitou,
Olhou e viu o aquém atrás de si;
Todos os tempos não eram mais tempos,
Os universos estavam controlados e os
Astros eram imãs catastróficos, caos
De agulhas magnetizadas, transe
De átomos prestes a serem quebrados,
Lamúrias de moléculas eternamente
Coesas então separadas e destinadas
A simples antimatérias; irmãs gêmeas
Siamesas, de repente viram-se umas
Às outras de bilionésimos anos-luz
De distância; queriam um último
Abraço, um afago, um carinho e
Não podiam mais; lágrimas frias
Petrificadas eram tudo que podiam
Falar em frenesi, em clímax, em
Um gozo de jorro de energia do impacto
Deste universo com a lucidez presente
Naqueles que cultuam a loucura.

sábado, 28 de julho de 2012

Noturno Nº 4; BH 090702011.

No silêncio da madrugada, quando
Os grilos dormem, os insetos não
Voam e qualquer ruído gera um
Barulho, murmuro ao sussurro da 
Fonte do jardim: o que será que 
A água quer de mim? não posso 
Falar, cicia o sussurro num suspiro
Ao meu ouvido; a madrugada soluça
Num zumbido de zumbis; meus 
Ouvidos estão atentos ao latejar
Do vento; paira tudo um certo
Momento e penso que deixarei
De existir, morrerei quando
Não vier a madrugada; penso
Que não tenho uma namorada
Para compartilhar o romantismo;
Aí, assédio a água da fonte; cobiço
As névoas noturnas e soturno,
Espero enquanto Saturno, saturado,
Não pensa que é eternizado na 
Posteridade perpétua de uma poesia;
Todos os santos dormem; os fantasmas
Se recolhem; ficam os poetas solitários
A sonhar com namoradas, a beijar
Mulheres imaginárias, a esculpir
Nos escombros indefinidos, corpos
Esculturais de musas divinais;
Olho o tempo parado; nem sinal
De movimento; meus pensamentos
Dormem agora indolentes; aqui,
Necessitado de companhia, sozinho
Nesta encruzilhada de linha do 
Horizonte com meu destino, e das 
Paralelas com as minhas passarelas...
Um carro estúpido, então, põe tudo
A perder ao me tirar da solidão.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Noturno Nº 3; BH, 060702011.

À noite os fantasmas saem para caçar; fogem
De museus, mosteiros, fortalezas, castelos;
Cemitérios, tumbas, escombros, galerias,
Bibliotecas, pinacotecas, masmorras, calabouços;
Sanatórios, hospícios, senzalas, aldeias, terreiros, quintais;
Livram-se das peças antigas onde estão
Ligados, das artilharias ultrapassadas; dos 
Corredores por onde vagam, das sepulturas
Esquecidas, das lápides em ruínas, dos entulhos;
Dos espaços vazios, das páginas dos livros
Antigos, das telas e molduras dos quadros;
Das argolas e das correntes, das penumbras
E das trevas, das almas relhadas nos 
Pelourinhos; dos espíritos sacrificados
Nos totens, dos batuques dos atabaques
E ciscos levantados do chão nos redemoinhos
Do pé de vento; e caçam os desprevenidos
E aparecem para aqueles que não podem 
Vê-los; trocam de vestuários nos sótãos, confabulam
Nos porões e escondem-se nos espelhos para 
Assustar as imagens dos imperceptíveis; e bolinam
Os corpos das virgens com seus hálitos
Seculares e soltam suas risadas de auspícios,
Seus risos de agouros, suas gargalhadas alienadas;
E aos primeiros raios que conseguem se desgarrar
Do sol, alucinam-se em suas feridas crônicas,
Suas cicatrizes e tatuagens silenciosas;
E voltam às suas tocas, ocupam seus devidos
Lugares, satisfeitos, saciados, tão naturais,
Que não são nem notados pelos fantasmas
Do dia, que saem a trabalhar, a fazer turismo,
Ao lazer, a estudar, a fazer arte, a ler e a 
Escrever; a rezar missas, a visitar doentes 
Como se não fossem fantasmas; como que
Nem seque têm noção da falta de percepção.

Noturno Nº 2; BH, 060702011.

Escrevi infinitos dicionários sem
Palavras, palavras sem letras, letras
Sem livros, livros sem páginas,
Páginas sem fim; escrevi frases,
Sentenças e períodos; orações e
Parágrafos e artigos e não encontrei o que
Dizer; sempre procurei uma mensagem,
Pregar uma novidade, um moderno
Que não seja descartável; contei contos,
Cantei cantos gregorianos, cantei fados, modinhas e
Cantigas; celebrei missas medievais em
Latim e não perpetuei uma obra
Digna da humanidade e nem um
Obra-prima, clássica, reconhecida
Pelos alinhamentos dos planetas e
Pelos universos criados em cada
Explosão de estrelas e fundição de
Galáxias; quis ter uma fina estampa
Que ensombreasse a minha estupidez;
Quis um estilo de elegância que
Disfarçasse a grosseria que me forma;
E quis perder o teor rudimentar, e perder
O jeito de símio e ficar mais à
Imagem do homem nobre; do homem
Conquistador de correntes marinhas;
Desvendador de misteriosos caminhos
Subterrâneos que ligam túmulos de
Reis e rainhas maias, incas, astecas; e de
Sacerdotes e sacerdotisas e seus altares
De sacrifícios, suas pedras de imolar,
Milenares, indas manchadas pelos sangues
Das oferendas, quando não eram atiradas
Dos penhascos contra os rochedos onde
Eram despedaçadas; escrevi então nestas
Lápides estas palavras para ver se retorno
Das cinzas vulcânicas numa encantação.

Noturno Nº 1; BH, 060702011.

Não durmais, não durmais, não, nunca, a morte
Pega os que dormem; esses estão mais
Perto dela, são dela, estão com ela;
Sentem no pescoço o frio da lâmina
Certeira, não sonham e vivem pesadelos
Na vida; pensam que vivem, mas são enganos;
Pensam que falam a verdade, mas mentem;
Apresentam-se como heróis corajosos, destemidos,
Infalíveis, mas são covardes, são farsas; não
Os homens mais homens que aparentam ser;
Tirais-lhes as chupetas e choram; tirais-lhes
As mamadeiras e esperneiam; tirais-lhes
Os seios de mãe e pirraçam; tirais-lhes
Os peitos de pai e ficam desprotegidos,
Desgarrados do rebanho, ovelhas perdidas,
Presas em espinheiros, pois dormem;
Todos dormem de bocas abertas, babam,
Roncam, ridículos, polegares, recém-nascidos;
Querem ser eternos e constroem catedrais; querem
A posteridade e erguem pirâmides, cavam
Túmulos nas rochas maciças e sepulcros
Nos mármores mais nobres e dormem; e o
Sono não os deixa; e a morte empoleira-se
Nas pálpebras deles; não os deixa acordados
Nunca; grito-lhes: levanteis, andeis, sejais
Das estrelas; elevais-vos além do além;
Façais das cordilheiras montículos; domeis
Vulcões e bebais-lhe a lava e respondais:
Qual a velocidade suficiente para andar
Sobre as águas? qual a equação que mostra
Como se controla o universo? quem dorme
Jamais conseguirá as respostas; quem dorme
Não vê o que o Borges viu; e fogem da
Realidade no sono; e fazem do sonho
A única maneira de serem felizes.

Antônio Botto, À memória de Fernando Pessoa; BH, 0240702012.

Se eu pudesse fazer com que viesses
Todos os dias, como antigamente,
Falar-me nessa lúcida visão -
Estranha, sensualíssima, mordente;
Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses,
Meu pobre e grande e genial artista,
O que tem sido a vida - esta boémia
Coberta de farrapos e de estrelas,
Tristíssima, pedante, e contrafeita,
Desde que estes meus olhos numa névoa
De lágrimas te viram num caixão;
Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses,
Voltávamos à mesma:
Tu, lá onde
Os astros e as divinas madrugadas
Noivam na luz eterna de um sorriso;
E eu, por aqui, vadio de descrença
Tirando o meu chapéu aos homens de juízo...
Isto por cá vai indo como dantes;
O mesmo arremelgado idiotismo
Nuns senhores que tu já conhecias
- Autênticos patifes bem falantes...
E a mesma intriga: as horas, os minutos,
As noites sempre iguais, os mesmos dias,
Tudo igual! Acordando e adormecendo
Na mesma cor, do mesmo lado, sempre
O mesmo ar e em tudo a mesma posição
De condenados, hirtos, a viver -
Sem estímulo, sem fé, sem convicção...
Poetas, escutai-me.
Transformemos
A nossa natural angústia de pensar -
Num cântico de sonho!, e junto dele,
Do camarada raro que lembramos,
Fiquemos uns momentos a cantar!

quarta-feira, 18 de julho de 2012


NOVA FOTO COMPROVA QUE O LAMARCA FOI EXECUTADO

Por Celso Lungaretti

Folha de S. Paulonoticia (vide aqui): os ferimentos à bala evidenciados em foto por ela obtida comprovam o que todo mundo soube já na época e a Comissão de Mortos e Desaparecidos depois confirmou, a covarde execução do comandante Carlos Lamarca pelos militares, depois de o terem aprisionado com vida.

O mesmo destino teve o Zequinha (José Campos Barreto), cujo irmão Olival declarou: "Essas fotos, desconhecidas, mostram claramente que houve uma execução".

Elementar, meu caro Watson.

Chocante mesmo para mim foi saber que a indenização concedida à família de Lamarca pela Comissão de Anistia em junho de 2007 (ver aqui) até hoje não está sendo paga em função de uma liminar obtida pelos três clubes militares. OU SEJA, JÁ SE PASSARAM CINCO ANOS SEM QUE O MÉRITO DA QUESTÃO FOSSE JULGADO!!! 

Por que os processos relacionados aos direitos de antigos resistentes demoram tanto? Já lá se vão cinco anos e meio que um mandado de segurança meu se arrasta no STJ e um ano e meio desde que saí vencedor no julgamento do mérito da questão por 9x0. O trâmite deveria ser agilizado até por força da minha condição de idoso. Mas...

Há mais coisas entre o céu e a Terra do que supõe nossa vã filosofia (Shakespeare).

FARSA DESMASCARADA

Outra versão que não se sustenta mais graças a uma foto encontrada nos arquivos macabros é a de que o engenheiro Raul Amaro Nin Ferreira teria morrido de uma doença no fígado. A imagem dele, 11 dias antes de ser assassinado pela repressão, é a de um homem em perfeitas condições de saúde.

O que também não constitui nenhuma novidade: o general Adyr Fiúza de Castro já havia reconhecido que Nin Ferreira, "quando foi entregue ao Exército, estava com umas marcas, havia sido chicoteado com fio no DOPS".

Ou seja, o bravo militar admitiu que a causa da morte foram as torturas, mas tentou jogar a culpa para o vizinho; quem detonou Nin Ferreira, na verdade, foi o DOI-Codi.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Cruz e Souza, Sorriso interior; BH, 0170702012.


O ser que é ser e que jamais vacila 
Nas guerras imortais entra sem susto, 
Leva consigo esse brasão augusto 
Do grande amor, da nobre fé tranqüila.
Os abismos carnais da triste argila 
Ele os vence sem ânsias e sem custo… 
Fica sereno, num sorriso justo, 
Enquanto tudo em derredor oscila.
Ondas interiores de grandeza 
Dão-lhe essa glória em frente à Natureza, 
Esse esplendor, todo esse largo eflúvio.
O ser que é ser tranforma tudo em flores… 
E para ironizar as próprias dores 
Canta por entre as águas do Dilúvio!

domingo, 15 de julho de 2012

De Luis Nassif, Elis, edição completa do Ensaios; BH, 050702012.


Elis, em edição completa do Programa Ensaios

Por EMILIAMMM
MPB Especial - Programa Ensaio - TV Cultura, 1973, vídeo completo!

Cruz e Souz, O assinalado; BH, 0150702012.

Tu és o louco da imortal loucura,
O louco da loucura mais suprema.
A Terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura.

Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tu’alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.

Tu és o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas eternas, pouco a pouco…

Na Natureza prodigiosa e rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!

Cruz e Souza, Flor do mar; BH, 0150702012.

És da origem do mar, vens do secreto,
Do estranho mar espumaroso e frio
Que põe rede de sonhos ao navio,
E o deixa balouçar, na vaga, inquieto.

Possuis do mar o deslumbrante afeto,
As dormências nervosas e o sombrio
E torvo aspecto aterrador, bravio
Das ondas no atro e proceloso aspecto.

Num fundo ideal de púrpuras
E rosas
surges das águas mucilaginosas
Como a lua entre a névoa dos espaços…

Trazes na carne o eflorescer das vinhas,
Auroras, virgens musicas marinhas,
Acres aromas de algas e sargaços…

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Cruz e Souza, Imortal atitude; BH, 0130702012.

Abre os olhos à Vida e fica mudo!
Oh! Basta crer indefinidamente
Para ficar iluminado tudo
De uma luz imortal e transcendente.

Crer é sentir, como secreto escudo,
A alma risonha, lúcida, vidente…
E abandonar o sujo deus cornudo,
O sátiro da Carne impenitente.

Abandonar os lânguidos rugidos,
O infinito gemido dos gemidos
Que vai no lodo a carne chafurdando.

Erguer os olhos, levantar os braços
Para o eterno Silêncio dos Espaços
E no Silêncio emudecer olhando…

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Cruz e Souz, Assim seja; BH, 0120702012.

Fecha os olhos e morre calmamente!
Morre sereno do Dever cumprido!
Nem o mais leve, nem um só gemido
Traia, sequer, o teu Sentir latente.

Morre com alma leal, clarividente,
Da Crença errando no Vergel florido
E 
o Pensamento pelos céus brandido
Como um gládio soberbo e refulgente.

Vai abrindo sacrário por sacrário
Do teu Sonho no templo imaginário,
Na hora glacial da negra Morte imensa…

Morre com o teu Dever!
Na alta 
confiança de quem triunfou e sabe
Quem descansa desdenhando de toda a Recompensa!

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Rio Grande do Norte, 916, 51; BH, 0100702012.

Críton, pagaste o galo a Esculápio?
Devemos-lhe um galo, pagaste? 
Já não o posso mais pagar; não, inda,
Não, não sei de qual maneira que
Quererá receber; penso que talvez,
Seja um belo galo gordo e assado,
Se vivo, um galo novo, magro,
Para que possa engordá-lo
À sua circunstância; procurarei nas
Redondezas, nas feiras, nas ruas de
Atenas, os dois tipos de galos e
Quando Esculápio estiver inspirado,
Em algum momento me avisará,
Deixarei os dois no quintal da
Minha casa, até a mensagem chegar;
Críton, Platão informará melhor a ti,
Estejas com ele na Academia e
Leva-lhe a minha preocupação,
Se devemos um galo a Esculápio,
Devemos pagar sem maior alteração;
Estarei, então, com Platão, na primeira
Ocasião, ficas em paz e em descanso,
Não alteres teu coração e nem
Perturbes tua sabedoria, o galo
Será pago e bem pago, morto ou
Vivo, novo ou belo, gordo ou magro,
Cru ou assado, palavras do teu Críton.

Cruz e Souza, Só; BH, 0110702012.


Muito embora as estrelas do Infinito 
Lá de cima me acenem carinhosas 
E desça das esferas luminosas 
A doce graça de um clarão bendito;
Embora o mar, como um revel proscrito, 
Chame por mim nas vagas ondulosas 
E o vento venha em cóleras medrosas 
O meu destino proclamar num grito,
Neste mundo tão trágico, tamanho, 
Como eu me sinto fundamente estranho 
E o amor e tudo para mim avaro…
Ah! como eu sinto compungidamente, 
Por entre tanto horror indiferente, 
Um frio sepulcral de desamparo!

terça-feira, 10 de julho de 2012

Na minha empolgação; BH, 060402000.

Na minha empolgação,
Não senti o que seria a amolgação
De me sentir amolecido por te amar;
Tornei-me um homem mole,
Um indivíduo frouxo,
Um sujeito enternecido,
Um cidadão terno,
Tudo isso por que declarei ao mundo,
Ao universo amolecado,
Que nos pratica e nos prega,
Ações de moleques de modos acanalhados,
Que sem o teu amor torno-me
Um ser nada amoldado;
Nada moldado no amor,
Nada habituado na meiguice,
Afeito ao afeto,
Acostumado com o carinho,
Conformado com a situação
De abandono que me relegaste;
Aí cresce em mim,
O ato de amolar todo mundo;
Aumenta a minha amolação e
Cada amoladela vira infinita;
Transformo-me no resido de rebolo,
Que fica na água empregada,
Para amolecer o rebolo na amoladura e
Sinto-me realmente amolado;
E não faço afiado no pensamento,
Aguçado na linguagem,
Uma frase genial de letras e palavras;
E tudo em mim é aborrecido,
Enfadado e triste e taciturno; e
Minha salvação seria se
Eu fosse uma vaca,
Que todo mundo quisesse amojar,
Ordenhar de manhã cedinho,
Encher de leite os baldes. 





A água do rio; RJ, 0140701981.

A água do rio,
Molha meus cabelos,
Meu corpo,
Meu colo,
Meu solo,
Meu chão;

A água da chuva,
Molha meu coração:
Pequenino e frágil,
Vivo e ágil,
Batedor constante,
Na tecla da paz;

Na sigla do amor
E na água do sol,
Bebo calor,
Luz e estrelas,
Chuvas de borboletas,
Flores e abelhas,
Aves e naves,
Espirituais e celestes;

Planto meu pranto
No canto do pássaro
E me lavo na lava
Do vulcão em erupção;

Deixo minha alma
Em plena calma
E abro minha palma
Na cauda do pavão;

E me lambuzo no mel
Da abelhinha jataí
E viajo nas asas da abelha-europa;

No fundo do quintal,
Na minha casa da roça,
Anda meu coração;
Afoga na água do rio.


Segui a cantar; RJ, 0140701981.

Segui a cantar,
Estrada a fora,
Só, sós, e sozinho;
Sem relógio
E sem hora;
Rasguei a garganta,
Rompi o peito;
Libertei a voz,
A mente e a alma,
O corpo e o espírito;
Escancarei-me,
Botei tudo para fora;
Desenterrei-me,
Libertei-me;
Saí de dentro do ovo,
Da casca e do buraco;
Saí do fundo do poço,
Do lodo e da lama;
E segui pela estrada,
Nu e pelado e nada;
Solto e livre e leve,
Senhor e ciente;
Consciente e lúcido,
A seguir apenas 
O caminho do amor;
O caminho da vida,
Da paz e da tranquilidade;
Da felicidade e da serenidade,
Só com o orvalho,
Só com o sereno;
Com o céu azul e com o sol,
Com a lua e com as estrelas;
Com a noite e com o dia,
Sem querer riqueza maior. 

Cruz e Souz, Clamor supremo; BH, 0100702012.


Vem comigo por estas cordilheiras! 
Põe teu manto e bordão e vem comigo, 
Atravessa as montanhas sobranceiras 
E nada temas do mortal Perigo!
Sigamos para as guerras condoreiras 
Vem, resoluto, que eu irei contigo. 
Dentre as águias e as chamas feiticeiras 
Só tenho a Natureza por abrigo.
Rasga florestas, bebe o sangue todo 
Da Terra e transfigura em astros lôdo, 
O próprio lôdo torna mais fecundo.
Basta trazer um coração perfeito, 
Alma de eleito, Sentimento eleito 
Para abalar de lado a lado o mundo!

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Augusto dos Anjos, Vandalismo; BH, 090702012.



Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.
Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.
Como os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos...
E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!"

domingo, 8 de julho de 2012

Portal Vermelho, Fotos provam que guerrilheiro foi morto na cadeia em 1972; BH, 080702012.


Imagens até agora inéditas do corpo do guerrilheiro Ruy Carlos Vieira Berbert, desaparecido em janeiro de 1972, aos 24 anos, revelam que, por duas décadas, três governos militares e dois civis sabiam de sua morte numa cadeia de Natividade, hoje município do interior do Tocantins, e nunca informaram o fato a seus parentes.


Divulgação
 fotos guerrileiro ditadura
Imagens inéditas do corpo do guerrilheiro Ruy Carlos Berbert são descobertas
Por meio da Lei de Acesso à Informação, que liberou documentos antes mantidos em sigilo, o Jornal da Tarde localizou seis fotografias de Berbert morto. Uma pasta de imagens do Arquivo Nacional mostra que o Centro de Informações do Exército, principal órgão de repressão à luta armada, identificava o guerrilheiro oficialmente e de forma correta já em janeiro de 1972.

Apesar da insistente procura dos parentes, os responsáveis pelos serviços de informações dos governos dos generais Emílio Médici, Ernesto Geisel e João Figueiredo, e os dos presidentes civis José Sarney e Fernando Collor não informaram a existência das fotos nem confirmaram sua morte.

A família conseguiu a primeira informação oficial só em 1992, ao ter acesso a dados disponíveis a partir daquele ano pelo antigo Dops de São Paulo. Os arquivos citavam a prisão de Berbert e a possibilidade de o guerrilheiro ter se suicidado na cadeia. A suspeita, porém, é que ele tenha sido assassinado pelo regime.

À época, os parentes tiveram de confrontar a informação do Dops com o registro da morte de um certo “João Silvino Lopes” em Natividade, dado divulgado em 1979 por um general da reserva.

Desaparecidos
Até hoje não se sabe onde estão os restos mortais de Berbert. Ele está na lista oficial que computa 475 mortos ou desaparecidos no período de governos militares no País (1964-1985).

As fotos de Berbert são as primeiras divulgadas, após a redemocratização, de um guerrilheiro morto nas dependências de um órgão do Estado.

De Jales, no interior paulista, Regina, única irmã de Berbert, recebeu com serenidade a notícia da existência das imagens no Arquivo Nacional. “Meu pai, também chamado Ruy, morto há 11 anos, sempre fez questão de divulgar com orgulho a história dele.”

O JT enviou as fotografias para o marido de Regina, Moacir Pereira. A família decidiu que não mostraria as imagens para a mãe do guerrilheiro, Ottília, com 93 anos.

‘Ironia da vida’
Berbert integrava o Movimento de Libertação Popular (Molipo), que tinha 28 integrantes – a maioria dos quais foi dizimada nos dias subsequentes à sua morte.

Ele nasceu em Regente Feijó, interior paulista, em 1947. Filho do funcionário público estadual Ruy Thales Jaccoud Berbert e da professora de ensino básico Ottília Vieira, logo cedo demonstrou interesse pela escrita. Numa redação, aos 8 anos, mostrou o desejo de se tornar militar. “Olha a ironia da vida”, diz Regina.

Berbert saiu de casa aos 18 anos para cursar Letras na USP. Estava na lista de estudantes presos no Congresso da UNE de Ibiúna, em 1968. Depois da prisão, a irmã e a mãe o reencontraram na Praça da República, em São Paulo. Foi o último encontro. No ano seguinte, ele passou a ser procurado sob suspeita de participação no desvio de um avião da Varig para Cuba. Na ilha caribenha, recebeu treinamento de guerrilha. Ao se integrar ao Molipo, também chamado Grupo Primavera ou Grupo da Ilha – uma dissidência da Ação Libertadora Nacional (ALN) – ele retornou ao Brasil. Andou pelo Maranhão e chegou a Natividade, fundada no século 18 e hoje com 9 mil habitantes.

A curta passagem de Berbert por Natividade ainda é lembrada por parte dos moradores da cidade. Relatos indicam que a prisão foi efetuada por uma equipe da delegacia local. Agentes externos do regime militar teriam chegado depois. Berbet usava botina e tinha características físicas bem diferentes das da população local.

Como a cidade ficou fora da rota da Rodovia Belém-Brasília, a passagem de viajantes que seguiam para o Maranhão ou Pará tornou-se mais rara.

Em Natividade, Berbert foi preso e levado para a cadeia pública, uma construção do período do Brasil Colônia, de frente para a praça central, de alpendre elevado e paredes de quase 1 metro de largura. Uma abertura na cela permitia que ele mantivesse contato com os moradores do município. Ele chegou a ganhar de uma moça uma rede para dormir.

LençolNuma madrugada de janeiro de 1972, moradores viram Berbert pendurado com lençol amarrado a troncos de madeira que sustentavam o teto da cadeia. Testemunhas disseram à família que viram agentes policiais de fora na cidade. Versões mais recentes de fontes militares indicam que os agentes chegaram a Natividade só após a morte do guerrilheiro. Eles sustentaram a versão do suicídio de “João Silvino Lopes”, maneira como Berbert foi identificado a autoridades locais – seu nome correto, no entanto, foi registrado pelos agentes do governo que fizeram as fotografias agora reveladas pelo Estado.

O advogado da família Berbert, Idibal Pivetta, também não sabia da existência das imagens do guerrilheiro morto. “As únicas fotografias que conseguimos dele em Natividade foram imagens feitas pelas moças da cidade”, afirma Pivetta. “Ruy era um rapaz muito boa pinta, as moças tentavam conversar com ele por meio da abertura na cela da cadeia”, conta o advogado. “Está provado que ele foi morto numa dependência do Estado. O Estado, portanto, é culpado.”

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Rio Grande do Norte, 916, 27; BH, 050702012.

Amargurado, aqui, distante, quando aí
Nas estrelas, deveria estar contigo; e
Dói o meu peito sem abrigo, meu seio na
Rua, mendigo, enquanto brilhas lá,
Eterno, no infinito; e o sol que detesta
Yin-yang, tem que dividir contigo poder;

Regrar calor e luz para não ser ofuscado; e
Onde andaste, pisei tuas pegadas; chorei,
Bebi teus passos; olhei paredes e tuas
Sombras inda estavam lá, frescas;
Ondulei em volta, cometa perdido,
Necessito da tua força de astro, teu imã;

Matéria-prima da minha matéria,
Estou sozinho nas noites e madrugadas e
Dias; e o mais fácil que sei fazer é chorar;
Infeliz de mim, perdedor devasso, que
Nunca soube ganhar, e a perda maior, agora é
A que partiste em busca de sonhos;

Sonhos que guardavas nos teus mistérios;
Alivia minha dor e manda-me uma
Névoa protetora, cheia de anjos-da-guarda,
Todos eles que estão a debater contigo;
Olha com teus olhos, os meus olhos que já
São quase cegos e dai-me uma esperança;

Um seguro para o meu futuro tenebroso e que
Deixa-me medroso; quero ter aqui o sossego, a
A garantia, a confiança e a segurança que tens aí.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Álvaro de Campos/Fernando Pessoa, Símbolos; BH, 020702012.

Símbolos?
Estou farto de símbolos...
Uns dizem-me que tudo é símbolo.
Todos me dizem nada,
Quais símbolos?
Sonhos...
Que o sol seja um símbolo, está bem...
Que a lua seja um símbolo, está bem...
Que a terra seja um símbolo, está bem...
Mas quem repara no sol senão quando a chuva cessa
E ele rompe das nuvens e aponta atrás das costas
Para o azul do céu?
Mas quem repara a luz senão para achar
Bela a luz que ela espalha, e não bem ela?
Mas quem repara na terra, que é o que pisa?
Chama terra aos campos, às árvores, aos monte
Por uma diminuição instintiva,
Porque o mar também é terra...
Bem, vá que tudo isso seja símbolos...
Mas que símbolo é, não o sol, não a lua, não a terra,
Mas neste poente precoce e azulando menos,
O sol entre farrapos findos de nuvens,
Enquanto a lua é já vista, mística, no outro lado,
E o que fica da luz do dia
Doira a cabeça da costureira que para vagamente à esquina
Onde se demorava outrora (mora perto) com o namorado que a deixou?
Símbolos?
Não quero símbolos...
Queria só - pobre figura de magreza e desamparo! - 
Que o namorado voltasse para a costureira.

Babilak Bah, Muros dos Sonhos; BH, 020702012.

Som de valsa
Acampado na memória.
Invadido o saguão do corpo,
Valsa coração sobre sombras de outono.
Folhas e flores do olho
Brotam no caminho do sul
Escorrido feito lágrima de chuva
Na face do sol.
Depositado um manto de luz e som
Tambores bocas clamores
Maracatus
Na comunidade do Monte alegre
Alegram-se meninos caducos
Brilham à felicidade.
Na cidade das cabeças
Cabeçudas
Cabeçadas
No muro dos sonhos
Perseguem luas,
Atraem vendavais,
No baile de máscaras da alma antiga.

Tomás Antônio Gonzaga, Lira XXIII; BH, 020702012.

Num sítio ameno
Cheio de rosas,
De brancos lírios,
Murtas viçosas;

Dos seus amores
Na companhia
Dirceu passava
Alegre o dia.

Em tom de graça
Ao terno amante
Manda Marília
Que toque e cante.

Pega na lira,
Sem que a tempere,
A voz levanta,
E as cordas fere.

C'os doces pontos
A mão atina,
E a voz iguala
A' voz divina.

Ela, que teve
De rir-se a ideia,
Nem move os olhos
De assombro cheia:

Então Cupido
Aparecendo,
À bela fala
Assim dizendo:

"Do teu amado
"A lira fias,
"Só porque dele
"Zombando rias?

"Quando num peito
"Assento faço,
"Do peito subo
"À língua, e braço".

Joaquim du Bellay, Ó França, mãe das leis; BH, 020702012.

Ó França, mãe das leis, das artes e das lutas,
O leite do teu seio amamentou-me outrora:
Em busca do redil, como um cordeiro, agora,
Teu nome eu vou dizendo às florestas e às grutas.

Então, cruel, por que sem respostas me deixas,
Se, como filho teu, já fui reconhecido?
França, França, responde a meu triste gemido.
Somente me responde o eco das minhas queixas.

Entre os lobos cruéis, os campos percorrendo,
Sinto chegar o inverno, o seu gelo trazendo
A meu corpo transido arrepio tamanho.

A cordeiro nenhum tem faltado alimento,
Nenhum receia o lobo, a friagem e o vento:
E no entanto não sou a escória do rebanho.

Mário Quintana, O Poema; BH, 020702012.

Um poema como um gole d'água bebido no escuro.
Com um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdia para
Sempre na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua
Misteriosa condição de poema.

Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.

Mário Quintana, Verde; BH, 020702012.

Cactos, as tropicais colorações violentas
E o veludoso tom que nas grutas sombrias
O chão verdoengo alfombra...
As verdes pedrarias,
Verdes químicos, mar revolto, as reverberações
Das caudas das sereias... e o verde heroico das tormentas!
Verde o sonho, o propício repouso...
Bórgia da cor, verde violento e venenoso.
Verde - que sensações
Estranhas: terras! várzeas! a luz! cantigas! alaridos!
E esses homens de mãos cruzadas, estendidos
No verde das sutis, lentas putrefações...

                                                                                 
                                                                             
                                                                                 (1935)

Nietzsche, Quanto mais um psicólogo; BH, 020702012.

Quanto mais um psicólogo - um psicólogo predestinado e um
Adivinhador de almas - se volta para os casos e os homens excepcionais,
Tanto mais cresce para ele o risco de ficar sufocado pela compaixão.
Ele tem necessidade de dureza e de alegria mais que qualquer outro homem.
De fato, a corrupção, a corrida para o abismo dos homens superiores, das
Almas de espécie estranha, são a regra: é terrível ter sempre diante dos olhos essa regra.
O martírio múltiplo do psicólogo que descobriu essa corrida para o abismo, que descobre
Uma vez, depois quase a cada vez e na história inteira, essa completa "incurabilidade"
Interior do homem superior, esse eterno "demasiado tarde!" em todos os sentidos - esse
Martírio, digo, poderá um dia impeli-lo a se voltar com amargura contra seu próprio
Destino e tentar se destruir - "perder-se", ele mesmo.
Observa-se em quase todos os psicólogos uma inclinação significativa e um prazer em
Frequentar homens comuns e ordenados: o psicólogo deixa entrever com isso que
Sempre tem necessidade de curar, que tem necessidade de fugir, de esquecer, de rejeitar
Aquilo que seu olhar, seu bisturi e "ofício" colocaram em sua consciência.
O medo de sua memória lhe é peculiar.
Chega muitas vezes a calar diante de juízos alheios: então escuta com um semblante
Impassível para entender como se honra, se admira, se ama, se glorifica aquilo que ele viu
 - Ou esconde ainda mais seu mutismo aprovando de modo expresso uma opinião
Qualquer de primeira linha.
O paradoxo de sua situação pode ir muito longe no horror quando é justamente ali onde
Começou a grande compaixão ao lado do grande desprezo que a massa, os civilizados,
Os exaltados manifestam de seu lado a grande veneração - a veneração pelos "grandes
Homens" e palos animais prodigiosos, em nome dos quais se bendiz e se honra a pátria,
A terra, a dignidade humana e a si mesmo, para os quais se atrai a atenção da juventude,
À qual são oferecidos como modelos...
E quem sabe se até agora em todos os casos importantes não se produziu o mesmo
Fenômeno: a multidão adorava um Deus - e o "Deus" não passava de uma pobre vítima!
O sucesso foi sempre um grande mentiroso - e a própria "obra" é um sucesso; o grande
Homem de Estado, o conquistador, o descobridor são disfarçados em suas criações até
Se tornarem irreconhecíveis.
A "obra", aquela do artista, do filósofo, inventa em primeiro lugar aquele que se criou,
Que se supõe que a tenha criado; os "grandes homens", da maneira com são honrados,
São maus e pequenos poemas feitos tarde demais; no mundo dos valores históricos
Reina a falsa moeda.
Esses grandes poetas, por exemplo, os Byron, os Musset, os Poe, os Leopardi, os
Kleist, os Gogol - tais como são, tais como é preciso talvez que sejam - homens do
Momento, exaltados, sensuais, infantis, passam bruscamente e sem razão da confiança
À desconfiança: com almas que escondem geralmente alguma rachadura; vingando-se
Muitas vezes com suas obras de uma sujidade íntima, procurando muitas vezes com
Seu voo fugir de uma memória demasiado fiel, muitas vezes desgarrados na lama e
Quase se comprazendo até que se tornem semelhantes aos fogos fátuos que, agitando-se
Em torno dos pântanos, se disfarçam em estrelas - o povo os chama então idealistas -
Muitas vezes em luta com prolongado desgosto, com um fantasma de incredulidade que
Reaparece sem cessar, os esfria e os reduz a ter fome de glória, a alimentar-se da "fé em
Si mesmos" que alguns aduladores inebriados lhes alcançam.
Que mártires são esses grandes e em geral os homens superiores, aos olhos daquele que
Uma vez os descobriu!
É bem incompreensível que sejam justamente, para a mulher - que é clarividente no mundo
Do sofrimento e, infelizmente também, ávida em ajudar e socorrer para muito além de suas
Forças - uma presa tão fácil das explosões de uma compaixão imensa e devotada que
Até o sacrifício.
Mas a multidão, e sobretudo a multidão que venera, não os compreende e descreve essa
Compaixão com interpretações indelicadas e vaidosas.
A compaixão se engana invariavelmente sobre sua força: a mulher gostaria de se persuadir
Que o amor pode tudo - essa é uma crença própria.
Ai!
Aquele que conhece o coração humano adivinha quão pobre, estúpido, impotente,
Presunçoso, inábil é o amor, mesmo o melhor, mesmo o mais profundo, que destrói mais
Facilmente do que o reconforta!
 - É possível que, sob a santa lenda e o disfarce da vida de Jesus, se esconda um dos casos
Mais dolorosos do martírio do conhecimento do amor, o martírio do coração mais inocente
E mais ávido, ao qual não bastava nenhum amor humano, do coração que desejava o amor,
Que queria ser amado e nada mais que isso, com dureza, com frenesi, com terríveis explosões
Contra aqueles que lhe recusavam o amor; a história de um pobre ser insatisfeito e insaciável
Ao amor, de um ser que teve de inventar o inferno para nele precipitar aqueles que não
Queriam amá-lo - e que, por fim, esclarecido sobre o amor dos homens, foi forçado a inventar
Um Deus que fosse todo amor, totalmente potência do amor - que teve piedade do amor
Humano porque esse amor é tão miserável, tão ignorante!
Aquele que sente assim, que conhece assim o amor - procura a morte.
Mas por que perseguir coisas tão dolorosas?
Se não somos obrigados a isso.

Charles Baudelaire, A uma Passante; BH, 020702012.

A rua em torno era um frenético alarido.
Toda de luto, alta e sutil, dor majestosa,
Uma mulher passou, com sua mão suntuosa
Erguendo e sacudindo a barra do vestido.

Pernas de estátua, era-lhe a imagem nobre e fina.
Qual bizarro basbaque, afoite eu lhe bebia
No olhar, céu lívido onde aflora a ventania.
A doçura que envolve e o prazer que assassina.


Que luz...e a noite após! - Efêmera beldade
Cujos olhos me fazem nascer outra vez,
Não mais hei de te ver senão na eternidade?


Longe daqui! tarde demais! nunca talvez!
Pois de ti já me fui, de mim tu já fugiste,
Tu que eu teria amado, ó tu que bem o viste!

Carlos Drummond de Andrade, A Mulher do Elevador; BH, 020702012.

A que ficou lá longe,
Na grande cidade.

A que vi apenas um minuto,
Um minuto somente,
No elevador que subia.

Com que saudade inédita eu me lembro
Da que não foi nem uma sombra,
Uma sombra fugaz,
No meu destino.

Da que ficou sorrindo,
Com um pouco de mim,
Com um pouco do meu ser anônimo e vulgar,
A milhares de quilômetros,
Na grande cidade...