sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Chequer/Cançado, 2; BH, 0170802011.

Não sou Dante, mas faço visitas constantes
Ao inferno, e pior, não tenho Beatriz
E nem Virgílio a me guiarem; tenho
Apenas os passos trôpegos de bêbado dos
Bares das ruas de fundo da cidade;
No rosto as cicatrizes das bofetadas do
Destino; na face as marcas congeladas
Das lágrimas obscuras; no dorso a umidade
Da chuva oblíqua e no semblante a imagem
Abstrata de uma personagem de Cervantes:
Ou o Dom Quixote, ou o Sancho Pança;
Nos bolsos revirados das calças rotas, não
Trago valores, simplesmente esta literatura
Caligulaniana, estes versos que Nero
Cantava em sua lira, ao matar a mãe e ao
Incendiar a Cidade Eterna; podeis-me revirar
Ao avesso, em vice-versa, em versa-vice
E não encontrareis serenidade de
Espírito; todas as reverberações tumulares,
Todos os ecos tubulares ressoam em minha
Alma, e a resposta concreta é o silêncio
Das noites dos planetas fantasmas de
Sistemas solares do além; do além tão
Distante, que lá não chegam as almas,
Não chegam os espíritos, que ficam
Todos nos infernos onde passo a
Procurá-los; Dante nos contou a sua
Visita na "Divina Comédia"; eu
Conto as minhas visitas nos delírios
De bêbado que me atormentam no
Passar da conta das dores ministradas,
Para gerar esta literatura, que se
Enobrecer quem a ler, o poeta se
Sentirá também enobrecido, por
Ter idêntica Beatriz resgatada das chamas
Das choupanas das senzalas urbanas.

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