quarta-feira, 27 de maio de 2015

Rio Grande do Norte, 916, 22; BH, 040702012.

Lá na eternidade vasculhei um altar,
Lá na posteridade quero gravar um nome;
E procuro em todos os nomes, um que,
William imortalizou nas Tragédias;
E não fiquei satisfeito com os apresentados,
Levei no bolso do casaco alternativas,
Levei nas solas das botas resíduos de terra,
Yesterday tocava no meu radinho de pilha;
Num sobressalto de lucidez vislumbrei,
Donde vinha a luz genial que procurava;
Antes de mim já estava na estrada,
Vivo a vagar na vida o pão sóbrio;
Interessei pelo veio da cultura que,
Emanava das pegadas e das pisadas
Sagradas dos pés sábios e ilustres;
Agora magistrado sólido do bem,
Não deixa subir à cabeça o poder;
E a treva fica de fora e só há luz
Onde mora, só há esperança 
Na sala de estar, no quarto, amor
Inteiro, puro e verdadeiro;
E onde fala uma voz, é a voz
Maior, que todos os ouvidos,
Esperam e correm a escutar,
Donde vem tanto brilho; 
E vi inclusive uma lágrima doce,
Na face a escorrer do canto do olho,
Amparei-a com um beijo, não era de choro.

Rio Grande do Norte, 916, 21; BH, 040702012.

Vagueei pelo universo vagabundo, vagabundeei
Através do infinito, atrás de um grito
De esperança, de ouvi-lo no vácuo;
Depois percebi minha estupidez
E despertei do sonho, para entrar na
Razão, e racional, raciocinei, mortal
Não vai além do portal do cemitério;
E assim, querer ir além do infinito,
Inda a querer ouvir gritos,
Lá no nó das paralelas? quem dera?
Em hospício tenho que ficar maluco,
Na loucura do emparedado em sanatório,
Agora inglório por ser doido varrido;
Nenhuma academia diplomará,
Tudo que digo na morta poesia;
Ô porca miséria humana, desgraça
Nenhuma tu colocarás fim um dia;
Vá por aí a procurar quem quererá ver
O fim da pobreza no mundo capitalista;
Meu sonho, qual o que, não sustento
A utopia, o rolo compressor faz
De mim uma pasta fétida e
Indiferente sigo as pegadas do vento;
No retorno do pesadelo, cansado,
Acenei que um dia acordei, e vi
Ali na esquina um novo mundo,
Que surgia das neblinas; mas era
O álcool que embaçava minhas vistas.

Rio Grande do Norte, 916, 20; BH, 040702012.

Vou te contar, nunca vou chegar de
Saudade de João Gilberto e desafinado,
Com meu peito a bater um coração,
Estarei sempre com o João e com
As batidas do seu violão, suas ondas,
Manias e solidão; João Gilberto é a
Bossa Nova nossa, genuinamente
Brasileira e consagrada até pelo
Jazz norte-americano; e nunca
Precisou de muita coisa: só um
Palco, um banquinho e um violão;
E sopro de silêncio de brisa e
De vento sereno para a voz: perfeito;
E estará eterno no nosso meio,
Como um poeta a querer conquistar
A luz e a querer beijar todas as
Estrelas e a cantar como cantam
As sereias do mar; e quem ouve
Fica encantado, pede para
Ser amarrado a um mastro de
Navio, com os ouvidos da alma
Bem abertos e a morrer de ouvir o
João Gilberto; canta, João, uma canção,
Teu violão é bem afinado e
Os dedos acariciam as cordas no
Teu dedilhado; canta, é poesia
Para o meu coração apaixonado.

Rio Grande do Norte. 916. 19; BH, 040702012.

Gaia é a nossa árvore da ciência do bem
E do mal, do aquém e do além, do finito
E do infinito; é a nossa casa materna,
Nosso lar paterno e morada familiar; e é
Com ela, que aprendemos segurança,
Confiança, garantia, consciência; Gaia é
A nossa luz e o nosso sal, é o porto do
Qual não desvemos nos apartar e sim
Aportar sempre; é a nossa pedra e o
Nosso ar e nada devemos temer; nos
Sustenta, quando Atlas, deveríamos
Sustentá-la nas costas; apesar de
Estarmos sozinhos, solitários, não nos
Deixa perceber, que estamos sós; e
Diverte-nos, diversifica-nos,
Alimenta-nos e nos dá de mamar em
Tetas de leite e mel, sem se esquecer
Do maná e do manjá; Gaia vai e vem
A nos ensinar, até quando não
Queremos aprender, não desiste de
Nos ensinar; Dali teve Gala, Bishop
Teve Lota, temos Gaia; e mesmo se
Fosse o maior dos ambiciosos, não
Quereria mais nada, Gaia basta-me
De noite e de dia; de manhã e de
Tarde, vim, vi e venci com ela e
Vou visionário, vencedor ao além
Do além, onde a névoa cósmica
Dissipa-se e Gaia volta ao seu
Berço, a serenar nessas fronteiras
Limítrofes dos limites, onde por
Mim, Gaia estará sempre a zelar.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Rio Grande do Norte, 916, 18; BH, 040702012.

Desesperados, é a barca dos desesperados
À deriva em alto-mar; é a nau
Dos desesperados sem rota no oceano;
Desesperados, é a nave dos desesperados
Fora da órbita no universo; navegam
Às cegas e vaga-lumes e pirilampos têm
Mais luz do que os insensatos; e os morcegos
E as toupeiras enxergam mais; e os deuses
Que veneravam escondem-se em seus montes,
Morros, montanhas; fugiram para as sua tocas,
Grutas, locas, cavernas e aos desesperados
Restam o choque inevitável com o finito,
O retorno ao caos; tentaram equilibrar
Nas moléculas, mergulhar na matéria,
Partir os átomos; fizeram de um
Tudo com todos e a todos e com
Eles mesmos; só não fizeram por onde,
Deixar de ser estúpidos e desesperados; sofrem
De angústia, pânico, depressão, ânsia;
E sofrem de medo, covardia, temor,
Horror, terror; e enganam-se e iludem-se
A si mesmos e uns aos outros, desesperados;
E querem ter consumos, poder e não existem
Quando pensam e sim quando têm;
Não param a um canto para refletir, não
Cantam uma canção de ninar, desesperados,
Não têm aonde chegar desesperados.

OITO POEMAS DO POETA SÍRIO ADONIS:


Versões em português de Luís COSTA





O ROSTO DE UMA MULHER


Eu morava no rosto de uma mulher
que mora numa onda.
A maré cheia trouxe-a até à praia
cujo porto desapareceu nas suas conchas .
Eu morava no rosto de uma mulher
que me assassinou, que no meu sangue de navegador
até ao fim da loucura amorosa
quer ser um farol, que se apaga.


O CÂNTICO DA MULHER

De lado,
Tinhas o rosto de um homem idoso
Que, assaltado por dias de mágoa,
Me trouxe o seu frasquinho esverdeado
E pedia que tomasse a última refeição.
Esse frasquinho é uma enseada,
O casamento de um barco com uma enseada
Nos dias em que as praias se afundam
E as gaivotas encontram os rostos
E o capitão pressente o seu futuro.
Ele veio cheio de fome até mim, eu dei-lhe o meu amor
Como um pão, como uma bilha, como um leito
E abri as portas ao vento e ao sol
E partilhei com ele a última refeição.


O CÂNTICO DO HOMEM   

De lado
Vi o teu rosto pintado no tronco da palmeira
O sol negro nas tuas mãos
Então montei a minha saudade da palmeira
Trazia a noite num cesto, trazia a cidade às costas
E polvilhei-me à volta dos teus olhos, estudei
O meu rosto
E vi o teu rosto, havia nele a fome de uma criança
E esconjurei-o com fórmulas mágicas
E polvilhei- o com jasmim


HOMEM E MULHER

Mulher: quem és tu?

Homem: um bobo expatriado
da rocha dos meteoros,
da raça do demónio.
E tu, quem és?
Viajaste pelo meu corpo?

Mulher: sempre e repetidamente.

Homem: o que viste?

Mulher: vi a minha morte.

Homem: Trazias o meu rosto?
E olhaste a minha sombra como um sol?
E olhaste o meu sol como uma sombra?
E desceste  às minhas profundezas e descobriste-me?

Mulher: e tu, descobriste-me?

Homem: se me descobriste, foste capaz
de me convencer?

Mulher: Não.

Homem: fiz-te bem e tiveste receio?

Mulher: sim, sem dúvida.

Homem : e reconheceste-me?

Mulher: e tu, reconheceste-me?


DAMASCO


Damasco
Caravana de estrelas no fundo verde
Dois peitos de brasas e laranjas
Damasco
O corpo do amante no leito
Como um arco – íris, como uma lua crescente
Em nome da água
Ele abre
A garrafa dos dias
Gira todos os dias
Na tua órbita nocturna
Cai como uma vítima
No teu vulcão cobiçado
As árvores dormitam ao redor do meu quarto
E o meu rosto
É uma maçã
Meu amor
É uma almofada, uma ilha...
Se ela viesse
Se ela viesse
Damasco
Fruto da noite, ó lugar de descanso.


A FLORESTA MÁGICA

Que seja assim:
os pássaros chegaram e as pedras
juntaram-se às pedras
assim:
acordo as estradas e as noites
e  seguimos na procissão das árvores

Os ramos são malas verdes e os sonhos
    uma almofada
numa viagem de férias
onde a manhã continua estranha
onde o seu rosto
permanece como um selo sobre os  mistérios

Assim:
Um raio indicou-me o caminho, uma voz chamou-me
do fim mais extremo do muro


QUATRO CANÇÕES PARA TIMUR

Espelho da lei

Irrompe
Sobre o corpo da rapariga
Sobre o corpo das grávidas
Irrompe e mata
Não poupes ninguém, nem velhos nem jovens...

Esta é a minha lei


O saque

O pássaro em chamas,
Cavalos, mulheres, ruas
São dilacerados como pão
Diante dos olhos de Timur


Eles

Eles chegaram
Nus entraram em casa
Escavaram
Enterraram as crianças
E foram embora


A maré

Mihyâr cantou, curvou-se, rezou,
falou livre dos pecados
E reconheceu a sua crença
Abençoou o rosto da loucura
Derreteu a ave na sua voz
E desejou que a sua voz
Fosse uma maré – e assim foi.


O FALCÃO

Os cavalos aproximaram-se e da margem chamaram-nos:
Voltem para trás pois nada de mal vos acontecerá.
Mas eu nadava, e o meu irmão mais novo nadava igualmente.
Virei-me para o encorajar, mas ele não me ouviu.
E com medo de se afogar deixou-se encandear pela garantia
daquelas palavras. E nadou, à pressa , para trás, enquanto eu atravessava o Eufrates.
Então, eles correram na direcção do meu irmão, que de boa-fé
se dirigia para eles, e quando olhei para ele, decapitaram
aquele jovem de treze anos e levaram-no. Eu, porém,
corria, corria sempre em frente, sentia-me como um pássaro
-  assim tão rápido  corriam  as minhas pernas.

ADONIS, أدونيس ( Ali Ahmad Said )

Adonis ( poeta e ensaísta sírio-libanês, nasceu em Al Qassabin perto de Lataquia, no Norte da Síria, a 1 de Janeiro 1930. O seu verdadeiro nome é Ali Ahmed Said Esber. Ainda bastante jovem começa a trabalhar na agricultura. Porém, o seu pai incita-o a interessar-se pela poesia.
Com apenas 13 anos declama alguns dos seus versos perante o presidente sírio, que na altura se encontrava em viagem de visita pela província.
O presidente fica de tal modo impressionado que acede realizar o grande sonho do jovem poeta: a frequência de um liceu francês.
Em 1954 sai da Universidade de Damasco com uma licenciatura em filosofia. Em 1955 encontra-se preso, durante seis meses, por ser membro do Partido Social Nacionalista Sírio. Depois da sua libertação,  instala-se em Beirute (Líbano) onde, em 1957, funda, com o também poeta Yousuf el-Khal, a revista literária mais importante do espaço árabe: «Schiir» (Poesia).
Em 1980, depois da guerra civil libanesa, abandona o Líbano para se refugiar, a partir de 1985, em Paris. Hoje vive entre Beirute e Paris. Nesta cidade foi , durante vários anos, professor catedrático de árabe na Sorbonne.
O poeta tem traduzido muitos autores franceses para o árabe. Entre eles encontram-se Racine, Baudelaire, Henri Michaux e Saint Jonh-Perse.
Adonis é hoje considerado um dos poetas árabes mais importantes do nosso tempo. É um trabalhador fronteiriço entre duas culturas: a oriental e a ocidental, um clássico moderno que conseguiu realizar uma síntese entre a forte tradição da poesia árabe e a lírica moderna do Ocidente. É precisamente esta polifonia que permite aos leitores, de diversas culturas, o acesso à sua obra.
A sua poesia contribuiu fortemente para a renovação da língua árabe, influenciando uma geração de escritores e poetas árabes.
Escrever poesia significa para ele uma luta permanente contra a memória fechada , sobre si mesma, da cultura, ou seja, contra a ditadura do passado inflexível.
O nome Adonis é considerado no mundo árabe, desde os anos 60, um sinónimo de modernidade. Aí se afirmou como um dos principais porta-vozes da corrente crítica e pós-moderna. Diz ele: 
Nós rebentámos a linguagem. Rebentar a linguagem significa a invenção de relações novas e invulgares entre as palavras, a invenção de novas relações entre a palavra e as coisas, dentro e fora. É a tentativa de procurar absorver aquilo que, racionalmente, não é possível, isto porque a poesia lírica representa uma forma de violação da linguagem, ou seja, é a tentativa de obrigar a linguagem a dizer aquilo que a prosa usual jamais conseguirá exprimir. 
Deste modo, a sua lírica quebrou as formas rígidas da poesia árabe, mantendo, no entanto, bastante presente muitos dos seus mitos.
Nos seus poemas a linguagem é compreendida como um acto mágico. Adonis vê as raízes da sua poesia no misticismo islâmico, por ele considerado como um surrealismo antes do surrealismo europeu.
Entretanto, o mundo árabe fala de adonismo, adonismo esse que tem os seus seguidores entusiásticos, mas também um grande número de inimigos que se encontram, sobretudo, entre os islamitas.
Adonis é, de há vários anos para cá , um dos fortes candidatos ao Prémio Nobel da Literatura.

Rio Grande do Norte, 916, 17; BH, 030702012.

Quantos rostos nós temos? quantas faces, caras,
Semblantes, aspectos? um? uma? não, somos
Multifacetados; e para cada etapa usamos uma
Cara, para cada uma das pessoas que nos
Compõem, usamos um rosto, uma face, um
Outro semblante, um ar diferente; temos
Inúmeros fantoches, bonifrates dentro de nós;
E para cada um usamos uma máscara extra,
Usamos uma fantasia, um traje, ou um
Disfarce; quantas caretas temos para nos
Representar ao longo da vida? a cada dia
Usamos uma careta sobressalente, uma
Carapuça de verdugo, um capuz de algoz,
Um manto de carrasco a nos encobrir; e só
Não mostramos o real de nós e só não
Mostramos o nosso verdadeiro lado, pois é
O lado que mais nos envergonha; e o
Maquiamos e em cima das nossas faces
Usamos as milhares de pinturas de rostos
Que não são nossos rostos, são rostos de
Fantasmas, são sombras de serres que
Temos medo de ser; e somos todos os
Seres sérios e bufões, heróis e covardes,
Só não somos nós mesmos, sempre,
E nunca aprenderemos a ser.

Rio Grande do Norte, 916, 16; BH, 030702012.

Tenho muito mesmo, é que pedir perdão,
Muito mesmo e é pouco ao meu coração;
Tenho muito mesmo, é que pedir desculpas,
Redimir e não tornar a cair em tentação;
Erros e falhas e faltas e pecados infinitos,
Que Deus nem quererá saber de perdoar
E restabelecer e reerguer a quem,
Tanta blasfêmia e profanação, já
Lançou aos céus em maldição; não
Estou livre para pensar e à toda
Mão proclamo uma independência,
Que não tenho, tardou, não veio,
Filão de ouro fino, depurado
E pronto a ser explorado; amanhã
Lamurio de novo as mesmas dores,
Lanço os mesmos pranteados e
Assim tento sensibilizar, para não
Vir para o meio dos perdidos; e aí,
Pergunto a todos que respondem-me:
Qual a fórmula do remédio para
Este mal tão incurável? qual a
Química certa e que não tira
Da certeza e não faça voltar à
Incerteza? pergunto e sou ansioso,
Angustiado para encontrar e
Não sou culpado de ter perdido o
Que não foi achado, minhas culpas
Inda são outras muitas ignoradas.

"EL PAÍS" COM FRANCISCO BUARQUE DE HOLANDA:

ENTREVISTA

Chico Buarque: “A música brasileira não exclui, assimila”

No Rio de Janeiro, revela a história de sua família e sua oposição à ditadura

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Chico Buarque, "um sujeito magro e tímido, simples e sorridente". / LUIZ MAXIMIANO
Há apenas uma coisa mais difícil de encontrar do que alguém que fale mal de Chico Buarque no Brasil: uma mulher que não seja apaixonada por ele. Olhos fascinantes de uma cor estranha entre verde, azul e cinza são uma lenda nacional. Suas canções, por si só, já fazem parte da história, da herança e da identidade diária de um povo. Por isso, é um pouco intimidante se aproximar do edifício de um bairro nobre do Rio de Janeiro, onde o cantor mora, e subir no elevador imaginando o que te espera atrás da porta. O que se encontra é um sujeito magro e tímido, simples e sorridente, que esperava sentado sozinho em uma cadeira e assim que vê o recém-chegado o convida para um café que acabou de fazer. A sala de estar de Chico, aberta em três paredes de vidro com vista para várias praias do Rio, goza de uma paisagem deslumbrante nesta bela tarde ensolarada e iluminada de fim de verão. Ao fundo, em um canto, há um violão e um piano, ao lado de uma enorme foto na qual Chico aparece ao lado de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, dois dos lendários criadores da bossa nova.
Sobre uma mesa repousa o novo romance do artista, O Irmão Alemão (Companhia das Letras). Nele, Chico (1944) narra seu choque ao saber, já adulto e de forma inesperada, que seu pai, o famoso historiador Sérgio Buarque de Hollanda, teve um filho na Alemanha, em 1930, quando era correspondente em Berlim para um jornal brasileiro. Nem Chico sabia até então que tinha um irmão na Alemanha, nem esse irmão alemão jamais soube que era parente de um dos cantores mais famosos do Brasil já que morreu, em 1981, ignorando quase tudo sobre seu pai biológico. O escritor disfarça um pouco os fatos, mas nas páginas do romance desfila a São Paulo dos anos sessenta e setenta, menos gigante e desumana do que a atual, e sua própria juventude um pouco desregrada. Também emerge aditadura sinistra, à qual Chico se opôs desde o início e que o levou a buscar o exílio, em 1969. Mas, acima de tudo, revela a casa da família, repleta de cima a baixo com livros de seu progenitor. Era um pai amável, mas distante, carinhoso, mas distraído, e um pouco ausente, sempre imerso em leituras intermináveis e envolto em uma nuvem de fumaça de um cigarro continuamente aceso. No romance, o protagonista, um sósia do próprio Chico, enquanto folheia um dos livros da imensa biblioteca do pai, nota um envelope perdido entre as páginas que guarda uma velha carta em alemão, que lhe dá pistas sobre aquele irmão que nunca conheceu. Na verdade, a descoberta não foi tão literária.
Pergunta. Quando soube que tinha um irmão?
Com 20 anos, você tem um milhão de ideias para compor. Depois, tudo torna-se mais insípido
Resposta. Soube exatamente em 1967, quando tinha 23 anos. Lembro-me muito bem, inclusive há uma foto desse dia. Vinicius de Moraes, Tom Jobim e eu fomos visitar o poeta Manuel Bandeira, que já estava muito velhinho, em sua casa no Rio. E, então, falando disso e daquilo, Bandeira perguntou por meu pai, de quem era muito amigo: "Como o Sérgio está? Ah, quanto tempo não o vejo, vivemos tantas coisas juntos... Foi para a Alemanha, teve aquele filho...”. E aí soltou isso.
P. O que você fez?
R. Então lhe disse: "Mas que filho?". E aí o Vinicius respondeu: "Mas você não sabia disso, do filho?". E eu: "Não". Eu não sabia nada. Era um segredo de família. Depois daquele dia, falei com meus irmãos e com meu pai. Falei com o meu pai, sim, mas sempre havia uma barreira na hora de perguntar a ele. Escrevendo este novo livro me questionei por que não perguntei mais. Mas havia um receio, um impedimento. Não é que meu pai tenha me proibido de perguntar sobre a questão do filho, mas me sentia um pouco desconfortável sobre o assunto. Em relação à minha mãe e ao meu pai.
O cantor e escritor Chico Buarque. / LUIZ MAXIMIANO
P. E isso se tornou uma obsessão ao longo dos anos? Porque você continuou investigando, principalmente após a morte de seu pai, em 1982. Até mesmo a editora que iria publicar o livro, a Companhia das Letras, contratou dois detetives para ajudá-lo na investigação.
R. Não, não, não eram detetives [risos]. Eram historiadores. Um deles era um brasileiro que, por acaso, estava na Alemanha quando comecei a escrever o livro, há três anos. É verdade que foi contratado pela editora. Ele conhecia um documentalista alemão especializado em imigração alemã no estado de Santa Catarina. Eles descobriram que meu irmão, na verdade, se chamava Sérgio Günther e havia sido adotado por uma família quando pequeno. A verdade é que, quando comecei a escrever o livro, tinha muito pouca informação. Mas nem precisava. Nem sequer pretendia encontrá-lo. A história não ia por aí. Mas aconteceu que, enquanto escrevia, um dos meus irmãos, que vive no apartamento da minha mãe, que morreu há cinco anos, encontrou em uma gaveta alguns documentos que tinham dados para puxar o fio. Eu tinha 50 páginas do livro, que deixei como estavam. Mas a realidade se intrometeu na redação para sempre.
P. A história que o senhor narra no romance é boa, mas a realidade na qual se apoia também.
R. Sim, deveria escrever outro livro, porque, no final, o romance acaba competindo com a história real, que é muito impressionante.
É verdade. Através desses documentos, Chico tomou conhecimento de duas coisas: que seu pai havia solicitado às autoridades alemãs que enviassem seu filho fornecendo a documentação necessária ou, pelo menos, conseguir que ele recebesse uma pensão que prometia enviar. A segunda é que a mãe biológica tinha decidido, em meio àconvulsão enfrentada pela Alemanha da época, entregar o menino ao Estado para que fosse adotado. Uma carta enviada a seu pai, em 1934, pela Secretaria da Infância e Juventude de Berlim (e que terminava com um rigoroso "Heil Hitler!") pedia a Sérgio Buarque de Hollanda que, para que seu filho fosse adotado pela família alemã Günther, que estava interessada na criança, deveria encaminhar o mais rapidamente possível certificados que comprovassem a religião católica do pai. Chico, ao ler a carta, imaginou, com assombro e espanto, que as autoridades alemãs exigiam isso para que ficasse evidente que o pequeno Sérgio não tinha sangue judeu nas veias. Caso contrário, em vez de uma família qualquer, ele poderia ter sido transferido para um campo de concentração. Os historiadores finalmente conseguiram, em 2013, identificar o irmão, Sérgio Günther, que morreu em 1981, e localizar sua ex-esposa, filha e neta. Poucos meses depois, Chico viajava a Berlim para conhecer a outra parte de sua família e saber mais sobre seu meio-irmão.
P. E soube que seu irmão tinha sido um cantor...
R. Sim, ficou bem conhecido na Alemanha Oriental como cantor e apresentador de televisão. Quando soube que tinha sido cantor, senti uma emoção forte. E sabe, quando ouvi um de seus álbuns percebi que tinha a voz grave do meu pai. Porque meu pai gostava muito de cantar. E soava igual.
P. Tinham mais coisas em comum?
R. Ambos morreram de câncer de pulmão. Meu pai fumava muito. Quando conheci a família do meu irmão, sua viúva (uma de suas viúvas, porque ele se casou mais de uma vez) me disse que Sérgio Günther arrancava o filtro dos cigarros que fumava. Exatamente como meu pai. Coisas assim que arrepiam. Todo mundo lá me disse que minha música A Banda havia sido traduzida ao alemão e era bem conhecida na Alemanha Oriental, com uma letra muito diferente e um pouco absurda, na verdade. Portanto, não é estranho que meu irmão tenha realmente me ouvido cantar. É uma maneira de ter me conhecido um pouco, certo?
Demorei para descobrir que tinha um irmão. Era um segredo de família 
P. Alguma vez teve curiosidade de saber quem era seu pai biológico?
R. Sua viúva me disse que, em um determinado momento, sim, que perguntou na Embaixada brasileira, mas na época a Alemanha Oriental era um país muito fechado, com poucas possibilidades de conseguir informação.
P. No livro, o protagonista, parecido com o senhor, rouba carros para se divertir. O senhor fazia a mesma coisa?
R. Sim. Ia com um grupo de adolescentes do bairro, eram os tempos de James Dean, rock and roll, de uma juventude um pouco rebelde. Por isso que nosso esporte era roubar carros, circular com eles pela cidade e depois deixá-los no fim do mundo. Fui para a cadeia por isso uma vez. A polícia me deu uma surra. Bom, mas isso já havia contado. Eu mesmo disse antes que descobrissem. Tive sorte porque no dia que me prenderam meus pais não estavam em casa, estavam viajando, e foi minha irmã que me buscou. Eu então era bastante..., enfim, dei muito trabalho para minha família.
P. Ao mesmo tempo, era muito bom leitor, certo?
R. Sim, é verdade. Foi também uma maneira de me aproximar de meu pai, que passou a vida entre livros. Eu diria que, antes de ser músico, queria ser escritor. Até que a música apareceu na minha vida e embarquei nela. Mas não abandonei a ideia de me dedicar à literatura. Nos anos setenta, publiquei meu primeiro romance, nos oitenta, o segundo. Desde então alterno as duas coisas. Quando faço uma, não faço a outra, porque me consomem muito. Quando estou escrevendo nem sequer ouço música.
P. Mas são atividades assim tão diferentes?
R. Para mim, sim. Muito. E ainda assim minha escrita é muito influenciada por minha música. Talvez algo se perca nas traduções, mas meus textos tentam carregar algum ritmo musical. Além disso, tenho que alternar as duas coisas porque, pelo menos no Brasil, é muito difícil para um escritor viver apenas de literatura. Os escritores trabalham como funcionários públicos, professores, jornalistas... E tudo isso está tão longe da literatura quanto da música. O fato de ser jornalista, por exemplo, não lhe dá a habilidade de escrever literatura, acredito.
P. Comenta-se que cada vez escreve mais e compõe menos.
R. Componho menos do que aos 20. É normal. A música popular é mais uma arte da juventude, com o tempo você vai perdendo, não sei, não o interesse, mas ela já não flui com a abundância daqueles primeiros anos. Tenho que me esforçar mais, procurar mais, é mais difícil. No começo você tem um milhão de ideias, tudo em torno serve para fazer uma canção. Depois vai ficando mais insípido, menos inspirador.
P. Ainda acredita que o melhor de um show é quando acaba?
R. [Risos] Eu realmente não gosto muito de fazer shows não, mas tenho de fazer. Quando lanço um novo disco, me dá vontade de sair por aí e cantar em público. Além disso, com isso depois posso passar dois anos escrevendo. Caso contrário, iria à falência.
P. Por que a música popular brasileira é tão conhecida e a literatura não?
R. Pode ser porque seja pior, mas acho que não. É verdade, por exemplo, que a Argentina é um povo mais literário do que o brasileiro. E os escritores brasileiros também jogam com uma desvantagem, porque o português é mais desconhecido. E a riqueza musical brasileira é facilmente exportável, não precisa de tradução.
P. Por outro lado, por que a música brasileira é tão aceita, tão apreciada?
R. Porque, principalmente depois da bossa nova, tem a influência negra, é filha do samba, mas com um toque de jazz, um toque harmônico. E também tem influência dos grandes compositores da música clássica. Veja: Tom Jobim, nosso grande mestre, era um conhecedor profundo de Chopin e Debussy, dos impressionistas, entre muitos outros. E tudo isso está em nossa música, misturado, junto com os boleros cubanos e os ritmos mexicanos. O Brasil não exclui, assimila. O resultado foi complexo, rico e único.
P. Como era esse mundo? Como era conviver com Jobim, Vinicius?
R. Ah! Eles... eram acima de tudo grandes amigos. Olhe aquela foto, estou com os dois. Eu realmente comecei a me emocionar de verdade com a música, a decidir fazer canções a sério depois da canção Chega de Saudadecomposta por Tom Jobim e Vinicius e interpretada por João Gilberto. Eu os tinha em um altar. Já conhecia Vinicius porque era amigo do meu pai, mas, para mim, era como falar com um monumento. Por isso, a primeira vez que vim ao Rio para conversar com Tom Jobim, imagine, era um sonho. Com o tempo se tornaram meus amigos, meus parceiros, fiz muitas canções com eles, fui aceito nesse seleto grupo da música popular brasileira.
P. Foi Tom Jobim que disse que o Brasil não era um país para amadores, correto?
R. Sim, e assino embaixo. É um país único, fruto da colonização portuguesa, com emigrantes de todo o mundo, italianos, alemães, árabes, japoneses, com a marca dos escravos trazidos à força... E com origens indígenas antes disso tudo. Tudo isso está presente agora. Em São Paulo, sem ir muito longe, você pode procurar nomes indígenas em muitas ruas. Essas circunstâncias criam um país único.
P. O senhor sempre teve uma posição política clara e explícita. Se opôs à ditadura e apoiou Lula e Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores.
R. Sempre me perguntam quando há eleições. Eu tomo partido e não tenho qualquer problema em declarar isso. Sempre apoiei o PT, agora a Dilma Rousseff e antes o Lula. Apesar de não ser membro do partido, de ter minhas desavenças e de votar em outros candidatos e outros partidos em eleições locais. Mas sempre soube que o problema deste país é a miséria, a desigualdade. O PT não resolveu tudo, mas conseguiu atenuar. Isso é inegável. O PT tem melhorado as condições de vida da população mais pobre.
P. E como o senhor vê a situação atual?
R. Muito confusa, não há nenhuma maneira de saber o que vai acontecer nos próximos anos. A crise econômica é forte. É preciso tomar certas medidas impopulares. Ao mesmo tempo, a oposição é muito dura. E depois há uma onda de manifestações nas ruas que, na minha opinião, não têm um objetivo concreto ou claro. Entre aqueles que saem às ruas há de tudo, incluindo loucos pedindo um golpe militar. Outros querem acabar com o Partido dos Trabalhadores, querem enfraquecer o Governo para que, em 2018, o PT chegue desgastado nas eleições. O alvo não é a Dilma, mas o Lula; têm medo que Lula volte a se candidatar.
P. E, para terminar: como se vive sabendo que é o homem mais desejado do país?
R. Isso já faz muito tempo.
P. E continuam dizendo.
R. Não sei nada sobre isso. Sou tímido, um cidadão sério, um homem de família. Inventam histórias, criam lendas que não têm muito a ver com a realidade. Não sou o sedutor que comentam.
A entrevista termina e o cantor tenta chamar um táxi para o jornalista através de um aplicativo do celular. Mas não consegue. "Minha neta sabe, mas eu não aprendo", explica. Observa o bonito entardecer e diz: "Eu o acompanho." Coloca shorts, um boné que esconde o rosto e caminha, junto ao jornalista, rua abaixo pelo Rio de Janeiro, falando dos pais, dos livros, das famílias e da música.

Chico Buarque

Rio de Janeiro, 1944. Ele é filho do conhecido historiador Sérgio Buarque de Hollanda e da pintora e pianista Maria Amélia Cesário Alvim. Começou a estudar arquitetura, mas abandonou o curso depois de dois anos, quando sua carreira como compositor e intérprete começou a deslanchar. Em 1966, conseguiu seu primeiro grande sucesso com a canção A Banda. Desde então, não parou de compor obras-primas comoApesar de Você, Construção, O Que Será (À Flor da Pele) e Cálice. É considerado um dos grandes nomes da música popular brasileira, ao lado de Tom Jobim e João Gilberto, entre outros. Em paralelo, desenvolveu sua carreira como escritor e dramaturgo. O Irmão Alemão, publicado pela Companhia das Letras, é seu quinto romance.

Rio Grande do Norte, 916, 15; BH, 0307021012.

Ao mundo gritei que melhorei, sarei,
Estou curado, sarado, sanado;
Antes, doente, quando queria cura,
Ficava doente crônico; antes,
Não convalescia, era de moite e
Era de dia e não havia remédio,
Garantia, segurança, confiança; e
Era andança, não podia nem entrar
Na dança com o vento e com a
Menina de trança; era trauma,
Trama para matar, tocaia, traição,
Capoeira, capão; antes, era cilada
Em qualquer esquina ou encruzilhada;
Tremedeira nas mãos, fraqueza nos
Pes, ausência na alma e no corpo; e
O espírito e o ser eram ets em
Outros planetas; e não voltava a
Mim, inconsciente, fingia que era
Eu, passava por mim, e enganava a
Todo mundo; dissimulava e simulacro,
Ilusão, virtual, não percebiam que
Não era o tal; aliás, podemos fingir e
Mentir à vontade, não percebem, e
Os que percebem, também fingem
Que não percebem, perceberam?
E é por medo e covardia e é isso,
Que faz-me resistir, sem merecer.