sábado, 30 de junho de 2012

Nietzsche, Desvios do Pensador; BH, 0300602012.

Em alguns homens, a marcha do pensamento inteiro é
Rigorosa e inflexivelmente audaciosa, chegando mesmo, em certo
Casos, a ser até consigo mesma, mas nos detalhes esses
Homens são doces e maleáveis; dão dez voltas em torno de uma
Coisa com uma hesitação benevolente, mas acabam por continuar
Seu rigoroso caminho.
São rios com numerosos meandros e com eremitérios isolados; há
Locais de seus cursos onde as águas jogam de esconde-esconde
Consigo mesmas e se permitem, ao passar, breves idílios com
Ilhotas, com árvores, grutas e cascatas: depois retornam seu curso,
Acariciando os rochedos e abrindo passagem entre rochas mais
Duras.

Manuel Bandeira, Ternura; BH,0300602012.

Enquanto nesta atroz demora,
Que me tortura, que me abrasa,
Espero a cobiçada hora
Em que irei ver-te à tua casa;

Por enganar o meu desejo
De inteira e descuidada posse,
Ai de nós! que não antevejo
Uma só vez ao menor fosse;

Sentindo em minha carne langue
Toda a volúpia do teu sonho,
Toda a ternura do teu sangue,
Minh'alma nestes versos ponho;

Por que os escondas do teu seio
No doce e pequeno vale,
 - Por que os envolve o teu enleio,
Por que o teu hálito os embale;

E o meu desejo, que assim foge
Ao pé de ti e te acarinha,
Possa sentir que és minha hoje,
E és para todo o sempre minha...

Tito Júlio Fedro, O Falso Médico; BH, 0300602012.

Um péssimo sapateiro, atolado na miséria, passou a exercer a
Medicina numa região desconhecida.
Ali, vendia um antídoto sob falso rótulo.
(Assim) adquiriu boa fama com (suas) trapaças de verbosidade
Como, ali, estivesse acamado, em decorrência de grave enfermidade,
O rei da cidade, (este a fim de testar a competência do médico) pediu uma taça.
A seguir, derramou (nela) água, simulando misturar veneno ao antídoto,
Ordena (ao médico) (que) bebesse sob a promessa de recompensa.
Então, (o médico), temendo a morte, confessou que se tornara célebre não por
Alguma sabedoria da arte médica e, sim, graças à ignorância do povo.
O rei convocou o povo para uma assembléia e disse:
"(Vede) a enormidade de vossa loucura, já que não hesitais em confiar vossas
Cabeças (vidas) a quem sequer alguém entregaria os pés para serem calçados!"
Eu (Fedro) diria, com segurança, que isto se aplica à queles dos quais a
Astúcia é fonte de dinheiro, mas o preço dos imprudentes.

Llewellyn Medina, Vende-se; BH, 0300602012.

Vende-se sala e três quartos
Na sala há dois sofás
Uma TV
Aparelho de som
Que toca músicas de Mozart
E um vídeo
Que passa lindas óperas de Verdi.

No primeiro quarto
Dorme (vive) o casal
(Que não quer vender)
Mas a tanto se vê obrigado
Pelo andar da carruagem.

No segundo
É a filha mais velha que esconde seus segredos
Na estante de livros desarrumados
Nas roupas já usadas
E jogadas pelo chão
Na cama que denuncia o constante uso.

No terceiro
A cena se repete
Estante de livros de auto-ajuda
Uns discos de Carlos Gardel
Um soutien jogado ao lado
Um cheiro de humano
E a sensação inarredável de privacidade

O corretor veio primeiro
Com olhos avaros rompeu a privacidade
Olhou com desdém
Matutou enigmaticamente
Diminuiu o preço por causa do soutien.

Depois veio o primeiro pretendente
Aliás, os primeiros
(Um casal)
Pareciam Mestre-sala e Porta-bandeira
Tal a desenvoltura que demonstravam
A casa como se deles fosse
Chegaram a olhar os donos com desprezo
E se deliciavam com a violação
De segredos nunca desvendados.


Mas tudo era como um jogo
Em que sempre há perdedor
E aquela altura
Os que vendiam
Já sabiam que tinham perdido.

Manoel de Barros, O Punhal; BH, 0300602012.

Eu vi uma cigarra atravessada pelo sol
 - Como se um punhal atravessasse o corpo.
Um menino foi, chegou perto da cigarra, e disse que
Ela nem gemia.
Verifiquei com os meus olhos que o punhal estava
Atolado no corpo da cigarra
E que ela nem gemia!
Fotografei essa metáfora.
Ao fundo da foto aparece o punhal em brasa.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Casimiro de Abreu, Borboleta; BH, 0290602012.

Borboleta dos amores,
Como a outra sobre as flores,
Por que és volúvel assim?
Por que deixas, caprichosa,
Por que deixas tu a rosa
E vais beijar o jasmim?

Pois essa alma é tão sedenta
Que um só amor não contenta
E louca quer variar?
Se já tens amores belos,
Pra que vais dar teus desvelos
Aos goivos da beira-mar?

Não sabes que a flor traída
Na débil haste pendida
Em breve murcha será?
Porque és volúvel assim?
Porque deixas caprichosa,
Porque deixas tu a rosa
E vais beijar o jasmim?!


Tu vês a flor da campina,
E bela e terna e divina,
Tu das-lhe o que essa alma tem;
Depois, passado o delírio,
Esqueces o pobre lírio
Em troca duma cecém!


Mas tu não sabes, louquinha,
Que a flor que pobre definha
Merece mais compaixão?
Que a desgraça precisa,
Como do sopro da brisa,
Dos ais do teu coração?


Borboleta dos amores,
Como a outra sobre a flores,
Por que és volúvel assim?
Porque deixas, caprichosa,
Porque deixas tu a rosa
E vais beijar o jasmim?


Se a borboleta dourada
Esquece a rosa encarnada
Em troca duma outra flor;
Ela - a triste, molemente
Pendida sobre a corrente
Falece á míngua d'mor.


Tu também,minha inconsciente,
Tens tido mais dum amante
E nunca amaste a um só!
Eles morrem de saudade,
Mas tu na variedade
Vais vivendo e não tens dó!


Ai! és muito caprichosa!
Sem pena deixas a rosa 
E vais beijar outras flores;
Esqueces os que te amam...
Por isso todos te chamam:
 - Borboleta dos amores!

Quando tocar o apito; BH, 0170801999.

Quando tocar o apito final do jogo e a
Morte apitar que chegou a nossa hora,
Não adianta chorar de jeito nenhum;
Quando der o sinal do palpite, e
Olharmos nos olhos do espelho e
Depararmos com o que sobrou de nós,
Começaremos a bufar e a arrancar os
Cabelos, por não reconhecermos no
Mergulho no espelho, os nossos
Espectros; quando esse pequeno
Instrumento de sopro, que produz som
Agudo e vibrante retinir, será grande
Demais para nós e nos ensurdecerá e
Nos esmagará com a potência e o peso
Do seu som; o dispositivo que produz
Semelhante em máquinas e caldeiras e
Fábricas, também romperá nossas
Entranhas, com o mesmo som mortal
Produzido; só a morte faz aplacar o
Ódio e a ira; abrandar a raiva e a
Cólera; serenar a procela e a bravia
Tormenta, que machucam nossas vidas;
Só a morte faz mitigar nosso sofrimento,
Moderar nossa ansiedade extrema e
Suavizar nosso desespero e aliviar nossa
Dor; nos ensina a ceder e a tornar
Plácido nosso semblante; a morte é
Aplacável e nos faz parecer crianças a
Dormir serenamente; nos faz parecer
Pedaços de madeira, que alguém
Experiente e profissional, veio alisar com
Plaina afiada e aplainar nossa face dura
Com cuidado, aplanar nossos relevos
Para nos fazer parecer com cadáveres
De gente de verdade; a morte faz tornar
Plano o nosso destino, faz remover as
Nossas dificuldades, até que os vermes
Venham aplaudir a chegada de nossa
Carne à terra.

Portal Vermelho, Doze Autores: Especial Dia do Orgulho Gay; BH, 0290602012.


Como é possível perceber pelo layout, o Livros abertos é um blog colorido. No dia 28 de junho, Dia do Orgulho Gay, resolvi reunir autores homossexuais e bissexuais como forma de aludir a um tema extremamente urgente: a luta pelo fim da homofobia. A luta pela liberdade de ser — e a literatura é, para mim, a máxima liberdade de ser, de criar, de transformar.


Os poetas e escritores presentes nesta lista são talentosos apesar de terem mantido relacionamentos com pessoas do mesmo sexo? Não. São talentosos e mantiveram relacionamentos com pessoas do mesmo sexo, e nos presentearam com obras magníficas em poesia e em prosa. É importante perceber a quebra de paradigmas que seu comportamento e seu posicionamento (quando houve) representaram em determinadas épocas, o que já significou certa luta em prol da causa gay — alguns com maior impacto, outros, mais discretos, com menor. Todos, de alguma maneira, traduziram na escrita os seus sentimentos e sua visão.

Federico García Lorca

Foi um dos alvos do conservadorismo espanhol, visto que não escondia suas tendências socialistas e homossexuais. Com o argumento de que era “mais perigoso com a caneta do que outros com o revólver”, teve sua prisão decretada por um deputado enquanto estava em Granada. Sem julgamento, foi executado pelos nacionalistas com um tiro na nuca. Em função da homossexualidade, diz-se que García Lorca foi fuzilado de costas.

Soneto da carta


Amor, que a vida em morte em mim convertes,
Espero em vão tua palavra escrita
E, flor a se murchar, meu ser medita
Que se vivo sem mim quero perder-te.

É infinito o ar. A pedra inerte
Nada sabe da sombra e não a evita.
Íntimo, o coração não necessita
Do congelado mel que a lua verte.

Por ti rasguei as veias às dezenas,
Tigre e pomba, cobrindo-te a cintura
Com luta de mordiscos e açucenas.

Tuas palavras encham-me a loucura
Ou deixa-me viver minha serena
E infinda noite da alma, escura, escura.

(Tradução de Afonso Félix de Sousa)



Elizabeth Bishop

Nascida em Worcester, Elizabeth, depois de ganhar algum dinheiro com o reconhecimento pelo seu trabalho, decidiu viajar pela América do Sul. Desembarcou em Santos em 1951. Esperava permanecer no Brasil por poucos dias, mas prolongou a estadia por duas décadas — tudo porque conheceu, aqui, a paisagista e urbanista Lota de Oliveira Soares.

A arte de perder não é nenhum mistério
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subsequente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por muito que pareça (escreve) muito sério.

(Tradução de Paulo Henriques Britto
)


Safo de Lesbos

Devido ao conteúdo erótico, sua poesia sofreu censura pelos monges copistas. Restaram apenas fragmentos. Sua vida pessoal é controversa, embora permaneça “uma referência para lésbicas por seu olhar sensual sobre mulheres, em especial no Fragmento 31, em que se imagina em um triângulo amoroso, observando cheia de desejo a mulher que flerta com um homem”. [Sophie Mayer]

E agora, ó companheira bem amada,
querem levar-te para longe do meu peito,
como fazem também às jovens corças.

Adoro, mais que tudo, a flor da juventude.
Meu coração apaixonou-se pelo sol,
meu coração apaixonou-se pela beleza.

Igual aos deuses me parece
quem a teu lado vai sentar-se,
quem saboreia a tua voz
mais as delícias desse riso.

Quem me derrete o coração
e o faz bater sobre os meus lábios.
Assim que vejo esse teu rosto,
quebra-se logo a minha voz,

seca-me a língua entre os dentes,
corre-me um fogo sob a pele,
ficam-me surdos os ouvidos
e os olhos cegos de repente.

Torna-se líquido o meu corpo:
transpiro e tremo ao mesmo tempo.
Vejo-me verde: mais que a erva.
Só por acaso é que não morro.

Mergulha o teu corpo nesta água clara;
veste-lhe a brancura de açafrão e púrpura;
e o bordado brilho que há na tua túnica
aumente a beleza que me é tão cara…

A morte não é um bem.
Os próprios deuses o sabem.
Eles preferiram viver…



Caio Fernando Abreu

Homossexual assumido, chegou a escrever sobre a temática gay. Descreve as relações entre homens como naturais e espontâneas.

“Sôfrego, torno a anexar a mim esse monólogo rebelde, essa aceitação ingênua de quem não sabe que viver é, constantemente, construir, não derrubar. De quem não sabe que esse prolongado construir implica em erros, e saber viver implica em não valorizar esses erros, ou suavizá-los, distorcê-los ou mesmo eliminá-los para que o restante da construção não seja abalado. Basta uma pausa, um pensamento mais prolongado para que tudo caia por terra. Recomeçar é doloroso. Faz-se necessário investigar novas verdades, adequar novos valores econceitos. Não cabe reconstruir duas vezes a mesma vida numa única existência. Por isso me esquivo, deslizo por entre as chamas do pequeno fogo, porque elas queimam. Queimar também destrói.”

Jean Cocteau

Ainda que nunca tenha escondido sua homossexualidade, teve rápidos e intensos relacionamentos com mulheres. Publicou um considerável número de ensaios criticando a homofobia.

Arthur Rimbaud

Rimbaud enviou para Paul Verlaine amostras de sua obra. Recebeu, então, um convite para residir na casa do poeta. Este, que era casado, apaixonou-se prontamente pelo adolescente calado, de olhos azuis e cabelo castanho-claro comprido. Enquanto é provável que Verlaine já havia tido um caso homossexual, ainda permanece incerto se o relacionamento com Verlaine foi o primeiro de Rimbaud. Os amantes levaram uma vida ociosa, regada a absinto e haxixe. Escandalizaram o círculo literário parisiense por causa do comportamento ultrajante de Rimbaud, o arquetípico enfant terrible, que durante este período continuou a escrever notáveis versos visionários.

Virginia Woolf

Bissexual. Ainda que fosse casada, é sabido que manteve um romance com Vita Sackville-West, também escritora.



“E Vita vem almoçar amanhã, o que será muito divertido e agradável. Minhas relações com ela me divertem: tão ardente em janeiro – agora, como será? Também gosto da sua presença e beleza. Estarei apaixonada por ela? Mas o que é o amor? O fato de ela estar “apaixonada” por mim (deve ser assim entre aspas) me excita, e lisonjeia, e interessa. O que é esse “amor”? Ah, e depois ela gratifica minha eterna curiosidade: quem ela viu, o que fez – pois não tenho alta opinião sobre a poesia dela.”
(1924? Diário de Virginia)

Marcel Proust

A homossexualidade é tema recorrente em sua obra, principalmente em Sodoma e Gomorra e nos volumes subsequentes. Foi, percebe-se, um dos primeiros romancistas a tratar o tema de forma aberta e detalhada.

Gertrude Stein

Alice B. Toklas era companheira de Gertrude Stein. Entretanto, embora haja muita especulação, qualquer uma delas jamais pronunciou a palavra “lésbica”. Henry James foi quem cunhou a expressão “Boston marriage”, ou “casamento bostoniano”, típica do século XIX norte-americano: “Em sociedade patriarcal, serviu e ainda serve para descrever o lar onde duas amigas vivem como irmãs, compartilhando o mesmo teto sem a companhia, o apoio ou a provedoria masculina. A atual crise econômica global trouxe de volta núcleo familiar semelhante. No novo milênio, são mães solteiras que se reúnem com os filhos numa única casa, ‘with no role for men or romance.’” O cunhador do termo, o próprio James, não mencionou, à maneira da época, a natureza das relações: “(…) não deixou claro se a expressão casamento bostoniano recobria relações onde a intimidade emocional era duplicada pelo contato físico — relações lésbicas. (…) A escrita geralmente ascética ou assexuada de Gertrude Stein também exige que não se confunda o pseudoartista histérico com o verdadeiro artista santo.” Entretanto, é um consenso entre os estudiosos de Stein que havia, sim, uma relação de cunho homossexual entre as duas: Gertrude e Alice eram parceiras.

Allen Ginsberg

Ao ingressar na Universidade de Columbia, fez amizade com um grupo de jovens delinquentes, filósofos de almas selvagens (entre eles Jack Kerouac), obcecados igualmente por drogas, sexo e literatura. Ao mesmo tempo em que ajudava os amigos a desenvolverem os seus talentos literários, Allen experimentava drogas, frequentava bares gays em Greenwich Village e vivia seus affairs homossexuais.

Oscar Wilde

Wilde sempre defendeu “o amor que não ousa dizer o nome”, definição sobre a homossexualidade, como forma de mais perfeita afeição e amor.

Simone de Beauvoir

Era bissexual. Na obra O segundo sexo, fala abertamente da sua sexualidade e das relações que mantinha com as alunas. Ela defendia e participava de triângulos amorosos, inclusive com o filósofo Jean-Paul Sartre, com quem compartilhava amantes.


Fonte: site Livros Abertos

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Dom Helder Câmara; RJ, 0280701999.

Dom Helder Câmara,
Vão-se os homens de verdade,
Ficam-se os vermes indesejáveis;
Nem a ditadura te derrubou,
Ou dobrou-te; o medo não conheceste
E defendeste a justiça, a liberdade,
O direito humano e o amor;
Pregaste a paz e a esperança;
E aonde passaste e caminhaste,
Não viveste no arrivismo,
No sistema de vencer na vida,
A usar de quaisquer meios;
Não usufruíste do carreirismo
E nem foste um arrivista;
Arrogante contra a tortura,
Arrojado na defesa do bem,
Ousado na igreja, na libertação;
Impetuoso ao amar ao próximo.
Fruto da pobreza sem ser pobre;
Arriscaste ao enfrentar aos grandes,
Sem humilhar-te ou amesquinhar-te;
Dom Helder Câmara,
Os homens passam em caravana,
As coisas ficam aqui, a latir;
Ninguém teve arrojo maior do que o teu,
Soubeste arrojar e demonstrar,
Grande coragem e audácia,
Intrepidez e independência;
Soubeste arrastar atrás de ti a ousadia,
Arremessar poesia e fé
Aos ouvidos dos incrédulos;
Soubeste lançar-te desprevenido,
Para atrever-te a salvar as almas,
Que não podiam ser salvas.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Portal Vermelho; BH, 0190602012


Documentos revelam detalhes da tortura sofrida por Dilma em Minas


A presidente Dilma Vana Rousseff foi torturada nos porões da ditadura em Juiz de Fora, Zona da Mata mineira, e não apenas em São Paulo e no Rio de Janeiro, como se pensava até agora. Em Minas, ela foi colocada no pau de arara, apanhou de palmatória, levou choques e socos que causaram problemas graves na sua arcada dentária. 

Por Sandra Kiefer, no jornal Estado de Minas 


Dilma presa
"Me deram um soco e o dente se deslocou e apodreceu"
É o que revelam documentos obtidos com exclusividade pelo Estado de Minas , que até então mofavam na última sala do Conselho dos Direitos Humanos de Minas Gerais (Conedh-MG). As instalações do conselho ocupam o quinto andar do Edifício Maletta, no Centro de Belo Horizonte. Um tanto decadente, sujeito a incêndios e infiltrações, o velho Maletta foi reduto da militância estudantil nas décadas de 1960 e 70.

Perdido entre caixas-arquivo de papelão, empilhadas até o teto, repousa o depoimento pessoal de Dilma, o único que mereceu uma cópia xerox entre os mais de 700 processos de presos políticos mineiros analisados pelo Conedh-MG. Pela primeira vez na história, vem à tona o testemunho de Dilma relatando todo o sofrimento vivido em Minas na pele da militante política de codinomes Estela, Stela, Vanda, Luíza, Mariza e também Ana (menos conhecido, que ressurge neste processo mineiro). Ela contava então com 22 anos e militava no setor estudantil do Comando de Libertação Nacional (Colina), que mais tarde se fundiria com a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), dando origem à VAR-Palmares.

As terríveis sessões de tortura enfrentadas pela então jovem estudante subversiva já foram ditas e repisadas ao longo dos últimos anos, mas os relatos sempre se referiam ao eixo Rio-São Paulo, envolvendo a Operação Bandeirantes, a temida Oban de São Paulo, e a cargeragem na capital fluminense. Já o episódio da tortura sofrida por Dilma em Minas, onde, segundo ela própria, exerceu 90% de sua militância durante a ditadura, tinha ficado no esquecimento. Até agora.

Com a palavra, a presidente: “Algumas características da tortura. No início, não tinha rotina. Não se distinguia se era dia ou noite. Geralmente, o básico era o choque”. Ela continua: “(...) se o interrogatório é de longa duração, com interrogador experiente, ele te bota no pau de arara alguns momentos e depois leva para o choque, uma dor que não deixa rastro, só te mina. Muitas vezes usava palmatória; usaram em mim muita palmatória. Em São Paulo, usaram pouco este ‘método’”.

Bilhetes 

Dilma foi transferida em janeiro de 1972 para Juiz de Fora, ficando presa possivelmente no quartel da Polícia do Exército, a 4ª Companhia da PE. Nesse ponto do depoimento, falham as memórias do cárcere de Dilma e ela crava apenas não ter sido levada ao Departamento de Ordem e Política Social (Dops) de BH. Como já era presa antiga, a militante deveria ter ido a Juiz de Fora somente para ser ouvida pela auditoria da 4ª Circunscrição Judiciária Militar (CJM). Dilma pensou que, como havia ocorrido das outras vezes, estava vindo de São Paulo a Minas para a nova fase do julgamento no processo mineiro. Chegando a Juiz de Fora, porém, ela afirma ter sido novamente torturada e submetida a péssimas condições carcerárias, possivelmente por dois meses.

Nesse período, foi mantida na clandestinidade e jogada em uma cela, onde permaneceu na maior parte do tempo sozinha e em outra na companhia de uma única presa, Terezinha, de identidade desconhecida. Dilma voltou a apanhar dos agentes da repressão em Minas porque havia a suspeita de que Estela teria organizado, no fim de 1969, um plano para dar fuga a Ângelo Pezzuti, ex-companheiro da organização Colina, que havia sido preso na ex-Colônia Magalhães Pinto, hoje Penitenciária de Neves. Os militares haviam conseguido interceptar bilhetinhos trocados entre Estela (Stela nos bilhetes, codinome de Dilma) e Cabral (Ângelo), contendo inclusive o croqui do mapa do presídio, desenhado à mão (veja reproduções ao lado).

Seja por discrição ou por precaução, Dilma sempre evitou falar sobre a tortura. Não consta o depoimento dela nos arquivos do grupo Tortura Nunca Mais, nem no livro Mulheres que foram à luta armada, de Luiz Maklouf, de 1998. Só mais tarde, em 2003, ele conseguiria que Dilma contasse detalhes sobre a tortura que sofrera nas prisões do Rio e de São Paulo. Em 2005, trechos da entrevista foram publicados. Naquela época, a então ministra acabava de ser indicada para ocupar a Casa Civil.

O relato pessoal de Dilma, que agora se torna público, é anterior a isso. Data de 25 de outubro de 2001, quando ela ainda era secretária das Minas e Energia no Rio Grande do Sul, filiada ao PDT e nem sonhava em ocupar a cadeira da Presidência da República. Diante do jovem filósofo Robson Sávio, que atuava na coordenação da Comissão Estadual de Indenização às Vítimas de Tortura (Ceivt) do Conedh-MG, sem remuneração, Dilma revelou pormenores das sessões de humilhação sofridas em Minas. “O estresse é feroz, inimaginável. Descobri, pela primeira vez, que estava sozinha. Encarei a morte e a solidão. Lembro-me do medo quando minha pele tremeu. Tem um lado que marca a gente pelo resto da vida”, disse.

Humilde Apesar de ser ainda apenas a secretária das Minas e Energia, a postura de Dilma impressionou Robson: “A secretária tinha fama de durona. Ela já chegou ao corredor com um jeito impositivo, firme, muito decidida. À medida que foi contando os fatos no seu depoimento, ela foi se emocionando. Nós interrompemos o depoimento e ela deixou a sala com uma postura diferente em relação ao momento em que entrou. Saiu cabisbaixa”, conta ele, que teve três dias de prazo para colher sete depoimentos na capital gaúcha. Na avaliação de Robson, Dilma teve uma postura humilde para a época ao concordar em prestar depoimento perante a comissão. “Com ou sem o depoimento dela, a comissão iria aprovar a indenização de qualquer jeito, porque já tinha provas suficientes. Mas a gente insistia em colher os testemunhos, pois tinha a noção de estar fazendo algo histórico”, afirma o filósofo.

"Me deram um soco e o dente se deslocou e apodreceu"

Dilma chorou. Essa é uma das lembranças mais vivas na memória do filósofo Robson Sávio, que, ao lado de outra voluntária do Conselho de Direitos Humanos de Minas Gerais (Conedh-MG), foi ao Rio Grande do Sul coletar o testemunho da então secretária das Minas e Energia daquele estado sobre a tortura que sofrera nos anos de chumbo. Com fama de durona, a então moradora do Bairro da Tristeza, em Porto Alegre, tirou a máscara e voltou a ter 22 anos. Revelou, em primeira mão, que as torturas físicas em Juiz de Fora foram acrescidas de ameaças de dano físico deformador: “Geralmente me ameaçavam de ferimentos na face”.

Não eram somente ameaças. Segundo fez constar no depoimento pessoal, Dilma revelou, pela primeira vez, ter levado socos no maxilar, que podem explicar o motivo de a presidente ter os dentes levemente projetados para fora. “Minha arcada girou para o lado, me causando problemas até hoje, problemas no osso do suporte do dente. Me deram um soco e o dente se deslocou e apodreceu”, disse. Para passar a dor de dente, ela tomava Novalgina em gotas, de vez em quando, na prisão. “Só mais tarde, quando voltei para São Paulo, o Albernaz (o implacável capitão Alberto Albernaz, do DOI-Codi de São Paulo) completou o serviço com um soco, arrancando o dente”, completou.

Mais tarde, durante a campanha presidencial, em 2010, Dilma faria pelo menos três correções de ordem estética, que incluíram uma plástica facial, a troca dos óculos por lentes de contato e a chance de, finalmente, realinhar a arcada dentária. Na mesma época, Dilma combateu e venceu um câncer no sistema linfático. Guerreira, a presidente suavizou as marcas deixadas pelo passado na pele. Não tocou, porém, nas marcas impressas na alma. “As marcas da tortura sou eu. Fazem parte de mim”, definiu Dilma em 2001, no depoimento emocionado à comissão mineira, 11 anos antes de ser criada a Comissão Nacional da Verdade, no mês passado. Leia a seguir trechos do depoimento de Dilma.

Fuga pela Rua Goiás

“Eu comecei a ser procurada em Minas nos dias seguintes à prisão de Ângelo Pezzuti. Eu morava no Edifício Solar, com meu marido, Cláudio Galeno de Magalhães Linhares, e numa noite, no fim de dezembro de 1968, o apartamento foi cercado e conseguimos fugir, na madrugada. O porteiro disse aos policiais do Dops de Minas que não estávamos em casa. Fugimos pela garagem que dá para a rua do fundo, a Rua Goiás.”

Ligações com Ângelo

“Fui interrogada dentro da Operação Bandeirantes (Oban) por policiais mineiros que interrogavam sobre processo na auditoria de Juiz de Fora e estavam muito interessados em saber meus contatos com Ângelo Pezzuti, que, segundo eles, já preso, mantinha comigo um conjunto de contatos para que eu viabilizasse sua fuga. Eu não tinha a menor ideia do que se tratava, pois tinha saído de BH no início de 69 e isso era no início de 70. Desconhecia as tentativas de fuga de Pezzuti, mas eles supuseram que se tratava de uma mentira. Talvez uma das coisas mais difíceis de você ser no interrogatório é inocente. Você não sabe nem do que se trata.”

Dente podre

“Uma das coisas que me aconteceu naquela época é que meu dente começou a cair e só foi derrubado posteriormente pela Oban. Minha arcada girou para o lado, me causando problemas até hoje, problemas no osso do suporte do dente. Me deram um soco e o dente se deslocou e apodreceu. Tomava de vez em quando Novalgina em gotas para passar a dor. Só mais tarde, quando voltei para São Paulo, o Albernaz completou o serviço com um soco, arrancando o dente.”

Pau de arara

“...algumas características da tortura. No início, não tinha rotina. Não se distinguia se era dia ou noite. O interrogatório começava. Geralmente, o básico era choque. Começava assim: ‘Em 1968 o que você estava fazendo?’ e acabava no Ângelo Pezzuti e sua fuga, ganhando intensidade, com sessões de pau de arara, o que a gente não aguenta muito tempo.”

Palmatória

“Se o interrogatório é de longa duração, com interrogador ‘experiente’, ele te bota no pau de arara alguns momentos e depois leva para o choque, uma dor que não deixa rastro, só te mina. Muitas vezes também usava palmatória; usava em mim muita palmatória. Em São Paulo usaram pouco esse ‘método’. No fim, quando estava para ir embora, começou uma rotina. No início, não tinha hora. Era de dia e de noite. Emagreci muito, pois não me alimentava direito.”

Local da tortura

“Acredito hoje ter sido por isso que fui levada no dia 18 de maio de 1970 para Minas Gerais, especificamente para Juiz de Fora, sob a alegação de que ia prestar esclarecimentos no processo que ocorria na 4ª CJM. Mas, depois do depoimento, eu fui levada (ou melhor, teria de ser levada para São Paulo), mas fui colocada num local (encapuzada) que sobre ele tinha várias suposições: ou era uma instalação do Exército ou Delegacia de Polícia. Mas acho que não era do Exército, pois depois estive no QG do Exército e não era lá.”

“Nesse lugar fiquei sendo interrogada sistematicamente. Não era sobretudo sobre minha militância em Minas. Supuseram que, tendo apreendido documentos do Ângelo (Pezzutti) que integram o processo, achavam que nossa organização tinha contatos com as polícias Militar ou Civil mineiras que possibilitassem fugas de presos. Acredito ter sido por isso que a tortura foi muito intensa, pois não era presa recente; não tinha ‘pontos’ e ‘aparelhos’ para entregar.” 

Tortura psicológica

“Tinha muito esquema de tortura psicológica, ameaças. Eles interrogavam assim: ‘Me dá o contato da organização com a polícia?’ Eles queriam o concreto. ‘Você fica aqui pensando, daqui a pouco eu volto e vamos começar uma sessão de tortura.’ A pior coisa é esperar por tortura.”

Ameaças
“Depois (vinham) as ameaças: ‘Eu vou esquecer a mão em você. Você vai ficar deformada e ninguém vai te querer. Ninguém vai saber que você está aqui. Você vai virar um ‘presunto’ e ninguém vai saber’. Em São Paulo me ameaçaram de fuzilamento e fizeram a encenação. Em Minas não lembro, pois os lugares se confundem um pouco.”

“Acho que nenhum de nós consegue explicar a sequela: a gente sempre vai ser diferente. No caso específico da época, acho que ajudou o fato de sermos mais novos; agora, ser mais novo tem uma desvantagem: o impacto é muito grande. Mesmo que a gente consiga suportar a vida melhor quando se é jovem, fisicamente, a médio prazo, o efeito na gente é maior por sermos mais jovens. Quando se tem 20 anos o efeito é mais profundo, no entanto, é mais fácil aguentar no imediato.”

Sozinha na cela
“Dentro da Barão de Mesquita (RJ), ninguém via ninguém. Havia um buraquinho na porta, por onde se acendia cigarro. Na Oban (Operação Bandeirantes), as mulheres ficavam junto às celas de tortura. Em Minas sempre ficava sozinha, exceto quando fui a julgamento, quando fiquei com a Terezinha. Na ida e na vinda todas as mulheres presas no Tiradentes sabiam que eu estava presa: por exemplo, Maria Celeste Martins e Idoina de Souza Rangel, de São Paulo.”

Visita da mãe

“Em Minas, estava sozinha. Não via gente. (A solidão) era parte integrante da tortura. Mas a minha mãe me visitava às vezes, porém, não nos piores momentos. Minha mãe sabia que estava presa, mas eles não a deixavam me ver. Mas a doutora Rosa Maria Cardoso da Cunha, advogada, me viu em São Paulo, logo após a minha chegada de Minas. Hoje ela mora no Rio e posso contatá-la ”

Cena da bomba

“Em Minas, fiquei só com a Terezinha. Uma bomba foi jogada na nossa cela. Voltei em janeiro de 72 para Juiz de Fora (nunca me levaram para BH). Quando voltei para o julgamento, me colocaram numa cela, na 4ª Cia. de Polícia do Exército, 4ª Região Militar, lá apareceu outra vez o Dops que me interrogava. Mas foi um interrogatório bem mais leve. Fiquei esperando o julgamento lá dentro.”

Frio de cão
“Um dia, a gente estava nessa cela, sem vidro. Um frio de cão. Eis que entra uma bomba de gás lacrimogênio, pois estavam treinando lá fora. Eu e Terezinha ficamos queimadas nas mucosas e fomos para o hospital. Tive o
‘prazer’ de conhecer o comandante general Sílvio Frota, que posteriormente me colocaria na lista dos infiltrados no poder público, me levando a perder o emprego.”

Motivos

“Quando eu tinha hemorragia, na primeira vez foi na Oban (…) foi uma hemorragia de útero. Me deram uma injeção e disseram para não bater naquele dia. Em Minas, quando comecei a ter hemorragia, chamaram alguém que me deu comprimido e depois injeção. Mas me davam choque elétrico e depois paravam. Acho que tem registros disso no final da minha prisão, pois fiz um tratamento no Hospital das Clínicas.”

Morte e solidão
“Fiquei presa três anos. O estresse é feroz, inimaginável. Descobri, pela primeira vez, que estava sozinha. Encarei a morte e a solidão. Lembro-me do medo quando minha pele tremeu. Tem um lado que marca a gente o resto da vida.”

Marcas da tortura

“As marcas da tortura sou eu. Fazem parte de mim.” 

sábado, 16 de junho de 2012

MONESCLAROSCIDADEIMAGINÁRIA; BH, 0300402007


MONTESCLAROCIDADEIMAGINÁRIA, a utopia que Tomás More
Pensou que toda cidade seria um dia, e a qual, 
Clamo nesta poesia; ilha cercada de montes clareados:
De dia pelo sol e de noite pela lua; que sombras
Sem alegria, jamais pairem nos corações de teus súditos;

MONTESCLAROSCIDADEIMAGINÁRIA da poesia, quisera ter na
Imaginação, sóbria alegoria e neste hino cantar a
Formosura de tua cidadania, nos teus cento e cinquenta anos
De tua soberania, pois mesmo sem te conhecer
Desejo que o amor e a paz sejam o Norte de nobre valentia;

MONTESCLAROSCIDADEIMAGINÁRIA da resistência cultural, onde a
Poesia escolheu para residir e sobreviver, apesar de
Alguns arautos da intolerância acharem que a retórica poética
Jaz em túmulo de onde não sairá mais e tudo
Que aí se faz é desmentir com a verdade esses ancestrais;

MONTESCLAROSCIDADEIMAGINÁRIA do poema vivo, que mais poderia
Dizer a teu respeito? se quero um céu azul, sei que
Encontro aí; se quero uma água fresca, sei que
Beberei em teus regatos; se quero civilidade e
Humanismo, sei que encontrarei em teus atos;

MONTESCLAROSCIDADEIMAGINÁRIA de povo sábio, de gênios e
De bardos, de políticos ainda éticos, que a nação
Tanto reclama, acendas tua chama com intuição
E sejas minha musa nesta inspiração e que
Não me falte ânimo quando enaltecê-la com satisfação;

MONTESCLAROSCIDADEIMAGINÁRIA de liberdade, igualdade e fraternidade
Dos ideais revolucionários e das ideias inovadoras, nascente
Do passado, do presente e do futuro; foz da metamorfose,
Juro que não finda em mim ainda a
História da glória que representas nos nossos anais;

MONTESCLAROSCIDADEIMAGINÁRIA das possibilidades oportunais
Seio de mãe com peito de pai, acolhes os teus filhos,
Ouças os teus ais, transformas canções de dores
Em cantos de odes triunfais e elegias de Rainer
Em aleluias de vozes tonitroantes de mil corais;

MONTESCLAROSCIDADEIMAGINÁRIA, tens a força das trombetas de Jericó,
Das opções de melhorias de vida de um povo, que
Não procura respostas aos pés do Muro das Lamentações
E sim ouvir o grito, tal qual Lázaro ouviu, pois são
Tuas resoluções: levantar e andar com sangue arterial no coração;

MONTESCLAROSCIDADEIMAGINÁRIA, berço de todas as ciências,
Árvore da sabedoria e do conhecimento; cosmopolita,
Guia para todas as civilizações modernas,
Jardim suspenso do Olimpo, morada dos deuses clássicos,
Ninfa eternizada nesta epopEia, esperança de eras vindouras.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Após a minha apostasia; BH, 0180801999.

Após a minha apostasia,
Depois de meu abandono e renúncia,
À minha própria crença, doutrina,
E opinião sobre mim mesmo e as
Coisas que me cercam:
Tornei-me num desacreditado;
Em seguimento ao meu comportamento,
Perdi a minha aposentadoria,
Como poeta e escritor frustrado;
Em seguida ao meu aposentar,
Afastei-me definitivamente,
Sem vencimentos, do cargo efetivo
E dos vocábulos e tentativas literárias;
Hospedei-me, Arthur Bispo do Rosário,
Num asilo para loucos, esquizofrênicos,
Para abrigar-me pelo menos da fome,
Já que minha fome de saber,
Eu a havia perdido há muito tempo;
O meu aposento era um calabouço,
Uma dependência de uma casa de detenção,
Um quarto sem porta e janela,
Só correntes e grilhões nas paredes;
Bolas de aço presas nos pés por argolas de ferro,
Mais pesadas que o meu próprio peso;
E só dormia nesta hospedagem,
Que mais parecia um portal do inferno,
Com a minha camisa de força
E o meu sinto de castidade
E a máscara mortuária de bronze;
Era a minha câmara de tortura da inquisição.
Fornalhas e fogueiras e braseiros,
Inquisidores que mais pareciam açougueiros;
Faziam-me vomitar o que não comi
E não poderia acordar se nem dormir;
Meus sonhos eram pesadelos de heresias,
Do herege que seria retalhado em praça pública,
Para validar uma crença que não era minha.

O Brasil vai fazer quinhentos anos; BH, 0170801999.

O Brasil vai fazer quinhentos anos,
E esta ideia não me comove nada,
Nem um pouco, de verdade mesmo,
Nada tenho para comemorar;
A alta sociedade e a alta classe, sim,
Eles sempre desfrutaram as riquezas nacionais;
A burguesia, então, é de enojar
E a podridão da elite?
Dá vontade de vomitar;
Quem têm o que comemorar são eles,
A emoção é completamente deles,
Eles que são os donos do Brasil;
E os políticos dirigentes?
Como posso festejar junto desses porcos?
Homens de roupas limpas e de mãos sujas;
Como posso festejar a colonização e o aportuguesamento,
A adaptação fonológica e morfológica e gráfica
Do estrangeirismo ao português?
Como posso me aportuguesar com todo o atraso,
Que a história da colonização legou ao Brasil?
Não quero e nem devo tornar-me semelhante e
Nem submeter-me ao estrangeirismo e fenômeno,
Que é a intransigência do português aqui;
Tudo eles conseguiram do Brasil
E lá nunca conseguimos e nem conseguiremos nada;
Seremos sempre a eterna colônia,
Que enriqueceu e enriquece Portugal;
Aqui eles têm mandatos parlamentares,
Times de futebol e casas de festas,
Restaurantes e cargos públicos;
Lojas de comércio e rede de táxis
E tudo adquirido com o nosso dinheiro;
E o que temos nós lá?
Nem os filhos bastardos das nossas negras escravas estupradas;
Só as nossas vidas que eles ceifaram,
Nossos indígenas que eles exterminaram;
As nossas pedras preciosas e o nosso ouro,
O sangue dos nossos inconfidentes,
Que eles nos roubaram na nossa história.

Não tenho um pescoço firme; BH, 0170801999.

Não tenho um pescoço firme,
Para apor minha vacilante cabeça;
Não tenho um pedestal feito de bronze,
Uma base de concreto armado,
Para pôr junto, ou em cima a minha cabeça;
Não tenho como me ligar em algo,
Que me tire deste ridículo
De querer prender em mim,
Uma cabeça flexível que só quer voar;
Cansei de aporrear esta danada,
De espancar com porrete e pedaços de pau,
Bater com ela na parede de cimento,
E só soube me aporrinhar até agora;
Quanto mais penso que ela,
Está firme em mim,
Mais chego á conclusão que,
Só está cheia de aporrinhação;
É uma cabeça gelatinosa, de mola
E o cabelo que a cobre, então,
É outro aporrinhamento sem razão,
Já mandei raspar e cresceu de novo;
Agora está a cair e a me deixar careca;
E uma coisa que ela gosta,
É de se apoquentar de vez em quando,
Esquentar-se até a me aborrecer,
Parece que vai estourar;
Ai vem uma ventania,
Balança-a para um lado,
Balança-a para outro, esfria,
E torna a voltar para o lugar;
Preciso de um pescoço forte,
Para aportar a minha cabeça;
Conduzir ao porto desse pescoço,
Ou a outro lugar para fundear,
Esta minha cabeça que é uma nau a voar;
Não tenho um pescoço firme,
Para chegar com a minha cabeça.

Alguém precisa apontar o dedo; BH, 0170801999.

Alguém precisa apontar o dedo,
Na cara dos hipócritas inescrupulosos;
Alguém precisa fazer ponta frente aos olhos deles
E denunciá-los aos olhos do povo;
E aguçar a memória do trabalhador,
Para começar a surgir um movimento,
Que venha derrubar a burguesia,
Derrubar a elite, a classe política
E todos que navegam contra o desejo
De emancipação da classe trabalhadora;
É hora de despontar no horizonte,
Uma nova filosofia voltada ao operário;
É hora de alguém indicar o caminho,
Contrário ao da classe dominante;
Perpetua-se no poder ao perpetuar
O sofrimento, o massacre e o extermínio
Das melhorias de vida da população;
É preciso mostrar com o dedo,
Todos os inimigos do povo;
Fazer gestos obscenos em direção a eles,
E lançar-lhes na cara objetos deteriorados,
Iguais aos que eles têm dentro das cabeças;
Nunca mencionar o nome dessa raça,
Víboras mesquinhas e serpentes traiçoeiras;
Alegar amnésia na hora de lembrar deles,
Marcar os passos e os desvios das rotas,
Que eles sempre tomam quando chegam lá;
Anotar todas as mentiras e falsidades
E fazer pontaria na cara deles com o mesmo
Bolo de lama deixado pelas pegadas sujas;
Designar a verdade para envergonhá-los
E encurralá-los nos próprios chiqueiros chiques;
Assinalar uma mosca no peto de
Cada um deles e puxar o gatilho assim.

Jamais farei um discurso; BH, 0170801999.

Jamais farei um discurso,
Ou escreverei algo de louvor e defesa
Aos representantes da ojerizada burguesia;
Jamais farei apologia à elite
Ou um panegírico à classe política;
Nunca serei um apologista de
Fernando Henrique Cardoso, vulgo FHC,
Marco Maciel, Antônio Carlos Magalhães
E outros membros da famiglia de colarinhos-brancos;
Sou mais de fazer um apólogo,
Uma fábula de alegoria moral em que,
Dou razão e raciocínio e fala a esses
Homens animais e a essas coisas inanimadas;
Em meus apontamentos não existem
Simpatias ao neoliberalismo
E à globalização da economia,
Importação predatória e privatização
Inescrupulosa e nociva à economia
Nacional com seus resultados negativos;
Meus lembretes não serão favoráveis à maneira
Que certos políticos usam
Para se perpetuarem no poder;
Minhas notas são contra esses políticos
E nas anotações para posterior consulta,
Procuro esquecer historicamente,
Figuras e figurões nocivos ao desenvolvimento,
À prosperidade e progresso nacionais;
Sou um apontador contumaz desse párias,
Aponto todos os erros e crimes cometidos;
Sou um instrumento para fazer ponta
Na memória deles;
Nunca esquecerão de mim, como serão
Esquecidos pelo povo brasileiro;
Serei o encarregado de controlar o material
E anotar os anseios dos operários para o futuro.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Hoje estou mais solitário; RJ, 0120201999.

Hoje estou mais solitário
Do que quando nasci;
Estou mais abandonado,
Sozinho e desamparado;
Quando nasci,
Todo mundo me paparicava,
Tinha minha mãe por perto,
Tinha meu pai,
Meus avôs e minhas avós,
Meus tios e tias,
Irmãos e Irmãs;
Todos os parentes e vizinhos
E toda a gente da redondeza;
Hoje estou aqui,
Jogado na sarjeta;
Aquele menininho bonitinho,
Transformou-se num velho,
Ranzinza e alquebrado;
Um velho torto e enferrujado,
Caduco e desmiolado;
Nenhum asilo me quis
E fui lançado às calçadas,
Às ruas e vielas e marquises;
E o que restou de mim,
São os restos que
Nem as aves de rapina
E nem os vermes da terra,
Querem mais.

Quando será que; BH, 0290801999.

Quando será que,
Vou arrumar as minhas ideias,
Pôr em ordem o meu pensamento,
Arranjar um meio,
De colocar em prática,
O meu ideal?
Não quero e nem posso,
Acomodar-me;
Preciso assinalar o meu rumo,
E estou perdido,
E não sei;
Quando será que,
Vou dirigir em determinado rumo,
Que me leve à felicidade,
A conseguir a resposta,
Obter a solução,
De todo problema que,
Aparento no momento?
Não sei empregar em nada,
A minha inteligência;
Nem retirar utilidade,
Da minha sabedoria;
Gostaria muito,
De avir-me com as coisas;
Ajustar meu meio de vida;
Harmonizar físico e mente;
Combinar alma e espírito,
Haver-me em mim;
Conseguir boa situação emocional,
Casar-me com a existência;
Amigar-me com a sorte,
Destruir o arsenal de azar,
Depósito e estabelecimento
De fabricação de armas e munições,
Nocivas à espécie humana.

Paulo Mendes Campos, Neste soneto; BH, 0110601012.

Neste soneto, meu amor, eu digo, 
Um pouco à moda de Tomás Gonzaga, 
Que muita coisa bela o verso indaga 
Mas poucos belos versos eu consigo. 


Igual à fonte escassa no deserto, 
Minha emoção é muita, a forma, pouca. 
Se o verso errado sempre vem-me à boca, 
Só no meu peito vive o verso certo. 


Ouço uma voz soprar à frase dura 
Umas palavras brandas, entretanto, 
Não sei caber as falas de meu canto 


Dentro de forma fácil e segura. 
E louvo aqui aqueles grandes mestres 
Das emoções do céu e das terrestres.

Paulo Mendes Campos, A Mário de Andrade; BH,01106002012.


Não sei que mãos teceram teu silêncio. 
Morto.
Estás morto.
Sonhas morto?
Morto. 
Espantalho fatal, onde flutuas 
Acordas borboletas tresvairadas.
Tua morte chegou nas folhas secas 
Mas nada vi no ventre da noitinha, 
Que não interpretei nas alegrias 
Tua razão mais bela de acabar.
A noite está coalhada de formigas. 
A cruz amarga a fé desesperada. 
Há formigas na treva de tua morte 
E em mim erram punhais entrefechados.
O simples tempo agora abre a vidraça. 
Desarmaram nos campos a barraca. 
Chega do canteiro a razão – flor 
Para agravar sinais do inevitável.
O silêncio borbulha nos esgotos. 
Bebamos o licor de tua morte. 
Enquanto se suporta a solidão. 
Tua morte foi servida numa salva.
Cisnes feridos, franzem meu destino. 
Os convivas, as moças, as vitrinas 
Não sabem que paraste.
Mas eu sofro 
O sono vegetal dos passarinhos.
Mas eu sofro. 
Eu e o morto que conduzo 
Vamos sofrer até de manhãzinha. 
Vamos velar aflitos sobre a terra 
Que desviou o teu olhar das rosas.

sábado, 9 de junho de 2012

Estou a sofrer; RJ, 0120201999.

Estou a sofrer,
Magoado, machucado e dolorido;
Caí do vigésimo quinto andar,
De um prédio na cidade;
Estatelei-me na calçada,
Estou todo quebrado;
Meu pensamento evaporou,
Meus membros se desprenderam;
Cada órgão de administração municipal,
Ficou com a guarda,
De um membro meu;
Só que não fiquei nem comigo;
Corro grande perigo
De não chegar ao fim do caminho;
Minha sorte é que,
Gosto de viver perigosamente;
Minha sorte é que,
Gosto de viver e arriscar;
Se não fosse isso,
Nem sei o que já teriam feito
Dos meus pedaços quebrados
E esquecidos por aí;
Até meu tronco sumiu
E a minha cabeça dura,
Foi o que resistiu a tão grande impacto;
Não fendeu e não rachou;
Continuou a mesma cabeça,
Cheia de concreto armado
E coberta de chumbo;
Não existe o que pode me fazer,
Sentir-me inteiro de verdade.

No país já acabou o estabelecimento; BH, 0290801999.

No país já acabou o estabelecimento,
Onde se constroem e se reparam navios;
E o resultado está aí: desemprego; e a
Casa ou dependência desta, onde se
Guardam muitas armas e munições,
Ficou sem utilidade; o tempo é de paz,
O fim é o da violência; e não existe
Motivo para arsenal mortífero; a época
É de vida e usar o arsênico só como
Elemento químico, de cor cinzenta e
Brilho metálico, e bom como condutor
Elétrico; nada de envenenar com arsênio,
Pois os compostos são altamente
Tóxicos e podem matar; e o tempo é de
Arte, o uso sistemático do conhecimento
E da habilidade na consecução de um fim;
A hora é de perícia adquirida através de
Experiência, ou estudo da sabedoria, bom
Desempenho de inteligência; profissão da
Metafísica, travessura mental, final
Acidente intelectual; projeto definitivo para
Execução de mudança do leiaute do coração.

Paulo Mendes Campos, Balada do amor perfeito; BH 090602012.


Pelo pés das goiabeiras,
Pelo braços das mangueiras,
Pelas ervas fratricidas,
Pelas pimentas ardidas,
Fui me aflorando.
Pelos girassóis que comem
Giestas de sol e somem,
Por marias-sem-vergonha,
Dos entretons de quem sonha
Fui te aspirando.
Por surpresas balsaminas,
Entre as ferrugens de Minas,
Por tantas voltas lunárias,
Tantas manhãs cineárias,
Fui te esperando.
Por miosótis lacustres,
Por teus cântaros ilustres,
Pelos súbitos espantos
De teus olhos agapantos,
Fui te encontrando.
Pelas estampas arcanas
Do amor das flores humanas,
Pelas legendas candentes
Que trazemos nas sementes,
Fui te avivando.
Me evadindo das molduras,
De minhas albas escuras,
Pelas tuas sensitivas,
Açucenas, sempre-vivas,
Fui te virando.
Pela rosa e o resedá,
Pelo trevo que não há,
Pela torta linha reta
Da cravina do poeta,
Fui te levando.
Pelas frestas das lianas
De tuas crespas pestanas,
Pela trança rebelada
Sobre o paredão do nada,
Fui te enredando.
Pelas braçadas de malvas,
Pelas assembléias alvas
De teus dentes comovidos
Pelo caule dos gemidos
Fui te enflorando.
Pelas fímbrias de teu húmus,
Pelos reclames dos sumos,
Sobre as umbelas pequenas
De tuas tensas verbenas,
Fui me plantando.
Por tuas arestas góticas,
Pelas orquídeas eróticas,
Por tuas hastes ossudas,
Pelas ânforas carnudas,
Fui te escalando.
Por teus pistilos eretos,
Por teus acúleos secretos,
Pelas úsneas clandestinas
Das virilhas de boninas,
Fui me criando.
Pelos favores mordentes
Das ogivas redolentes,
Pelo sereno das zínias,
Pelos lábios de glicínias,
Fui te sugando.
Pelas tardes de perfil,
Pelos pasmados de abril,
Pelos parques do que somos,
Com seus bruscos cinamomos,
Fui me espaçando.
Pelas violas do fim,
Nas esquinas do jasmim,
Pela chama dos encantos
De fugazes amarantos,
Fui me apagando.
Afetando ares e mares
Pelas mimosas vulgares
Pelos fungos do meu mal,
Do teu reino vegetal
Fui me afastando.
Pelas gloxínias vivazes,
Com seus labelos vorazes,
Pelo flor que desata,
Pela lélia purpurata,
Fui me arrastando.
Pelas papoulas da cama,
Que vão fumando quem ama,
Pelas dúvidas rasteiras
De volúveis trepadeiras
Fui te deixando.
Pelas brenhas, pelas damas
De uma noite, pelos dramas
Das raízes retorcidas,
Pelas sultanas cuspidas,
Fui te olvidando.
Pelas atonalidades
Das perpétuas, das saudades,
Pelos goivos do meu peito,
Pela luz do amor perfeito,
Vou te buscando.