sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Triste escrevinhador e tão medíocre e piegas; BH, 01101202012.

Triste escrevinhador e tão medíocre e piegas
E simplório, que chamam a obra de porcaria;
Para que querer ser escriba, rapaz, num
Mundo de dorminhocos? acorda Zé, mesmo
Que não vás enforcar-te, acorda Mané;
Pensas que é fácil encher de garranchos de
Letras e palavras folhas de papel e querer
Que os mortais leiam? vã estupidez de
Ignorante, não é fácil não; ponderes ao que
Escreves, é alguma obra de arte? é alguma
Obra-prima? teoria, tese, ensaio? o que
Deveras escreves tu, ó imbecil, que queres
Que leiamos? piedade de nós pelo menos;
Enche-nos o saco com esses teus impropérios
E dizes que é literatura, que é poesia, poema,
Ode, soneto, sinfonia; quem sabe das coisas,
São os teus e dizem tudo, são porcarias e
Tens mais é que coloca fogo em tudo e
Dispersar as cinzas ao vento; ganharás mais e
Deixarás de nos importunar; essas coisas
São para catedráticos, estudiosos e tu
Não és nada disso; és apenas um apedeuta,
Um aculturado que quer nos passar a
Impressão de que sabes alguma coisa; e a
Verdade é que no fundo, não sabes de nada,
Ficas machucado com as verdades que dizem,
Mas a verdade é assim mesmo, é para doer,
Machucar, ferir; e santo não és e sabes que
Não prestas para nada; e lugar de porcarias
É o lixo, ou é o esgoto e nada de choro e
Lágrimas e é deixar de ser grosseiro.

Muddy Waters feat. Johnny Winter - Chicago Fest 1981

Arthur Rubinstein plays Chopin. Polonaise in Ab Major, Op. 53. Heroic

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Anísio Silva.


Parece-me que tudo está perdido; BH, 0901202012.

Parece-me que tudo está perdido,
Mas, no fundo, ouço uma vozinha
A dizer-me que nem tudo está
Perdido e que há coisas piores do
Que, as que pensamos que são as
Piores; e que bela frase ao chegar
À fase de que, nem tudo está
Perdido, que excepcional conclusão;
E pode-se repeti-la de verdade,
Quantas vezes necessárias, para
Chegar-se a verdade; e disse-me
Uma vez um alguém e a guardei
No meu sepulcro, para o caso de
Ressuscitar-me: há coisas piores; é
Bom repetir a verdade infinitamente,
Como um eco no desfiladeiro, um
Vento a galopar numa falésia, um
Vale onde o lírio se esconde, um
Cânion que nos causa maravilhas;
E a pensar que tinha chegado ao
Fim da linha, que seria o meu
Último suspiro, último soluço e
Que não mais beberia da chuva, e
Que nem me embriagaria pela luz
Do sol; vasto azul celestial, de qual
Escudo mais preciso? impressiona-me
Todo dia e não se entedia da sua
Função; infeliz de mim, malgrado
Meu, no dia em que abrir os olhos
Sedentos e não estiveres mais aí; furo as
Minhas retinas, arranco os meus
Olhos, não quererei mais saber
De ver outras coisas.

Eis-me aqui canibais a vossa comida; BH, 0901202012.

Eis-me aqui canibais a vossa comida,
O i juca pirama e façais de mim,
O vosso bolo alimentar; vendai-me
As vistas, colocai-me em frente ao
Vosso pelotão de fuzilamento, no
Paredão e ordenai fogo aos
Atiradores; sou o povo, burguesia,
O qual abominais; sou o povo, elite,
Que debochais; sois o leviatã, o
Monstro, o estado, a sociedade; sois
A religião e quereis-me moer os ossos;
Mas não permitirei que construais
Em cima da minha ossada os
Vossos alicerces; sacudirei os séculos,
Os milênios em vossas assombrações;
Querereis comer-me, beber-me, que eu
Passe pelos vossos intestinos e que
Corra em vossas veias como sangue
Venoso e depois arterial; mas causarei
Embolia no sistema circulatório, se
Antes não causar uma má digestão;
Ides, balançais vossas cabeças diante de
Vossas muralhas da China, do muro das
Lamentações, de Berlin e do atual muro
Da Vergonha na Palestina; balançais
Vossas cabeças de satisfeitos, que pensais
Poderosos; estado implacável, assassino,
Vossos filhos são o capitalismo, o mercado,
O neoliberalismo, a globalização, o
Imperialismo; reinai da miséria, da desgraça
E da degradação que causai à humanidade.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Como estou bem próximo da morte e vivo; BH, 0901202012.

Como estou bem próximo da morte e vivo
A pensar nas coisas que vão me matar; e
Como a morte é precoce, não terei a sorte
De morrer precocemente, aos cento e
Quatro anos, como morreu Oscar Niemyer;
E como este tempo é tão corrido, rotatório
Em demasia e todo dia quando saio de
Casa, saio com a impressão de que é o
Meu último dia; e nem cheguei e nem
Chegarei e nem chego a viver; quem vive
É quem labuta, ganha dinheiro, trabalha;
E finjo, sou um fingidor, vivo de fingimento;
E o maior absurdo é que ninguém nota
Que finjo, ou fingem não notar; será a vida
Hoje um mero fingimento? será que só 
Passo a impressão de ser aquilo que não
Sou? tenho que rir na cara de quem pensa
Que sou normal; tenho que gargalhar de
Boca bem aberta e dentes à mostra, dos
Idiotas que pensam que não sou idiota; e
Tratam-me com deferências, falam que
Sou referências, coitados, como que são
Enganados por mim; e quando entro no
Banco, na igreja, no bar, com aquele ar
De superioridade, de decidido, de correntista,
De membro dizimista, mas é só no bar mesmo
É que existo; o bar é o único lugar onde o
Mortal, depois de unas e outras, se sente
Um poderoso e estúpido imortal.

A escrita é para suprimir as deficiências; BH, 0901202012.

A escrita é para suprimir as deficiências
Da pessoa que escreve; o ser escritor é
Um ser deficiente, imperfeito, incompleto,
Complexado, mórbido, bizarro; se não
For assim, não há de que haver escrito,
Escrita e escritor; ente inseguro na vida,
Duvidoso, desesperado, ansioso, fracassado,
Só há uma saída, transformar-se em escritor;
E escritor de porcarias, como dizem os
Familiares e os críticos de pessoas assim;
Outros casos, a entidade é esquizofrênica,
Sofre de distúrbios neurológicos, é paranoico,
Psicopata e para não cometer crimes,
Tragédias, suicídio, escreve; mesmo assim
Há conhecimentos de bem sucedidos,
Que acabam por suicidarem-se; conheci
Caso de escritora, que pulou do quarto,
No quarto andar, não morreu, foi socorrida,
Ficou aleijada e quando recebeu alta, na
Primeira oportunidade, se jogou de novo
E aí, foi a última escrita em linha perpendicular;
A última poesia, o último poema, a última
Ode e por fim uma elegia; a escrita salva
Muitas almas e não permite que espíritos
Perdidos, fora do limbo, sofram mais nas
Mãos da humanidade; e como todo ser,
Todo ente, entidade que respira, lateja,
Pulsa, bate, é um escritor, cabe ao paciente
Ter paciência e mandar às favas a ciência.

O mundo precisa é de quem ler e de quem escreve; BH, 0901202012.

O mundo precisa é de quem ler e de quem escreve
O mundo não precisa de nenhum; já há escribas
Demais e todo ser que respira na face da terra,
Nos subterrâneos, nos mares, nos fundos dos
Oceanos, nas montanhas, nos vulcões, onde
Houver um ser vivo, há um escritor em potencial;
A natureza toda viva, ou morta, ou em transformação
Escreve, o universo, então, não há escritor mais
Perfeito, escrevinhador mais completo do que o
Universo; ledor que ler, leitor que sabe ler são o
Que verdadeiramente faltam ao mundo; muita
Gente pode enxergar tudo, ser visionária na vida,
Mas não ler nada, é incapaz de ler um horizonte,
Um nascer do sol, uma noite de luar; para que
Escritora melhor, merecedora do Prêmio Nobel de
Literatura, do que a madrugada? e uma madrugada
Só escreve inumeráveis páginas que levaríamos a
Vida para lê-las; e os escritos das serras, coisa
Mais bela não há e até as coisas reles escrevem,
As ervas daninhas, as formigas, as lesmas, as
Lagartas e minhocas, as relvas molhadas quando
Bate a luz do sol; e o pano de chão, a vassoura
De varrer o quintal, o cisco no terreiro, o besouro
Que mora no oco do pau; basta de escritor que
O homem pensa que é, é a vez do ledor, é a vez
Do leitor, que despertam de repente, e não dão
Conta de ler as coisas aos seus redores.

Bem-aventurados os que choram debaixo dos relhos; BH, 0901202012.

Bem-aventurados os que choraram debaixo dos relhos
E das chibatas e presos aos cepos
E aos pelourinhos ensanguentados;
Bem-aventurados os que se jogaram ao mar
Para não serem escravos e os que foram
Jogados por estarem doentes, ou mortos;
Bem-aventurados todos aqueles que,
Embarcaram na Porta da Viagem sem Volta
E morreram nos exílios, sem mais pisarem o
Solo pátrio amado;
Bem-aventurados os que resistiram as grandes
Travessias nos porões dos navios negreiros
E enriqueceram com sangue e pele a cultura
Mundial;
Bem-aventurados os que não quiseram ser
Batizados nas religiões oficiais e de alguma
Maneira foram mortos, ou estigmatizados,
Amaldiçoados;
Bem-aventurados os reis africanos que perderam
Seus tronos, cetros e coroas e reinados;
Bem-aventurados todos os povos que foram
Escravos e que, duma forma, ou de outra
Sofreram violências e injustiças em nome das
Verdades e
Bem-aventurados os que também foram
Supliciados em nome das mentiras;
Bem-aventurados todos os negros, que, em
Qualquer parte da história universal, foram
Tratados como escórias, como animais,
Filhos dos demônios, simplesmente por
Serem negros;
Bem-aventurados esses negros e negras que
Nunca deixarei de amar e aos quais elevo
Preces e orações, cânticos e flores nos
Altares onde foram sacrificados.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Necrófilos e canibais e antropófagos; BH, 0901202012.

Necrófilos e canibais e antropófagos
São esses os políticos da era moderna;
Inquisidores, exorcistas, medinus,
Os livres pensadores da política democrática
Da atualidade; pedófilos, adoradores de
Moloch, contrabandistas de órgãos,
São os formadores da sociedade
Burguesa; traficantes de mulheres,
Escravocratas, exploradores, formam
A qualidade da nata da elite
Evoluída; essa é a sociedade que
Comanda o estado que esfola o
Povo; não são descendentes de povo,
São provindos da raia de Demogorgon
E Asmodeus; chupam tutanos frescos,
Comem entranhas inda quentes,
Bebem sangue e medula em
Coquetéis de orgias em banquetes,
Com surubas e sodomias; violam
Sepulturas de noite e roubam nas
Madrugadas, ossos para rituais, cultos
Ocultos, a fazerem sexo com cadáveres
Recém enterrados, ou mesmo em decomposição;
Não escolhem vítimas, isto é cadáveres,
Corpos podres, ou não; vivem em festins,
Butins de poderes que não são seus;
Réus em ações pagam sentenças e as
Costas do povo são carpetes onde limpam
Os pés; corpos mortos, almas mortas,
Espíritos mortos, contas bancárias
Astronômicas; e num planeta tão belo,
Ter o seu útero grávido por seres de
Tão vil estirpe de espécie da estepe.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Alameda das Princesas, 756, 116; BH, 060701002012.

Querubins rasputins pinguins Caminhas
Camões limões grotões torrões Simões
Sarampo catapora varíola sara Saramago
Sarado santo sanado Górgios platônicos
Socráticos sofistas sinfônicos; sensorial
Sonrisal alkaceltizer cibalena Helena;
Florais rituais tribais mananciais que tais
Serafins que não se sustentam até o fim,
Caem de bunda de banda bambas de
Lado todos derreados; bombardeados
Nos atois, nos corais recifes, serenais
Nas areias sereias reais dos verdes mares
E dos seringais; não é possível mais ser
Possível ser mais do que ser e não ser;
Papeis estúpidos papeis levados pelos
Ventos soprados oceanos solares;
Corroboreis com os arrebóis das
Abóbadas boreais; sombrais dos
Sombreiros noturnos vestais das vestes
Vespertinas sombras assombrais as
Assombrações dos umbrais dos
Portais marginais; ralha o corvo torvo
Nunca mais, ladrais cães desgarrados
Das caravanas saarianas anjos tortos
Sombreados de crayon caretas de
Carvão carrancas de papelão não
Adiantará pensareis que sois alguma
Coisa se o universo pensar que não
Sois nada; quem primeiro tem que
Pensar que sois é o infinito, enquanto
Não se revelar a vós nada adiantará;
Quietai-vos nos outeiros, nas soleiras
Sossegai-vos nas alamedas ornamentadas
De amendoeiras; as tardes são tardes pois
O universo as determinou que fossem tardes.

Alameda das Princesas, 756, 115; BH, 0601002012.

Texto sagrado escrito por um profano,
Manuscrito sacro escrito por um proscrito,
Literatura santa gerida por mente apócrifa,
Escritura de santuário lavrada na terra
Arada para pomar de frutas cristalizadas,
Frutos carnosos; ânsias das elucubrações
Que ponham fim aos manuseios e aos
Manufaturados que semeiam conflitos,
Conflagrações e flagrantes de delitos,
Despidos de fragrâncias portadoras de
Essências conscientes; a luz lúcida da
Lucidez não permite embriagar a não
Ser pela angústia de obter magnitude
Com estatura de ser sóbrio a todo
Instante em que um momento for um
Texto, balaio, um cesto; um falcão
Peregrino grávido de letras, fez um
Ninho para chocar as palavras de
Onde nascem solitários textículos de
Biquinhos abertos, famintos, a disputarem
Uns com os outros a sobrevivência; e o
Mais fraco jogou o mais forte do ninho
E comeu sozinho a isca trazida no
Bico da alimentação; quastorritumbas
Quastarras quastarrinhas das quastarrapetas;
Quandrinhas coandras quarrimãe; minha
Santa Genoveva, parabelum papamarelum
Nobis noa avoa albatroz veloz catapreta
Catacoara poca taquara seca na broca do
Bambu; cucurucucu paloma coruja
Agourenta filha de urubu com gralha de
Corvo de coveiro de cemitério que de sul a
Norte que vento sopre tudo acaba em morte.

Alameda das Princesas, 756, 114; BH, 0601002012.

Quem pode mandar alguma coisa para mim
Aí do além? um tapa na cara, um soco no
Olho, um murro no estômago, um chute no
Saco, uma rasteira, ou uma capoeira? quem
Pode dar um empurrão aí do além? um mar
Revolto, um oceano tenebroso, um rio
Caudaloso, ou uma lagoa traiçoeira? é
Muita calmaria quando remoem-se os ventos;
As velas ficam flácidas e não mais bojudas, é
Muita bonança o que todos querem e as
Naus não saem do lugar, ou navegam à
Deriva pelo mar; quem pode mandar um raio
Aí, um trovão, um relâmpago? é muita inércia,
A vida precisa de descarga de alta potência,
Voltagem máxima; alguém precisa sacudir o
Tabuleiro para arrumar as pedras; já vi os
Filmes antes e muitos protagonistas, muitas
Personagens, até as mais próximas, com
Parentescos me destetaram, me detestam
E me detestarão; é que sou mau ator, mal
Protagonista e má personagem, não
Represento bem e sou mau diretor de
Filmes ruins com teores de terror; já vi as
Cenas antes, fiz todas as tomadas, os cortes,
As montagens e as trilhas sonoras: a bilheteria
Não correspondeu, causou um real fracasso
E perdi a reputação; agora alguém precisa
Mandar dos confins das nascentes e das
Vertentes dos mundos, um inusitado fato que
Afaste o fado que aboletou-se nas corcundas
Dos camelos e nas corcovas dos dromedários;
Minha alma é puta atriz pornô coadjuvante e ao ver
Um holofote, despe-se toda nua em busca de fama.

Liberdade! Liberdade! Abra as Asas Sobre nós! Samba Enredo - Imperatriz

Alameda das Princesas, 756, 113; BH, 0601002012.

Um dia esqueço, sabeis porque, pois,
Nenhum mal dura eternamente e
Nem nome guardarei na memória,
Como alguém que sofre de amnésia;
Um dia esqueço e não terei mais
Traumas, não terei mais lembranças e
Nem quererei recordações, ficarei
Livre das ruminações mentais; um dia
Todos os fatos serão apagados e
Banidos da alma e do espírito, como
As culpas e os arrependimentos; e
Crescerei mentalmente, que nada me
Abalará no futuro, que imagino tão
Escuro, mas que não o temerei; às
Vezes inda piso em falso, indeciso
Como se estivesse a ir ao cadafalso;
Inda não abandonei de todo aquele
Medo por falta de conhecimento,
Inda vacilo naquela covardia antiga,
Por falta de sabedora; mas as coisas
Não acontecem assim tão de repente
E com paciência e tolerância, chegarei
Lá, suplementarei-me e superarei-me
Nas vacilações; e procurarei dominar
O dom da competência, correrei atrás
Na tentativa de ser competente,
Competitivo, mas não gerador de
Lucros, ganhador de dinheiros; isto
Não, não nasci para estas provações
E não saberei corresponder à altura,
Para os que têm essas expectativas ao
Meu respeito; traçarei uns textos em
Linhas tortas, sinuosas, curvas, mas nunca
Andarei em linha reta como um poema.

Alameda das Princesas, 756, 112; BH, 0601002012.

Penso que todo aquele que pensa que, o
Mundo é um lugar de perdição, ou é
Profano, mundano, banal, habitado por
Demônios, capetas, satanases, espíritos
Iníquos, anjos caídos dos céus, deveriam
Abandonar o mundo; esses que olham
Tudo e veem lúciferes, demogorgons,
Asmodeuses, molochs em todos os
Lugares deveriam fazer suas mudanças
Para os céus imediatamente; para os que
Pensam que literatura é coisa dos diabos,
Cultura é algo do inferno, para energúmenos,
Arte é obra demoníaca, cinema é performance
Satanista, o melhor será retornarem às
Cavernas platônicas e acorrentarem-se
Em suas paredes subterrâneas; o mundo
É belo, á azul, é a nossa casa, o nosso
Lar doce lar, habitamos aqui e tratarmos
Os nossos semelhantes e seus comportamentos
De endemoninhados? quero viver é aqui,
Beber da água daqui, comer da comida
Que encontro aqui, respirar o ar, amar a
Mulher daqui e morrer aqui e aqui me
Acabar; não autorizo ninguém a dizer que o
Meu espírito irá ao purgatório, ou ao céu,
Ou ao inferno; só ao meu espírito e a mais
Ninguém caberá escolher a morada final;
Não pensais por mim, não peçais por mim,
Quem imagina que o mundo é inferno, é casa
De demônios, que mude do mundo para lugar
Bem longe; é este o meu pensamento a respeito
Desses profetas e suas profecias apocalípticas.

Estácio de Sá 1992 - Paulicéia Desvairada - 70 anos de Modernismo.


Eu vi (ai meu Deus eu vi)
O arco-íris clarear
O céu da minha fantasia
No brilho da Estácio a desfilar
A brisa espalha no ar
Um buquê de poesia
Na Paulicéia desvairada lá vou eu
Fazer poemas, e cantar minha emoção
Quero a arte pro meu povo
Ser feliz de novo
E flutuar nas asas da ilusão

Me dê, me dá, me dá, me dê
Onde você for eu vou com você

Lá vem o trem do caipira
Prum dia novo encontrar
Pela terra, corta o mar
Na passarela a girar
Músicos, atores, escultores
Pintores, poetas e compositores
Expoentes de um grande país
Mostraram ao mundo o perfil do brasileiro
Malandro, bonito, sagaz e maneiro
Que canta e dança, pinta e borda e é feliz
E assim transformaram os conceitos sociais
E resgataram pra nossa cultura
A beleza do folclore
E a riqueza do barroco nacional

Modernismo movimento cultural
No país da Tropicália
Tudo acaba em carnaval...

Alameda das Princesas, 756, 111; BH, 0401002012.

Quando o dia não acontece, não há
Jeito que o faça acontecer e hoje
Foi um dia que não aconteceu, dia
Perdido, que quando não é dia, não
Há nada que salve esse dia; e o que
Sinto, é que desde o dia em que
Nasci, dia nenhum para mim aconteceu;
E para disfarçar, me iludo, me engano
E finjo que aconteço; e acontece que
Não aconteço e de fingimento em
Fingimento, o tempo passa e só
Lamento o santo dia perdido nesta
Agonia; e ansioso desespero-me e
Nem posso fitar-me no espelho sem
Entrar em contradições; arranjo um
Adorno para o cabelo, uma postura
Para a atitude do corpo, borrifo um
Perfume e saio tal um alguém, que
Passa a impressão de que é alguém,
Feliz e realizado; e nada o dia me diz
E nada o dia existe em mim e nada o
Dia acontece em mim, mesmo com o
Sol a queimar-me a pele, ou a deixar
A minha ossada calcificada; mas, fito
As coisas e engraçado, as coisas
Existem e quando as coisas me fitam,
Mesmo sem eu falar nada, fazer um
Movimento, ou fingir de novo em
Acontecimento, as coisas percebem
Que não existo: a folha seca cria vida
Com o vento, todos procuram a sombra
Com o sol, bebem da água fresca e
Saciam-se e de lá não contemplam-me,
Sol, sombra, água fresca, coisas do dia.

Alameda das Princesas, 756, 110; BH, 0401002012.

Alguém já disse isto e vou repetir, o papel
Do escritor não é falar, é escrever; e me
Lembro quando Pablo Picasso disse: não
Falo tudo, mas pinto tudo, gostaria de
Recordar aqui; e minha mãe antigamente
Falava: quem fala demais dá bom-dia a
Cavalo e morde a língua; e peixe morre é
Pela boca, caveira quem te matou? foi a
Língua meu senhor; estes ditos de minha
Mãe levaram-me ao silêncio, a falar pouco,
Ou quase nada; e isto em qualquer lugar,
Desde os tempos de grupo, sempre fui
Calado, mudo e depois evolui para cego
E depois, surdo; e penso que o papel do
Escritor, além de pensar muito, não falar
Nada, é o de escrever tudo; é esta a
Marca registrada do escritor: recato de
Regato, riso de riacho, alardes de tardes
Modorrentas, silêncios de subterrâneos,
Largueza de horizonte e altitudes de
Firmamento; o escritor é o vento que
Traz a brisa e o sereno que chega com a
Noite e o orvalho do amanhecer do dia;
A obra pode até ser retumbante, bem
Barulhenta, com algazarra de legiões,
Epicentros de terremotos, de maremotos,
Erupções de vulcões e tormentas de
Tempestades; mas, o escritor é catacumba,
Calabouço, sepulcro e a obra pode ser
Trovão, raio, furacão, o escritor não, o
Escritor é bonança de fundo de mar, mudez
De raiz na terra fértil; então reitero o papel do
Escritor não é falar, é deixar que as obras falem.

Alameda das Princesas, 756, 109; BH, 0401002012.

Para tudo é necessário um aprendizado,
Uma cultura, um cuidado; para tudo é
Preciso uma supremacia, uma jactância,
Uma constância; senão, vejamos o que
Nos acontecerá no dia a dia, se não
Tivermos uma expectativa, se não
Vivermos um conhecimento, ao
Efetuarmos a mais insignificante das
Coisas em nossas vidas; do levantarmos
Ao deitarmos para dormir, ou qualquer
Que seja a ação, devemos exercê-la
Com sutileza, sabedoria, paciência e
Tolerância; e praticar o viver para
Adquirir experiência de vida e observo
Que falta a muitos a observação; e cada
Um pensa poder mais do que o outro e
Comete todo o tipo de aberração, e
Desrespeita as leis, esquece os deveres,
Ultrapassa os direitos; não pergunta,
Não informa e não recebe informação;
Com todas as deficiências que tenho,
As imperfeições e limitações, luto
Bravamente para adequar-me ao sistema,
Ao estado, à sociedade, de maneira que,
Possa atenuar o meu sofrimento, mas não
É fácil; lidar com bancos, SUS, STF, PF,
PIG, políticos, polícias, ônibus, bares,
Lanchonetes, estudantes, civis, religiosos,
Trânsito, motociclistas, bicicletas, transeuntes
É uma verdadeira prova de resistência
E sobrevivência, o que nos requer
Muita saliência sem contundência.

Clube da Esquina 2 - Album Completo

Alameda das Princesas, 756, 108; BH, 0201002012.

O universo é o meu útero, o meu casulo
De gestação; submerso nesta placenta,
Espero dia após dia a minha formação;
E o dia em que for nascer, que seja o
Dia da minha libertação; o universo é a
Minha barriga de mãe, está grávido de
Mim e quer dar-me a luz no infinito e
Já nascerei do tamanho desse colosso;
E em vez de envelhecer, rejuvenescerei,
Como acontece, por mais que o tempo
Passe, mais novo é o universo; e este
Fenômeno acontecerá comigo e serei
Um protótipo desta fenomenologia; o
Universo é o meu pai, a minha mãe, e a
Minha casa; e neste berço serei embalado,
Mimado, acalentado, não chorarei
Criança a querer de mamar; não pirraçarei
Luxento a levar palmadas e a minha
Escola, o meu colégio, a minha
Universidade, o universo será o meu
Professor; aprenderei o que aprendem
As estrelas com as galáxias, terei a
Força das gravidades dos astros e suas
Atrações e saberei de cor as leis
Universais; morarei nos aglomerados
De constelações e terei o mesmo brilho
Dos pulsares e dos quasares e das
Quanta que são; e daqui não levarei
Lembranças de angústia e de ilusão;
E de ansioso, só o do saber do
Conhecimento, que guardarei no  
Coração; mamãe terá orgulho de mim
E papai dirá que em fim honrei a família.

Alameda das Princesas, 756, 107; BH, 0201002012.

Trago o coração cheio de lamentações,
São os meus fracassos, o que poderia
Ter sido e não fui; tenho os ressentimentos
Comigo, mágoas e remorsos; e as
Derrotas, as guardo bem guardadas e
Não posso livrar-me delas; tenho nas
Minhas reservas mentais as frustrações e
Quanto mais perto chego do tempo, mais
Deprimido fico; e o tempo para longe vai
E não chego perto do meu tempo; meus
Tempos estacionaram-se em cima de mim,
A criarem limo em minhas costas, ferrugem
Na minha ossada e bolor nas minhas
Carnes; meu coração não bate com
Esperança, como bate o coração dum
Poeta; meu peito vazio, minhas mãos vazias,
Meus pés sem chão e meu chão é
Pantanoso, brejo, charque; as minhas
Facetas estão em pedras brutas e em
Nenhum cristal nobre foi lapidado o meu
Rosto rude; é duro o meu semblante e
Não tenho a alegria de todo trovador;
Tenho sim é o dom circunspecto do ser
Que é cheio de dor; não acordo do
Pesadelo em que entrei, nem quando
Estou acordado e toda noite tenho medo
De dormir; não sonho, não tive o direito
De sonhar e o que passa por mim, é
Transformado em reclamações, vãs
Argumentações de quem não tem
Argumento, ou a atitude que a vida exige.

Alameda das Princesas, 756, 106; BH, 0201002012.

Canto os ventos nos meus cantos, nos quatro
Cantos do mundo; canto as nuvens e canto
Os céus e do infinito e do universo canto
Os meus cantos em versos; e quem não sabe
Cantar, na certa não sabe dançar; canto e
Danço como os ventos nos pátios do
Firmamento; minha vida é cantar, antes que a
Morte venha me velar; canto os fundos dos
Oceanos e canto os fundos dos mares; nasci
Para cantar no ovário, no útero e na placenta
A nadar, canto em qualquer estado da matéria;
E nos elementos que me fazem vibrar, canto
Nos organismos, nas entranhas e nos tutanos;
Canto na medula e no sangue que faz vida nos
Compartimentos do coração; canto tudo que
Alegra-me e que entristece-me, desde quando
O dia nasce até quando entardece; canto a
Noite e a madrugada, a luz e as trevas, a
Penumbra e as sombras, os vultos e as
Silhuetas e as crianças a fazerem caretas; sou
Cantor do eterno, da posteridade e da
Eternidade, sou cantor da imortalidade, que as
Coisas precisam ter; canto as chuvas, as águas
E as estiagens, nem das areias dos desertos
Posso esquecer; canto os dunas e as
Montanhas e tudo o mais que posso ver,
Canto as almas e os espíritos, os deuses e os
Santos, os fantasmas e as assombrações;
Canto o que não posso cantar, as forças das
Imensidões, canto o abismo e as falésias, as
Pradarias e os outeiros, as veredas das
Encostas, canto os imensos paredões.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Alameda das Princesas, 756, 105; BH, 0201002012.

E para quem não é o quem e para
O que não é o que, a vida deflora
A morte e a morte estupra a vida;
E para o tempo que não é o tempo,
A hora sem minuto e o minuto sem
Segundo; e universo sem mundo,
Para o homem que não é homem e
Para a mulher que não é mulher; e
Não vale nenhum dos nomes, o
Nome que não é o nome; e para o
Ontem que era o hoje e para o
Hoje que era o ontem, o amanhã é
Para o que não é o amanhã; o livro é
Palpável papiro de folhas de fibras
E para o que não está escrito, é o
Escrito que não foi dito; quem
Quiser escreve e quem não quiser,
Não ler; a escrita não é literatura
E a literatura não é a escrita e o
Que é, não será escrito; só quando
O destino vier e consumar a
Reminiscência e alterar a cadência
E no contrapé do compasso da
Batida do coração, o pé de vento
Segurar com a mão; e alçar voo
Da imensidão, mirar a mais alta
Dimensão; a sorte é um invento,
Que quem inventa, pensa que
Pode inventar; e o azar é uma
Desculpa de quem não sabe
Inventar; e para aquele que não
É aquele e deixará um dia
Transparecer a outro dia, e uma
Noite engendrar a outra noite, com
Uma madrugada intrínseca no útero.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Alameda das Princesas, 756, 104; BH, 0201002012.

Vacilei demais, pisei na bola e abusei
Da regra três; sou reincidente, réu
Confesso e condenado; tive meu
Nome cosido nas bocas dos sapos e
A poesia que faço não vingou e o
Poema gorou; não joguei a bola
Esperada, perdi de goleada e não
Fui convocado para a seleção; meu
Futebol de tão pequenininho, não deu
Para o técnico me escalar nem entre
Os reservas; apelei para uma vaga de
Gandula e fui expulso de campo pelo
Juiz; e nas muitas vezes a bola era
Minha, o jogo de calções e camisas
Eram meus, só a vaga no time titular,
Era o que eu não tinha direito; tens
Problema de desenvolvimento de
Cérebro, de desenvolvimento de
Mente, atleta, não serves para jogador;
Vadiei por campos e campos,
Vagabundeei de gramados em
Gramados e iletrado nas artes e
Na difícil arte de jogar fácil, não fiz
Gol de letra, nem de palavra, nem de
Placa, ou de bicicleta; e o gol mais
Feito, que é o gol de mão e que todo
Mundo sabe fazer, perdi; não marquei
E encerrei a carreira, sem diversão e  .
Sem lazer, restou-me recorrer à ficção
De viver e à realidade de morrer na
Mentira de não ser; magoei a torcida
E saí do clube brigado com a diretoria,
Com a porteira fechada, as chuteiras
Penduradas, não posso mais voltar
Para jogar, é estender a fachada em
Outra estrebaria.

Alameda das Princesas, 756, 103; BH, 0201002012.

Poeta, desce desta arca, és um animal
Que não tem par e quando o mundo
Acabar em água, serás o único que
Não se reproduzirá; os demais animais
Desta arca, são representados em
Macho e fêmea e entraste aqui sozinho;
Nada até encontrares um monte bem
Alto, um Ararat, um Pirineus, um Sinai,
Agarres no topo dum desses montes, o
Mais alto, lá aonde a água não vai; nesta
Arca não podes ficar, poeta sempre
Contraria a Deus e Deus pode querer
Afundar-nos; poeta, se não sabes nadar,
Agarra-te a um bom pedaço de madeira
E comeces a boiar; os outros animais
Ameaçam a querer amotinarem-se e motim
Na embarcação, é o que a tripulação
Precisa evitar; terei que jogar-te fora, no
Meio das águas, serão quarenta dias e
Quarenta noites de dilúvio; nada posso
Fazer e por causa dum animal maldito,
Não posso pôr todo o projeto a perder;
Se a barca afundar, não restará ninguém
Para povoar novamente a terra; se inda
Fosses o Jonas, poderias ficar no ventre
Dalgum peixe grande, mas, nem Jonas
Tu és, então, poeta, fora já desta nave;
Espera aí, vi ali uma musa, é uma das
Tuas filhas, merecedora duma poesia,
Pega lá uma pipa de vinho, um bom
Queijo nobre e um naco de assado e
Vamos cá fazer uma bela duma orgia.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Alameda das Princesas, 756, 102; BH, 0201002012.

Negro é sangue de meu sangue e
Sou sangue de negro; meu sumo,
Meu suco, meu muco são das
Origens negras; meus espermas,
Meus óvulos são de negros e dos
Negros são meus; meu Deus é
Negro, minha religião é negra,
Meu mundo é todo o mundo negro;
As danças, os ritos, os cultos e os
Rituais, as macumbas, os sambas,
As umbandas, os meus santos são
Negrinhos do Pastoreio, Beneditos
E Beneditas; minha igreja é a igreja
Negra das tribos africanas, das
Tabas indígenas, das aldeias ciganas;
Adoro ao Sol, adoro a Lua, adoro
A Força da Gravidade, mas, não
Sei quem os criou; adoro aos Ventos,
As Tempestades, os Raios e Trovões,
Maremotos, Terremotos e Tsunamis;
Adoro todas as forças que mudam o
Universo de lugar, fazem parar o
Tempo e fazem o sol esfriar; adoro
As estrelas, que a milhares de
Quilômetros de distância, são capazes
De me encantar; adoro o infinito e não
O deixo de endeusar na imortalidade
Das letras, na eternidade das palavras
E na posteridade das coisas que não
Posso deixar de adorar; não posso
Adorar e nem seguir nada criado
Pelos homens, nem deuses e nem
Religiões; porém, sigo aos meus livres
Pensamentos, sem querer convencer
De nada a ninguém; penso com a
Minha própria cabeça, certo ou errado
E da maneira que nasci, sozinho e
Sozinho vou pro buraco.

Alameda das Princesas, 756, 101; BH, 0300902012.

Alguma coisa há, que não sei explicar
E que nos faz passar no meio das
Feras e elas não nos atacar; alguma
Coisa há, além do longe, nos rostos
Presos nas paredes, nos muros e nas
Folhagens; alguma coisa há, não sei
Se é Deus, não sei se é o acaso, se é
A sorte, que nos faz passar entre os
Lobos, ou não estão famintos, ou
Alguma coisa há; somos feitos de
Terra, levantamos do chão e os
Elementos entram nas composições
Dos nossos organismos; e as matérias
Nos formam com as suas moléculas,
Seus átomos e suas partículas; os
Seres nos habitam e habitamos os
Seres; se num dia somos homens e
Num outro não somos mais, alguma
Coisa há por trás das coisas; ouvimos
Vozes, ouvimos nos chamar e naquelas
Silhuetas, naqueles simulacros que
Habitam a penumbra, alguma coisa há
Nas sombras; um aspecto, um vulto,
Um perfil, não sei explicar; mamãe me
Falou que é Deus, minha avó que era
Assombração, meu avô Lampião;
Porém, alguma coisa há, lá onde o
Tempo nasceu, uma distância que não
Se pode alcançar, calcular; dizem que
Leva-se uma eternidade para se chegar
Lá; no dia em que comecei a ir, no dia
Em que nasci e inda não cheguei, nem
Sei se chegarei, não sei o que há; mas,
Alguma coisa há, verei no dia que terminar.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Alameda das Princesas, 756, 100; BH, 0300902012.

Minhas letras são sem pés, mancas,
Capengas, aleijadas e minhas palavras
São sem cabeça, caducas, doidas;
Meus atos são loucos, insanos e quem
Observa-me, vê que não tenho atitude
Normal, comportamento;  meus
Argumentos parecem zunidos de asnos,
De jumentos e meus fatos são boatos;
E a mentira é o meu pão de cada dia,
Qualquer assunto me assusta e minha
Sombra não me ouve e nem me ajuda;
Apesar de maior e melhor do que eu,
Não colabora comigo; a trago cozida
Às solas dos meus pés e quando
Penso em escrever algo, puxa a minha
Mão como um freio de mão; e fico
Retido, detido, detestável e nada
Amigável; não levo nada ao pé da
Letra, não lavo nada com as minhas
Lágrimas; o dia em que descobrir Deus
Por mim mesmo, vou dizer assim:
Descobri Deus por mim mesmo, sem
Jesuíta, sem padre, sem pastor, sem
Cabeça de ninguém, um Deus por
Minha cabaça; não sigo nenhuma
Palavra, nem as que coloco no papel
E faço cada papelão de envergonhar a
Nação; não aprendo nada nem com
Ensinamento, cabeça de casco duro de
Roer, totalmente dominada por injúria e
Difamação, ignorância e estupidez,
Bizarrice e mesquinhez; não faço nada
Para acabar com a maldade íntima
E apelo à ruindade quando quero pensar;
Fazer o quê? nasci assim, assim vou morrer.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Alameda das Princesas, 756, 99; BH, 0300902012.

A leitura no país deveria ser encarada
Como política de estado; o governo
Deveria incentivar a criação de
Bibliotecas caseiras com os principais
Clássicos universais, estrangeiros e
Nacionais; e deveria facilitar de
Todas as maneiras e sem burocracia
As publicações de livros e premiar
Ledores e escritores; com o superficialismo
Em que vive a nossa sociedade, sem
Ideologia, sem cidadania, sem soberania,
Sem educação, sem cultura, sem leitura,
Sem escrita, totalmente alienada pela
Mídia fácil, é praticamente impossível
Disseminar o vício da leitura; e morto
O hábito da escrita, já que não se
Escreve mais no país, com as raríssimas
Exceções conhecidas; o governo
Precisa intervir com urgência neste grave
Problema social e fazer como uma
Obrigação, um dever, a facilitação do
Povo a ler; sem leitura não há perdão,
Não há salvação e ficamos enfadados
A levar a vida no tédio, no superficial;
Sem escrita, perdemos a fala, os atos,
A atividade, os princípios, a ética, o
Raciocínio, a razão; é necessário,
Urgentemente, a promoção da escrita à
Mão, com valorização dos melhores
Manuscritos, inclusive com exposição
Em praça pública  das melhores
Caligrafias; povo sem escrita, povo
Sem leitura, povo sem identidade,
Povo sem futuro; e só nós mesmos
Somos os únicos culpados, somos
As nossas próprias vítimas.

Beth Carvalho - A chuva cai [1980]

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Alameda das Princesas, 756, 98; BH, 0300902012.

Se ler é uma tarefa difícil e poucos
Gostam de ser ledores, escrever mais
Complicado é; escrever é tão raro,
Que só quem tem enamoramento
Com as letras e enfeitiçamento com
As palavras, consegue criar uma
Frase desintricada, ou um pensamento
Com elucubração; e cada um tem
Dentro de si um escritor enrustido,
Mas não tem um leitor; tenho comigo
Um argumento, que se houvesse mais
Leitores, teríamos menos criminosos;
Mas o próprio mercado, a sociedade,
O estado, as igrejas, nos afastam dos
Livros; e quem não lê, meu irmão, mal
Fala, mal ouve, mal vê, esta é antiga;
Fico triste ao chegar à casa dalgum
Amigo, que me mostra o carro novo,
A moto reluzente, o som, a geladeira,
O freezer, o computador de última
Geração, o celular, tudo, mas não
Mostra uma estante com um único livro;
Não mostra um quadro na parede e
Quando usa o computador não acessa
Um sítio de leitura; meu sonho maior é
Escrever bem, não nego e muito; sei
Que não encontrarei leitor para o que
Escrevo, não importa e sempre que
Puder, incentivarei a escrita através da
Minha escrita; e incentivarei qualquer
Leitura que embora não seja de minha
Autoria; e escrever melhor não há e
Espero encontrar prazer igual um dia; e
Ler o que se escreve, se for uma boa e
Cativante leitura, só cada um pode
Sentir consigo mesmo; é intimista,
Solitária, a leitura deveria ser a primeira
Lei do universo, teríamos menos prisões.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Alameda das Princesas, 756, 97; BH, 0280902012.

Hoje estou impossível, precisava passar esta
Dor de cabeça, mas percebo que não é
Minha; está dentro da minha cabeça, mas
Não é uma dor minha, é uma dor que talvez
Sócrates tenha sentido, ou Platão, ou até
Mesmo Saramago, ou o nosso Machado de
Assis; algum escrito de mestre, de um destes
Mestres ocupou a minha cabeça com esta
Dor; não vou dizer que seja o Cervantes, ou
O Montaigne, ou o Nietzsche, que sofreram
Muito de dor de cabeça, dizem; este martelar
Nas têmporas é de algum homem da idade
Da pedra lascada a bater nas paredes das
Cavernas do meu crânio; é a pré-história
Todinha que está aqui dentro a causar-me
Dor de cabeça; é o chumbo das tintas de
Picasso, Dali,  Van Gogh, ou o absinto; é
O choro de Dali por Gala, ou de Bishop por
Lota; esses espíritos, essas almas, esses
Demônios forçam-me a dar vidas aos seus
Pensamentos, esses seres inda querem ser em
Mim; e os sirvo e servem de mim, os filhos de
Pessoa por exemplo enchem meu saco, mordem
Meu cérebro e não sossegam nem quando
Acaba o desassossego, com a chegada de
Manoel de Barros em materialização; falei que
Estava impossível, mas não, eles que estão
Impossíveis e fantasmas arrastam-me nas
Correntes pelos corredores dos hospícios
De minha mente.

Dona Ivone Lara - Tendência

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Alameda das Princesas, 756, 96; BH, 0280902012.

Rapazes, a melhor coisa que acontece comigo,
Companheiros, é quando descubro um veio,
Um filão, camaradas, numa mina de letras e
Palavras, amigos, mesmo que sejam usadas e
Repetidas infinitas vezes; o que me faz
Realmente me sentir bem, pândegos, é
Desentocar de dentro do interno, pensamentos
Empedrados, ideias adormecidas, lembranças
Esquecidas, recordações nostálgicas apagadas;
Rapazes, não tendes percepções, de como me
Sinto feliz ao chegar em mim a intuição, não há
Preço que pague um momento deste; é    
Inusitado, é um prazer indescritível preencher
Um papiro, um pergaminho a ser enegrecido
Pelo tempo; um manuscrito a ser perdido, uma
Lápide duma pedra, uma placa de mármore,
Ou uma face de qualquer outro mineral, ou
Mistério de minério; como poderia dizer,
Camaradas, o que Platão sentiu ao dar luz ao
Mito da Caverna? se eu que o leio e o tento
Pensar e ao interpretar, fico em êxtase,
Imaginais o cara que cria aquilo; e depois
Serenou, esperou, voltou a si, balançou a
Cabeça, meneou o semblante, vasculhou o
Firmamento e ao sentir o tamanho, a bitela
Que era a obra; companheiros, se por acaso
Chorar, não zombais de mim, queirais perdoar
Pela fraqueza do fracasso que sou; se
Conhecerdes o que falo, talvez não choreis,
Sois fortes, sois nobres, sois durões; eu não,
Sou menino ainda, sou um daqueles prisioneiros
E talvez tenha até ajudado os outros a matar o
Que se libertou e seria o nosso libertador;
Rapazes, companheiros, amigos, camaradas,
Sou assim mesmo, meio emotivo, não titubeeis,
Pagueis umas pingas para mim e está tudo certo.

Alameda das Princesas, 756, 95; BH, 0280902012.

Não fazer um pingo de questão de diminuir
Por conta própria a grande estupidez, não
Tomar a mínima atitude de atenuar a vil
Ignorância; não mover o mínimo neurônio
Para aplacar a imbecilidade, forma-se,
Assim, o perfeito idiota, o que corre da
Lucidez, esconde-se da razão e não
Demonstra uma noção a respeito das
Coisas e dos princípios das causas e
Dos efeitos; e aí, o que traz na alma é
Angústia, no espírito desespero, no ser
Ansiedade; é muito fácil querer acabar
Com o comportamento bizarro, com o ato
Mórbido; não pode é deixar virar doença,
Pois para viver, para sarar, ficar são, sarado,
Depois que virou doença crônica, é mais
Difícil; e o que deprime é não ser consciente,
Não agir com consciência, não desejar ser
Conscientizado; penso que, o que põe para baixo,
É acordar e não pensar na inteligência, não
Pensar em começar o dia na sabedoria, na
Paciência e na tolerância; o que abre portas
É a cultura, a educação, o saber, o fazer toda
E qualquer questão de tomar conhecimento,
Absorver um teor de conhecimento e
Preservar um dom da fala, da leitura, do
Pensar, do escrever, do viver; e querer
Realmente ser feliz, é começar a pensar assim:
Por onde posso iniciar o processo de extinção
Da minha ignorância pessoal e intransferível?

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Alameda das Princesas, 756, 94; BH, 0280902012.

O papel de quem tem uma pena na mão,
É passar para as linhas do papel, as
Linhas que tem dentro de si; as linhas
Que temos do nosso lado de fora, já
Foram exploradas, são conhecidas,
Calculadas e nominadas; e as linhas que
Precisam ser desvendadas, são as que
Estão debaixo da nossa pele; as linhas
Das nossas estrias internas, as que se
Escondem dentro dos nossos vasos
Sanguíneos, no interno dos nossos
Ossos; e cada um tem dentro de si um
Tesouro de letras e palavras, de
Fórmulas e formas, de signos e símbolos,
De conjecturas e indagações; e cada um
Tem um baú, uma arca, um sótão, um
Porão, uma gruta, uma caverna, uma
Loca, um abismo e uma elevação, com
Pérolas, joias, ouro, prata, diamante,
Incontáveis riquezas desconhecidas; são
Metais nobres raros, são aços de
Composições especiais, são minerais
Essenciais, que tornam um simples papel
Branco, vazio, oco, em obra-prima; são
Minas de veios inesgotáveis, são nascentes
De rios de águas doces, potáveis; são
Pingadoras tão constantes, que formam
Cataratas, transbordam os mares e os
Oceanos: oceanos de pedras preciosas; e
Este papel o desempenho a rigor, com toda
A minha nobreza de ator de linha de escola
Clássica, de liceu erudito, de academia de
Protagonistas e personagens que não são
Coadjuvantes; meu avô pegava folhas de
Papel e as transformava em caretas
Multicores, coloridas carrancas, como não sei
Fazer o mesmo, traço letras e palavras a ermo.

Llewellyn Medina, O Milagre, II, Coda.


                                   O milagre

                                   II
                                   Coda

A palavra fez nascer vilas inteiras
magicamente uma amendoeira
tornou-se ela mesma um universo tão insondável
quanto o  olhar distante daquele
acaba de divisar as bordas de Hades
mãe generosa de suas entranhas
veio o alimento
que anestesiou aquela geração
canções de protesto – a palavra me ensinou
orações mecanicamente repetidas – a palavra me ensinou
verdades incontestáveis
o operário na cadeia
o operário na cadeia de produção
“fiat lux!” a sabedoria
a máquina de cartão de crédito – senha “1984”
hiroshima nagasaki fila do INSS
foi assim
foi assim que a palavra quase morreu
vieram médicos paramédicos SAMU
padres bispos filósofos vieram
vieram deuses
veio  deus
veio a intolerância
a palavra inventou a palavra solidão
moto contínuo  Pedra de Roseta
começa e finda em si mesma
diz o “You Tube”
a palavra encerra
o fim de todas as coisas


sustentar a palavra
dói tanto quanto o sol de verão
quando entranha nos ossos
mítico/misterioso ofício
como o batismo da criança
                          da cria
um dia andou sobre suas próprias pernas
duendes saltitantes orfeus/eurídices
no oriente falavam-se outras palavras
não era o tempo de babel
hoje é o tempo de babel
os homens sabiam-se uns dos outros
os homens não sabem uns dos outros
olham com espanto o caleidoscópio
mistério da vida
dizem que a palavra voou
há testemunhas desse momento
rumor do vento monção
silenciosas prisões
grilhões quartos escuros
dias sombrios
morre a palavra
outro ourives volta a ouvir seu silêncio
novas chamas saltam
das fricção das pedras.