domingo, 25 de janeiro de 2015

Como estou bem próximo da morte e vivo; BH, 0901202012.

Como estou bem próximo da morte e vivo
A pensar nas coisas que vão me matar; e
Como a morte é precoce, não terei a sorte
De morrer precocemente, aos cento e
Quatro anos, como morreu Oscar Niemyer;
E como este tempo é tão corrido, rotatório
Em demasia e todo dia quando saio de
Casa, saio com a impressão de que é o
Meu último dia; e nem cheguei e nem
Chegarei e nem chego a viver; quem vive
É quem labuta, ganha dinheiro, trabalha;
E finjo, sou um fingidor, vivo de fingimento;
E o maior absurdo é que ninguém nota
Que finjo, ou fingem não notar; será a vida
Hoje um mero fingimento? será que só 
Passo a impressão de ser aquilo que não
Sou? tenho que rir na cara de quem pensa
Que sou normal; tenho que gargalhar de
Boca bem aberta e dentes à mostra, dos
Idiotas que pensam que não sou idiota; e
Tratam-me com deferências, falam que
Sou referências, coitados, como que são
Enganados por mim; e quando entro no
Banco, na igreja, no bar, com aquele ar
De superioridade, de decidido, de correntista,
De membro dizimista, mas é só no bar mesmo
É que existo; o bar é o único lugar onde o
Mortal, depois de unas e outras, se sente
Um poderoso e estúpido imortal.

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