domingo, 29 de novembro de 2015

Não estou preparado; BH, 020702013.

Não estou preparado, olhei para
Mim mesmo e vi: não vim,
Não venci, não estou preparado;
Quem se encontra preparado,
Nasce preparado e quem não
Nasceu preparado, não há nada
No universo que o faça ser
Preparado; pode fingir, fingir é
Fácil, enganar um aqui, iludir
Outro ali e num dia, ou noutro,
Mais cedo, ou mais tarde, é
Desmascarado e em meio a
Ridículos, em meio à decepções
Gerais, terá que reconhecer,
Que não está preparado; e
Pergunteis-me aflitos, em que
Não estás preparado? já na
Terceira idade, a entrar numa
Fase senil, num ciclo decrépito,
Num círculo caquético, vem
Com essa a dizer que não estás
Preparado? não estás preparado
Em quê? mata logo a nossa
Curiosidade; é coisa aqui comigo,
Quereis perdoar, quando digo
Que não estou preparado, é para
Criar uma obra-prima, uma obra
De arte, que sejam meus desígnios
De formação; é que penso que, só
Estarei formado, no dia em que
Estiver apto, na hora em que
Estiver preparado e o universo
Reconhecer que, o que acabei
De fazer, é uma obra-prima.

Ai que saudades das madrugadas; BH,0190702013.

Ai que saudades das madrugadas
Chuvosas, dos noturnos nebulosos,
Das noites de trovoadas e relâmpagos;
Ai que saudades, meu bem, dos
Beijos quentes que não sinto mais;
Gostava de namorar, e depois,
Correr para a casa, sentar à varanda
E transformar em poesias, os beijos
Que tu me concedias; e eram
Nas noites em que chovia,
Que mais poemas colhia,
Dos pingos da chuva que caia;
E eram noturnos atrás de noturnos
E madrigais atrás de madrigais
Que, quando dava por mim,
A aurora já vinha a romper as
Entranhas para o dia nascer;
Ai que saudades dos orvalhos e dos
Serenos, das névoas e das brisas;
As vidraças embaçadas, as luzes
Lúgubres na cidade silenciosa;
O bairro deserto, a rua sombria e
Tudo parecia tão longe que,
Até pedia para não nascer o dia;
É que nasci para a noite, nasci
Para a orgia, para a vida de boemia;
O que acontece comigo agora, não
Passa de uma ironia, um estado de
Violação que, é o de aquietar o meu
Coração, personagem, protagonista,
Ator principal daquelas noites,
Daqueles noturnos do temporal.

Não reconheceis porém escrevi obras-primas; BH, 0190702013.

Não reconheceis porém escrevi obras-primas,
Registrei obras de arte; não faz mal,
Direis que não valem nada, que
São imprestáveis, inócuas, pagãs;
Direis que são profanas, diabólicas,
Demoníacas, do ocultismo; ora,
Direis até que não são obras,
Que faltam retóricas poéticas que,
Faltam classicismos e lirismos;
Gritareis, bem sei, falareis mal
E condenareis e me chamareis
De ateu, renegado e amaldiçoado;
Mas quando era infância,
Pedia benção à minha mãe,
Ao meu pai, às minhas avós, aos meus avôs
E às minhas tias, e ouvia de
Volta um Deus te abençoe; então,
Vossas alegações serão vãs e sem
Esmorecer, continuarei, independentemente,
A libertas das trevas, as minhas obras;
Continuarei, autonomamente,
A parir, a dar à luz, a procriar,
A fazer tudo ao contrário que
Quereis que faça; não serei
Político, polícia, religioso, cidadão;
Não serei catedrático, dramático,
Romancista, magnata; serei um
Versado nas coisas que ninguém na
Humanidade gosta de versar; serei
Simplesmente o que gostais de ignorar,
Não tenhais dúvidas: heis aqui a prova.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Há de ser algo inovador e revolucionário; BH, 0180702013.

Há de ser algo inovador e revolucionário,
De vanguarda, moderno; há de ser
De quebrar paradigma, de causar
Ruptura, romper com as estruturas;
Há de ser alguma coisa de vandalismo
Que, ponha abaixo o estado, a sociedade,
A burguesia; e que, desestruture a
Elite, a classe política e toda e
Qualquer tipo de religião; há de pôr-se
Fim à propriedade, às polícias e às
Forças armadas; há de ser um
Anarquismo geral, orgia total, as
Bacanais clássicas, eruditas; há de
Ser o que tiver de não ser; a
Quebra da ciranda financeira, as
Nações sem fronteiras e os povos
Sem opressores; há de ser a destruição
Dos paradoxos e a criação dum
Germinal, a reverberação dum
Embrião, a fecundação duma
Semente, cujas raízes buscarão
Nos subterrâneos, a seiva para
Uma sabedoria, a elaboração para
Uma filosofia; há de ser uma revogação
De todas as leis e a negação de todas
As verdades; mas, há de ser alguma
Coisa a acontecer, a mudar, a tirar
De lugar aos alicerces, a abrir os
Úteros dos dogmas, a abortar os fetos
Dos preconceitos; há de ser o caos total,
O choque de partículas, a quebra dos
Elementos na fusão nuclear.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Várias vezes pego a caneta ou melhor; BH, 0180702013.

Várias vezes pego a caneta ou melhor
A esferográfica e várias vezes volto
A deitá-la sobre a face do papel;
A vida está sem assunto, o tempo
Está sem hora e estou sem vida;
Passeio pelos meus recantos, visito
Meus espíritos, consulto meus eus e
Em tudo que sondo, não encontro
Nada; minhas almas são todas
Almas velhas de ossos encardidos,
Meus fantasmas não assustam mais 
E minhas assombrações já não
Metem medo; as palavras que
Perscruto para formar um argumento,
São imaginárias e os pensamentos
Que, quero transformar em palavras,
Já nascem como se não viessem
Do além, das dimensões e
Queria que viessem de lá,
Da casa das sensações; quedo-me
Abstrato, absorto, meus sentidos não
Percebem pulsações, o sangue parou
Em minhas veias; o ar concentrou-se
Em meus pulmões e estátua fui
Observado por todos no centro da
Praça; e que rústico, não era a
Navona e que traste, não
Era uma obra de Michelangelo; e
O teto que cobria-me, não era o
Da capela Sistina; um molde de
Cera de vela de velório que,
Ao primeiro calor das chamas,
Passou a derreter-se.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Sim errei muito e positivamente; BH, 0180702013.

Sim errei muito e positivamente, 
Necessito entrar agora, numa nova fase,
Uma fase de acerto e teimar com 
Aprofundamento de argumento,
Que já errei o suficiente ao viver 
E o novo período é viver sem errar;
Errei em todos os sentidos e direções,
Atirador que atira a esmo, sem
Alvo fixo e que não acerta um 
Único objetivo; a consciência enfim,
Pesou, bateu o remorso e o arrependimento 
E é hora do momento, de mudar de 
Lado, sair do lado dos errados,
Dos fracassados e abraçar o lado 
Dos vitoriosos, dos fortes; é aquele
Negócio, matéria atrai matéria,
Fraco atrai fraco, forte atrai forte;
Ficar pendido, sem tomar partido,
O mais será do mesmo; é inovar, 
Buscar o inusitado, dentro do 
Decoro da ética e da razão; sair 
Das palavras e passar às ações; sair
Da inércia, entrar em movimento
E ver qual o resto de sorte que resta,
Ou se o resto que resta continuará a 
Ser o de azar; o azar de errar e de 
Nunca acertar com sorte, que é o 
Que gostaria de contar e que, infelizmente,
Para poder ser feliz, nunca pude contar;
E feliz de quem pode contar com a 
Sorte e de quem tem o que 
Contar, uma história, um conto de azar.  

Perdi densidade e tinha dimensão; BH, 0170702013.

Perdi densidade e tinha dimensão,
Perdi estrutura e condição, fali
Como pessoa, rastejei como ser humano;
Diminui inescrupulosamente, perdi a 
Ética e o comportamento com decoro
E daí, senti dificuldade em existir; 
Não foi fácil para mim, queria mudar
E pegava o caminho errado, queria
Consciência e não encontrava a 
Porta certa; batia de cara nas 
Paredes, nos muros e nos paredões;
Escorregava em desfiladeiros e 
Afogava-me em sorvedouros;
Nunca sabia o que queria, o que era,
Quem era, deixei a estatura por 
Qualquer coisa; desaprendi com o
Tempo e não ensinei a quem queria 
Aprender; virei conjectura na boca de
Lobo e não encontrei ouvido amigo, 
Pois não cativei; minha mãe chora 
Sozinha no quarto, sei bem, diz que o
Peito dói, e que está ferida por dentro
E quem a escuta são as paredes que a 
Aprisionam; gostaria de perguntá-la
Se valeu a pena ser mãe e nunca irá
Negar e no entanto, é negada; quem 
Entenderá esses universos insondáveis,
Que negam a si próprios?

Que pessoas que fazem-me pecar; BH, 0170702013.

Que pessoas que fazem-me pecar
E fazem-me ser imprestável, inútil
E  sem vontade para nada; e que 
Pessoas que fazem-me ter ódios
E pesadelos, raivas, ficar acordado a noite
Inteirinha por insônia e a tentar entender
Essas pessoas que, não deixam-me
Entender-me; e fazem com que
Desconheça-me e com que não as conheça
E sinta cóleras no lugar de cócegas; que
Pessoas que são capazes de coisas que não
São de pessoas, pelo menos de pessoas ditas
Normais; que pessoas que não choram e
Fazem-me chorar, não falo, pois sou mudo e
A quem fala, não ouvem, não ouvirão a um
Mudo; que pessoas que, por mais juntas que
Estão, fazem de tudo para afastarem-se cada
Vez mais; que pessoas que, quando se lavam,
Se olham nos espelhos e não sentem que,
Não estão a olhar para pessoas, pois agem
Como se não fossem pessoas; que pessoas
Que deprimem-me, que estupram-me,
Violentam-me, seviciam-me, empalam-me
E tiram-me da minha pessoa, da minha
Personalidade; e abalam meu caráter,
Destroem-me insensatamente, egoístas,
Fazem de mim um egoísta; fazem-me
Expor a minha estupidez, a minha ignorância,
Quando penso nessas pessoas que
Ressuscitam meus instintos animais; que
Pessoas são essas que fazem-me a não
Querer nada mais, nem a ser pessoa.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Quando era menino falava assim:; BH, 0160702013.

Quando era menino falava assim: 
E quanto mais rezo, mais
Assombrações aparecem; e as
Perseguições inda continuam,
Quanto mais rezo, mais as
Assombrações aparecem à minha
Frente; Agripino Maia, vinte e
Sete anos de senador, nunca fez
Um bem ao estado natal dele,
Quanto mais ao povo trabalhador
Brasileiro; Aécio Neves, nunca
Trabalhou na vida, vive a reclamar
Da saúde e da educação e gasta
Milhões do erário por mês em
Viagens aéreas; José Serra, o
Vampiro brasileiro, literalmente,
Pai da Privataria Tucana, maléfico
Até às entranhas, é bancado tanto
Quanto Fernando Henrique Cardoso,
O imprestável até à medula; Michel
Temer, clone de rato gabiru,
Henrique Alves, Rennan Calheiros,
Eduardo Cunha, Francisco Dornelles,
Espíritos de porco, quantas
Assombrações a atormentar o povo
Trabalhador brasileiro; quantos
Fantasmas a desviar as verbas da
Saúde, da educação, dos transportes
E tudo com a complacência da
Mídia, do judiciário; se o povo
Trabalhador brasileiro não marchar
Sobre Brasília, nada mudará,
Continuaremos a alimentar esses
Vermes, a sustentar esses parasitas
E a nos assustar com os gastos
Astronômicos dessas assombrações.

Pedis palavras novas e letras revolucionárias; BH, 0150702013.

Pedis palavras novas e letras revolucionárias,
Canções de protestos, textos modernos e
Nada disso tenho para vos dar; e dou-vos o
Mais do mesmo, os registros das paredes
Das cavernas das caveiras pré-históricas, os
Desenhos rupestres, nada de muito
Assombrador e sobrenatural; e apresento-vos
Os ossos dos meus avôs, as ossadas das
Minhas avós, os esqueletos dos meus
Antepassados, nada mudou entre o céu e a
Terra; acostumai-vos com o que todos
Conformamos, nenhum inusitado pendurado
Nas paredes, nos muros e tijolos queimados,
As pedras irregulares; nos bojos dos
Ossuários suspiram e não param de
Observar-vos, com os sorriso milenares;
Quereis prazeres celestiais e não mereceis
Nem o pó donde fordes formados e a
Água que compõem vossas lágrimas; não
Dar-vos-ei o firmamento por herança, o
Firmamento é o que de mais novo,
Revolucionário, de protesto e moderno;
O firmamento, sim, nunca é o mesmo, a
Cada olhada, uma nova obra-prima; a
Cada olhar, uma espetacular obra de
Arte, um cinema novo, uma novelle
Vague, que nenhum Oscar é capaz de
Premiar; um texto literário, que o Prêmio 
Nobel de Literatura não é capaz de pagar;
E pedis palavras novas, letras revolucionárias 
E ora bolas, tenhais a santa paciência.

Limitado e coloco a palma da mão; BH, 0150702013.

Limitado e coloco a palma da mão
Na minha frente, qualquer uma
Delas e não a transponho; limitado,
Não dou um salto à frente do
Meu nariz; campo de visão estreito,
Saio para o fogo, abafo o fogo e
Perco o fôlego; limitado, nunca vi
Espírito mais desanimado, a deficiência
Do físico, contaminou a alma e o
Ser, mesmo com motivo de força
Maior, não aparenta ânimo; quantos
Artefatos perfeitos poderiam ter sidos
Feitos? quantas obras, frutos da vontade
E da curiosidade, poderiam estar
Em benefício da humanidade?
Nem precisa ser uma Teoria da
Relatividade, ou uma das Leis de
Newton, um engenho bem mais simples,
Um feito mais modesto, desses que,
Entulham museus e exposições,
Ou bibliotecas, livrarias e sebos; se
Não fosse a limitação e um pouco mais
De empenho, emprego de vontade,
Não passaria em brancas nuvens
Pela vida; não ficaria a criar barriga,
Sem ambição, sem cobiça; é preciso ter
Potência em querer deixar uma
Marca de poder; é nobre querer deixar um
Marco, mesmo que não estejamos
Nele e uns vindouros, poderão saber,
Que, demos um passo além do limitado.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Não ficamos em nada das coisas; BH, 0150702013.

Não ficamos em nada das coisas
E muito das coisas ficam em nós, a
Envelhecer-nos, a inchar-nos, a
Engordar-nos, a crescer-nos a barriga, a
Adoecer-nos, a cair-nos os cabelos e a
Estragar-nos os dentes; nós mesmos
Não ficamos em nada, passamos
Rotativamente e somos vivamente
Esquecidos; apegamo-nos às coisas na
Esperança de estendermo-nos a
Elas; confundimo-nos com os nossos
Bens, a iludir-nos que, com eles
Seremos eternos, fortes, curados, sarados,
Impossíveis; mas, os nossos bens não
Se pegam em nós; que nos apeguemos
A eles cegamente, deixemos os nossos
Vestígios neles, nossas marcas, que
Logo, logo serão removíveis; nem os
Nossos cheiros ficam em nossas roupas
E nada sabemos fazer para ficarmos
Nas nossas coisas; e daqui a uns
Tempos, nada saberemos fazer para
Ficarmos no tempo; podemos
Filmar-nos, gravar nossas vozes,
Fazer obras-primas, de arte, mas, não
Somos nós que estaremos ali; nas
Torres das catedrais, nos pendões
Dos castelos, nos altos dos montes,
Nos sobrados, outeiros, cumeeiras,
Nas quebradas, nas soleiras: onde
Estaremos nós? seremos as coisas
Em que não ficamos em nada, não
Estaremos onde as coisas estão.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Não há mais nada que possa fazer; BH, 0130702013.

Não há mais nada que possa fazer
Por ti, todos os poços já secaram e
As poças evaporaram; daqui para a
Frente, a jornada é por conta
Própria; tudo que mandei, não
Captaste, tudo que pedi, não
Assimilaste; não percebeste as
Coisas mais singelas, os fatos mais
Simples e definitivamente, não
Há mais nada a ser feito; perdeste
Todas as oportunidades e não foram
Poucas, inúmeras, incontáveis; e as
Chances? deixaste escapar todas as
Chances, não venhas lamentar; não
Quero ouvir mais lamúrias, tuas
Reclamações chegaram ao limite
E incompetência, não há paciência
Que aguente; e prevejo para ti
Que a situação piorará: velhice
Precoce, solidão, sofrimento, não sei
Como te arranjarás no futuro;
É a realidade que terás que
Enfrentar e sozinho, sem nada,
Não plantaste nada e nada
Terás a colher; não guardaste nada
E nada terás para desfrutar;
Foste indiferente a tudo, a todos
E não tens a quem recorrer; é o
Que tenho a dizer-te e nem
Sorte consigo te desejar; pega
Com Deus, para que pelo menos,
Diminua um pouco o teu azar.

A literatura das artes e´a mais desprezada; BH, 0130702013.

A literatura das artes é a mais dsprezada, 
Pois é a que requer maior atenção,
Interpretação, concentração e
Entendimento; se fizermos uma
Pesquisa, todo mundo já foi ao
Cinema, ao teatro, à ópera, aos
Shows musicais; quando chega
Na hora da pergunta: e a literatura?
A coisa muda de figura e há
Estatísticas tristonhas das pessoas
Pesquisadas, que nunca entraram
Numa biblioteca, nunca leram um
Único livro; e não leram nem a
Bíblia, seus testamentos e
Evangelhos; e é uma constatação
Vexatória, temos de tudo, fazemos
De tudo, comemos, bebemos, mas,
Não temos livros, não lemos, não
Entramos em bibliotecas, livrarias;
E abominamos a literatura, não
Praticamos o exercício saudável da
Leitura, não amamos a cultura; e
Não há o que possa nos incentivar
A ler, não há o que nos faça amar a
Literatura, não há o que nos faça
Abraçar a cultura, desenvolver a
Arte de escrever; que pena, por
Ser a literatura, das artes, a mais
Deixada na deterioração e sem
Remorso, sem arrependimento,
Fechamos bibliotecas, abandonamos
Livrarias, sebos, feiras de livros;
E desrespeitamos nossos escritores
E não sentimos um pingo de vergonha.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Como é que se resgata um fantasma do limbo? BH, 0120702013.

Como é que se resgata um fantasma do limbo?
Ressurreição? reencarnação? reaparição? saber
O segredo de trazer às carnes o ectoplasma?
Tendes a chave do mistério?  os ossos da
Pré-história estão espalhados pelas falésias,
Planícies, planaltos; os tutanos que
Preencherão esses ossos novamente, estão
Dispersos, as carnes que tornarão a encobrir
Esses esqueletos, estão em quais açougues? e
Os nervos, os filamentos, as cartilagens que
Recomporão as juntas, os joelhos, os
Tornozelos, os calcanhares, os tendões, os
Músculos, em quais bazares, brechós de
Antiguidades podem ser encontrados? e os
Órgãos, as peles, vasos, veias, aortas? e os
Organismos, artérias, intestinos, entranhas?
Em quais triparias serão achados? os
Espectros querem voltar, consultam a todos
O tempo todo, tudo, tereis as respostas?
Estão aprisionados e não sabem como fazer
Para retornarem do pó; muitos aqui a
Quererem ir, a fazerem de tudo para ir e
Os fantasmas lá, a fazerem de tudo para
Voltarem; quem entende esse ciclo vicioso?
E essa roda gigante, esse bate e volta de
Fantasmas, espíritos, almas, tanto vivos,
Quanto mortos, quantos parecidos com
Vivos; como é que se resgata um zumbi
Perdido no limbo? numa roda de mesa de bar.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Quem olha um risco pode ver muitas coisas; BH, 0120702013.

Quem olha um risco pode ver muitas coisas
E há quem olha muitas coisas e não vê nada,
Nem um risco, ou só um risco; e é por isso
Que tudo começa com um risco e não
Termina com um risco; e há quem olha para
Um risco e diz que tudo começa com um
Ponto e que um risco é a reunião de vários
Pontos e que sem os pontos, não haveria o
Risco; há muitas conjecturas neste universo
E nos outros universos: e quantos universos
Há num risco, ou como queiram alguns,
Num ponto? não viverei às turras por conta
Dum ponto, ou dum risco; viverei por conta
Dum cisco e há quem olha um cisco e
Enxerga um rico e há quem olha um rico e
Enxerga um cisco; e é a vida um risco, um
Ponto, um cisco, um rico, um lixo, um luxo?
É o que determinar um ângulo de visão, é o
Peso do ponto de vista na balança, que
Sempre pende para o lado do rico; e é o
Rico sustentado nas costas da pobreza que
Sustenta a balança e olha para isso e pensa
Que é normal; não aprendeu a olhar, a
Distinguir no cisco, que o rico nunca será
O risco que homenageia o nosso olhar.

De todas as fichas que a vida deu-me; BH, 0100110702013.

De todas as fichas que a vida deu-me,
Nenhum tento consegui marcar e
Perdi para o jogo da vida; e das
Folhas e dos cartões soltos onde
Escrevi as anotações para ulterior
Classificação, ou pesquisa, nada se
Aproveitou; venceu-se o cupom do
Meu destino, a data de validade do
Cupão que registrava-me,
Classificava-me, deteriorou-se; e
Despregado do fica, passei pela vida
Sem elementos de composições
Eruditas; e em etapa alguma, como
Um anônimo, passei sem fichar uma
Aventura; e como fazer para anotar
Um feito sem ter feito o que registrar?
As minhas gavetas eram fichários
Vazios, coleções de ficheiros sem
Utilidades, devidamente,
Desclassificados; e no futuro, quando
Forem encontrados, alguém, dirá: um
Que nunca teve nada para anotar, uma
História para contar, um romance
Para viver; e se no além for designado
De bulha, me deixarão privado de um
Canto bem sossegado; e aí, era tarde
Para remorso e mais tarde para
Arrependimento.

Meu pensamento ocioso está ocupado; BH, 090702013.

Meu pensamento ocioso está ocupado
Em outras divagações; fugiu da sua
Área predileta e preguiçoso,
Quedou-se e reminiscências lentas,
Maturações infrutíferas e ondas
Mentais descoordenadas, onde não se
Pode surfar, proliferam-se; é fruto de
Minha desorganização excessiva,
Atrapalhado na falta de ordem, um
Mau exemplo para qualquer
Pensamento; desestabilizado,
Enfraquecido, não conhece segurança
E combalido, desestruturado, não
Esbanja confiança; e em agonia, onde
Falta lógica, ação de ética, não
Demostra garantia; e o demônio
Prometeu, aproveitou que o meu
Pensamento dormia e levou o fogo
E o ânimo acabou e a potência
Ruiu e o desânimo reinou; meu
Pensamento é um dos prisioneiros
Da famosa caverna de Platão; e é o
Que matou o que fugiu e voltou
Para libertar os outros; e Platão deve
Ter ficado muito zangado com o
Meu pensamento, que demorou a
Recobrar a consciência, a lucidez
E a percepção; e até a sobriedade
Exilou-se do meu coração, a ficar no
Lugar a ambiguidade; e meu
Pensamento, certamente, desmazelou
O elo perdido da corrente.

Hoje a vida é para matar e o trânsito; BH, 080702013.

Hoje a vida é para matar e o trânsito
É para matar, e nada é para viver;
Hoje a religião é para matar, a
Educação é para matar e o
Lazer é para matar; nem são mais
Necessárias as guerras, tudo gira em
Torno do matar; a comida é para
Matar, a bebida é para matar e a
Mulher é para matar; hoje é assim,
Nada foi feito para viver, criança
É para matar, adolescente é para
Matar; e o estado? o estado é
Para matar, a polícia, os políticos,
Os patrões unem-se para matar; a
Burguesia é para matar, a elite
É para matar, a oligarquia, a
Aristocracia juntam forças para matar
O povo; é decepcionante constatar
Que a natureza foi criada para
Matar, o homem nasceu para matar
O que se move na frente dos seus
Olhos; os hospitais são para matar, os
Remédios para matar, e os médicos
Só querem matar; a morte está tão
Banalizada que não choca mais a
Sociedade; e é exibida ao vivo e
À cores nos horários nobres das
Televisões; os aglomerados, os
Conjuntos habitacionais, os bairros,
Os subúrbios, as periferias, favelas
São para matar; a justiça é para
Matar e quando não mata, liberta
Alguém para matar no lugar dela;
O que não é para matar, é o
Poeta, que já nasce morto.

É uma lei da natureza inexplicável; BH, 080702013.

É uma lei da natureza inexplicável
Para uma coisa, ou para outra, ou
Para ambas, ou para tudo: todo
Poeta nasce morto; é uma lei que
Escapou da percepção de Isaac
Newton, da intuição de Sigmund
Freud; e dos princípios filosóficos,
Teses científicas, dogmas religiosos:
Todo poeta nasce morto; e não é
Lenda, não é boato, é fato consumado;
É uma conjectura que a humanidade
Não decifrará; o ser escolhido
Para ser poeta não nasce vivo, o
Ente determinado a ser poeta,
Nasce morto; um dia surgirá alguém,
A explicar, a entender esse enigma,
Esse grande mistério, que é um
Poeta nascer; e ninguém nunca verá
Um poeta nascer vivo; se por
Ventura alguém conheceu algum
Poeta que nasceu vivo, manda
Para as mídias de notícias, é
Caso inconcebível; quem nasce
Vivo, nunca será poeta, poderá
Até fazer uma poesia, criar um
Poema, mas, ser poeta, não;
Ser poeta é nascer morto, ter
Obras póstumas, coleções de
Ossos, ossadas, caveiras, esqueletos;
Vivos todos são, mas, o poeta
É morto, é morto para tudo
Dos vivos, para o mundo dos
Vivos; o poeta só é vivo para
O mundo da eternidade.

Começarei a despedir-me das coisas; BH, 070702013.

Começarei a despedir-me das coisas,
Das minhas roupas velhas, minhas botas
Furadas e meus casacos surrados; já
Chegou o tempo de começar a dar adeus,
Pendurar as armas, encostar as chinelas
E procurar um canto escuro para encostar-me;
Começarei a preparar-me para a separação,
A quebra dos elementos, tudo acontece
Muito rápido e não quero ser apanhado
Desprevenido, sem despedir-me, na
Partida para o além; meus óculos velhos
E embaçados, que não ajudam-me mais
A ver as letras, a ler as palavras, ficará
No altar da estante enferrujada, junto
Aos livros devorados pelas traças;
Quando precisar mover-me no escuro,
Tatearei, minhas mãos nas sombras,
Apesar de sombrias, enxergam muito
Bem; dinheiro, não necessariamente,
Preocupar-me-ei em esconder, nunca o
Obtive e o pouco que chegou às
Minhas mãos, bebi-o vorazmente; e no
Meu canto lá, ficarei quietinho, não
Aprendi a cantar, não aprendi a orar,
Não aprendi a rezar e xingarei baixinho,
A única coisa que aprendi a fazer e
Reclamarei da morte que não vem e
Da vida que já foi; blasfemarei sem
Remorso e arrependimento e todo
Mundo ao ouvir-me, dirá, esse velho,
Não aguento; despede-se das coisas
E fica aí, esse farrapo que, bem
Poderia ser levado pelo vento.

Posso passar horas a fio a ouvir a rádio Guarani; BH, 070702013.

Posso passar horas a fio a ouvir a rádio Guarani, 
Ou a rádio Alvorada, que não tocam
Uma música do Cartola; é perder
Tempo a esperar, querer ouvir Candeia,
Elton Medeiros, ou Paulinho da Viola;
Não sei o que acontece com os nossos
Representantes culturais, divulgadores
Da nossas artes, nem o Martinho da
Vila, ou o Toninho Gerais, não consigo
Ouvir mais; Nelson Sargento, Nelson
Cavaquinho, Nelson Gonçalves, Jamelão,
Nem a pau meu irmão, parece-me que
Não fazem parte da nossa bagagem
Cultural; e a Clara Nunes, Clementina
De Jesus e a Jovelina? cantaram tantas
Belas canções, tantos sambas imortais
E são esquecidas, abandonadas nos
Quintais; Riachão, Dorival Caymmi,
Jackson do Pandeiro, são nomes que
Surgiram do povo brasileiro e que na
Velha mídia não sentimos nem o cheiro;
Ai, que tristeza me dá, querer ouvir
Um samba tocar, numa rádio que
Estou a escutar, mas, a ditadura é
Maior do que a qualidade; e dá raiva
Perder a liberdade e ser obrigado a
Ouvir, o que não faz parte da nossa
Realidade, não é a nossa verdade;
Antigamente esbarrava-se com Zé
Kéti, Beth Carvalho, Almir Guineto
E Leci Brandão e até o Zeca Pagodinho
Anda meio sumidão; imploro à Bahia,
E ao Rio de Janeiro, pelo samba,
Genuinamente brasileiro.

domingo, 15 de novembro de 2015

Tempos bons eram os tempos em que; BH, 070702013.

Tempos bons eram os tempos em que
Vivia cercado pelos meus avôs e avós;
Eram tempos gloriosos de tios e tias,
Que venerava, respeitava e adorava;
Tempos inocentes eram os meus tempos
De primas e primos, os tempos das cidades
Do interior; se pudesse voltar a conviver
Com as cantigas e as rezas das minhas avós
E os causos e as histórias dos meus avôs;
E as brincadeiras que não acabavam mais,
Pelas ruas em poeiras e nos dias de chuva,
Pelas lamas e enxurradas; e as árvores
Que devorávamos: frutos, flores, folhas e
Galhos; tempos bons que a memória não
Apaga e a toda hora revivo na lembrança,
Uma passagem de quando era criança;
Não importava com nada, vivia o
Mundo de cabeça para baixo, dava
Estrelas, plantava bananeiras e
Em qualquer confusão, para proteger,
Tinha sempre um irmão; e na hora
Das surras, quem valiam eram as avós;
E quando íamos para as fazendas a pé?
Eram caminhadas e mais caminhadas
Em longas estradas, em meio às
Brincadeiras, banhos de rios, roubos
De frutas e fugas de cobras e bois
Bravos; eram barrancos, cercas, matos,
Capins, areias, pilões, moinhos, garapas,
Água de coco, dormir enrolado em pele
De carneiro, conversar ao pé da luz
Do candeeiro, tempos bons, ninguém
Precisava de dinheiro.

De Belchior, Coração Selvagem, em blues:

Não perguntarei mais nada e pararei de indagar; BH,070702013.

Não perguntarei mais nada e pararei de indagar 
E não quererei saber; querer saber é demasia 
E soluções, resoluções e recordações,
Respostas, às favas; a saída é conformar,
Confirmar que, é assim que terei
De ser; que caia em minhas costas o
Mundo, que arraste-me atrás de si o
Universo, não resistirei; não
Relutarei contra a força de
Gravidade e deixar-me-ei atrair
Para fora da minha órbita; não
Marcharei de encontro ao meu
Destino, onde estiver de chegar,
Chegarei bem, ou mal chegado,
Mas, chegarei; se for inteiro, é
Por que tive que chegar inteiro e
Se for por partes, é por que tive que
Chegar por partes; bem que tudo poderia
Acabar de uma vez só; a demagogia,
A hipocrisia e a desilusão, bem
Que poderiam ter fim e a ansiedade,
A angústia e a depressão; conheço
As histórias que contaram-me de cor
E nenhuma história é nova, nada
Mais é novidade, inusitado, surpreso,
Não removerei o tempo de lugar e
Podeis contornar a montanha, não a
Afastarei do caminho; já estou
Representado pela loucura e a
Lucidez não representa-me e a
Sanidade não representa-me; não
Optarei por uma percepção, não tive
Escolha, guio-me pelo faro da intuição.

BELCHIOR - ALUCINAÇÃO (1976)

Há um Sol no meio da caminho; BH, 070702013.

Há um Sol no meio do caminho
E se a Terra não tivesse encontrado o Sol no
Meio do caminho, aonde a Terra teria
Ido parar? e quem nasceu primeiro, a
Terra, ou o Sol? ou os dois nasceram
Juntos, na mesma tal explosão que
Gerou o caos? e que bom que a Terra
Encontrou o Sol no meio do caminho
Dela e como não pode transpô-lo, foi
Contorná-lo e caiu no campo
Gravitacional do Sol e ali ficou para
Sempre; e que bom que a Lua veio e
Encontrou a Terra no meio do
Caminho dela e ali ficou igual a um
Escudo, um para-raio, a proteger a
Terra de catástrofes maiores; há um
Sol no meio do caminho da Terra, há
Uma Terra no meio do caminho da
Lua; e que bom fazer parte deste belo
E bom Sistema a nos aconchegar; que
Bom fazer parte deste ninho, desta
Perfeição inexplicável; e todo dia de
Manhã quero encontrar um Sol no
Meio do meu caminho; e todo dia de
Noite, quero encontrar uma Lua no
Meio do meu caminho e caminhar
Junto para esta viagem infinita, esta
Longa jornada de poesia, de estrelas,
Essas flores eternas; há um Sol no
Meio do caminho, no meio do
Caminho há um Sol; há uma Lua
No meio do caminho, no meio do
Caminho há uma Lua: Terra não
Podemos esquecer destas verdades.

Plebiscito e Constituinte exclusiva e o que for; BH, 060702013.

Plebiscito e Constituinte exclusiva e o que for
Preciso para atender os anseios do povo
Trabalhador brasileiro; o povo não quer
Mais ouvir políticos, congresso nacional,
Câmara dos deputados, STF, Supremo
Tribunal Federal, PIG, Partido da Imprensa
Golpista, ou partidos; o povo agora quer é
Ser ouvido e já, para ontem; e o trabalhador
Não quer perder nenhuma das suas garantias;
É deixar de blefe, deixar de enrolar, de fingir
Que trabalha e resolver; é deixar de
Mordomias, de locupletar-se das benesses do
Poder e melhorar os serviços de atendimento
Ao povo; o povo agora manda um aviso ao
Vivo, uma ordem de como quer que os
Políticos ajam, os ministros se comportem,
Os juízes permaneçam nas performances; ou
O povo marchará sobre esse senado minúsculo,
Esses ministérios inoperantes, esses tribunais
Vendedores de habeas corpus, sentenças e
Arquivadores de processos dos chegados; e
Não adiantará pegar ninguém para bode
Expiatório; o povo quer a punição de todos que
Forem culpados; abençoar uns e satanizar
Outros, basta, o povo acordou, saiu do
Pesadelo e agora quer sonhar com um Brasil
Real, do povo trabalhador brasileiro, sem
Corruptores e sem corruptos; e com justiça,
Que essa justiça que está aí, se abrir a caixa
Preta, escancarar a toga, não fica um capa
Preta para contar a história.

BETO GUEDES_Meus Momentos_ALBUM COMPLETO

Pedra e um dia vem broto de flor; BH, 060702013

Pedra e um dia vem broto de flor,
Broto de bambu, sim, um dia vêm;
Riacho, regato, arroio, teimo que,
Um dia vêm; nuvens, ventos, montanhas,
Montes, repito, um dia vêm; não
Sei de onde e confesso, não quero
Saber, mas, um dia vêm; se estarei
Vivo, desconfio, se estarei morto,
Tenho certeza, porém, um dia vêm,
Ou uma noite vêm, ou numa
Madrugada, numa aurora, num
Alvorecer, raiar de um dia, ou
Ao meio dia; veio para todos que
Persistiram, veio para todos que,
Insistiram, serei a única exceção?
Não quero acreditar e quero acreditar
Que, um dia vêm; por enquanto
Estão a chegar lá e por ora,
Estão à minha frente e estou
Na rabeira, estou na rabada, sonho,
Tenho pesadelo, deliro, embriago-me
E como muitos que foram por esses
Paralelepípedos, muitos esperarei,
Legiões, vêm, não é orgulho, não é
Ambição, não é cobiça; é vontade, é
Ânimo, é potência, é audácia, é
Ousadia, é fé; não pode haver um
Pote assim tão desprovido, algo
Precisa enchê-lo até aqui; não
Pode haver uma talha tão seca.
Sem uma gota de vinho, de um
Bom e encorpado vinho; sim, um dia vêm.

A Página Do Relâmpago Elétrico- 1977- Beto Guedes (Completo)

O papel do desocupado é ocupar; BH, 060702013.

O papel do desocupado é ocupar 
Papel; ocupe papel e foi o que 
Fiz em toda a minha vida e não 
Tive um papel relevante, mas, 
Todo papel que tive, ocupei; não
Escolhia as letras, não escolhia
As palavras, não escolhia o papel,
Fazia o meu papel, ocupava o 
Papel em todas as faces, rostos,
Caras, folhas; e não importava-me
Se era explícito, não incomodava-me
Se era implícito, o que aborrecia-me,
Era quando, de noite, ou de dia, 
Não ocupava um papel, com um 
Poema, ou com uma poesia; não
Pensava em estrutura, não imaginava
Tema, não ia atrás de nada; apenas
Parava, sentava, ou ficava de pé, 
Observava, soltava a mão pela 
Estrada, pela linha do horizonte, 
Pelas linha paralelas, das estradas 
De ferro, dos caminhos e pelas 
Órbitas universais do infinito e 
Quando dava por mim, todas as 
Folhas estavam ocupadas por um 
Desocupado, cuja desocupação
Nunca terá fim; se tivesse nascido
Para ser alguma coisa, ter um 
Título, um rótulo; se tivesse nascido
Para encher paredes de diplomas,
Nunca teria nascido; e nasci
Justamente para não nascer, para 
Não ter; em mim quem nasce são 
As letras, as palavras; elas que 
São-me, elas que têm-me, sou 
Algo que não convém a outra coisa.  

Beto Guedes - Sol de Primavera - 1979 - Full Album

Bem que o meu cérebro podia pegar; BH, 050702013.

Bem que o meu cérebro podia pegar 
A onda do gigante que acordou e
Acordar também, mas, meu cérebro é
Anão; meu cérebro é pigmeu, é
Cachorro vira-lata; aceitou muito
Passivamente o golpe de estado no
País; aderiu à Ditadura militar
Instalada, foi conivente com as
Torturas, com as mortes e com os
Desaparecimentos e banimentos dos
Que combatiam o regime; e chamou
Quem lutou contra os militares de
Terroristas, assaltantes de bancos,
Bandidos e assassinos; bem que
Este meu cérebro complexado poderia
Pegar o embalo do gigante e acordar
De uma vez, mas, é um cérebro
Dorminhoco, é contra a Comissão da
Verdade, a Lei da Anistia e a
Condenação dos que torturaram,
Jogaram corpos em alto-mar, deram
Choques elétricos e penduraram no
Pau-de-arara; meu cérebro é cérebro
De malafaia, feliciano, bolsonaro; com
Todo o barulho que o gigante fez ao
Acordar, meu cérebro não despertou; é
Um cérebro de pensador de direita, um
Marco antônio vila, reacionário,
Retrógrado, conservador; o gigante que
Acordou é progressista, de esquerda,
Libertário, reformador; este cérebro
Nunca irá acompanhar esses passos
Gigantescos desse gigante; que este
Cérebro não expulse um Ulisses, um
Davi e ponha por terra o gigante despertado.

Beto Guedes - "Amor de Índio" - Full Álbum

Não darei a volta por cima como todo; BH, 040702013.

Não darei a volta por cima como todo
Mundo dá, não superarei e aquela
Dor que dura para sempre e bem que
Nunca acabe, comigo não prevalecerá;
Não sacudirei a poeira, ela será o meu
Enfeite, meu fato novo, meu traje de
Gala, meu vestido a rigor; e a outra de
Que há males que vêm para o bem e
Bem que vem para o mal, só acontece
Assim: o mal quando vem, é para o
Mal mesmo e o bem, nunca vem;
Nem para iludir-me um pouco, para
Fazer-me parecer um movimento, ou
Um momento, ou pelo menos um
Pensamento; não começarei tudo
Outra vez, falta-me confiança, as
Deficiências causam-me insegurança,
A apalavra que falta-me, impede-me
A garantia; fraquejo caquético e o
Vento ao encontrar-me tão frágil,
Lança-me a todos os cantos; e
Afogo-me com os pés em pedras
Firmes e quem olha de longe, pensa
Que afundei sob as águas, quando
Na verdade afundei, mas com os
Pés em rochas; não, não terei fé
Nunca, coragem, nunca terei, não;
E é fato consumado, é fato findado,
Última cena, o último de tudo; não
Vencerei nada e negarei todas as
Certezas, enganarei a todos e não
Perceberão nunca minha bruxaria.

Sem vontade e do mesmo jeito que; BH, 040702013.

Sem vontade e do mesmo jeito que,
Alguém tem vontade, não tenho
Vontade; é a mesma coisa, só que,
É em sentido contrário; sem
Vontade e com desânimo, muito
Desânimo para dar e vender; e
Sem potência e sem poder, como
Persistir, não desistir, não há
Força, energia, raça; é só a
Vontade de ficar sem vontade e
O desânimo de ficar com desânimo,
E sem ânimo, inclusive para não
Ter ânimo; e sem movimento,
Nada, parado como um fantasma
Camuflado de espantalho; parado,
Como um firmamento sem
Nuvens que, na verdade, não
Está parado, o azul está sempre
Em direção do infinito, a nos
Enganar que está parado; a
Formiga tem vontade? a abelha
Tem vontade? a cigarra tem
Vontade? o que que não tem
Vontade nesta natureza? eu; o
Universo tem vontade? eu sou o
Universo que não tem vontade;
Dói-me abrir os olhos, falar,
Ouvir; dó-me ter sentidos, ser,
Estar, ter e haver; dói-me ser
Verbo, letra, palavra, substantivo;
Dói-me ser organismo, substância,
Sustância, elemento, distância;
Dói-me o desânimo, a poesia, o
Poema; dói-me a vontade toda
Vez que vem a vontade de tê-la.

Meus poemas vão ficar por aí largados; BH, 030702013.

Meus poemas vão ficar por aí largados,
Jogados em latas de lixo, abandonados,
Porque teimo em criá-los? porque
Insisto na poesia? e perco a alegria na
Condição de saber o destino que terá a
Minha obra; com certeza não encontrará
Interesse dalgum leitor, não passará por
Crivo dum crítico, ou de amante que
Quererá com ela copular; e isso só
Causa-me tristeza, muita melancolia e
Decepção; é como se fosse um filho
Amental, de impossível convivência,
Que tivéssemos de abandonar num
Internato para insanos incuráveis; e
Haja choro, lágrimas para prantear e
O que faço é isso, como se já fosse
Enterrar um defunto em cova rasa; se
Ao menos inda desse um outro destino
Ao que imagino, se inda mudasse a
Rota, talvez pudesse depositá-los
Numa urna de gala; erguer um panteão,
Um pedestal com inscrição, que todos
Pudessem apreciar sem depreciação; se
Garantissem-me que meus poemas
Não vão ficar por aí, comidos de
Traças, de ratos, meu coração bateria
Muito mais forte do que a bateria da
Escola de Samba Estação Primeira de
Mangueira, do meu querido maestro
Maior Antônio Carlos Jobim.

Os deuses são surdos e cegos e mudos; BH, 030702013.

Os deuses são surdos e cegos e mudos,
Do jeito que bradam por eles, do jeito
Que gritam, que imploram, que clamam,
A conclusão que chego, é que os deuses
Escafederam-se; e abandonaram a todos,
Com suas lamúrias, suas lamentações e
Imprecações, rezas e orações; e para
Onde foram esses deuses que não querem
Mais saber de nada? e quanto mais
Clamam, mais se escondem nas nuvens
Dos universos; e aqueles que tentam
Desvendar os mistérios dos deuses,
Dos anjos, dos demônios, que escrevem
Livros, ficam milionários com os
Falsos destinos dos deuses, que anunciam
Aos fieis sedentos por uma verdade
Satisfatória; e tome criação de santos e
Mais santas e beatos e beatas e daqui
Há uns anos, toda a humanidade será
Santa, toda a raça humana formada de
Santos e os seres humanos de beatos e
Beatas; imaginação não falta aos
Criadores de igrejas capitalistas e
Religiões dos que precisam enriquecer
Cada vez mais, a cada dia que passa;
E a maneira que resta é vender santos,
Imagens, medalhas, relíquias, qualquer
Coisa serve, por mais bizarra que seja,
Por mais bisonha que possa parecer o vil.

sábado, 14 de novembro de 2015

Candeia, Filosofia do Samba:


Candeia,
Filosofia do Samba:

Mora na filosofia
Morou, Maria!
Morou, Maria?
Morou, Maria!

Pra cantar samba
Não preciso de razão
Pois a razão
Está sempre com os dois lados

Amor é tema tão falado
Mas ninguém seguiu
Nem cumpriu a grande lei
Cada qual ama a si próprio
Liberdade e Igualdade
Aonde estão não sei

Mora na filosofia
Morou, Maria!
Morou, Maria?
Morou, Maria!

Pra cantar samba
Veja o tema na lembrança
Cego é quem vê só aonde a vista alcança
Mandei meu dicionário às favas
Mudo é quem só se comunica com palavras
Se o dia nasce, renasce o samba
Se o dia morre, revive o samba

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Oração ao Arthur Bispo do Rosário; BH, 030702013.

Oração ao Arthur Bispo do Rosário:
Há muitos deuses nos céus e muitos
Outros tantos deuses na terra; e os
Povos elegem seus deuses, as tribos
Cultuam seus santos, as nações
Guerreiam por suas religiões e
Homens-bombas despedaçam-se por
Alá; e nesse burburinho atormentador,
Onde cada um quer se impor,
Catequizar através de qualquer meio,
O outro que não aceitar, passa-se a
Ser chamado de pagão, infiel, cão,
De profano, herege e de pecador;
Com o mesmo direito com que
Criaram os deuses deles, Arthur
Bispo do Rosário, criei, o meu deus
Arthur Bispo do Rosário; e Nelson
Mandela ficou vinte e sete anos
Preso em campo de trabalho forçado
E ficaste toda a tua vida internado
Num pavilhão dum hospício da
Colônia Juliano Moreira, abandonado;
Nelson Mandela virou celebridade
Mundial, foi presidente do país dele
E ganhou o Prêmio Nobel da Paz; e
Morreste lá sozinho, sem uma única
Oração, sem uma face a correr uma
Pequena lágrima, a saudar a tua
Inexistência; é a ti que quero orar,
Meu Arthur Bispo do Rosário, é a
Ti que quero reverenciar, engrandecer
Nestas enegrecidas linhas de oração,
Amém.

Passei minha pele nesta folha de papel; BH, 020702013.

Passei minha pele nesta folha de papel
E nela deixei meu suor, a
Seborreia que se juntou com a
Sujeira, o óleo e a gordura que,
Por fim, ensebaram estas linhas
Profanas; a folha agora está
Encardida, não é mais alva,
Virgem, santa; é uma folha
Puta, estuprada, que está
Grávida do estuprador; e o feto
Não quer nascer e para não
Matar a mãe, terá que ser
Abortado; passei minha face
Neste rosto e a caricatura não
Ficou registada, como uma
Relíquia; não se transformou
Numa obra de Caravaggio,
Num auto-retrato de significado
Valor; e as letras recusam-se a
Formarem palavras e as
Palavras relutam para não
Formarem sentenças; e o que
Paira no abismo entre estas
Linhas é a inexistência; e o
Aspecto que permaneceu foi o
Nada, uma cara anônima, como é
Moda agora na multidão; e a
Folha de papel que, teve as  
Folhas de uma face, esfregadas
Nela, não assumiu as folhas da
Face, não refletiu o rosto, não
Reproduziu a cara, o semblante, o
Ar de alguém que tenha olhos,
Nariz, boca, ar; apagou-se a luz
Do quarto escuro e mais escuro o
Quarto ficou e o ser sem rosto foi
Envolvido palas sombras dos rostos.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Não anseio nada a não ser a ansiedade; BH, 0200702013.

Não anseio nada a não ser a ansiedade
E a agonia e a absurdidade e outra
Coisa, não sei chamar para mim;
Uns chamam o vento, outros as
Estrelas e outrem, ainda, o sol, a
Chuva, chamo o desespero, a
Depressão; e não desejo orar por
Nada, ou clamar por santos e
Santas, ou bradar aos prantos
Por bençãos e milagres; e só corro
Atrás é da angústia, é do tédio;
E admiro aos que buscam a felicidade,
O amor, a paz e invejo aos que
Amam, adoram alguma coisa e
Reverenciam o que acontece, ou
O que deixou de acontecer; não
Consigo perceber e o que busco é
O que está vazio igual estou; e
O que não ofusca-me é a treva
Que não fere as minhas retinas;
Que beleza, todos querem companhias,
Desprezo-as, todos querem todos,
Tudo, não quero nada, nem a
Mim mesmo; tomam banhos, não
Tomo, escovam os dentes, não
Escovo-os, vão ao médico, não vou,
São educados, cultos, lidos, não
Sou; falam, fico mudo, perguntam,
Não respondo, vão ao cinema,
Teatro, igrejas, shopping, não
Vou; saem, fico, riem, choro, pensam,
Não penso, agem, paro, vivem, morro.

Sempre louco e não há como não ser louco; BH, 0280602013.

Sempre louco e não há como não ser louco, 
Ou deixar de ser louco, loucamente, 
Não há cura para a loucura; sempre
Louco e cada vez mais louco, com a
Diferença que, de vez em quando,
Implicitamente e em outras,
Explicitamente mas, sempre louco;
Louco celerado, iluminado e
Louco taciturno, sorumbático, abatido,
Esmorecido, mas louco; e a loucura
Não sara, não cura, não passa e
Com o tempo acentua-se, engendra-se
Intrinsecamente; um dia a loucura
Amua-se num mutismo de pedra,
Noutro é furacão furioso, é ciclone
Tempestuoso, a carregar tudo ao
Redor e quando é preciso fingir
Que não é louco, quando é
Necessário passar por normal,
Cordado, ajuizado, é a tortura
Maior na vida do louco, aparentar
Sanidade, comportamento e
Postura; e faz tão bem, que a
Comunidade aplaude, a sociedade
Elogia e a humanidade o reconhece
Como um semelhante; e o louco só
Deixa mesmo de ser louco, quando
A morte fala assim, num ouvido
Dele, só para ele: hoje tu não passas
De hoje, vim para curar-ter; terás
Apenas um segundo de razão,
Para perceberes, que durante o
Tempo de loucura, nada perdeste.
Por não viveres na sanidade.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Desde que o universo foi criado e as leis; BH, 0280602013.

Desde que o universo foi criado e as leis
Universais foram criadas juntas, só que
Foram desvendadas, com a evolução
Da humanidade e os estudos das
Ciências e da Física; e uma dessas leis
É clara, toda ação requer uma reação,
De igual intensidade, ou maior; e
Percebo que, as manifestações, em que
O Partido dos Trabalhadores sofreu
Violentos ataques de ódios, serão a
Ressurreição do Partido dos Trabalhadores;
Ressurgirá das cinzas o partido, como
Uma Fênix fenomenal e liderará a
Luta de classes; dará, certamente, a
Volta por cima e guiará o povo
Trabalhador brasileiro ao destino das
Consolidações das conquistas; não
Será desta vez que a elite, a burguesia,
A direita, destruirão o Partido dos
Trabalhadores; e como um Filho
Pródigo, o partido voltará aos braços
Da militância, do povo e dos
Trabalhadores; e o conservadorismo
Voltará ao seu silêncio e não acordará
Nunca mais, com as suas ideias
Retrógradas, reacionárias; e renovado,
Arejado, modernizado, limpo, de par
Com a Liberdade, a Democracia, a
Paz, o Partido dos Trabalhadores,
Com a nação brasileira, marchará
Triunfante a garantir o futuro das
Novas gerações esperançosas.

O meu sonho sempre foi o de derrubar; BH, 0280602013.

O meu sonho sempre foi o de derrubar
A elite brasileira, derrotar a burguesia;
E o que aconteceu? todos aqueles que
Pregavam o sonho de derrubar a elite,
Derrotar a burguesia, hoje, são
Membros delas; e são elas que nos
Derrotam, tiram nossa cultura,
Cerceiam nossa liberdade; treinam as
Polícias para guerras urbanas e nos
Concentram nas favelas, nos guetos,
Nas encostas dos morros, nos
Aglomerados; tiram-nos dos campos,
Das terras e fortalecem os
Latifundiários; tomam as nossas terras
Indígenas em conluios com governantes,
Cartórios, tribunais; e cada vez mais,
Nós quilombolas, somos jogados para
Os fundos dos quintais; e sonhava, um
Dia acabo com o imperialismo, com o
Neoliberalismo e vejo com tristeza,
Surpreso, que é o imperialismo e a
Globalização, que estão a acabar
Comigo; minha voz já está sozinha há
Muito tempo; as vozes que escuto são
Outras, das sombras, das trevas, das
Saudações nazistas, fascistas, do
Racismo dos racistas, dos falsos heróis
Anônimos, que em vez de libertarem-me,
Querem fazer-me lançar contra os
Meus próprios irmãos; e tenho que
Enxergar isso urgentemente, tenho
Que adquirir consciência e me
Conscientizar; liberdade, liberdade, abre 
As asas sobre mim, desaprendi de voar.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Definitivamente preciso de uma letra; BH, 0260602013.

Definitivamente preciso de uma letra
Definitiva, para formar uma palavra
Indefinitiva; uma palavra só, infinita
E as demais palavras, todas, não
Seriam mais necessárias; com uma
Letra que seria um símbolo, uma
Palavra, quereria a senha, a pôr fim
Aos mistérios; mas no palheiro do
Paiol onde está perdida a agulha, as
Letras são indefinidas e infinitas; no
Paiol do armazém de munições, as
Palavras estão cansadas; as bocas não
As pronunciam e os pensamentos
Não as pensam; os pensamentos
Saem sem palavras, as palavras sem
Letras, as letras sem símbolos, os
Símbolos sem sinais; não ouve-se
Nenhuma vibração, nas nuvens,
Silêncios; todo aquele que procura
Uma lágrima amiga para matar a
Sede, encontra fonte de mágoa, um
Pote de rancor, uma moringa de
Raiva, uma talha cheia de bebida
Que não pode ser aproveitada, pois
Foi bebida de outra talha de ferida;
Cicatriz de mim, arrancada da pele,
Tatuagem de osso envelhecido;
Vestido sim inda de carne fresca, a
Pele pendurada ao sol para secar,
Maturar, curtir; o sol pendurado
No firmamento, agarrado ao azul; só
Eu que não tenho cores, guardado
Dentro do prisma, espero a luz
Passar por mim, triunfantemente.