domingo, 8 de novembro de 2015

MIKIO, 4; BH, 01º0202013.

Descarnei-me e desencarnei-me todo
Nestas páginas toscas de pedras; e
Desossei-me por completo nestas
Linhas indefinidas; e tudo por querer
Transpor o universo para estas letras
Tortas, estas palavras vazias; e usei a
Pele ressequida para pergaminho e
Manuscritos tingidos de sangue; e se
Tiver de reencarnar-me noutra
Geração, escolherei uma que, não
Tenha tanta imperfeição; uma que
Saiba enxergar ao longe com olhar de
Visão de visionário; uma que saiba
Auscultar os sons de dentro da terra e
Que, oportunista, almeje mais a
Sabedoria, do que o próprio viver; e
Das cinzas das incinerações dos meus
Ossos e das cinzas destas cremações,
Se for para levantar Fênix, a alma
Obtusa, partidária da obtusidade,
Melhor deixá-las ao sabor do vento; o
Vento saberá o que fazer com cinzas
De almas pequenas; nada mais sábio
Para talhar, moldar, furar, erguer
Dunas, desfazer montanhas, do que
A vontade de potência dos ventos que
Ensinam-nos a persistência, ensinam-nos
A resistir, mesmo depois de mortos;
Desencarnei-me e descarnei-me num
Poema, numa ode à poesia; e quero
Reencarnar-me numa obra-prima
Universal, numa matéria-prima para
Obra de arte, numa cena de cinema, de filme 
Clássico, noir, de Fellini, ou de Godard.

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