sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

"Poemas de hoje", RJ/SD, Pau-Velho; Publicado: BH, 0310102020.

Ai que saudades que tenho
Dos meus tempos de criança
Lá no morro do Pau-Velho
E vivia
E corria
E xingava
E cuspia
E brigava
E apanhava
E batia
E brincava
E dava pedradas
Fumava escondido
Roubava frutas
Roubava meus pais
E era gente
E era capeta
E era demônio
Ai que saudades que tenho
Da minha casa
Lá no morro do Pau-Velho
Casa calma
Cheia de sombras
Árvores no quintal
Balanço nos galhos
Minha paixão
Ai que saudades
Daquelas tardes
Sem barulhos 
E sem mortes
Tardes infantis
Tardes pueris
Que davam prazer
Senti-las passar
Preguiçosamente
Ah meu morro
Meu morro do Pau-Velho
Se pudesse ser criança 
Novamente
Para sentir a paz
Para sentir o amor
De viver em ti
É uma pena
Que o tempo passa
Tudo muda
Tudo se transforma
E me vi homem
Tão de repente
Mas as tuas lembranças
Doces lembranças
Não saem da minha mente
Minha mente de criança.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

"Poemas de Hoje", RJ/SD, Certidão de nascimento; Publicado: BH, 0300102020.

Nasci numa sexta-feira treze
Dum mês de agosto à meia-noite
Do ano mais tenebroso
Que já existiu
E como é normal no nascimento
A criança nascer
Primeiro a cabeça
Nasci ao contrário
Primeiro os pés
E nasci num cemitério
Deitado numa sepultura
E era noite de lobisomens
Noite de bruxas
De vampiros
De mulas sem cabeças
De sacis-pererês
E era noite
De todos os bichos
De todos os fantasmas
De todas as assombrações
Que a imaginação
E o sobrenatural
Podem criar
E nasci numa noite de chuvas
E trovões e raios e relâmpagos
Noite de trevas e de medos
Nasci inseguro e sozinho
E não chorei
Como mandam o bom costume
E o bom figurino
E dei gritos
Gritos lancinantes
Gritos de pavor
E terror muito terror
Na noite na qual nasci
E parece que não nasceu uma criança
E sim um monstro
Um bicho qualquer
Um demônio qualquer
E não o filho duma mulher
Um espírito ruim qualquer
E nasci
E este foi o meu azar
E nasci
Esta foi a minha má sorte
O meu mau agouro.

"Poemas de Hoje", RJ/SD, Já faz uma eternidade a última vez que te vi; Publicado: BH, 0300102020.

Já faz uma eternidade a última vez que te vi
Já faz milhões de séculos a última vez que te beijei
E agora me apareces
E louco para te conhecer de novo
Para matar essa saudade secular
Que tomou conta do meu coração
Já faz mais dum milênio a última vez que olhei o teu olhar
E o tempo já passou veloz
E tudo já virou cinzas vulcânicas
E tudo já virou poeira pré-histórica
E só o meu espírito paira sobre a esperança
Dum dia ainda
Talvez além do além
Tornar a te encontrar aqui no aquém
E te ver novamente
E te viver novamente
E te beijar
E beijar a tua boca
E te olhar
E olhar nos teus olhos
E te amar
E matar a tristeza
Recuperar o tempo
O tempo perdido que passei sem ti
Já faz mais de mil e uma noites
A última vez que dormir contigo uma noite
E que vi o teu sorriso
Quando acordei
Bem cedinho de manhã
Bem cedo de manhãzinha
Depois duma noite pura de amor.

"Poemas de Hoje", RJ/SD, Dores e prazeres; Publicado: BH, 0300102020.

Dores e prazeres
Na nossa primeira noite
Sangue
Espermas 
Óvulos
E suor
A misturar-se
No lençol da cama
Mordias uma toalha branca
E eu mordia-te
Teus olhos
Reviravam-se
Em órbitas
As veias
Do teu pescoço
Inchavam-se tanto
Que pensei
Que fossem estourar
Dores e prazeres
Gritos e gemidos
Sussurros e grunhidos
Arranhões e cicatrizes
Puxões de orelhas
Palavrões e pragas
Arrependimentos e juras
E parecias que ias morrer
Desmaiaste sete vezes
E em nossa primeira noite
Aconteceu de tudo
Lembrava até a guerra
Do Vietname
Blasfêmia e hipocrisia
Brutalidades e carinhos
Nunca vi tanta morte
Nunca vi tanto sangue
Nunca vi tanta vida
Em toda a minha vida
E depois de tudo
Um sorriso
De menina que 
Passou a ser mulher
Vida nova começou
São coisas da vida
São coisas do amor
São coisas
Que só o amor faz
E que só o amor sabe fazer.

"Poemas de Hoje", RJ/SD, Quando me aparecem as boas oportunidades; Publicado: BH, 0300102020.

Quando me aparecem as boas oportunidades
Nunca sei aproveitá-las
E até pensar o que devo ou não fazer
O tempo já passou
E é tarde demais
E só depois de muito tempo perdido
É que me vem à cabeça
O que deveria ou não ter feito
E quanta coisa boa já perdi na vida
Por causa da minha indecisão
E do meu fraco raciocínio
Tenho que aprender a pensar mais rápido
E agarrar com muita garra
A primeira oportunidade que aparecer
Seja boa ou ruim
Tenho que aprender a ser bom oportunista
E a ser mais inteligente
E a ser mais pensador
Só quero segurar a oportunidade
Depois que ela já passou
E ao passado ninguém consegue agarrar
E do passado
A gente só lamenta
As oportunidades desperdiçadas
E as esperanças perdidas.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

"Poemas de Hoje" RJ/SD, Como pode um filho de Deus; Publicado: BH, 0290102020.

Como pode um filho de Deus
Comprar feijão
Comprar arroz
Comprar leite e pão
Com o salário-mínimo
Que recebe no fim do mês?
Como pode o cidadão
Pagar aluguel
Luz e gás
Comprar remédios
Comprar roupas
Pagar escolas
Taxas e impostos
Com esse salafrário
Salário-mínimo de hoje?
É uma vergonha
Não dá nem para comprar
Um quilo de carne
Para comer no dia de domingo
Diz para mim
O que um desgraçado
Pode fazer
Com um salário 
Tão vagabundo
Como esse que ganho?
O padrão de vida
Do operário é triste
E ele não quer operar
Pela baixa renda
Que vai obter
Mas o que fazer?
Como pode um filho de Deus
Viver hoje em dia
Com esse salário-mínimo
Se não dá
Nem para sobreviver?
Quanto mais viver
E não vou mais trabalhar
Acabar-me na vida
A perder saúde
A perder tempo
A perder tudo
Para no fim do mês
Receber uma porcaria de gorjeta
Perceber um resto de esmola
Que não chega
Nem a ser pagamento.

"Poemas de Hoje", RJ/SD, A fome; Publicado: BH, 0290102020.

E a minha barriga está a roncar
E estou com fome
E não comi nada hoje
E sei muito bem
Que ninguém
Tem nada a ver com isso
E o problema é só meu
Se não comi nada
Foi porque não quis
E o quarto está escuro
Não sei o porque
Não acendi a luz
Olhei para a parede
Olhei para as trevas
E vi as trevas
E como são feias
E horripilantes
Mas fiquei com vontade
De comer as trevas
Tentei pegá-las
Mas as trevas me fugiam
De dentro das mãos 
E se escapavam
Por entre os meus dedos
Abria a boca
Ao tentar mordê-las
Mas as mordidas
Foram em vão
Então desistir 
De comer as trevas
As trevas já estavam
Dentro de mim
Trevas frias e terrificantes
Procurei um pedaço de pão
No escuro não encontrei
O pão estava no infinito
E uma falta geral de pão
Fez-me pensar no mundo
E naquele momento
A minha fome passou.

"Poemas de Hoje", RJ/SD, Mundo de sonhos; Publicado: BH, 0290102020.

Todo mundo tem um sonho
E sou um sonhador
E meus sonhos são bem maiores
Do que a minha cabeça
E meus sonhos são bem maiores
Do que os meus pensamentos
Todo mundo tem um sonho
E só vivo a sonhar
E tenho um mundo de sonhos
E como na realidade
Tudo é feio
Tudo é mau
Tudo é mal
Em meus sonhos 
Tudo é bonito
Tudo é bom
Tudo bem
E sonho de dia
Sonho de noite
Sonho acordado
E sonho a dormir
Sonho até debaixo d'água
Coisa que 
Nem peixe faz
Até na lua já sonhei
E no céu
E nas estrelas
Sonho até no vácuo
Coisa que 
O ar não faz
E já sonhei no sol
E no infinito
E sonhei no universo
No verso
E no inverso
E no grão de areia
E sou um sonhador
Sonho com a paz
Sonho com o amor
E sonho com algo melhor
Um mundo 
E uma vida
E todo mundo tem um sonho
E tenho um mundo de sonhos.

"Poemas de Hoje", RJ/08/01976, Mísero salário-mínimo; Publicado: BH, 0290102020.

Hoje segunda-feira
Dum chato mês de agosto
Dum curto ano de 1976
Cheguei ao trabalho
Dei bom-dia
Completamente ignorado
Ninguém me cumprimentou
Ainda não tinha acabado de entrar
Quando fui saudado
Pelo olhar furioso do chefe
E pelo olhar raivoso da secretária
Vá comprar café
Joga o lixo fora
Enxuga a geladeira
Vá comprar cigarros
Faça isso
Faça aquilo
Deposita esse dinheiro
Saca esse cheque
Lava o banheiro
Limpa o tapete
Bata as cortinas
Arruma o escritório
Atenda o telefone
Leva isso nesse endereço
Sirva o cafezinho
Pega as correspondências
Compra os jornais
Paga isso 
Paga aquilo
Limpa os vidros
São ordens
Não discuta
Não fiques na recepção
Não uses o telefone
Não mexas nessa gaveta
Isso não é da tua conta
E mais isso 
E mais aquilo
E mais rápido
E no fim do mês
Depois de tanta miséria
Um mísero
Um miserável
Salário-mínimo.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

"Poemas de Hoje", RJ/SD, Chuva azarenta; Publicado: BH, 0280102020.

Andamos a noite toda na chuva
À procura dum lugar
Para poder nos amar
Mas todo lugar que chegávamos
Já estava ocupado
E lá íamos nós
Pela noite à fora
Pela chuva à fora
Molhados até a alma
E a procurar sem parar
Um abrigo acolhedor
Para fazermos o nosso amor
E veio a madrugada
E a chuva não parou
Chuva azarenta
Noite azarenta
Não encontramos um lugar qualquer
E nem fizemos o nosso amor
E foi uma pena
Esse tempo perdido
Uma noite chuvosa
Boa para amar
Boa para beijar
Mas o azar
Não quis nos deixar
E nós feitos loucos
A correr na chuva
Para cima
E para baixo
Atrás duma cama
Bem confortável
E não encontramos
Foi verdadeiramente uma pena
Um azar dos diabos
E feitos dois morcegos
Vagamos pela noite
Vagamos pela chuva
Sem um eco para nos guiar
A um bom lugar
Mas a chuva azarenta
Não quis parar
E fomos pelo mundo deserto
Molhados e sem destino certo.

"Poemas de Hoje", RJ;SD, Depoimento a um amigo; Publicado: BH, 0280102020.

Amigo
Se falar para ti
Das mulheres que amei
Das mulheres que já tive
Vais dizer que
Não sou um homem
Sou um bicho
Um porco talvez
Mas é isso amigo
Sem mulher não fico
Já amei mulher de amarelão
De febre aftosa
E também tuberculosa
E já amei mulher
Duma perna só
Dum braço só
Dum seio só
E já amei mulher
De todo jeito
Que pensares
Já amei mulher dos outros
Mulher moça
Mulher freira
E tudo o mais
Amigo
Se falar para ti
Das mulheres que amei
Não vais acreditar
Já amei mulher com câncer
De doenças infernais
Mendigas e loucas
Que encontrava
A perambular pelas ruas
Já amei
Porcarias e imundícies
Feridas crônicas e aleijadas
Cegas e mudas
Surdas e cadavéricas
Já amei isso tudo
E foi pouco amigo
Mas já amei.

"Poemas de Hoje", RJ/SD; Mulher cancerosa; Publicado: BH, 0280102020.

Estás com câncer
Estás cancerosa
E amei-te assim mesmo
Vi o câncer em teu seio
E beijei tua boca
Tua boca cancerosa
E estás com câncer
E não me disseste nada
Quando já estava excitado
Foi que mostraste
E nem pensei
E nem quis saber o que era
Fui ao amor com tudo
Fui aos beijos com tudo
E me disseste
Que aquilo não era nada
Que era um machucadinho
Sem importância alguma
Não senti nojo
E nem repugnância
Senti foi pena de ti
De tua ignorância
De tua calma
A tentar enganar
A ti mesma
Ou talvez tenhas medo
De enfrentar a verdade
Coisa bem difícil
Câncer é morte
Não tem cura
Mas não quero que morras
E nem quero te ver sofrer
Com esse troço aí
A te roubar a vida
E a te roubar de mim
E ainda a sorrir
A fingir não entender
A gravidade da coisa
Olha meu amor
Tu estás com câncer
E estás cancerosa
És uma mulher cancerosa
Mulher cancerosa
E olha meu amor
Câncer é perigo
Câncer é morte.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

"Poemas de Hoje", RJ/SD, Mineiro; Publicado: BH, 0270102020.

E vim de Minas Gerais
Para o Rio de Janeiro
Atrás de mulher
E ganhar o meu dinheiro

Mas quando cheguei ao Rio
E saltei na estação
Ai meu Deus do céu
Como doeu meu coração

Saudade de minha terra
Meu pedaço de torrão
Ai Minas Gerais
Não pedi sua benção

E sou um capiau
Nem sei assinar o nome
Foi só chegar ao Rio
Comecei a passar fome

Sem um dinheiro no bolso
Sem mulher para se amar
Sem um pedaço de pão
Sem uma casa para morar

Passados muitos anos
Nesta terra de sol e calor
Barriga no espinhaço
A costela já secou

A mulher não me quis
O dinheiro não ganhei
Vou para Minas Gerais
Lá talvez viverei

Chega de sofrimento
Chega de dormir na prisão
Pois como não tenho emprego
Sou tomado por ladrão

Vou lá para o meu sertão
Onde um homem é um homem
Tem amor e coração
Trabalha e não passa fome

A mulher lhe dá amor
Até o último dia de vida
E no mais frio dos invernos
Ele vai sentir calor

A justiça lhe apoia
A lei lhe dá razão
Não tem coisa melhor
Do que nascer lá no sertão

O que que faço aqui?
Nem mesmo sei dizer
Bem antes de aqui chegar
Já comecei a morrer

De volta para Minas Gerais
Saí do Rio de Janeiro
De volta para a mulher
E de volta para o dinheiro

Agora sou um homem
Vivo e tenho direitos
O cachorro já morreu
E recobri meu esqueleto

Os olhos cheios de luz
Na boca uma canção
Nos lábios um sorriso
No peito um coração

Agora Minas Gerais
Como é bom aqui estar
Acabou-se a minha morte
Já posso viver e amar.

"Poemas de hoje", RJ/SD, Preciso melhorar; Publicado: BH, 0270102020.

Preciso melhorar
Não existe outra terra
Não existe outro céu
Não existe outro lugar
E sei muito bem
Que quando sair daqui
Muita gente boa
Vai sair a falar por aí
Que eu não prestava
Que não era homem
Que era covarde
Que era medroso
Que não era bom
E sei ainda
Que muita gente
Vai desabafar 
Vai dizer
A meu respeito
O que estava guardado
Há muito tempo
Em suas gargantas
E vão falar mal
Dizer o que pensavam
E o que achavam
E qual era o conceito
Que tinham a meu respeito
E preciso melhorar
Antes do fim
Por que o fim é certo
E não existe lugar
Para aonde se vai
No nosso fim
Acabou
Acabou
Lágrimas para uns
Tenho certeza
Risos para outros
Tenho certeza
Por isso 
Preciso melhorar
E é tão difícil
Fazer o mundo
Gostar da gente
E preciso fazer
Pelo menos eu
Gostar de mim.

"Poemas de Hoje", RJ/SD, Deixei-te para ver; Publicado: BH, 0270102020.

Deixei-te para ver
Se sentirias falta de mim
Mas passou um dia
Mas passou outro dia
E não me procuraste
Esperei mais um pouco
E nem apareceste
E só queria ver
Qual seria a tua reação
Um pouco longe de mim
E senti que não faço falta
Nenhuma para ti mesmo
E não quiseste saber
O que tinha acontecido
E nem me perguntaste
Por aonde andei
E nem sentiste mesmo
A minha ausência
E agora entendi
Que não represento
Nada para ti
Deixei-te para ver
Deixei-te para fazer um teste
Mas fui reprovado 
E fiquei encabulado
Com a tua indiferença
Com a tua frescura
E agora vou deixar-te
De uma vez por todas
É que quero um amor
Que me tenha como amor
Quero uma mulher
Que me tenha como homem
E quero um alguém
Que me tenha como alguém
Deixei-te para ver
Deixei-te para testar
E agora vou deixar-te
Para poder viver
Para poder amar.

"Poemas de Hoje", RJ/SD, Antes ser um nada; Publicado: BH, 0270102020.

Antes ser um nada
E não fumo maconha
Não tomo bolinhas
E nem tomo picos nas veias
E não sou traficante
Não sou contrabandista
E nem sou assassino
E não sou assaltante
Não sou ladrão
E nem sou vagabundo
E não sou mendigo
Não peço esmolas
E nem sou indigente
E não sou cachaceiro
Não sou corruptor
E nem sou chantagista
E não sou ateu
Não sou hipócrita
E nem sou blasfemo
E não passo fome
Não passo sede
E nem fico sem dormir
E não vou à guerra
Não sou herói
Nem sou soldado
E tenho o meu lar
Tenho a minha mãe
E tenho o meu pai
E tenho o meu dinheiro
Tenho o meu trabalho
E tenho as minhas obrigações
E não sou sequestrador
Não sou um mercenário
E nem sou um subversivo
E tenho o meu estado
Tenho a minha cidade
E tenho o meu país
E não sou um idiota
Não sou um tolo
E nem sou um otário
Sou muito pior
E não sou amor
E não tenho amor
E não posso amar
Antes ser um animal
Antes ser um bicho
Antes ser um porco
Antes ser um nada
Do que não ser amor.

"Poemas de Hoje", RJ/SD, Apenas uma poesia; Publicado: BH, 0270102020.

Apenas uma poesia
Se pudesse escrever queria
Uma poesia por dia
E não precisava 
Nem almoçar
E nem merendar
Ou jantar
Queria apenas
Uma poesia por dia
Uma poesia digna
Uma poesia nobre
Apenas uma
Uma poesia por dia
Com definição 
E com razão
Uma poesia
Com compreensão
E a levar mensagens
De amor e paz e harmonia
E se pudesse escrever
Uma poesia por dia
Não queria
Nem café 
E nem mulher
Queria apenas
Uma poesia por dia
Uma poesia real
Uma poesia majestosa
Apenas uma
Mas pedir uma
Já é pedir demais
Já é muito
E não consigo escrever
Nem uma poesia por dia
E uma poesia por dia
Seria o suficiente
Para a minha sobrevivência
Para a minha tara
Mas não tenho paciência 
De esperar um dia
De poder escrever
Uma poesia por dia
Uma poesia clara
Uma poesia livre
Uma poesia de classe
Mas não tenho classe
De uma poesia por dia
Mas tem que ser poeta
Tem que ter paz
Tem que ter amor
Quem diria
Apenas uma 
Uma poesia por dia.

"Poemas de Hoje", RJ/SD, Espera inútil; Publicado: BH, 0270102020.

E esperei por ti
Depois de ter telefonado
E falaste
Que não ias demorar
Não demoraste
Mas também
Não apareceste
Pedi um chope
Para a espera ser curta
E fumei um cigarro
Para não sentir
O tempo passar
Três chopes depois
Vários cigarros além
Nada de ti
Nem uma sombra
Nem uma silhueta
E nem uma caricatura
Ou um simulacro
Nada mesmo
Chamei o garçom
E falei para ele
Que essas mulheres
São todas iguais
E nenhuma presta
E ele falou 
Que eu já estava alto
E que fosse andar
Mas continuei
Marca um encontro
E não vem
E não vou mais 
Marcar encontro
Com mulher alguma
Esperei a tarde toda
E evaporaste
E foste para o vácuo
E não voltaste
Mas não faz mal
E não vou mais
Telefonar para ti
E nem precisas voltar
E tomei todo chope
Naquela tarde
Afoguei minha mágoa
Afoguei meu ódio
E podes andar
Podes virar poeira
Pois quem vai
Levar-te à casa
Vai ser o vento.