terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Reatividade tremedal; BH, 0160802013.

Reatividade tremedal cerce
Insultante tremebundo com a possibilidade
De sonhar um sonho de verdade, fora da 
Realidade da utopia e dentro da realidade
Da realidade, o tempo urge e a hora fatal,
Está a nos abraçar em cada esquina,
Todo dia é voo cego no escuro, fora dos 
Instrumentos, é voo cego ao sabor 
Do vento; toda hora a ameaça é 
De um planeta à deriva, é uma 
Constelação mais poderosa a atrair
A outra, é uma galáxia fora do eixo,
É um novo caos a criar milhares de 
Novos universos e novos pesadelos a nos
Mostrar que não evoluímos, não crescemos
No que de mais simples a nos lembrar
O quanto humanos que somos; e não
Tiramos os pés do chão, pescamos toneladas
De chumbo, não planamos, não levitamos
E no entanto menores do que ciscos de
Quintal, queremos impressionar aos 
Semelhantes com nossos pseudos poderes;
Nossas mordomias de falsos ricos, fieis enaltecedores
Das elites e das mamatas que só 
Envergonham, causam ascos e danos
E não há quem tenha um real interesse,
Um ato digno, um fato novo, uma resposta 
Revolucionária, uma proposta de impacto;
Nada além da frieza, nada além da
Treva, nem céu, nem inferno, nada 
Além do azul do que pelo menos amim,
Faz-me chorar todo dia debaixo do firmamento.

Não contento ninguém e não agrado; BH, 0110802013.

Não contento ninguém e não agrado, 
Não faço feliz e não puxo o saco, sou todo 
Ao contrário; não alegro ninguém, não
Amo, não satisfaço, pelo contrário, sou
Todo ao contrário, nada em mim é 
Normal; não canto hinos, não oro, não 
Rezo, não faço preces, sou todo ao 
Contrário de tudo que todo mundo é;
Não vou à igreja, não dou esmola, não
Tenho fé; sou todo diferente de tudo 
De igual que todo mundo faz e muito 
Pelo contrário, não faço nada certo,
Nada sério e tudo de errado; não planto
Árvore, não construo casa, não crio
Família; e muito pelo contrário, nem
Amigos tenho; para ter amigos, teria
Que ter dinheiro, teria que ser rico e 
Muito bem resolvido, ser do tipo que 
Os amigos gostam; e reclamo de tudo e 
De todos e falo mal até de quem não
Devo falar mal; e só quero saber muito
Mediocremente da vida dos outros,
Como se a minha vida fosse vida de 
Gente; não tenho amizade, não sou 
Fiel, não sou leal; e quem confia e
Acredita em mim, o problema não é
Meu; e sem mais delongas, lá vem 
A aurora detrás do monte, d'além
Mar, a chegar devagar e a quem 
Interessar possa, é isso que interessa, o
Restante não vai adiante e se vai adiante, 
Deixa pegadas no sentido contrário. 
 

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Mestre Saramago; BH, 0110802013.

Mestre Saramago, a maior alegria 
Da minha vida, foi quando descobri
Por que a mulher riscava o chão
Com a vara, apagava, e o risco aparecia
No mesmo lugar; alto lá, a maior alegria
Da minha vida será se continuares
A guardar o segredo para si mesmo; 
Mas precisava saber se estou certo,
Mestre? nas minhas andanças pelo mundo,
É a primeira vez que percebo, que
Alguém realmente descobriu o segredo;
Mas como o Mestre sabe se realmente
O descobri? descobriste, pelo teu olhar
Sinto que descobriste, e se falares, perderá
A graça; mas é algo tão simples que,
Penso que, toda a gente deve ter enxergado;
Nem todo mundo percebe as coisas
Simples, poucos têm olhos para o
Que é simples; me darás a tua 
Palavra, aqui perante a todo este 
Público, de que não revelará o segredo?
Em nome da admiração que sinto
Pelo Mestre, em nome da alegria que 
É ler os teus livros, em nome da 
Felicidade que causa-me as tuas 
Palavras, não o revelarei; nem Dan
Brown, que gosta tanto de desvendar
Mistérios, códigos, símbolos, teve a 
Sutileza que tiveste; muito obrigado
Mestre, prometo que gozarei este
Prazer solitariamente; muito mais 
Grato fico em este meu discípulo.

Meus fantasmas universais; BH, 0110802013.

Meus fantasmas universais, meus espíritos 
Celestiais, minhas almas eternais, também
Sou um pseudônimo de Fernando Pessoa;
Sou um dos menores, que Fernando criou,
Inda na infância, a brincar nos quintais das
Casas das tias, a passear às beiras do Tejo,
A correr pelas aldeias, castelos medievais,
Naus, portos, Portugal; minhas odes imaginárias,
Sou uma ode psicografada pelo vate, hora
Sou um poema de Alberto Caeiro, hora 
Uma poesia de Ricardo Reis, ou um soneto
De Álvaro de Campos, um escrito de 
Bernardo Soares; minhas chuvas oblíquas,
Meus rebanhos preferidos, estou inserido
Neste rol de consentidos; são tantos
Membros importantes, elevados dessa
Confraria, todos a agradar a musa poesia;
E cada um quer uma obra-prima mais 
Bela a consagrar; e cada um quer uma 
Obra de arte mais genial a oferecer; mas
O poeta é um fingidor e a poesia o conhece
Muito bem, mesmo quando o bardo tenta
Enganá-la, ao usar um pseudônimo; e 
Fica mais exigente, alia-se ao poema, ao
Soneto, e quer algo diferente, e não aceita
Mais o que é normal; e manda a cambada
A vasculhar constelações, galáxias,
Aglomerados, a procurar uma gala, uma
Gaia, que sejam a ciência do bem e do
Mal, onde a poesia quer reinar, e ai 
Daquele que falhar, ai do profeta que 
Não vaticinar, pseudônimo ou não. 

domingo, 27 de dezembro de 2015

Solitário; BH, 0110802013.

Solitário, deixo todos os meus escritos
Solitários, na solidão; e nestes escritos 
De solitário, de preso na solitária, deixo
Sangrar o meu coração; abri a montanha
E lá depositei na lavra, letra por letra;
Lá guardei no veio, palavra por palavra
E nem Maomé retirará a montanha do 
Lugar, para garimpar nas minas, onde
Lancei estas escrituras profanas; não
São textos sagrados, não são pensamentos
Consagrados, são reminarias de ermitão,
Reminiscências de escritas de eremita;
E não acredito que alguém entrará no 
Seio da pirâmide, violará o sarcófago,
Para desvendar estas linhas enganosas;
Não creio que um dia a luz incidirá
Nesta cova, dentro deste sepulcro,
E ressuscitará estes ossos fósseis; há 
Muita terra por cima desta solidão, há
Muito chão debaixo destes pés; e 
Quanto mais alta for a montanha, 
Mais ânimo o solitário tem a subir;
A encontrar uma loca para mudar de
Pele, a aquietar-se, prende a respiração
Por longos períodos, assossega as
Batidas do coração, o sangue circula
 Em marola lenta, o corpo em repouso
Completo, como se cadáver fosse;
Lentamente o espírito fluiu ao 
Universo, num passeio onde enfim
A solidão é impossível.

Breve é a vida; BH, 0110802013.

Breve é a vida, o tempo é eterno e 
De vez em quando, penso, que há os
Que pensam que até o tempo é breve e que 
A vida é que é eterna; a vida é tão 
Pequena, tão pequena, que para 
Fazê-la crescer, nem com milagres
Se consegue; e além do mais, se
Perde muito tempo sem se viver;
E com essa perda há uma ruptura,
Um distanciamento, uma atração
Ao contrário, talvez uma repulsão e
O que era para estar próximo, se 
Distancia mais, como se tivesse livre
Da força de gravidade; crescer, fazer a 
Vida crescer e a vida ao crescer, alongará
O tempo eterno; crescer é o que é
Necessário à vida; sem crescimento,
É o mesmo que sem discernimento,
Sem raciocínio, sem pensamento, sem
Razão, sem noção, sem percepção;
Crescer não é a mesma coisa que 
Sair do estado girino e querer ser
Um touro, não, crescer em evidência,
Consciência e não se aprende assim,
Não, numa fábula, numa crônica,
Numa prosa; crescer sem ser prosa,
Na sombra, no subterrâneo, sem ser
Notado, como é notada a pequenez,
A insignificância, a ingratidão, a 
Ignorância; crescer sem ansiedade,
Sem angustia, crescer, e fazer com que 
Seja breve, só o desprezo e as coisas
Miúdas da vida.

Vós fazeis-me sentir; BH, 0110802013.

Vós fazeis-me sentir ódio, raiva, ira, e 
A sentir rancor; fazeis questões em
Nadar nas demonstrações do nada e 
Desprezais, ignorais indiferentes; mas,
O mundo dá muitas voltas, o universo
Lava as mágoas e de repente, zás,
Elas voltam em cheio às caras, como
O cuspe jogado para c ima; podeis 
Destruir um elo se houver, uma raiz de
Amor, um fruto, uma fruta, podeis até
Matar o pomar inteiro, fazer queimada,
Jogar as cinzas aos ventos raivosos;
O amor é eterno, permanecerá, Fênix,
Ressurgirá; fazeis caso em não ter a 
Alma grande, teimais em permanecê-la
Encolhida, anã, anônima, fora do eixo;
Mas tudo vale a pena quando a alma
Agiganta-se, não é pequena; sabeis, 
Cada um planta o que quiser, cada
Um escolhe o próprio caminho; quem
Plantar bem, colherá bem, quem plantar
Mal, foi mal lavrador, não colherá o 
Bom plantio; e há os que dizem que 
Quem espalha ventos, colhe tempestades,
Bem, comecei irado e ao fim destas
Poucas linhas, estou um pouco 
Desafogado, quero fazer crescer tudo
Em mim e há algo que diminui-me,
Deixa-me confuso, a dar voltas ao 
Redor da mesa, a ir à sala, a ir ao 
Quintal e o que quero falar não sai e
Faço um volteio vão e deixo mais leve
O meu coração.

Bem que podia cair uma chuvinha; BH, 0110802013.

Bem que podia cair uma chuvinha,
Nada melhor do que ficar quietinho,
Num cantinho, a sentir o chiar da chuva
Miúda  cair; muita gente prefere
Outras coisas, outros mundos, ou 
Universos; e há os que só querem uma 
Chuvinha miúda, para aconchegar-se
Mais ao coração; e há os que só querem 
A quietude das tardes domingueiras
Agostinianas; o mais é ambição ou 
Vaidade ou busca duma satisfação que 
Não satisfaz; amanhã, segunda-feira, 
Segundona brava, começa a semana , 
A labuta aos que labutam, a preguiça 
Aos ociosos; aos doentes os remédios
Que fingem curar e aos famintos os
Alimentos que fingem matar a fome; e 
No momento, aos desassossegados, o
Sossego esperado, com os ruidinhos 
Duma chuvinha miúda a cair quase 
Imperceptível; e aos que dormem 
Os sonhos não realizados, pois
Sonhos realizados só aos que estão
Acordados; e aos vivos as propagandas
Enganosas, pois amam ser enganados,
Adoram os supérfluos e os superficiais;
Aos expectadores as personagens, os
Protagonistas, os animadores do fútil,
Do lixo inútil; aos que pensam que 
Está tudo certo, alguma coisa de 
Errado; e aos que pensam que está 
Tudo errado, alguma coisa de certo; 
E todos, deixai-me aqui a sonhar,
Com uma chuvinha miúda.

Coça-me a cabeça; BH, 0100802013.

Coça-me a cabeça, piolhos ou caspas, lêndeas,
Pensamentos não; coça-me a cabeça, preocupações
E o lugar mais incômodo do do mundo, para uma 
Preocupação se ocultar, é dentro duma cabeça;
Poderia fugir para qualquer outro lugar, para o
Universo que é tão vasto, mas não, quando não
É na cabeça, aninha-se no coração; e parece-me
Que o ser humano é o único animal que se 
Preocupa  e se preocupa mais com a vida 
Alheia do que com a própria; e quer saber de 
Tudo do semelhante e não quer saber de nada
De si mesmo; e pergunta por todos dos 
Prédios, das casas e das ruas; e como um 
Espião norte-americano, da CIA ou do FBI,
Espiona o ir e vir e escutar o falar, o escrever
E o que o outro está a auscultar e não ausculta 
O coração, o que mais forte, e que é o menos
Ouvido; e colamos os ouvidos às paredes,
Atrás de intrigas, conflitos; e nos escondemos
Atrás da porta ai flagrante, à surpresa, a 
Qualquer inusitado que nos renda uma fofoca,
Um fuxico do vizinho, mu mexerico sem 
Importância; e ao sermos apanhados no 
Desdito, haja o contradito, o não é nada
Disso que estás a pensar; e coça-se a 
Cabeça de desconforto e corremos às 
Outras janelas indiscretos sentinelas.

Às letras malfadadas; BH, 080802013.

Às letras malfadadas e antigas letras,
Às letras que ninguém mais dá atenção,
As comemos mais do que churrasco,
Feijão com arroz e pão; as bebemos
Mais do que cerveja, cachaça e 
Conhaque, café; e mutilamos as 
Palavras, as palavras saem das nossas
Bocas, mordidas, a faltar pedaços,
Mastigadas; e ao vomitarmos as 
Letras que bebemos, as letras que 
Comemos, os nacos de palavras
Cruas, os bocados de expressões que 
Engolimos, para um prato de papel,
Sofremos a maior dificuldade da 
Existência; e vomitamos um vômito 
Que nos faz mal, no prato em que 
Comemos; e nada conseguimos 
Apurar, vem tudo misturado com bílis,
Com suco gástrico e dejeto estomacal;
E não temos a coragem de meter
A mão na sujeira, emendar 
As letras, fazer remendo nas 
Palavras, salvar alguma coisa da 
Nossa lavra interior; e formalizar 
Um pensamento, concluir um raciocínio,
Manter um diálogo, um discernimento,
Uma percepção, uma razão, ou um 
Fruto da nossa intuição; e crônica,
A prosa, o texto que sonhávamos viram
Pesadelo e inda saímos a mostrar 
Aqueles desmazelos, para o desprezo
Dos que não nos amam e que não amamos.

Ainda não descobri a roda; BH, 050802013.

Ainda não descobri a roda e se a 
Tivesse descoberto, talvez, não seria 
A descoberta contundente, que um 
Inventor alega ao descobrir algo;
E a pior das emendas, inda não
Descobri o eixo e para que serve o
Eixo; e há quem entra no núcleo
Celular e à base duma organização
E põe abaixo a mais sólida estrutura;
Há quem ergue e quem derruba, quem
Constrói e quem destrói; e de gatinhas,
Com gestos ridículos de gaudério,
Engatinho nas minhas ações; não movo
Uma pedra certa do lugar e da última
Vez que movi uma pedra, pus abaixo
Toda a pedreira; paralisei-me desde
Então, como um paralítico e de tão 
Envelhecido que fiquei, taxavam-me 
Como se fosse do período neolítico;
E não há como fingir-me de moderno,
De atual, de evoluído; e chamo a atenção,
Pela deslocação, por estar tão fora do tempo,
Que oculto, sou notado, ausente, sou percebido,
Neutro, não saio incólume, como se 
Estivesse impregnado duma fragrância,
Que identifica-me de longe; e não 
Uso perfume de forma alguma, não
Uso desodorante e não creio que o 
Odor seja por faltas; para evitar estas 
Digressões, não sairei mais do casulo,
Não serei mais afronta, deixarei
Tudo guardado do lado de dentro.

Victor Hugo, Desejo.


Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim
Mas se for, saiba ser sem se desesperar
Desejo também que tenha amigos
Que mesmo maus e inconseqüentes
Sejam corajosos e fiéis
E que pelo menos em um deles
Você possa confiar sem duvidar
E porque a vida é assim
Desejo ainda que você tenha inimigos
Nem muitos, nem poucos
Mas na medida exata para que
Algumas vezes você se interpele
A respeito de suas próprias certezas.
E que entre eles
Haja pelo menos um que seja justo
Desejo depois, que você seja útil


Mas não insubstituível
E que nos maus momentos
Quando não restar mais nada
Essa utilidade seja suficiente
Para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante
Não com os que erram pouco
Porque isso é fácil
Mas com os que erram muito e irremediavelmente
E que fazendo bom uso dessa tolerância
Você sirva de exemplo aos outros
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais
E que sendo maduro
Não insista em rejuvenescer
E que sendo velho
Não se dedique ao desespero
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor
Desejo, por sinal, que você seja triste
Não o ano todo, mas apenas um dia
Mas que nesse dia
Descubra que o riso diário é bom
O riso habitual é insosso
E o riso constante é insano.
Desejo que você descubra
Com o máximo de urgência
Acima e a respeito de tudo
Que existem oprimidos, injustiçados e infelizes
E que estão bem à sua volta
Desejo ainda
Que você afague um gato, alimente um cuco
E ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque assim, você se sentirá bem por nada
Desejo também
Que você plante uma semente, por menor que seja
E acompanhe o seu crescimento
Para que você saiba
De quantas muitas vidas é feita uma árvore
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro
Porque é preciso ser prático
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele na sua frente e diga:
“Isso é meu”
Só para que fique bem claro
Quem é o dono de quem
Desejo também
Que nenhum de seus afetos morra
Por eles e por você
Mas que se morrer
Você possa chorar sem se lamentar
E sofrer sem se culpar
Desejo por fim
Que você sendo homem, tenha uma boa mulher
E que sendo mulher, tenha um bom homem
Que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes
E quando estiverem exaustos e sorridentes
Ainda haja amor pra recomeçar
E se tudo isso acontecer
Não tenho mais nada a lhe desejar

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Daqui do murundu; BH, 050802013.

Daqui do murundu não se vê 
A sorte do outro lado da fronteira
E há o muro, e depois a muralha,
Além a cordilheira e o mar; 
Daqui do topo, a vista prolonga-se,
Perde-se até a noção, as coisas
Confundem-se como algo que 
Queremos dizer e embaralhamos;
O calor faz vibrar a paisagem,
Os morros são de gelatina e os 
Aventureiros César, Alexandre,
Faziam a sorte, venciam o azar;
Os acomodados esperam que o 
Universo faça a sorte para eles;
Querem que o rio seja raso, que as
Águas sejam tranquilas, que os 
Mares não sejam bravios e os ventos
Não sejam fortes; os sedentários não
Querem mudar o mundo, para não
Ter que sair do lugar; detestam
Revoluções, rotações, translações;
Aliam-se alienados à força da 
Gravidade e não levitam;
Chumbam-se ao chão, enraízam-se
Nas rochas e teimam que nada 
Muda, enquanto tudo se movimenta
De um lado para outro; e na verdade
Das verdades nada é a mesma coisa,
Igual, normal, mesmo que teimemos
Não nos mover um segundo adiante, 
Quem nos garante, que somos os 
Mesmos, quem nos confirma.

Ficarei horas aqui; BH, 020802013.

Ficarei horas aqui com esta vara 
De pescar na mão e não pescarei 
Nenhum lambari, quanto mais um
Tubarão; do tubarão sou a isca,
Sou a caça, a comida; houve 
Quem teve sonho maior do que 
O meu, houve obstinado, que 
Perseguiu baleias, cachalotes, orcas
E foi derrotado, perdeu barco, 
Tripulação, armamento; e teno 
Pescar um peixinho, o mais 
Insignificante que seja, nem 
Precisa ser dourado, nem precisa 
Ser colorido, só um peixinho de
Beira de Rio Santo Antônio, ou 
De beira de Rio Todos os Santos; 
Mas preciso de pelo menos um 
Peixinho, não é possível que terei
Que passar o resto da vida aqui, 
Sem pescar nada; não quero 
Acreditar, que voltarei para casa
Como meu aquário vazio; se 
Pelo menos encontrasse Jesus,
Como alguns pescadores encontraram,
E lançaram as redes ao mar e veio
Tanto peixe, que quase rompia-se a 
Rede ou afundava-se o barco;
Jesus ia pegar um peixinho para
Mim, não deixaria o meu aquário
Vazio, meu anzol sem utilidade
E minha vara à toa; bem que Jesus
Poderia encontrar-se comigo,
Jesus é um bom pescador, 
Conhece a manha das águas
E sabe até andar por cima delas. 

Meu tempo de ociosidade; BH, 01º0802013.

Meu tempo de ociosidade é imenso e 
O meu tempo é um poema, minha 
Vida é uma poesia e tento fazer 
Poesias, poemas, do tamanho do meu 
Tempo; é a justificativa que encontro,
Quando reclamam do tamanho dos 
Escritos que deixo; se fosse um ser 
Ocupado, que trabalhasse, que fosse
Obrigado a ser responsável, a pensar,
Logicamente não teria tempo nem 
Para descansar; preguiçoso, inimigo
Do trabalho, sedentário, o que de 
Menos pensativo que encontro, que 
Não estressa, não enerva, é o de 
Encher linhas de pepel com letras,
Palavras retiradas de lavras abandonadas,
Que não dão mais trabalho, garimpo,
Mineração; aí, o entulho gerado, tende
Acumular-se, lixos para todo lugar,
Poeiras, ciscos, cinzas; ao redor vira
Um sítio paleontológico, um depósito
Arqueológico, com restos de ossos
Velhos por todos os lados; e a preguiça
Não deixa-me arrumar nada, jogar fora
O que não presta, espanar a poeira,
Varrer a sujeira, mesmo para debaixo 
Do tapete; e fico até com vergonha,
Quando recebo uma visita, que quer
Até ler algo, mas quando ver o tamanho,
Desiste na primeira linha, leva a 
Mal não, deixa para outra hora, faz
Um assim mais jeitosinho, passa 
Para mim, que depois leio.

Ray Charles - The Best Of (By Classic Mood Experience)

Reparai que a cada dia que passa; BH, 01º0802013.

Reparai que a cada dia que passa,
Fica mais impossível viver; e 
Quando vem a noite, os sonhos
Não a acompanham mais, e vêm
A insônia e os pesadelos; reparai
Que poucos nos alegramos, todas 
As tragédias, desgraças, desastres
Compartilham o nosso tempo; não
Há mais cultura que nos seja 
Agradável, não há mais sabedoria
Com quem possamos dividir e a  
Inteligência foi expulsa do nosso
Convívio; temos por companhia a
Violência desenfreada a leitura da 
Onda de crimes, roubos, assaltos,
Os vídeos das execuções, dos 
Arrastões, dos sequestros; e o 
Pânico é pregado livremente, 
Para beneficiar os grupos que 
Nos controlam, nos exploram e 
Sobrevivem do nosso pânico; e 
Continuaremos atados às embiras,
Presos aos elos, algemados,
Acorrentados; e continuaremos 
Com a pseuda liberdade, a falsa
Democracia e com a certeza de 
Que só quem detém o poder, é 
O que pode alguma coisa; o povo
Não não passa do detalhe de 
Sustentação, de massa de manobra
E de ser cada vez mais chamado
A sustentar o estado, a burguesia 
E a elite; e enganado, iludido, 
Volta à casa todo dia, no peito 
A angústia, na face a agonia.

Nunca contei uma história; BH, 01º0802013.

Nunca contei uma história, quem 
Contavam histórias eram as minhas 
Avós, meus avôs, mais certamente 
Minha avó e meu avô Donato;
Nunca rezei uma reza, rezadeiras
Também eram minhas avós, sabiam
Rezas para todos os males, e davam
Certo, não era igual hoje, com 
Gritarias, gesticulações, imprecações;
Minha avó rezava com um balbucio,
Eu não entendia nada, benzia-me 
Com um sussurro, que parecia um
Chiado, um zumbido soturno, e dava
Certo; hoje é uma loucura só, com 
Muito pragmatismo, evangelhos de
Resultados, que não dão resultados; 
Entre os tempos de hoje e os tempos
Das minhas avós, dos meus avôs, da
Minha mãe, desprezo os de hoje e 
Fico com os de outrora; não esqueço
As carpideiras benzedeiras, com as 
Suas preces milagrosas, seus terços
E credos, pai-nossos e ave-marias;
E os pozinhos, as raízes, as folhas,
Os matos, os galhos, os ramos, as 
Arrudas, as garrafadas e os remédios
Caseiros para queimaduras; as 
Crianças que não têm avós, tias,
Nas vidas delas, não têm infância;
Mas só servem se forem avós, avôs,
Tios e tias dos meus tempos de 
Infância, das antigas, que sabiam
Cantigas, cantos, histórias e casos
E causos que não acabavam mais; e 
Fora as travessuras que me ensinavam, 
Coisas do outro mundo.

Ready For The Blues - 22 Vintage Blues Tracks (One Hour Of Blues)

Filme queimado; BH, 0300702013.

Filme queimado e por isto nunca 
Revelado, fotografia que foi velada,
E que não será objeto de exposição
Artística; o que o mundo bebe é obra
De arte, o que a civilização come, é 
Obra-prima; e são as que mantêm à 
Tona as revelações das premonições; são
As que sopram as profecias nos ventos, e
Os sacerdotes falam que são eles; as nuvens,
Que tudo sabem, ficam em silêncio,
Só fazem barulho, quando o firmamento
Quer nos mandas as suas normas; e 
Os raios voltam às terras com os códigos
Das informações, os relâmpagos riscam
Os garranchos que se espalham, e 
Quando são encontrados, novas leis
Nos são citadas; os trovões que ecoam 
Sons milenares, com suas linguagens
Estelares, são outros idiomas universais,
Que poucos decifram o que querem dizer;
E da mesma maneira que as pedras das
Montanhas suspensas podem cair, 
Rochas das cordilheiras rochosas firmes
Aqui, a qualquer momento, também podem
Subir; há cometas que para escrever uma 
Única linha, levam centenas de anos, e
Quero transcrever essas linhas siderais,
Para formarem minha poesias imortais;
É mais fácil fazer um universo em sete
Dias, do que um poema soneto em 
Quatorze linhas; vou sair por aí, vou
Desistir de fazer poemas e fazer 
Universos, o que dá menos problemas.

Decidi não escrever mais; BH, 0300702013,

Decidi não escrever mais sem telepatia,
Aviso à praça, que parei com a psicografia,
E a partir deste momento sublime, a 
Telepatia será o meu novo meio de 
Comunicação; meus pensamentos não podem
Ficar habitados eternamente dentro 
Da mente, presos no cérebro, encavernados
Nas paredes pré-históricas do crânio; meus
Pensamentos necessitam de outras cabeças,
Outros cérebros, outras mentes brilhantes,
E os universos só são formados por 
Mentes brilhantes; meus obscuros, taciturnos,
Obtusos, obsoletos se desfazem logo que 
Transpõem as barreiras das paralelas; e os 
Pensamentos retrógrados ecoam todos 
Pela terra para estercos, adubos vegetais;
Decidi que a partir daqui, não vou 
Mais escrever de olhos abertos, cego não
Precisa abrir os olhos; a luz do cego
É a telepatia, que agora uso para por 
Fim à agonia; decidi ceifar a estupidez,
E a ignorância que agigantam-se, e 
Desintegram-me, e do convencional, e do
Normal gero o anormal; e rompo com o 
Oficial, ultrapasso o cordão de isolamento; 
E especial, cruzo a encruzilhada, ponho 
Abaixo o sistema do establishment, crio
Desordem na ordem unida e não obedeço
Mais as leis da moral e dos bons costumes;
Não abro mais a boca para a pronúncia
De palavras, matei as palavras, as letras,
Agora escrevo com o que penso, e quem
Precisar entender os reflexos telepáticos,
Mentais, se revelará numa revelação profética.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Genial é o Sistema Solar; BH, 0300702013.

Genial é o Sistema Solar, já pareis para
Pensardes a respeito dessa criação de gênio?
Sábia é a força da Gravidade, é sabedoria
Pura, aplicada cotidianamente, sem falha,
E de suma importância, que talvez, poucos
Pareis para pensardes nela; como é que
Pode, dum caos, nascer harmonia tão 
Inteligente, como essa que move o 
Universo? é algo muito impressionante,
Nossa imaginação não passa por perto,
Nossa criatividade não existe, e nossa 
Inspiração não tem noção do éter que 
Envolve-nos; é uma reunião do que 
Mais moderno, hodierno, evoluído há
Desde bilhões de anos-luz; e daqui a 
Mais alguns bilhões de anos-luz, muita
Coisa restará inda a ser desvendada,
Devido aos mistérios, segredos, que 
Mente humana nenhuma, é capaz de 
Imaginar, pensar, sondar,sonhar, 
Conceber; essa grandiosidade infinita,
Essa genialidade, a percepção humana,
Não assimilará nunca; nosso cérebro
É muito pequeno para tanta informação,
Precisaríamos de toda uma eternidade,
Para começarmos a entender, e se 
Vivêssemos a posteridade, não 
Entenderíamos o suficiente; e este 
Genial Sistema Solar não passa dum 
Minúsculo ponto em toda a dimensão
Dessa dimensão, ou vice-versa; e são 
Essas as glórias que pretendo um dia 
Conquistar quando aprender a pensar.

Não temos a capacidade de saber; BH, 0290702013.

Não temos a capacidade de saber, o que vai
Acontecer, a um segundo à nossa frente; a 
Necessidade deveria fazer com que, 
Adquiríssemos uma percepção, uma
Sabedoria, ou uma visão especial;
Quantas pessoas vão alegres pela vida, a 
Cantar, a conversar, a sorrir, sem 
Ter nem a ideia, de que, no próximo
Segundo estarão mortas, esmagadas, 
Torradas, assassinadas; que falta que nos 
Faz uma prenunciação, uma reminiscência,
Que nos fizessem frear na hora certa,
Desviar do perigo, e evitar o caminho
Traiçoeiro, e driblar a morte; e apesar de 
Tudo, inda somos estúpidos, e fazemos
Questões de aumentar a nossa estupidez;
E somos ignorantes, e fazemos questões de 
Aumentar a nossa ignorância, e aí, 
O que nos resta é chorar aos nossos feridos,
E aos nossos mortos; e todo cuidado é pouco,
Mas, quem pensa em cuidados? quem quer
Estar alerta, na defensiva, a pisar em ovos?
O que queremos é o desespero, é o risco
Próprio e o alheio, a falta de cuidados e de 
Considerações; o que queremos é a 
Imprudência, a imoderação, o desrespeito
A tudo, e a falta de atenção; e as coisas 
Tão próximas, os acontecimentos iminentes,
Urgentes, e não temos nenhum pingo de 
Imaginação; nenhuma criatividade para 
Evitarmos as tragédias, e as tragédias ali, debaixo 
Dos nossos narizes, diante dos nossos olhos.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Estou muito triste; BH, 0290702013.

Estou muito triste, ninguém levou-me
Em consideração, e o mundo parece-me
Que é assim, ninguém leva nada em
Consideração; e é muito triste o estado,
A sociedade é triste, e o sistema é mais
Triste ainda; e tudo isso faz com que o
Povo fique triste, e eu como homem do 
Povo, estou triste por mim, e pelo povo;
Meus amigos morreram quase todos,
Meus irmãos não fazem questão de 
Ser meus amigos; suportamos um 
Amigo, e não suportamos um irmão; não
Tenho mais com quem beber uma 
Cerveja gelada, e não há o que possa 
Ser melhor do que se beber uma cerveja
Gelada; é por isso que estou triste, faz
Muito tempo que não encho a cara,
Está explicado; e eu aqui complicado,
A esbravejar, a xingar, a odiar, a 
Blasfemar, e tudo que eu preciso é de 
Uma cerveja bem gelada; e vou 
Passar a amar a todos, sem ódios, 
Sem xingamentos, sem brigas, sem 
Raivas; gentes, como os problemas
Da vida podem ser resolvidos tão 
Facilmente? uma cerveja gelada na 
Nossa frente, e primavera eterna, e 
Nada de primavera árabe, nada de 
Homens-bombas, drones, guerras
Civis, revoluções, golpes de estado,
Manifestações, vandalismos, é só um 
Cerveja bem gelada e a vida vira um 
Disco de um bom e velho rock n' roll.

Não importa; BH, 0290702013.

Não importa, já estou condenado, e 
Culpado, réu confesso, estou condenado;
Não quero defesa, não quero justiça,
Não quero tribunal, juiz, desembargador,
Defensor, promotor, nada disso quero,
Renegado, estou condenado, e quero
Cumprir a pena; nem habeas corpus,
Alvará de soltura, ou outro benefício
Que a lei possa garantir-me; sou um 
Fora da lei, detesto lei; e não quero o
Indúbio pro réu, o contraditório, a 
Ampla defesa, não quero o direito; 
Sou um preso de penitenciária, sou um 
Presidiário, e não quero visitas, nenhum
Contato com o mundo lá fora, com o 
Estado, com o sistema, a sociedade; não
Faço questão de nenhuma assistência, 
Só a solidão de solitário na solitária;
Sem banho de sol, incomunicável,
Sem visita íntima; e quando houver
Rebelião, que eu seja feito refém, e 
Que não haja acordo nas negociações,
E que o refém seja executado; e não 
Quero coisas belas, o belo, o certo, 
Quero o torto, o duvidoso, o indeciso;
É, não quero o sadio, quero o sádico,
O terror, os versos sangrentos, os 
Versículos profanos; não sou 
Consagrado, não sou batizado, e fui
Excomungado pelo papa; mas não
Importa, nada me importa, minha 
Alma é torta, nada dá jeito nela
E neste espírito enviesado.

Odeio, explicitamente; BH, 0290702013.

Odeio, explicitamente, odeio, não há
Como negar, mas o que move-me é o
Ódio; odeio desde da hora em que acordo,
Até o momento em que vou dormir; só
Odeio, e não suporto fazer outra coisa,
Não odiar é morrer; e odeio tudo 
Que se move na face da Terra, e 
O que não se move; odeio aonde 
Meus pés pisam, e o que meu estômago
Acolhe; que raiva que me dá 
Este ódio, é uma vontade de xingar,
Brigar, matar, cometer atos terroristas,
Explodir bombas, arrancar os olhos,
Abrir o ventre, personificar o mal;
Não suporto o mercado, a mídia, os
Bancos, as igrejas, as escolas, os hospitais,
Os cemitérios; não suporto os cursos, as
Universidades, as repartições públicas, as 
Polícias, os políticos, os tribunais, as 
Assembleias, a câmara, o senado; odeio
Os palácios, as mansões, a burguesia, a 
Elite; arrumeis mais alguma coisa 
Aí, que vos direi que odeio, tenho raiva,
Cólera, ira; odeio a sociedade, odeio 
O consumo, a moda, e as artes, todas 
As artes, a saúde, a educação, e a 
Cultura; quem me dera uma montanha,
Um monte, um cimo bem elevado,
Um lugar mais distante, para romper
Estes nervos, estas cartilagens, quebrar
Estes ossos, arrancar estas raízes, com o
Contato que me causa este ódio óbvio.  

Não pagarei nada; BH, 0290702013.

Não pagarei nada do que vos devo com
Letras, não vos ressarcirei com palavras; o 
Pablo Picasso, que era artista, com uma 
Rubrica enriquecia qualquer dono de 
Estabelecimento comercial; o Salvador 
Dali, com um único rabisco, deixava
Milionários donos de galerias de arte;
Juan Miró, com seus salpicos de tinta,
Com suas impressões sem impressões,
Enchia de grana os bolsos dos colecionadores;
Eram verdadeiros reis Midas, em 
Tudo que pegavam, transformavam 
Em ouro; devo-vos, devo a vós muito,
Se letras pagassem, eu ainda teria 
Troco, se palavras pagassem, na certa,
Eu poderia gastar mais; mas minhas
Letras, minhas palavras não são mágicas,
Não são consagradas, não são santas; e
Num futuro qualquer, incerto, não
Serão relíquias negociadas a peso de 
Ouro; se vivesse no tempo das 
Cavernas, e fizesse esses garranchos em
Qualquer parede de gruta, na certa as 
Paredes e as grutas seriam preservadas,
Seriam intocáveis devido aos 
Garranchos, hoje transformados em
Escritas rupestres, e não teriam preço
Imaginável; e olho minhas paredes nas
Salas, quartos, banheiro, cozinha, e vejo
Os prisioneiros, estão todos lá, acorrentados,
E não sei como libertá-los, não sei como
Transformá-los em obras-primas, em obras de arte.

Se há uma pessoa; BH, 0280702013.

Se há uma pessoa que tem medo do 
Que escreve, sou eu, pois nunca sei
Se sou eu que escrevo, ou se escrevem
Por mim; seguro a pena, mas a mão 
Que segura a pena, age como se não
Fosse minha, age como se não fosse
Eu que segurasse a pena; e não 
Penso e nunca sei o que escrevo, e 
Se escrevo, nunca sei o que penso;
Fantasmas saem do sobrenatural e 
Vêm cochichar aos meus ouvidos
Seus delitos mais íntimos; almas
Chegam em ventanias, espíritos
Em redemoinhos, e sombras se movem
Nas névoas, depois nas salas, sentam-se
Nas cadeiras, deitam-se nos sofás, a 
Quererm-me fazer de Freud; não 
Dou ouvidos a mais ninguém, 
Outros recantos há para soprar-vos
As vossas ladainhas, as vossas arengas
Sem nexos; não posso ficar a querer
Escrever, e ficar com medo do 
Que possa aparecer; assombrações 
Fora daqui, nada de oculto, e de 
Esconde-esconde; nada de assustar
E de assombrar as pessoas atrás das
Portas, nas escadas, nos portais, nos
Escombros; recolher-me-ei à minha
Alcova solitária e fria, solitário;
Vinte para a meia-noite, não quero
Mais nada a não ser dormir a morte.

Como sou imprestável; BH, 0280702013.

Como sou imprestável, deixei meus amigos
Morrerem sem mim, não morri por meus 
Amigos, não fui à morte deles, não os 
Presenciei na última hora; meus bons 
Companheiros que foram sem mim, onde 
Estava eu, quando mais precisáveis? na 
Certa estava nalguma farra, a beber com 
Alguma puta, a resfolegar nas carnes 
Podres dela, e meus bons companheiros à
Morte; que destino o meu, de ser ausente,
De ser omisso, um mau companheiro, um
Falso amigo, ao não morrer no lugar dos 
Camaradas; que mau doador que fui, não
Doei o sangue, não doei a carne, não doei a
Vida, não doei nada a quem perdia tudo; 
Perdoais, meus verdadeiros amigos, 
Companheiros de jornada, camaradas de 
Luta; perdoais este que ficou aqui a 
Padecer, este que deveria ter ido e não foi;
De repente tão imprestável, que até a morte o
Despreza, meus colegas, esperai por mim,
O universo é vasto, e quero fazer o que há 
De mais vasto, o meu coração; e quero aqui
Dentro do peito, poder depositar-vos em 
Urnas de diamantes, guarda-vos em minas 
De ouro, prata e platina; quero escupir-vos
Nestes blocos de mármore, que formam
As cadeias rochosas do meu pendão.  

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Não há uma maneira; BH, 0280702013.

Não há uma maneira de ser desenterrado,
E quero ser desenterrado, reencarnar-me 
Em algumas carnes nobres, este meu 
Esqueleto decadente; ando à procura 
Dalgum cadáver fresco, um morto que 
Pareça vivo, para fazer na minha ossada,
A reencarnação; não aguento mais ficar
Enterrado aqui, minha caveira chacoalha-se,
Os ossos vibram como se fossem chocalhos
De cascavéis; psicografo meus pensamentos
Mofados, e a mortalha não sai de cima da 
Minha ossatura envelhecida; e viro-me, e 
Reviro-me nesta sepultura que não é um 
Sepulcro; são minhas memórias póstumas,
São minhas lembranças fúnebres, são 
Minhas recordações funestas, que vêm 
Incomodar-me, a quererem outro encosto,
Para voltarem à vida; e tento dialogar, 
Não há jeito de desenterrar-me, não há 
Mais como voltar-me à luz? sair a escolher
Carne de primeira, carne nova e cheirosa,
Que precisa de beber sangue todo dia; e 
Volto ao meu recanto, e nem um regato 
Para cantar a marcha fúnebre, ou o 
Réquiem; aqui não há riacho, córrego,
Ribeirão; e quando alguém chora, e cai
Uma lágrima aqui, é uma imensa 
Melancolia para nós, a lágrima é 
Imediatamente evaporada, não chega às
Ponta das nossas calcinadas línguas.

O nosso mal; BH, 0280702013.

O nosso mal é que, quando falamos as 
Coisas, e somos confrontados com as 
Coisas que falamos, geralmente, negamos
As coisas que falamos; raras são as pessoas
Que falam as coisas, e as assumem, a 
Maioria fala, e depois nega, volta atrás,
Bate o pé, e teima que não falou; e 
Quem acaba por ficar mal na fita, é o 
Confrontador, o que testemunhou a 
Fala negada, repelida pelo falador; e a 
Maioria que nega o que fala, nega por
covardia, por medo, por falta de
Personalidade, e caráter; falaste isso,
E isso, e isso? falei, e de onde tiraste 
Essa ideia? fulano que falou-me; 
Fulano, falaste isso, e isso, e isso para 
Beltrano? não, não falei nada disso; a
Cara da pessoa vai ao chão, e não 
Adianta teimar, mas, tu? no outro 
Dia?? eu não, inventa outra, deves
Estar a confundir-me com as outras 
Pessoas; o melhor é o seguinte: alguém
Falou algo, deixa entrar por um 
Ouvido e sair pelo outro; e é esquecer
Inda mais, se for fofoca, mexerico,
Boato, fuxico; o melhor é se fazer 
De cego, surdo, e mudo; a pior 
Coisa que pode ocorrer na vida, das 
Pessoas, é falar da vida das pessoas,
Mal, ou bem; e o melhor que se pode
Fazer da vida das pessoas, é não
Falar da vida das pessoas mortas.

Não consigo pensar; BH, 0280702013.

Não consigo pensar, e não é nenhuma
Novidade, e a novidade, é que não 
Consigo pensar, e pergunto-me sempre:
Quando foi que já pensei? e nunca 
Pensei na minha vida; e pensar é um
Perigo, quando alguém pensa, é que 
Surge a novidade; e às vezes paro 
Para pensar, que na verdade, é 
Necessário pensar; quem pensa tem
A certeza, a firmeza, e a fé; um homem
Quando pensa, revoluciona, transforma,
Muda; um homem quando pensa, 
Evolui, cresce, vai para a diante; e 
Lança-se à liberdade, à coragem, e à
Ousadia; e fico a imaginar um povo
Pensante, um povo com audácia: ai de
Ti burguesia, ai de ti elite, ai de ti 
Explorador, ai de ti classe dominante;
Colonizador, imperialista, ai de ti 
Neoliberalismo, quando todo o povo
For pensante; governos, políticos,
Palácios, polícias, abalai-vos, o 
Povo aprendeu a pensar; a nação 
Agora pensa, abalai-vos oligarquias,
Plutocracias, a população pensa em 
Soberania, pensa em cidadania; e não
Quer mais papel secundário, não 
Quer ser mais protagonista subalterno,
Personagem coadjuvante; é o povo 
Que é o ator principal, e não é de 
Novela, é de filme épico, é de saga
Consagrada, arrepiai-vos inimigos do povo

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Pela primeira vez; BH, 0270702013.

Pela primeira vez, de modo consciente,
Vejo um risco no país, e não é de revolução;
É um movimento contrarrevolucionário,
Não identificado, que começa nos grandes
Centros urbanos, e que pode partir, quando
Menos se espera, para o uso de armas; 
Inda não percebemos uma ideologia, e 
Sim uma disposição, uma atitude contra
O sistema para levá-lo a uma guinada
Da mais vil direita; nada de ataques ao 
Sistema financeiro, ou um ataque ao  
Capitalismo selvagem; pela primeira vez
Vejo risco de queda de governadores,
Prefeitos, e inclusive golpe contra a 
Presidenta; nem na luta contra a 
Ditadura, percebi o perigo de queda, de
Derrubada de governante, igual ao 
Cheiro que sinto agora, com a diferença 
Que estamos numa democracia; com 
Alguns governadores sem apoio
Do PIG, o Partido da Imprensa Golpista,
Outros com apoio, e bem protegidos 
Pela velha mídia, e com a presidenta a 
Ser bombardeada 24 horas por dia, os 
Que querem a contrarrevolução,
Encontraram um prato feito; não sei
Em que vai dar essa guerra urbana,
Que começa a tomar proporções; sei
Que correrá sangue, mais cedo ou 
Mais tarde, correrá sangue; e com o 
Judiciário que temos, com o legislativo
Que não respeita em nada o povo, 
A falsa revolução logo logo, ganhará
A simpatia da maior parte do população,
E aí, não teremos mais ordem e progresso.

sábado, 12 de dezembro de 2015

Não há nada para alegrar-me; BH, 0270702013.

Não há nada para alegrar-me,
Satisfazer-me de verdade; o
Que alegrava-me e satisfazia-me,
Era quando fumava e bebia, hoje,
Parei de beber e de fumar, e não
Há nada neste mundo que possa
Alegrar-me; recorro às letras, apelo 
Às palavras e elas já envelheceram,
Perderam a validade, os sentidos, e 
A direção; quando frequentava as
Mesas de bares, sempre havia uma 
Música, um samba, um alguém para
Conversar; bebia-se umas cervejas 
Geladas, uns conhaques, umas pingas
E uns runs; olhava-se as musas nos 
Desfiles nas calçadas, divertia-se 
Com os zumzumzuns, ria-se com as 
Piadas bobas, os papos dos bêbados
Conhecidos e brigava-se um pouco;
Já não leio jornais, não leio livros e
Não assisto televisão; já não ouço 
Música, não visito ninguém e não 
Sou visitado; e desesperado percebo,
Que não há nada para alegrar-me;
Igreja não gosto, detesto religião,
Que são mais para entristecer, do que
Para alegrar meu coração; o bom 
Mesmo era quando se podia beber, 
Até não dizer chega, ir de bar em bar,
De saideira em saideira, sem nunca 
Saciar-se; e chega a hora em que o 
Dinheiro acaba, e tudo tem que parar. 

O melhor seria não envelhecer; BH, 0270702013.

O melhor seria não envelhecer, e,
Como não envelhecer? não há uma 
Saída, a não ser envelhecer; e quem
Envelhece demasiadamente, a ponto
De ficar senil, decrépito, caquético, e 
O pior, dependente, passa por maiores
Dissabores: abandono, desamor, dores,
Necessidades especiais, desrespeito,
Solidão, insatisfação com tudo, e 
Pesadelos, muitos pesadelos, visões; o
Bom seria não envelhecer, e como não
Envelhecer? morrer antes de alcançar
Uma idade muito avançada; idoso
Demais requer uma série de maior 
Atenção, que muitas vezes, não há quem
Esteja disposta a dar; se tem filhos, os
Filhos não aparecem, ou não suportam
O próprio velho, ou não se suportam
Uns aos outros; são irmãos, mas pelo bem
Maior da humanidade, seria melhor
Que não fossem; vi o abandono desumano 
Do meu avô por parte de pai, a solidão
Senil do meu avô Donato, que quando
Eu era menino, muitas histórias me
Contou; vi a solitária senilidade dele
Em toda a sua nudez, num barracão 
De chão de terra batida, no morro, sem
Móveis, como se meu avô fosse um louco
Num hospício abandonado: logo depois
Veio a falecer; e para me livras destas
Agruras, destas heranças hereditárias, 
Espero com certeza, morrer antes de envelhecer.

Haja luz; BH, 0270702013.

Haja luz, e houve luz, e ouviu-se o 
Som da luz a irromper nas trevas; 
Mas a luz não faz barulho, as trevas
Não são matérias, e todas duas são
De profundezas abissais; há luz, que,
De tão profunda, a fonte que a 
Gerou, até já desintegrou-se, quando
Ela chega aqui; há treva, que,
De tão profunda, torna-se tão
Densa, que sentimos vontade de 
Pegá-la; e o som? como foi que 
Houve o primeiro som? o que que 
Causou o primeiro som? e quem
Foi que ouviu o primeiro som causado
No universo? haja luz em mim
Um dia, e que ela ponha fim
A este meu estado de trevas, e 
Que nunca mais crie eco o som
Do meu pranto; haja luz que 
Faça-me parar de chorar de medo
Da treva; haja som que guie-me 
Nestas sendas tortuosas, nestes
Caminhos que trilho de olhos
Vendados; haja luz nesta minhas
Retinas furadas, haja luz para 
Mim, do início ao fim, com 
Satisfação, haja luz no meu 
Coração, haja luz nas pontas dos
Meus dedos, nas palmas das
Minhas mãos; haja luz no meu 
Universo, luz de cura medicinal,
Que ilumina de verdade e cura o mal.