quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Street Shopping Planalto, 3; BH, 0200802011.

Fiquei de olho aceso na costa, a
Iluminar o mar, para que as
Quilhas das naus não se rompam nos
Escolhos; muitas perdidas naus inda
Vagam por esses mares tenebrosos a procura
De caminhos marítimos, em busca  de
Especiarias, tesouros e terras à vista;
Fiquei no porto, sentinela, atalaia,
A velar pelas velas desfraldadas, pelos
Mastros rompidos, pelas proas e popas históricas,
Esquecidas nos fundos dos oceanos
Desconhecidos; passei por canais que
Ligam mares, que ligam cabos, que
Ligam terras, continentes; vi nas
Frestas universais os antepassados
Das minhas avós; olhavam para mim
Com brilhos nos olhos e iluminavam
Minhas sendas; enfrentaram monstros
Marinhos que me despertavam do
Sono e faziam-me chamar por
Meus pais; fiquei de madrugada para
Ver minha avó passar, rente à parede de ondas
E a clamar por minha mãe que
Não me batesse mais não; minha
Mãe não atendia, nem pelo amor
De Deus; minha avó tentava ser
A minha salvação; fiquei de peito
Aberto a cantar cantigas que os antigos
Escravos cantavam e quis aprender
Com eles todos os cantos negros e
Trazê-los livres na minha voz; e
Trazê-los livres nos meus braços;
Fiquei libertador de almas escravas,
A espera nas encruzilhadas, nas areias das praias,
Por serenatas, que as façam recordar,
Dos antigos terreiros maternais.

Street Shopping Planalto, 2; BH, 0200802011.

Meu coração explodiu em gozo precoce,
Como numa ejaculação de adolescente;
Jorraram-se jatos de sangue por todos
Os poros, e vi-me um polvo com seus
Tentáculos e suas ventosas, a sugarem
As peles da menina dos olhos moços
De muitas vistas cristalinas pregadas
Em rostos angelicais, de marfins,
De mármores clássicos, de pedras especiais,
Que formam corpos de Vênus de Milos;
Meu coração abriu-se numa cratera,
Como se cometa choca-se contra ele;
Como se vulcões entrassem em erupções;
Como se todas as mulheres entrassem,
Ou atingissem o clímax, o orgasmo ao
Mesmo tempo; e jorros e óvulos,
Para serem fecundados numa inspiração,
A gerar filhos, a gerar descendentes,
Sucessores que nos engrandeçam
E que não nos diminuam, como nos
Diminuem as bombas atômicas, as armas
Nucleares e de extermínio em massa;
Todos os segredos dos astros estão nas
Nossas imaginações, mas estúpidos,
Procuramos nos próprios astros e nos
Sentimos decepcionados por não
Desvendarmos nem a nós; assim somos
Corações e mentes; indevidos, sem
Sentidos, a pensar como eternos
Adolescentes em frente aos espelhos
Que os mostram narcisos vislumbrados
Com os umbigos; é um repertório
Ilusório, bem sabemos, e permanecemos
Nele, para não fecharmos o coração,
Não nos chumbarmos uns dos outros.

Berthold Brecht, Aos que vão nascer; BH, 0270902012.

I
É verdade, eu vivo em tempos negros.
Palavra inocente é tolice. 
Uma testa sem rugas
Indica insensibilidade. 
Aquele que ri
Apenas não recebeu ainda
A terrível notícia.

Que tempos são esses, em que
Falar de árvores é quase um crime
Pois implica silenciar sobre tantas barbaridades?
Aquele que atravessa a rua tranqüilo
Não está mais ao alcance de seus amigos
Necessitados?

Sim, ainda ganho meu sustento
Mas acreditem: é puro acaso. 
Nada do que faço
Me dá direito a comer a fartar.
Por acaso fui poupado. 
(Se minha sorte acaba, estou perdido.)

As pessoas me dizem: 
Coma e beba! 
Alegre-se porque tem!
Mas como posso comer e beber, se
Tiro o que como ao que tem fome
E meu copo d’água falta ao que tem sede?
E no entanto eu como e bebo. 

Eu bem gostaria de ser sábio.
Nos velhos livros se encontra o que é sabedoria:
Manter-se afastado da luta do mundo e a vida breve
Levar sem medo
E passar sem violência
Pagar o mal com o bem
Não satisfazer os desejos, mas esquecê-los
Isto é sábio.
Nada disso sei fazer:
É verdade, eu vivo em tempos negros. 

II
À cidade cheguei em tempo de desordem
Quando reinava a fome.
Entre os homens cheguei em tempo de tumulto
E me revoltei junto com eles.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.

A comida comi entre as batalhas
Deitei-me para dormir entre os assassinos
Do amor cuidei displicente
E impaciente contemplei a natureza.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.

As ruas de meu tempo conduziam ao pântano.
A linguagem denunciou-me ao carrasco.
Eu pouco podia fazer. 
Mas os que estavam por cima
Estariam melhor sem mim, disso tive esperança.
Assim passou o tempo
Que sobre a terra me foi dado.

As forças eram mínimas. 
A meta
Estava bem distante.
Era bem visível, embora para mim
Quase inatingível.
Assim passou o tempo
Que nesta terra me foi dado.

III
Vocês, que emergirão do dilúvio
Em que afundamos
Pensem
Quando falarem de nossas fraquezas
Também nos tempos negros
De que escaparam.

Andávamos então, trocando de países como de sandálias
Através das lutas de classes, desesperados
Quando havia só injustiça e nenhuma revolta.

Entretanto sabemos:
Também o ódio à baixeza
Deforma as feições.
Também a ira pela injustiça
Torna a voz rouca. 
Ah, e nós
Que queríamos preparar o chão para o amor
Não pudemos nós mesmos ser amigos.

Mas vocês, quando chegar o momento
Do homem ser parceiro do homem
Pensem em nós
Com simpatia.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Street Shopping Planalto, 1; BH, 0190802011.

Um mundo está aberto à minha frente
E por incrível que pareça, cabem
Diversos universos dentro deste
Mundo; um mundo vasto, que poderia
Ser vivido bem, por quem soubesse
Viver e transformá-lo e melhorá-lo;
Mas quem reflete atualmente, com
Um sentido, de mudar este mundo
E fazer dele um único universo
Viável, em que possamos meditar a
Respeito da vida e de como vivê-la
Com sabedora? um mundo está
Aberto à minha frente, falta-me algo?
Falta-me visão de águia; e
Astúcia de serpente; fico acordado,
Justamente por que este mundo,
Repleto de universos, precisa de
Mim para pensá-lo; poderia dormir,
Como a maioria dos mortais
Comuns, mas preciso cumprir minha
Missão; sou um missionário, um
Emissário sobrecarregado de bons
E maus pensamentos para serem
Analisados; bons e maus argumentos
Para serem defendidos no debate
De que todos os universos deste mundo,
Sejam convergidos para fora do caos;
Do contrário temeremos o futuro
E civilização moderna, não pode
Temer o futuro; tem que esperá-lo,
Sem temor, com coragem, com
Esperança; mundo, universos,
Sociedades, civilizações, a evolução
Vos espera; o futuro nos espera, vivamos.

domingo, 23 de setembro de 2012

George Harrison, All Things Must Pass; BH, 0230902012.


Portal Vermelho, Goethe, A noiva de Corinto


Goethe
Johann Wolfgang von Goethe

A noiva de Corinto


Por Johann Wolfgang von Goethe



De Atenas provindo, a Corinto
Chega um jovem que desconheciam,
Como hóspede em domo distinto.
Os dois pais sempre se recebiam,
Ambos desde cedo
O moço e a moça
Noivo e noiva já se prometiam.

Mas será ele também lá bem-vindo,
Se boas graças nunca conquistou?
Com seus gentios é pagão ainda,
E o da casa em Cristo batizou.
Nova fé que fulge
Contra amor insurge
Qual erva daninha logo se arrancou.

Repousa a casa inteira, é tarde,
Sem pai ou filha, só, a dona domina;
Recebe o moço com boa-vontade,
Logo o melhor quarto ela lhe destina.
Uma ceia ostenta,
Bem alojá-lo tenta:
Depois diz boa noite, sai em surdina.

Entretanto o apetite é perdido
Farta refeição posta, a despeito;
Extenuado, de comes abstido,
Mesmo vestido faz-se ao leito;
Quase ele cochila,
Mas a porta estila
Esgueira-se ao quarto um afeito.

Ao clarão da luz, vê se insinuar
Pelo quarto, moça virginal
Brancos véus a acobertar,
Cingindo a fonte preto-ouro xal.
Tão logo o vislumbra
No canto à penumbra,
Espanta, mão alva eleva ao alto.

“Sou por acaso estranha”, diz ela,
“Que do hóspede nem tenho notícia?
Ah, assim mantêm-me eles na cela!
Por isso cometo a inconveniência.
Prossiga dormindo
Me esquivo, vou indo,
Saio como vim, peço licença.”

“Fique, jovem!” — grita o rapaz
Lépido num só pulo de seu tálamo:
“De Céres e Baco, as oferendas
Tens. Agora amor traz teu âmago.
O susto te descora
Vem, não vá embora,
Deleitemos dos deuses o júbilo!

“Fique longe, mancebo! Parado!
Não me é permitida a ventura.
Fatal passo, ah! já foi dado.
Boa mãe doente em insânia pura!
Caso convalesça
A promessa faz:
Que consagra filha aos céus em jura.

De deuses antigos o cortejo
Proscrito, a casa silencia logo.
Invisível um uno em adejo,
O salvador na cruz está morto.
E o imoleiro,
Não rês ou cordeiro,
Mas, seres humanos tem sacrificado.

Ele indaga as palavras pesando,
Que jamais com o espírito desavêm:
É possível ter num ermo aposento
Minha noiva em pessoa ante mim?
“Seja minha, criança!
Os pais com a fiança
Bênçãos celestes nos concedem.”

“Coração, não é a ti que destino!
É a mana que te hão de atribuir.
Enquanto na cela nefasta amofino,
Lembre de mim um dia no porvir,
Que só penso em ti
Pelo amor sofri
E a terra em breve há de cobrir!”

“Não! Eu juro, com a mão sobre o fogo
Vontade paterna compartilhar;
Nem perdida ou desdita, te rogo,
Vem para a casa comigo viajar.
Fique! Eu te peço!
Um sonho confesso.
Nossas núpcias em festim celebrar!

E trocam eles prendas de amor:
Ela dá-lhe um dourado adereço,
Por sua vez, faixa de prata cor,
Presenteia-lhe em terno apreço.
“Não é meu o xale!
Mas muito me vale!
Dê-me uma mecha de teu cabelo.”

Dos fantasmas soa a fúnebre hora,
Quando ela transforma-se langue.
Ávida sorve a pálida boca
Sôfrega o vinho tinto qual sangue:
Mas de trigo o pão,
Que o gentil em vão,
Lhe oferece, ela sequer o tange.

Estende ela o cálice ao moço,
Que ardente o esvazia num gole.
E suplica a cear licencioso;
Amor, que seu coração console.
Mas ela resiste,
Ao que ele insiste,
Até que na cama em pranto implore.

Aproxima-se ela, ajoelha:
“Desatino é ver teu sofrer!
Satisfaça-te e toque-me e olhe
Esses membros que estou a esconder.
Clara como a neve,
Mas fria como deve
A amada que vens de eleger.”

Ardente a cerra, abraço viril,
Intenso a estreita, a inunda:
“Eu desejo aquecê-la do frio,
Mesmo que tu me venhas da tumba!
Um beijo fervente!
Anseio eloquente!
Não te queima uma paixão profunda?”

E selando em êxtase o amor,
Lágrimas ao desejo se mesclam;
Suga-lhe ela à boca o calor,
Presos um ao outro se infundem.
Seu ardor feroz
Anima-a voraz;
Não lhe pulsa o coração, porém!

Nisso a mãe pela casa vagueia
Sempre alerta, tão tarde em ofício,
Detém-se escutando à soleira,
Um singular gemido e bulício.
Em pleno alvoroço
A moça e o moço
Indícios de amor em balbucio.

Ela imóvel detém-se ao umbral,
Suspeita mas reluta uma vez,
Cisma e apura paixão cabal,
Que evoca a sanha cupidez —
“O galo canta, amada! —
Mas noutra madrugada...”
Beijos, beijos. “Tu vens, talvez?”

Não contém a raiva em delonga,
A porta ela abre de chofre:
“Há cá nesta casa songa-monga,
Que ao forasteiro se oferece?”
Entra e ojeriza,
Ao clarão divisa —
Santo Deus! A lha reconhece.

O jovem no primeiro espanto
Tenta com o véu a impudente,
Com o tapete, cobrir-lhe o desmanto;
Mas ela se ergue logo saliente.
Como um fantasma
Que do alto plasma
Longa e lenta, plana ao leito.

“Mãe, mãe!” Diz com voz de sepulcro,
“Você quer ser desmancha-prazer?
Tira-me ao tépido e pulcro!
Me acorda para arrefecer?
Como se não basta,
Quando inda casta,
Você cedo ao túmulo me poer?

Mas uma lei bem própria me expulsa
Me liberta da baldia prisão.
A cantilena sacra é insulsa,
A mim sequer comove oração;
Salmodiou sem efeito
Se os jovens a eito;
Ah! Terra não esmorece paixão.

Esse moço me foi prometido,
Nos bons tempos do templo de Vênus.
Mãe, contudo foi o voto rompido,
Pois o alheio e falso os seduz!
Mas nenhum deus ouve,
Quando a madre ousa
Recusar à lha as bodas de jus.

Da sepultura lançada à vida,
À procura do anelado bem,
Por perdido ser inda querida
Aspirar todo o sangue que tem.
Quando ele morrer,
Mais hei de querer,
Sedenta, a debelar gente jovem.

Tanto não viverás!
Definhas-te, aqui neste lugar, meu belo;
Ofertei-te minha correntinha
Comigo guardo a mecha com zelo.
Veja-lhe ademãs,
Depois, meras cãs!
Lá insosso e sem cor será o pelo.

“Ouça, mãe, a prece derradeira:
Minha última morada abre!
Então arme uma grande fogueira,
Os amantes nas chamas, descanse!
Chispa resplandece,
Brasa incandesce,
Devoltamos à crença fagueira.”


                                                                   Tradução: Maria Aparecida Barbosa

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Chequer/Cançado, 2; BH, 0170802011.

Não sou Dante, mas faço visitas constantes
Ao inferno, e pior, não tenho Beatriz
E nem Virgílio a me guiarem; tenho
Apenas os passos trôpegos de bêbado dos
Bares das ruas de fundo da cidade;
No rosto as cicatrizes das bofetadas do
Destino; na face as marcas congeladas
Das lágrimas obscuras; no dorso a umidade
Da chuva oblíqua e no semblante a imagem
Abstrata de uma personagem de Cervantes:
Ou o Dom Quixote, ou o Sancho Pança;
Nos bolsos revirados das calças rotas, não
Trago valores, simplesmente esta literatura
Caligulaniana, estes versos que Nero
Cantava em sua lira, ao matar a mãe e ao
Incendiar a Cidade Eterna; podeis-me revirar
Ao avesso, em vice-versa, em versa-vice
E não encontrareis serenidade de
Espírito; todas as reverberações tumulares,
Todos os ecos tubulares ressoam em minha
Alma, e a resposta concreta é o silêncio
Das noites dos planetas fantasmas de
Sistemas solares do além; do além tão
Distante, que lá não chegam as almas,
Não chegam os espíritos, que ficam
Todos nos infernos onde passo a
Procurá-los; Dante nos contou a sua
Visita na "Divina Comédia"; eu
Conto as minhas visitas nos delírios
De bêbado que me atormentam no
Passar da conta das dores ministradas,
Para gerar esta literatura, que se
Enobrecer quem a ler, o poeta se
Sentirá também enobrecido, por
Ter idêntica Beatriz resgatada das chamas
Das choupanas das senzalas urbanas.

Nietzsche, Não querer servir de símbolo; BH, 0210902012.

Eu lastimo os príncipes:
Não lhes é permitido se anularem de tempos em tempos
Na sociedade e assim não aprendem a conhecer os
Homens a não ser numa posição desconfortável e numa
Constante dissimulação; a contínua obrigação de
Significar alguma coisa  acaba por transformá-los
Efetivamente em solenes nulidades.
 - E assim vai acontecer a todos aqueles que têm o
Dever de ser símbolos.

Llewellyn Medina, Ah! o Rio; BH, 0210902012.

Ah! o Rio quando sopra o sudoeste
Um vento envolvente e frio
Frio para o calor do Rio
Um vento que nunca vem só
Traz nuvens cinzentas
Encrespa as ondas de Ipanema
Até o espelho d'água da Lagoa balança ...

As montanhas altaneiras
Sabem que têm de ceder a vez
E escondem-se naquelas nuvens cinzentas
E guardam uma pontinha de inveja ...

Pois é assim o Rio!

Há o tempo do azul do céu
Há o tempo em que as montanhas rompem o horizonte
Há o tempo do sol - este é quase o ano todo!

Mas há também o tempo do sudoeste
Que alguns privilegiados desta terra cultuam
 - Acho que sou um deles!

É que na aparência o sudoeste é contra o Rio
Pois exibe tudo aquilo que escapa do cartão postal
Qual turista vem atrás do céu cinzento
Do vento friorento
Da praia vazia
Da praça vazia?
Do botequim sem chope?

Turista quer sol
Quer verde quer riso
Quer chope quer mar
Quer corpos apolíneos que levitam
Quer comer montanhas de sorvete
E quer novamente corpos apolíneos que levitam ...

Mas há quem queira o sudoeste
Quem queira ouvir as notícias do minuano
Que vem dos pampas
Que ecoam desde os Andes
Que ficaram aqui e ali ...

Há quem queira ser contido
(O sudoeste é o vento dos contidos)
E prefira o silêncio da solidão
(O sudoeste é propício ao exercício da solidão)

Há aqueles que buscam esse Rio
Que o sudoeste lambe tão inconstantemente
(Pois o sudoeste não costuma aparecer
Com a regularidade do mecanismo do relógio)

Acho que até a moça da previsão do tempo
Não prevê o sudoeste - bem eito!
Este prepara das suas
Esconde o Rio por horas,
Dias,
Fim de semana
(Principalmente por fim de semana) ...

O sudoeste revela outro Rio de Janeiro
Que causa preguiça
Convida a acordar tarde
A vestir bolorentas roupas de inverno
(É amigos - no Rio roupa de inverno é sempre bolorenta)
Pra ir à esquina comprar o jornal de domingo
A refugiar-se no shopping
Esse templo do tempo
Que o carioca desde cedo compreendeu ...

Não venham me dizer
Que o sudoeste não é carioca
Aqui a universalidade transforma-se em arroz-de-festa
Aqui todos os embates
Resolvem-se imemoriais FLA X FLU
Aqui o sudoeste é aquele vento amigo
Que sopra afavelmente
Convida o carioca a fechar a janela ...

É que o sudoeste gosta de desfrutar sem concorrência
As delícias deste Rio
Que todos sabemos que é eterno!

Ave Rio
Os que te amam te saúdam!

Manuel Bandeira, Ao Crepúsculo; BH, 0210902012.

O crepúsculo cai, tão manso e benfazejo
Que me adoça o pesar de estar em terra estranha.
E enquanto o ângelus abençoa o lugarejo,
Eu penso em ti, apaziguado e sem desejo,
Fitando no horizonte a linha da montanha.

A montanha é tranquila e forte, e grande e boa.
Ela afaga o meu sonho. E alegra-me pensar
(Tanto a saudade a um tempo acalenta e magoa!)
Que tu, na doce paz da tarde que se escoa,
Teces o mesmo sonho, ouvindo e vendo o mar.

Embalada na voz do grande solitário,
Tu mortificarás teu casto coração
Na dor de revocar o noivado precário.
(Ah, por que te confiei o meu desejo vário?
Por que me desvendaste a tua sedução?)

Se nos aparta o espaço, o tempo - esse nos liga.
A lembrança é no amor a cadeia mais pura.
Tu tens o grande Amigo e eu tenho a grande Amiga:
O mar segredará tudo quanto eu diga,
E a montanha dir-me-á tua imensa ternura.

Manoel de Barros, O Poeta; BH, 0210902012.

Vão dizer que não existo propriamente dito.
Que sou um ente de sílabas.
Vão dizer que eu tenho vocação pra ninguém.
Meu pai costumava me alertar:
Quem acha bonito e pode passar a vida a ouvir o som das palavras
Ou é ninguém ou zoró.
Eu teria treze anos.
De tarde fui olhar a Cordilheira dos Andes que
Se perdia nos longes da Bolívia
E veio uma iluminura em mim.
Foi a primeira iluminura.
Daí botei meu primeiro verso:
Aquele morro bem que entorta a bunda da paisagem.
Mostrei a obra pra minha mãe.
A mãe falou:
Agora você vai ter que assumir as suas irresponsabilidades.
Eu assumi: entrei no mundo das imagens.

Casimiro de Abreu, Perfume de Amor; BH, 0210902012.

                                                       

                                                        Na primeira folha dum Álbum

A flor mimosa que abrilhanta o prado
Ao sol nascente vai pedir fulgor:
E o sol, abrindo da açucena as folhas,
Dar-lhe perfumes - desejar-lhe amor.

Eu que não tenho, como o sol, seus raios,
Embora sinta nesta fronte ardor,
Sempre quisera ao encetar teu álbum
Dar-lhe perfumes - desejar-lhe amor

Meu Deus, nas folhas deste livro puro
Não manche o pranto da inocência o alvor,
Mas cada canto que cair dos lábios
Traga perfumes - e murmure amor.

Aqui se junte, qual num ramo santo
Do nardo o aroma e da camélia a cor,
E possa a virgem, percorrendo as folhas,
Sorver perfumes - respirar amor.

Encontre a bela, caprichosa sempre,
Nos ternos hinos d'infantil frescor,
Entrelaçados na grinalda amiga
Doces perfumes - e celeste amor.

Talvez que diga, recordando tarde
O doce anelo do feliz cantor:
 - Meu Deus, nas folhas do meu livro d'alma
Sobram perfumes - e não falta amor!

Mario Quintana, A Missa dos Inocentes; BH, 0210902012.

Se não fora abusar da paciência divina
Eu mandaria rezar missa pelos meus poemas que não
Conseguiram ir além da terceira ou quarta linha,
Vítimas dessa mortalidade infantil que, por ignorância dos pais,
Dizima as mais inocentes criaturinhas, as pobres...
Que tinham tanto azul nos olhos,
Tanto que dar ao mundo!
Eu mandaria rezar o réquiem mais profundo
Não só pelos meus
Mas por todos os poemas inválidos que se arrastam pelo mundo
E cuja comovedora beleza ultrapassa a dos outros
Porque está, antes e depois de tudo,
No seu inatingível anseio de beleza!

Nietzsche, Não se pode apagar da alma; BH, 0210902012.

Não se pode apagar da alma de um homem a marca que seus ancestrais
Construíram com a maior predileção e constância:
Seja que tenham sido, por exemplo, pessoas econômicas, auxiliares de
Um escritório ou de um banco, modestos e burgueses em seus desejos,
Modestos também em suas virtudes; seja que tenham no hábito de mando,
Dados e prazeres grosseiros e, ao lado de tudo isso, talvez a responsabilidades
E a deveres mais grosseiros ainda; seja que, enfim, lhes tenha ocorrido de
Sacrificar antigos privilégios de nascença ou de fortuna para viver
Inteiramente segundo sua fé (segundo seu "Deus"), como homem de uma
Consciência inflexível e terna, corando diante de qualquer compromisso.
É impossível um homem não tenha no sangue as qualidades e as predileções
De seus pais e de seus ancestrais, embora as aparências possam fazer crer o
Contrário.
Esse é o problema da raça.
Quando se sabe de algo a respeito dos pais, se saberá algo dos filhos:
Qualquer intemperança chocante, qualquer vontade mesquinha, uma propensão
Forte - esses três traços reunidos têm desde sempre formando o verdadeiro
Tipo plebeu - tudo isso se transmite ao filho tão seguramente que o sangue
Corrompido e pela educação, por melhor que seja, só poderá apagar a
Aparência de semelhante herança.
 - Mas não é esse hoje o objetivo da educação e da cultura?
Em nossa época muito democrática, ou melhor, plebeia, a "educação" e a
"Cultura" devem ser sobretudo a arte de enganar acerca das origens, acerca
Do atavismo popular na alma e no corpo, a arte de iludir e esconder o
Plebeísmo hereditário do corpo e da alma.
Um educador que hoje pregasse a verdade antes de tudo e gritasse
Constantemente a seus alunos:
"Sejam verdadeiros!
Seja naturais!
Mostrem-se exatamente como são!" - semelhante asno, virtuoso e cândido,
Acabaria recorrendo, cedo ou tarde, à força de Horácio para naturam expellere.
(Expulsar a natureza)
Com que resultado?
A "plebe" usque recirret.
(Até que volte correndo)

Mário Quintana, Obsessão do Mar Oceano; BH, 0210902012.

Vou andando feliz pelas rus sem nome...
Que vento bom sopra do Mar Oceano!
Meu amor eu nem sei como se chama,
Nem sei se é muito longe o Mar Oceano...
Mas há vasos cobertos de conchinhas
Sobre as mesas... e moças nas janelas
Com brincos e pulseiras de coral...
Búzios calçando portas... caravelas
Sonhando imóveis sobre velhos pianos...
Nisto,
Na vitrina do bric o teu sorriso, Antínous,
E eu me lembrei do pobre imperador Adriano,
De su'alma perdida e vaga na neblina...
Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano!
Se eu morresse amanhã, só deixaria, só,
Uma caixa de música
Uma bússola
Um mapa figurado
Uns poemas cheios da beleza única
De estarem inconclusos...
Mas como sopra o vento nestas ruas de outono!
E eu nem sei, eu nem sei como te chamas...
Mas nos encontraremos sobre o Mar Oceano,
Quando eu também já não tiver mais nome.

Tito Júlio Fedro, A Ovelha, O Cão, E O Lobo; BH, 0210902012.

Os mentirosos costumam arcar com as penas de (seu) malefício.
Como um cão falsário exigisse da ovelha pão que garantia
Ter-lhe emprestado, o lobo arrolado qual testemunha não só
Declarou que (ela) devia um (pão), mas assegurou (que eram) dez.
A ovelha, condenada por falso testemunho, pagou o que não devia.
Poucos dias após, a ovelha viu o lobo caído dentro de um fosso.
Disse (ela):
"Esta (pena) é conferida pelos deuses qual prêmio da fraude."

Pierre de Ronsard, Qual no ramo se vê; BH, 0210902012.

Qual no ramo se vê, no mês de maio, a rosa,
Em bela floração e recente frescor,
Causar inveja ao céu, por sua viva cor,
Quando, ao pranto da aurora, estremece formosa;

Repousam Graça e Amorna pétala cheirosa,
Perfumando o jardim e as plantas ao redor;
Mas, vítima da chuva ou de excessivo ardor,
A se despetalar, fenece a flor mimosa.

Assim, quando floria a tua formosura,
Honrando a terra e o céu tua gentil figura,
Em cinzas se tornou a Parca rigorosa.

Como exéquias recebe o meu pranto e gemido,
Esta jarra de leite, este cesto florido:
O seu corpo há de ser, vivo ou morto, uma rosa.