domingo, 24 de fevereiro de 2013

MIKIO, 58; BH, 0230202013.

Mandaste umas letras pesadas para
Mim e não havia necessidade;
E dessas letras, tão pesadas, formaste
Palavras duras a concretizarem os
Meus ouvidos; e deste-me um soco na
Boca do estômago, que me fez
Vomitar a tua comida; e deste-me um
Murro em cheio no meu rosto, que
Deixou-em tão desfigurado, que
Perdi a semelhança contigo; e não
Ficaste satisfeita e deste-me um chute
Certeiro no saco, que rastejei réptil,
Enrosquei-me na poeira e feri-me
Nos paralelepípedos da rua; penso
Que agora estás vingada, recebida,
Paga, ou inda queres mais? ou não
Ficaste satisfeita? estás muito necessitada
Disso? não tens paciência e nem o
Perdão, do qual tanto enches a boca
Em tua oração? quando orares, não
Uses essas letras tão pesadas, sombrias;
Quando rezares, não pronuncies essas
Palavras tão duras, punhais afiados,
Facas amoladas; esses facões da tua
Língua são capazes de cortar ao meio
A linha do horizonte e por ali pode
Escapar os sonhos e as esperanças; e
Não consigo me ver livre, libertado
Deste peso nas minhas costas; e faz de
Mim um corcunda, mas não é o
Defeito congênito, é a dureza dessas
Letras, é o peso dessas palavras
Malditas, ditas de boca tão "santa",
Pronunciadas por alma tão "cristã".

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Rubem Braga, Visita a Jean-Paul Sartre.


Os estudantes do velho Centro Acadêmico Cândido de Oliveira, do Rio, querem levar uma peça de Sartre, Morts sans sépulture, sem pagar os direitos. O pedido vem às mãos de Roberto Assumpção, secretário da embaixada, que lida com as coisas culturais. Ele escreve a Sartre e recebe logo a resposta, marcando rendez-vous: meio-dia e meia, no apartamento do escritor. Vou também, como penetra.
Paulo Silveira me contou que o velho Anatole France dizia isso: “Se Deus acabasse com o mundo, mas deixasse a rua Bonaparte, ele ainda se conformava.” É na verdade muito sábia e gentil essa pequena rua que nasce na beira do Sena e vem atravessar o boulevard junto à igreja de Saint-German-des-Prés, para morrer logo depois de Saint-Sulpice, junto às árvores do Luxemburgo. Ainda hoje é bem doce bobear pela sua calçada estreita, entre pequenas livrarias e casas de antiguidade; e o miúdo comércio vulgar que ali se entremeia apenas lhe dá mais graça e vida: não é raro ver a moça, que desceu de sua mansarda para comprar um longo pão, se deter, sonhadora, diante de uma gravura ou de um bibelô antigo.
Sartre mora na esquina da rue de l’Abbaye, num quarto andar aonde se ascende por uma escada meio escura, em caracol. Esse solteirão de 45 anos vive com sua mãe, e tem um apartamento bem-arranjado. Eu melhoraria de estilo se escrevesse, como ele, nesse pequeno escritório cheio de livros, com duas janelas dando para o largo: à esquerda, a torre da igreja, à direita, o Deux Magots. Quem entra na rua aqui encontra, na segunda casa depois da sua, o hotel em que Auguste Comte concebeu seus três Estados; um pouco mais adiante, a casa onde nasceu Manet.
À primeira vista, o dono da casa lembra Portinari; um Portinari que fosse mais forte e mais rústico. Esse parisiense que deriva da Borgonha e da Alsácia tem alguma coisa do camponês do Norte. É vermelho, tem a pele grosseira e os cabelos cor de palha suja. Os pedaços de costeleta que passam sob os ganchos dos óculos já embranqueceram. É impossível saber se está falando com Roberto Assumpção ou comigo, pois cada olho verde fixa um de nós, formando um ângulo de 45 graus; mas parece que o esquerdo, que fixa o diplomata, é que está com a razão.
É um homem baixo, retaco, e certamente feio. Mas quando começa a mover-se e a falar a gente compreende o seu poder de atração. Está vestido com um grosso terno de casimira cinza-escura, com colete e jaquetão, que certamente lhe permite sair sem mais agasalhos; reparo em sua gravata vermelha e em seu bom e sólido sapato de couro de porco. Simpatizo com a sua larga mesa de trabalho. É um grande e desordenado fumante; ali estão três ou quatro maços de cigarros franceses, de duas marcas diferentes, mas ambos fortes, e ainda dois pacotes de caporal para cachimbo, e também essa grande caixa de fósforos, de mil palitos, usada pelas cozinheiras, e muito mais eficiente que qualquer isqueiro.
Estava escrevendo quando nos recebeu; explica-me que está acabando seu estudo sobre Jean Genet. Tem em sua frente uma edição de luxo de Notre-Dame-des-Fleurs. Automaticamente reparo nos dois livros que tem sobre a mesa: um é de Platão, outro de Mallarmé.
É claro que tem prazer em que os estudantes levem sua peça; faz questão de escrever a eles uma carta, dando licença e agradecendo. Roberto lhe fala sobre o interesse que sua obra desperta no Brasil. Já tem notícia disso, e teve um convite de São Paulo para visitar nosso país. “Este ano foi impossível, mas vou dar um jeito de ir no ano que vem.” Conta que o adido cultural francês em São Paulo lhe prometeu mandar a tradução do ensaio de um escritor brasileiro para publicar na Les Temps Modernes, a sua revista. Não se lembra do nome do escritor.
Faz perguntas sobre nosso país. Diz que tem boa impressão dele pelo que lhe contaram Camus, Barrault e outros amigos. Um povo que tem caráter próprio, e muita efervescência intelectual. Não tem o ar de dizer gentilezas e parece exprimir uma curiosidade sincera. Digo-lhe que, na linguagem do Rio, “existencialismo” tem um sentido não muito austero e lembra mais Chiquita Bacana do que Søren Kierkegaard. Ri: não é apenas no Brasil, é no mundo; isso começou aqui no quartier e — nota — os adversários fingem levar a sério essa legenda de “imoralismo” da doutrina.
— Outro dia, uns rapazes de Lyon resolveram formar um círculo para estudar e debater o existencialismo. Recebi uma carta de um deles. Conta que foi procurado por umas pequenas que queriam saber quando é que iam começar as sessões de jazz…
— É verdade que está escrevendo um Tratado de Moral?
Sim, tem um monte de notas para esse Tratado, mas só aparecerá dentro de alguns anos. É um trabalho imenso; e ele, no momento, além daquele longo estudo sobre Genet, acaba um romance do ciclo Les Chemins de la liberté e uma nova peça de teatro. O Tratado — calcula — deverá dar umas seiscentas páginas… Olho, sem querer, aquelas folhas que estão sobre a mesa, e que ele enchia com sua letra clara e harmoniosa, e (pobre escritor de coisinhas) não posso deixar de ter admiração por esse trabalhador que fala com tranquilidade de alguns milhares dessas folhas que pretende encher. Pergunto se Genet ainda continua ladrão.
— Ah, não, ele se aburguesa… Agora está com mania de Mallarmé, parece querer imitá-lo. Confessou-me que quando era malandro e ladrão profissional sua vida era um desespero; agora é um aborrecimento.
— Mas não rouba mais nada, nem para se lembrar daquele tempo?
Sartre ri:
— Bem, ele agora tenta lograr os editores. Vende o mesmo livro a duas casas diferentes, promete a uma terceira, saca adiantadamente…
E começa a contar surpreendentes coisas sobre os amores de Genet. Fala sem maldade, com a ternura viril de um pai falando de um filho traquinas; fica de pé, ri, fuma um de meus Gauloises.
— Outro dia vi Genet em Cannes. Ele mora com a família de um amigo pescador, e gosta de passear com as crianças. Foi apresentado a várias estrelas de cinema e teatro no Cariton e fez questão absoluta de que todas elas pegassem ao colo um dos meninos. Valia a pena ver a cara daquela gente esnobe.
Volta a conversar e combinar coisas com Roberto Assumpção. Devemos ir embora, mas, a essa altura, sinto que já posso abrir o jogo. Confesso-lhe que além de minhas altas funções diplomáticas (Roberto me apresentou como se fosse alguém da embaixada) escrevo alguma coisa sobre literatura francesa para o Brasil. Sei que ele não gosta de dar entrevistas, mas se pudesse…
— Procure-me quando quiser!
Não deixarei de fazê-lo.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Álvaro de Campos/Fernando Pessoa, O sono que desce de mim; BH, 0200202013.

O sono que desce sobre mim,
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desce individualmente sobre mim -
Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono.
Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
É o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.
O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos.
O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos sossego,
A rendição é ao menos o fim do esforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.
Há um som de abrir uma janela,
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente,
Olho pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém.
De quem?
Pergunta a minha indiferença.
E tudo isso é sono.
Meu Deus, tanto sono!...

                                                                                                 28/8/1935

Tomás Antônio Gonzaga, Lira XXIX; BH, 0200202013.

Tu, formosa Marília, já fizeste
Com teus olhos ditosas as campinas
Do turvo ribeirão em que nasceste:
Deixa, Marília, agora
As já lavadas setas:
Anda afoita a romper os grossos mares,
Anda encher de alegria estranhas terras;
Ah! que por ti suspiram
Os meus saudosos lares.

Não corres como Safo sem ventura,
Em seguimento de um cruel ingrato,
Que não cede aos encantos da ternura:
Segues um fino amante,
Que a perder-te morria,
Quebra os grilhões do sangue, e vem, ó Bela;
Tu já foste no Sul a minha guia,
Ah! deves ser no Norte
Também a minha estrela.

Verás ao Deus Netuno sossegado,
Aplainar c'o tridente as crespas ondas;
Ficar como dormindo o mar salgado;
Verás, verás, d'alheta
Soprar o brando vento;
Mover-se o leme, desrinzar-se o linho;
Seguirem os delfins o movimento,
Que leva na carreira
O empavesado pinho.

Verás como o Leão na proa arfando
Converte em branca espuma as negras ondas,
Que atalha, e corta com murmúrio brando;
Verás, verás, Marília,
Da janela dourada,
Que uma comprida estrada representa
A linfa cristalina, que pisada
Pela popa que foge,
Em borbotões rebenta.

Bruto peixe verás de corpo imenso
Tornar ao torno anzol, depois de o terem
Pela rasgada boca ao ar suspenso;
Os pequenos peixinhos
Quais pássaros voarem;
De toninhas verás o mar coalhado,
Ora surgirem, ora mergulharem,
Fingindo ao longe as ondas,
Que forma o vento irado.

Verás que o grande monstro se apresenta,
Um repuxo formado com as águas,
Que o mar espalha da robusta venta;
Verás, enfim, Marília,
As nuvens levantadas,
Umas de cor azul, ou mais escuras,
Outras de cor-de-rosa, ou prateadas,
Fazerem no horizonte
Mil diversas figuras.

Mal chegarem à foz do claro Tejo,
Apenas ele vir o teu semblante,
Dará no leme do baixel um beijo.
Eu lhe direi vaidoso:
"Não trago, não, comigo,
"Nem pedras de valor, nem montes d'ouro;
"Roubei as áureas minas, e consigo
"Trazer para os teus cofres
"Este maior tesouro".

Nietzsche, Entre as coisas que são; BH, 0200202013.

Entre as coisas que são talvez mais difíceis de compreender para um
Homem nobre está a vaidade: sentir-se-á tentado a negar sua existência
Mesmo onde, para outra espécie de homens, salta aos olhos.
O problema consiste em se representar seres que procuram fazer surgir
Boas opiniões em benefício dele, opiniões que eles realmente não têm -
Que ele portanto, não as "merece" - e que acabam por acreditar nelas.
Isso lhe parece, de uma parte, de tão mau gosto, tão irreverente para
Consigo mesmo, por outra parte, tão barroco e tão louco, que consideraria
De bom grado a vaidade como uma coisa excepcional e que põe em dúvida
Na maioria dos casos em que dela se fala.
Dirá, por exemplo:
"Posso me enganar sobre meu valor, mas posso pretender pelo menos que
Meu valor seja reconhecido pelos outros, como estimo - mas isso não é
Vaidade (poderá ser "presunção", ou na maioria dos casos aquilo que se
Chama "humildade" e também "modéstia")."
 - Ou dirá ainda:
"Posso, por diversas razões, me alegrar com o bom conceito que os outros
Têm de mim, talvez porque os respeito e os amo; e me alegro com todas as
Suas alegrias, talvez também porque sua opinião sublinha e reforça em mim
A fé em minha própria boa opinião, talvez porque o bom conceito de outrem,
Mesmo no caso em que não o compartilho, é no entanto útil para mim ou me
Promete tê-lo - mas rudo isso não é vaidade."
É somente forçando que o homem nobre acaba por compreender, com o apoio
Da história, que desde tempos imemoriais, em todas as classes populares
Dependentes, o homem comum não era senão aquele que passava por ser: -
Como não estava habituado a criar valores por si mesmo, não atribuía
Outro valor senão aquele que lhe emprestavam seus senhores (criar valores
É por excelência direito dos senhores).
Sem dúvida, é preciso atribuir a um prodigioso atavismo o fato de que o
Homem comum hoje ainda, espera que se tenha uma opinião dele, para se
Submeter a ela em seguida de modo instintivo; e se submete não só a uma
"Boa" opinião, mas também a uma opinião má e injusta (pense-se, por
Exemplo, na maior parte das apreciações de si que as mulheres piedosas
Aprendem de seu confessor e que em geral um cristão crente aprende de
Sua Igreja).
Hoje praticamente, em função da lenta marcha para frente da ordem democrática
(E de sua causa, a mistura de raças dominantes com escravas), a inclinação,
Outrora sólida e rara, de aplicar a si mesmo um valor próprio e de "pensar bem"
Sobre si mesmo, é cada vez mais encorajado e se desenvolve sempre mais; mas
Essa inclinação tem sempre contra ela uma tendência mais antiga, mais ampla,
Mais essencialmente vital e, no fenômeno da "vaidade", essa tendência  mais
Antiga vai subjugar a mais recente.
O vaidoso se alegra com todo bom conceito que se tem dele (independentemente
Do ponto de vista da utilidade dessa opinião, de seu caráter verdadeiro ou
Falso), como, por outro lado, sofre também com toda má opinião, pois se submete
A duas opiniões, se sente submetido por causa desse instinto de submissão de
Origem antiga que tem em si.
 - É o "escravo" no sangue dos vaidosos, um resíduo da astúcia do escravo,
E quantos elementos do "escravo" ainda subsistem na mulher, por exemplo! -
Que procuram desviar o bom conceito a seu respeito.
É ainda o escravo que se põe logo a se prosternar diante dessa opinião, como se
Não fosse ele que a tivesse provocado.
 - E repito, a vaidade é um atavismo.

Babilak Bah, Pássaro; BH, 0200202013.

Pássaro Procura o Portal de Pasargada
Passo do Passado não Promove Pássaro
Plastificado no Passado Passadas
Premoldadas
Preso a Passo do Passado Poente
Publicação de Portas - Paisagens
Perpetuam Palavras do Pássaro
Passarinhos Passarão Passarás
Presente na Percussão do Pré Poema

Tito Júlio Fedro, Cães famélicos; BH, 0200202013.

Um projeto insensato não só peca pela ineficiência
Como inda conduz à perdição.
Uns cães avistaram um couro boiando sobre o rio.
Para que pudessem retirá-lo, de modo mais fácil,
Para fim de alimento, começaram a beber
(Toda a água), mas morreram arrebentados
Antes de alcançar o que apeteciam.

Rémy Belleau, Um buquê oferecido... BH, 0200202013.

Este buquê de tenras flores
Vos são, meu bem, fiéis penhores
De que esta vida é temporã
Como este ramo e que o prazer,
Deveis colher, deveis colher,
Sem o deixar para amanhã.

Sem esperar que o fim da vida,
De frio torpor adormecida,
O nosso corpo assaz degrade,
Passai em cálidos momentos
E mui gentis encantamentos
O que sobrou da mocidade.

Porquanto a Parca, sem doçura,
Pra nos deitar na sepultura,
Já nos lançou a sua sorte;
Acreditai, amor, em mim,
Vivamos bem até o fim:
Nada se sente após a morte.

Nossa feição se desfigura,
Vai-se pulmão, sangue, nervura,
Fígado, pulso e coração:
Fica somente sombra, espuma,
Nenhum sentir, veia nenhuma,
Presa dos vermes e do chão.

Sabeis do padre o que ele diz,
Quando nos traça na cerviz
A santa cruz com devoção:
Nos faz ouvir que somos só
Corpos que vêm do mesmo pó
E ao mesmo pó se voltarão.

Mário Quintana, Noturno; BH, 0200202013.

Não sei por que, sorri de repente
E um gosto de estrela me veio na boca...
Eu penso em ti, em Deus, nas voltas inumeráveis
Que fazem os caminhos...
Em Deus, em ti, de novo...
Tua ternura tão simples...
Eu queria, não sei por que, sair correndo descalço
Pela noite imensa
E o vento da madrugada me encontraria morto
Junto de um arroio,
Com os cabelos e a fronte mergulhados na água límpida...
Mergulhados na água límpida, cantante e fresca de um arroio!

Mario Quintana, Metamorfose do Vento; BH, 0200202013.

Pterodáctilo, serpente sinuosa, manada
De potros, monstro
Arquejante e cravado de bandeirolas
Pelos Anjos que limpam as vidraças do Céu,
Préstilo
De espantalhos aos pulos,
Ululos
De loucos, cicios
De freiras, o vento
Tem todas as formas...
O triste
É que ninguém consegue vê-las...
Ah, se um dia
Nós e todo o universo
Ficássemos de súbito invisíveis
Aí, então,
O vento
Seria
Senhor do Mundo, Imperador dos Poetas!

Casimiro de Abreu, Primaveras; BH, 0200202013.


                                                                 O Primavera! Giuventú dell'anno,
                                                                 Gioventú! primavera della vita.

                                                                                                  Metastasio

A primavera é a estação dos risos,
Deus fita o mundo com celeste afago,
Tremem as folhas e palpita o lago
Da brisa louca aos amorosos frisos,

Na primavera tudo é viço e gala,
Trinam as aves a canção de amores,
E doce e bela no tapiz das flores,
Melhor perfume a violeta exala.

Na primavera tudo é risco e festa,
Brotam aromas do vergel florido,
E o ramo verde de manhã colhido
Enfeita a fronte de aldeã modesta.

A natureza se desperta rindo.
Um hino imenso a criação modula,
Canta a calhandra, a juriti arrula,
O mar é calmo porque o céu é lindo.

Alegre e verde se balança o galho,
Suspira a fonte na linguagem meiga,
Murmura a brisa: - Como é linda a veiga!
Responde a rosa: - Como é doce o orvalho!

Mas como às vezes sob o céu sereno
Corre uma nuvem que a tormenta guia,
Também a lira alguma vez sombria
Solta gemendo de amargura em treno.

São flores murchas; - o jasmim fenece,
Mas bafejando s'erguerá de novo,
Bem como o galho de gentil renovo
Durante a noite, quando o orvalho desce.

Se um canto amargo de ironia cheio
Treme nos lábios do cantor mancebo,
Em breve a virgem de seu casto enlevo
Dá-lhe um sorriso e lhe entumece o seio..

Na primavera - na manhã da vida -
Deus às tristezas o sorriso enlaça,
E a tempestade se dissipa e passa
À voz mimosa da mulher querida.

Na mocidade, na estação fogosa,
Ama-se a vida - a mocidade é crença,
E a alma virgem nesta festa imensa
Canta, palpita, s'extasia e goza.

Manuel Bandeira, Cantilena; BH, 0200202013.

                                                            O solitude! O pauvreté!
                                                                                        Musset

O céu parece de algodão.
O dia morre. Choveu tanto!
As minhas pálpebras estão
Como embrumadas pelo pranto

Sinto-o descer devagarinho,
Cheio de mágoa e mansidão.
A minha testa quer carinho,
E pede afago a minha mão.

Debalde o rio docemente
Canta a monótona canção:
Minh'alma é um menino doente
Que a alma acalenta mas em vão.

A névoa baixa. A obscuridade
Cresce. Também no coração
Pesada névoa de saudade
Cai. Ó pobreza! Ó solidão!

                                  Clavadel, 1913

Manoel de Barros, O Provedor; BH, 0200202013.

Andar à toa é coisa de ave.
Meu avô andava à toa.
Não prestava pra quase nunca.
Mas sabia o nome dos ventos
E todos os assobios para chamar passarinhos.
Certas pombas tomavam ele por telhado e passavam
As tardes frequentando o seu ombro.
Falava coisas pouco sisudas: que fora escolhido para
Ser uma árvore.
Lírios o meditavam.
Meu avô era tomado por leso porque de manhã dava
Bom-dia aos sapos, ao sol, às águas.
Só tinha receio de amanhecer normal.
Penso que ele era provedor de poesia como as aves
E os lírios do campo.

Llewellyn Medina, Amar; BH, 0200202013.

Amar você
Amargar o ciúme
Amaridar cada dia
Amarear ao fim de tudo
Amar novamente

Nietzsche, Sabedoria Sem Orelhas; BH, 0200202013.

Ouvir diariamente o que se diz de nós ou
Mesmo tentar descobrir o que se pensa de nós -
Isso acaba por aniquilar o homem mais forte.
É por isso que os outros nos deixam viver,
Para ter cada dia razão contra nós!
Não suportaria se tivéssemos razão contra eles
E, menos ainda, se quiséssemos ter razão!
Numa palavra, façamos este sacrifício para o
Bom entendimento geral, não escutemos
Quando falam de nós, quando nos elogiam ou
Nos recriminam, quando expressam desejos
E esperanças a nosso respeito,
Nem sequer pensamos nisso!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Patagônia, 927, 34; BH, 040102012.

Madrugada alta e daqui do alto
Da Patagônia, olho a cidade adormecida
A meus pés e é só uma cidade adormecida
Ao pé de mim; e estou nesta cidade
Como um anjo está em mim e
As luzes lá embaixo parecem estrelas
Que caíram do céu; não durmo,
Pois os mortos não dormem e os
Mortos só servem para enterrar os
Seus próprios mortos; mas não enterro
Os meus mortos, os meus mortos 
Tento eternizá-los nestes poleiros mais
Elevados onde pousam meus pensamentos,
Nestas soleiras das quebradas e nestas
Pedras onde descanso a cabeça para
Sonhar que sou vivo; mas só
Existo nos pesadelos que se apoderam
De mim, quando despertam-me,
Para a realidade da minha
Inexistência; escrevo de olhos
Fechados no escuro das trevas,
Como se a força da gravidade,
Guiasse minha mão e movesse
A caneta para gravar estas letras
Em forma de palavras nesta
Face oculta deste papel inorgânico;
Porque que esses automóveis têm
Que passar tão perturbadores, se
Meu coração está tão perturbado?
Preciso da ausência de tudo, como
Um niilista da descrença; e não
Creio em nada a não ser no
Nada e o nada é maior do que
Tudo; se raciocinei errado, ou
Não, não sei, não acordeis a
Cidade por este alarido, deixeis a
Cidade adormecida ao pé de mim.

Patagônia, 927, 36; BH, 040102012.

Invoco as obras-primas clássicas e
Imortais em todas as pessoas do
Singular e do plural; e em todos
Os tempos dos verbos e nos substantivos;
Invoco seus autores e autoras à esta
Mesa para este debate de letras,
Palavras; invoco invocado e todos
Estão invocados e convocados para
Esta seleção, reunião de cimeira
Espiritual; cada um tem o direito
E o dever de apresentar seus pontos
De vista, através da liberdade de
Pensamentos, de memórias, de lembranças
E de recordações; invoco aos meus avôs
E avós, meu pai, tios e tias,
Primos e primas, a todos do aquém,
Do aqui e do além que quiserem
Participar; invoco aos índios dizimados,
Aos pretos escravizados; às índias e às
Negras esquecidas nos terreiros das tabas,
Das tribos e das senzalas, das fazendas, dos
Engenhos; cada qual traz a própria
História e em atos e cenas a representa,
Conta-a e canta-a, que saberemos ouvir;
E cada história será uma obra-prima,
Um clássico imortal, um conto
Original, para que no final, deixemos
Às futuras gerações, as chances dos erros
Não serem repetidos; guerras, genocídios,
Inquisição, religião, escravidão,
Colonialismo, capitalismo e o
Neoliberalismo, imperialismo, CIA,
FBI, KGB, SS, Gestapo, Mossad, Tonton
Macoute, Kimer Vermelho, Camboja,
Vietnã, Biafra, Somália, hutu, toosie, Sudão,
Nação que extermina nação, sem razão,
Não há razão.

Num boteco no Céu Azul; BH, 040102012.

Não consagrarei a vós, estes versos nefastos, estas flores
Do mal e nem estes versículos satânicos; não deixarei de
Legado estas orações profanas aos pés desses altares
Heréticos; estas linhas niilistas não as santificarei a vós,
Religiosos inimigos da humanidade, violadores da
Cultura e da sabedoria; as pedras que serão colocadas
Em cima destes potes de fel, destas esponjas de vinagre,
Destes sais grossos esfregados nessa carne viva sem a
Pele, serão eternas, milenares, de sedimentações
Fossilizadas nas eras antes das eras; não leiais estes
Apócrifos proscritos, não ireis para os céus se os guardeis
Debaixo dos vossos travesseiros; não tereis as vossas
Salvações, se continuais em decifrá-los; são enigmas de
Cinzas vulcânicas, são rastos de seres que rastejam nas
Labaredas das fornalhas aumentadas várias vezes e
Suspiros de entes que foram lançados entre as feras, como
Foi lançado Daniel; só que nenhum anjo veio selar as bocas
Dos leões, leoas, tigres, linces, onças, panteras, pumas,
Ursos, leopardos, guepardos, hienas; pelo contrário, antes
Do corpo chegar ao solo, até o esqueleto já havia sido
Triturado; não vos abençoarei nestas estrofes, também
Padeço de falta de ser e afundo no lodo junto com a pérola
E nem sou depurado como o mais maciço e mais puro ouro;
E não vos deixarei diamantes e sim brasas, cinzas, enxofre,
Fogo, ferro retorcido, caos, ranger de dentes, legiões de
Acorrentados em muros de cavernas subterrâneas; não
Espereis orações, não tenho o sal que precisais, não tenho a
Lâmpada para vossos pés e nem luz para vossos caminhos;
Tenho um deus só, preso num quarto escuro e dedicais a ele
As vossas preces; é um deus que não é taumaturgo, detesta
Velas, luzes, rosários, terços, credos, rezas; teçais com vossas
Peles em oferendas, um tapete voador a ele, e o levais,
Adiante dos tempos, tempos que não virão jamais, amém.

Rio Grande do Norte, 916, 1; BH, 0170102012.

O que me deixa em segurança,
Com garantia e confiança, é uma
Frase cheia de graça e que me
Expressa e me passa tranquilidade;
E uma sentença, onde eu não
Seja o réu, põe-me em liberdade
Absoluta; encaro e enfrento monstros
Marinhos e dragões voadores;
Bebo pipas de vinhos, como carne
Assada de tenros cordeiros e
Defloro ninfas, ninfeias e ninfetas;
Vladimir Nabokov ensinou-me
A amar Lolitas; e santifico-as todas,
No leite fresco da fonte sagrada;
Um dia demônio socrático e no
Outro anticristo nitiniano; e
Numa noite sonhos de verão e
Na outra pesadelos de horrores;
Um dia fortaleza inexpugnável
E no outro espumas da água
Do mar ao vento; e o único grão
De areia a sustentar toda a
Duna, que se for retirado, ela se
Desmanchará; e o último átomo
Da matéria, que não pode ser
Partido, pois se for, destruirá
Todo o universo; e a conjectura,
Que jamais será desvendada,
Por nenhum matemático, para
Não ensinar o segredo de como parar
O tempo e pôr às vistas o inverso
Do universo, as entranhas das vísceras
Da eternidade; a medula da
Posteridade e o tutano do osso do
Elo da corrente, que não pode ser
Chupado pela avidez da fome do
Devorador de espíritos atormentados.

Rio Grande do Norte, 916, 2; BH, 0170102012.

A pele riscada pela vara de granito
De Saramago, em risco de separações
De pele, carne e osso; e continentes
Fluíram depois de separados, por todos
Os mares de oceanos camonianos e
Que nunca dantes navegados, salvos
Por ele; enquanto as ondas voltam
Ao mar português, a levar as histórias
Esquecidas, a deixar nas praias as
Marcas indeléveis dos tempos
Perdidos, das civilizações que não deram
Certo; valorosos descobridores tateiam nas
Velas das naus, de manhã bem cedo,
Quando é tarde nos homens, que
Pessoa tentou transformar em pessoas;
O maior libertador de fantasmas
A confrontar com o libertador de
Continentes; o que mais tirou seres
Acorrentados das paredes das cavernas
E o que mais tornou sonhos de
Infância em exércitos de homens
Pacíficos a guerrearem pela paz;
Um sereno guardador de rebanhos, domador
De pensamentos selvagens, em cavalos
Domesticados; o outro fazedor de bonecos
De barros, rastreador de elefantes e
Voador em máquinas pré-históricas;
E aqui jaz um que, desfrutou de ambas
As fontes, que bebeu água de açudes de
Crateras vulcânicas e cacimbas medievais
E que encheu cisternas com as lágrimas
De todos os escravos da humanidade,
Produzidos pela humanidade e que
Inda hoje teimam em ser escravos,
Do que puder subjugá-los; e sou
Um destes escravos e tenho em mim,
Os meus dominadores libertadores.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Portal Vermelho, Drummond, Carta a Stalingrado; BH, 020202013.

Stalingrado
Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas 
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora, 
e o hálito selvagem da liberdade 
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem, 
enquanto outros, vingadores, se elevam.

A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída, 
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas, 
na tua fria vontade de resistir.

Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.
Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.
Saber que vigias, Stalingrado,
sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes
dá um enorme alento à alma desesperada
e ao coração que duvida. 

Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente!
As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio.
Débeis em face do teu pavoroso poder, 
mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,
as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta, 
aprendem contigo o gesto de fogo.
Também elas podem esperar.

Stalingrado, quantas esperanças!
Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!
Que felicidade brota de tuas casas!
De umas apenas resta a escada cheia de corpos; 
de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.
Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem trabalho nas fábricas, 
todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,
mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,
ó minha louca Stalingrado!

A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,
apalpo as formas desmanteladas de teu corpo,
caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,
sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?
Uma criatura que não quer morrer e combate, 
contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,
contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,
contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate, 
e vence.

As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.
Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.
Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres, 
a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.